sábado, 4 de abril de 2009

Pobre povo cruel - Arkady and Boris Strugatsky


O Rei sentou-se nu.
Tal como um tolo pedinte de rua, sentou-se com as costas contra a parede fria.
Tremia de olhos fechados e tentava ouvir, mas tudo era silêncio.
Acordara à meia-noite de um pesadelo e imediatamente entendera que estava acabado.
Sons ofegantes detrás da porta da suíte real, passos, bater de metais e resmungos bêbados de Sua Alteza, o Tio Buht: 'DEIXEM-ME PASSAR! SAIAM DO MEU CAMINHO, PRO INFERNO COM ISSO...'
Molhado de gélido suor, rolara para fora da cama, seguindo por um estreito corredor secundário e então pela passagem subterrânea até o templo.
Algo gemera sob seus pés descalços, pisara em ratazanas, mas na hora não se importou, somente agora, sentado contra a parede, lembrou-se de tudo; da escuridão, das paredes escorregadias e a dor de ter batido a cabeça contra as portas do templo, e de seu próprio insuportável urro de dor.
Eles não poderiam entrar ali, pensou. Ninguém poderia entrar no templo. Somente por ordem do Rei. Mas o Rei não mais ordenava. Riu-se histérico. Oh não, o Rei não ordena mais!
Vagarosamente abriu os olhos e viu suas pernas azuis e lisas com os joelhos feridos.
Ainda estava vivo, pensou. Viverei, por que ninguém pode entrar aqui.
Tudo no templo era azulado devido a luz fria das lanternas, longos tubos brilhantes espalhados sob o teto. No centro do templo, Deus em seu trono gigantesco e pesado, com olhos vazios.
O Rei o olhava pelo canto do olho.
Escória, pensou, que verme miserável, pegar o mestiço e os cães, para me assolar... deu-se conta de não lembrar-se muito bem do maldito.Tão mirrado e imprestável... mas tudo bem, eles iriam pagar por isso. Por tudo, Sua Grandeza Tio Buht.
Durante o reino de seu pai, você se sentou quieto, bebendo calado, com medo de ser notado, pois sabia que o Rei Prostyaga não esqueceria sua desprezível traição...
Grande era meu pai, o Rei pensou com habitual inveja.
Você seria grande também se seus conselheiros fossem anjos em carne e osso.
Todos sabiam, todos tinham visto, seus rostos medonhos e brancos como leite, seus trajes feitos de tal forma que ninguém sabia se estavam nus ou não. E suas flechas ardentes como raios do céu, que fizeram com que os inimigos fugissem, ainda que disparassem por sobre suas cabeças, metade da horda correu com medo daquelas flechas.
Sua Alteza, Tio Buht, sussurrou certa vez, bêbado, que tais flechas poderiam ser usadas por qualquer um, as tais armas dos anjos, seria bom se tirássemos deles.
E ele disse então - bêbado - que se era bom, por que então não obtê-las, por que não... mais tarde após aquela conversa à mesa, um anjo tombou dentro do canal, provavelmente por acidente. Junto dele acharam o corpo de um dos guardas pessoais do Tio. Foi um feito maléfico, terrível, e era conveniente que o povo não se importasse muito com os anjos, eles os temiam, mas este temor também não era total, já que os anjos eram alegres e cordiais.
Apenas seus olhos eram assustadores. Pequenos e brilhantes e não paravam de se mover irrequietos, não eram humanos. Sendo assim o povo os evitava, o Rei Prostyaga dava liberdade a eles, o que era vergonhoso de se lembrar...contudo antes do Golpe o pai, diziam, era um apaziguador.
Dito isso, com minhas próprias mãos, sequei as lágrimas dos olhos.
Lembro que ele costumava se sentar à noite na torre de cristal e eu podia me abrigar ao seu lado, era quente e confortável...os anjos cantavam dos quartos, tão tranqüilo e em harmonia, o pai começava a acompanhá-los - ele conhecia a língua dos anjos - e tudo era vasto e amplo, sem ninguém por perto... não como hoje, com guardas em cada canto, pois não havia motivo para isso.
O Rei lamentou. Sim, ele fora um bom pai e que não devia ter morrido. Não devia morrer enquanto seu filho estava vivo...o filho agora é Rei também,...mas Prostyaga não durou muito.
Tenho mais de cinqüenta anos e ele ainda era mais novo do que eu... parecia que os anjos tinham pedido a Deus por suas vidas. Disseram que os confinaram no quarto do Rei, eles tinham armas, mas não se defenderam.
Antes de morrer, disseram, os anjos jogaram as armas pela janela e elas se queimaram com uma chama azul e nem cinza sobrou. E Prostyaga, disseram, chorou e ficou bêbado pela primeira vez em seu reinado, e olhou para mim, disseram, com amor, e eu acreditei...
