quarta-feira, 25 de março de 2009

A importância da leitura na vocação técnico-científica


Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. Não no céu onde moram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ninguém tinha visto. Mas o outro, o que fica por baixo, o do Sol, da Lua e das estrelas, os astrônomos conheciam perfeitamente.

Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, por que não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar palavras?

Matutei na lembrança de Emília, Eu, os astrônomos, que doidice! ter as coisas do céu, que havia de supor?

E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas....

Os astrônomos eram formidáveis. "Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes."


Graciliano Ramos, "Os astrônomos", in Infância , São Paulo, Livraria Martins, 1972.


Leitura é um processo de compreensão de uma mensagem codificada em sinais visuais, em geral letras, cifras e símbolos. É o mais importante e eficiente instrumento capaz de permitir o desenvolvimento e fixação dos conhecimentos culturais, sejam eles científicos ou técnicos. A leitura constitui o mais importante meio de aquisição e transmissão de saberes dos mais diversos setores culturais, desde a cultura artística à científica e tecnológica. As próprias expressões matemáticas são, na realidade, uma mensagem codificada que exige uma leitura.

O aprendizado e a difusão desse processo de compreensão – a leitura – é a principal meta de todo o sistema educativo, que se inicia, de início, na vida familiar e, mais tarde, na escola primária, passando por todos os níveis de ensino para atingir a sua mais completa plenitude na sociedade. Com a informática, a leitura atingiu um grau de extrema sofisticação.

O primeiro contato com a leitura deve-se fazer através dos pais, na intimidade do lar, aos quais cumpre dar acesso às formas gráficas mais simples. Às vezes, o ato da leitura de textos associados à cultura científica pelos pais é um fator fundamental à futura formação voltada para a pesquisa. Ela pode despertar a vocação dos jovens. Falo em leitura pelos pais, antes mesmo que se inicie a alfabetização. Num mundo moderno, onde predomina a televisão, uma atividade dessa natureza pelos pais – lendo textos aos filhos – ou dos responsáveis pelo órgão de comunicação lendo livros, durante uma apresentação televisiva, estimula a curiosidade das crianças que descobrem no livro um meio de “navegação” tão instigante quando a internet .

Todos os pioneiros da astronáutica foram estimulados pela leitura de ficção científica, às vezes lida pelos pais, antes que as crianças tenham sido alfabetizadas, como ocorreu com o físico norte-americano George Gamow. Vejamos a importância da leitura de texto de ficção científica.

A conquista do espaço é um velho sonho da humanidade. Logo que se constatou que os astros eram corpos sólidos, o homem começou a pensar em visitá-los. Entretanto, por falta de meios tecnológicos suficientes, seus planos ficaram limitados aos relatos dos escritores que, influenciados pelo desenvolvimento do início do século XIX, deram origem à literatura de ficção científica. De todos os relatos sobre os meios de conquista do espaço, os mais importantes foram os do escritor francês Jules Verne (1828-1905), que publicou em 1865 o imortal livro: De la Terre à la Lune . Neste livro, os fatos científicos são sensivelmente tão exatos, como o permitiam os conhecimentos da época. Embora tenha sido o escritor francês Achille Eyraud quem primeiro imaginou o emprego de foguetes a reação, como está relatado no seu livro Voyage à Venus , publicado em 1863, foram Jules Verne e, mais tarde, o escritor H. G. Wells os grandes divulgadores das idéias que influenciariam os pioneiros da astronáutica.

O primeiro cientista a compreender a utilidade dos foguetes na Astronáutica e a estudar as bases teóricas de sua utilização foi o cientista russo Konstantin Edwardovitch Tsiolkovski (1857-1935) que assim escreveu sobre Jules Verne: "Durante muito tempo pensei no foguete como todo mundo, considerando-o apenas um meio de diversão, com algumas aplicações pouco importantes na vida corrente. Não me lembro exatamente quando me veio a idéia de fazer os cálculos dos seus movimentos. Provavelmente, os primeiros germes dessa idéia foram fornecidos pelo fantástico Jules Verne e, em conseqüência deste grande autor, meu pensamento orientou-se nesta direção, estimulando o desejo que mais tarde impulsionou o espírito do meu trabalho".

Não foi, entretanto, Tsiolkovski o único a sofrer as influências do escritor francês; o engenheiro norte-americano Robert Hutchings Goddard (1882-1945), pai da moderna tecnologia dos foguetes, em um ensaio autobiográfico escrito em 1927 e publicado em 1959 na revista Astronautics, reconheceu a influência das obras de ciência-ficção, tais como os clássicos de De la Terre à la Lune de Jules Verne e The War of the Worlds de H. G. Wells, com as seguintes palavras: "Eles afetaram maravilhosamente a minha imaginação, incitando-me a pensar sobre os caminhos e meios possíveis à realização dessas maravilhas."

Outro pioneiro que teve o seu interesse pela astronáutica estimulado pelos grandes romancistas da ciência-ficção do século XIX, em especial por Jules Verne, foi o terceiro grande responsável pelas idéias fundamentais da ciência espacial, o engenheiro alemão Hermann Oberth (1894-1989). Assim escreveu Oberth em sua autobiografia: "Tinha onze anos quando recebi de presente de minha mão os célebres livros de Jules Verne, que já li ao menos cinco ou seis vezes, até os saber de memória".

O próprio engenheiro Wernher Von Braun (1912-1977), que dirigiu os primeiros lançamentos de satélites e foguetes norte-americanos, confessou inúmeras vezes que os autores de ficção científica, dentre eles Jules Verne, haviam-no entusiasmado profundamente na juventude.

Tal influência, entretanto, não se fez somente junto àqueles que estabeleceram as bases fundamentais da astronáutica, pois a leitura, de Jules Verne na juventude, iria animar também outros homens de ciência, tais como astrônomos, biólogos, físicos, matemáticos etc.

Assim, o grande físico norte-americano George Gamow que, além de ter sido o responsável pela moderna cosmologia, escreveu também inúmeros livros de divulgação científica, traduzidos em quase todos os idiomas, confessou que desde a idade de sete anos fora fascinado pelas histórias de Jules Verne que sua mãe lia em voz alta.

Livros como os de Jules Verne certamente fizeram e ainda fazem muito mais no sentido de inspirar as vocações de futuros cientistas, do que todos os ensinamentos ministrados nas escolas, pois a dedicação desses jovens nas aulas de Ciências foi, sem dúvida, motivada por aquelas leituras.

Como toda sociedade precisa cultivar a leitura dos textos sobre Ciência, pois ela está intimamente associada à evolução de nossa civilização, é fundamental procurar incentivar o interesse dos jovens pelas ciências o mais cedo possível, através de leituras voltadas para as histórias de antecipação científica, como aliás se pode fazer indiretamente por intermédio de filmes ou histórias em quadrinhos, onde ocorrem relatos de conquista espacial. Isto é o que se vem fazendo nos outros países, como nos EUA, onde se procura desenvolver o caráter criativo da criança desde cedo. Assim também ocorreu com as histórias de Jules Verne, que entusiasmou os pioneiros da Astronáutica.

Finalizando, gostaria de fazer um questionamento: Será que o atraso do poder inventivo dos brasileiros não estará associado à ausência da leitura voltada para a ficção científica?


A importância da leitura na vocação técnico-científica:
o caso especial dos pioneiros da astronáutica
Rogério Mourão