O Rei secou as lágrimas do rosto e abraçou as pernas.
E daí? Temos que saber os limites e abdicar, como acontece o tempo todo por ai.
Apenas por uma vez conversei com meu Tio.
‘Sua Alteza.Prostyaga - ele disse - não envelhecerá'.
'Sim - eu disse a ele - mas o que podemos fazer, os anjos pedem por suas vidas.'
O Tio então zombou e disse: 'Anjos - disse - não mais cantarão suas canções por aqui.'
E eu retruquei: 'É verdade, agora podemos negociar com eles, não somente como humanos.'
O Tio então olhou para mim sóbrio e imediatamente se foi.. e eu realmente não tinha dito nada demais...apenas palavras vazias sem significado.
Uma semana depois Prostyaga morreu de um ataque do coração.E dai? Era sua vez.
Ele parecia jovem, mas tinha na realidade mais de cem anos. Todos morremos um dia.
O Rei se assustou e cobriu-se sem jeito. O Santo Padre Agar entrara no templo.
Os Irmãos de fé vinham na sua frente, trazendo-o pelas mãos. Ele não olhou para o Rei, foi direto na direção de Deus e ajoelhou-se diante de seu posto. Alto e corcunda, com longos cabelos brancos e sujos.
O Rei o olhou fixo e disse divertido: 'É o seu fim! Você procurou por isso, e não sou como Prostyaga, você vai se sufocar em seus intestinos, porco bêbado...'
Agar, com a voz profunda falou:
-Deus! O Rei deseja falar contigo! Perdoa-o e ouça-o.
O silêncio caiu na sala, ninguém ousava respirar.
O Rei ponderou: Quando a grande enchente veio e a terra se abriu, Prostyaga pediu a Deus por socorro, e Deus veio dos céus numa bola de fogo no mesmo dia e naquela noite a terra acalmou-se e a enchente se foi.
Isso significava que poderia acontecer hoje novamente.
Você está perdido Tio, você não se cuidou direito. Agora ninguém vai te ajudar...
Agar se endireitou. Os irmãos que o amparavam pularam, virando de costas para Deus e cobrindo suas cabeças com os braços.
O Rei viu como Agar estendeu as mãos e as colocou no peito de Deus.
Os olhos de Deus se abriram.
O Rei ficou boquiaberto de medo pois os olhos de Deus eram grandes e diferentes, um era verde e o outro branco brilhante e luminoso.
Podia ouvir agora a respiração de Deus, pesada e estalante, como se doente.
Agar recuou. - Fale - sussurrou Agar.
O Rei ficou de quatro e começou a engatinhar até o altar.
Ele não sabia o que dizer ou como. E não sabia como começar e sequer se deveria contar toda a verdade.
Deus respirava pesadamente ofegante e o Rei passou a choramingar com medo.
- Sou o filho de Prostyaga - disse o Rei em desespero, amassando o rosto contra a pedra fria - Prostyaga morreu. Peço sua proteção contra os conspiradores. Prostyaga cometeu erros. Ele não sabia o que estava fazendo. Eu consertei tudo; acalmei o povo, me tornei poderoso e inatingível como você, e montei um exército...o traidor Buht está atrapalhando meus planos para conquistar o mundo. Ele quer me matar! Me ajude!
E baixou a cabeça até o chão.
Deus, sem piscar, estava olhando para ele em verde e branco. Deus estava silencioso.
- Ajude-me - repetiu o Rei - Ajude-me, ajude-me!
Derrepente ele pensou se estava fazendo algo errado, pois Deus estava indiferente e inoportunamente lembrou-se que eles tinham dito que seu pai, Prostyaga não morrera de um ataque do coração, mas fora morto ali, no templo, quando os assassinos entraram sem pedir permissão.
-Ajude-me! ele gritou desesperado. Tenho medo de morrer! Ajude-me! Ajude-me!
Ele deitou-se sobre as pedras do chão, mordendo as mãos com terror insuportável.
O Deus de Olhos Diferentes falou com a voz rouca.
-Seu verme velhaco - disse Tolya.
Ernst estava calado observando.
Na tela, através da estática, era possível ver uma forma humana escura que jazia deitada ao chão.
- Quando eu penso - disse Tolya de novo - que se não fosse por ele, Alan e Derek estariam vivos, tenho vontade de fazer alguma coisa.
Ernst balançou os ombros e foi até a mesa.
- Eu sempre penso - continuou Tolya - por que Derek não atirou ? Ele podia ter liquidado todos...
- Ele não podia, disse Ernst.
- Por que não?
- Já tentou atirar em um ser humano?
Tolya fez uma careta, mas não disse nada.
- Pois então - disse Ernst - Tente imaginar. É quase repugnante.
Um uivo triste era ouvido saindo pelos alto-falantes.
'Ajude-me, ajude-me, tenho medo, ajude-me', o mecanismo-tradutor continuava a transmitir.
- Pobre povo cruel...' lamentou Tolya.



Poor cruel folk (1998) -Arkady and Boris Strugatsky