domingo, 16 de agosto de 2009

Criando uma história de Ficção Científica - Roger Zelazny


Sylvia Burack me pediu para escrever um ensaio para o ‘The Writer’ e assim surgiu este texto.

Grande parte dele fala sobre a composição da minha história chamada ‘EYE OF CAT’.

Não me lembro de ter registrado em tantos detalhes sobre como escrever um livro antes disso. De qualquer maneira pode sevir para você que como eu, deve ser um interessado pela matéria.

O falecido James Blish, foi perguntado certa vez de onde ele tirava as idéias para suas historias de FC. Ele deu uma resposta usual, falando sobre a importância de ser observador, de ler, e de acumular experiências, etc.
Então alguém perguntou-lhe o que ocorria se tudo isto não funcionasse. Ele imediatamente respondeu: ‘Eu plagiaria a mim mesmo’.

Ele queria dizer, é claro, que daria uma relida em seus antigos trabalhos, muitos que não vingaram, acreditando que com a persistência dos conceitos e a renovação de velhas idéias, viesse a estimular novas idéias.
E isso funciona! Eu o faço ocasionalmente e quase sempre tenho um transbordamento de idéias!

Mas eu tenho escrito nos últimos vinte anos, e sei hoje como minha cabeça funciona quando estou procurando uma idéia para escrever.

Nem sempre eu soube aquilo que hoje eu sei, e muito dos meus primeiros trabalhos envolvia em definir como eu me sentia sobre pessoas e idéias. Consequentemente realizei muito deste pensamento básico, de maneira que me é fácil hoje, sentar ao banco do motorista de uma nova idéia, muito mais do que antes.

Pode ser inclusive um modelo novo, mas o mecanismo é similar, e uma vez que eu descobri como fazê-lo andar, eu sei então como levá-lo onde eu quero.

Por exemplo: Definições.
Para mim Ficção Científica sempre é representada pelo racional, a extensão para o futuro, ambientes alienígenas, enquanto considero que a Fantasia (Fantasy) é representada pela metafísica apresentação do desconhecido.
A distinção entre as duas normalmente é difícil, fora de foco, e algumas vezes é engraçado brincar com isso.

Na prática, a nível de trabalho, utilizo esta generalização para distingui-las.
As duas (e eu não me canso de insistir nisso) possuem as mesmas necessidades de uma ficção comum, a necessidade de criar-se um ambiente exótico.

Dos três elementos básicos de qualquer enredo de ficção, é a ambientação que requer mais atenção do escritor, tanto em FC quanto em Fantasia. E aqui, como em nenhum outro gênero, se anda numa corda bamba, entre explicar em excesso ou ser por demais resumido, entre deixar o leitor aborrecido com muitos detalhes ou perdê-lo por não dar a ele detalhes suficientes.

Eu encontrei esta dificuldade no início. Aprendi a empregar meu esforço de forma a economizar nos detalhes mantendo a história ágil e então introduzir a situação de fundo gradativamente.
Em algum ponto ao longo da criação do texto, compreendi que fazendo isso, poderia resolver dois problemas: a simples exposição do material, se medido na dose correta ela se torna um meio de aumentar o interesse do leitor.

Usei deste expediente em extremo, na abertura da minha história ‘Unicorn Variation’, na qual eu adio por muitas páginas a descrição de uma criatura pouco comum, passeando por um lugar insólito:

‘Uma bizarrice de fogo, quase apenas luz, movia-se habilmente, quase delicadamente, deliberadamente entre a existência e a não existência, qual um arremedo de tempestade vespertina. Ou talvez fosse mais similar a natureza espiralada das cinzas carregadas em arrogante cadência pela nota soprado pelo vento do deserto, do arroio, através dos prédios vazios porém, repletos de páginas de livros intocadas ou silenciosamente entre as notas da canção”.

Como podem ver, eu tentei com cuidado dizer apenas o bastante para manter o leitor curioso. Com o tempo, ficará aparente que se trata de um unicórnio passeando por uma cidade fantasma do Novo México. Eu tinha um personagem e um cenário.

Personagens são um problema menor para mim em comparação aos cenários. Pessoas são pessoas, mesmo na ficção científica. A maior parte dos personagem já me vem de forma totalmente desenvolvidos e não necessitam de muito trabalho.

Assim como com suas descrições físicas é muito fácil, cometer exageros descrevendo-os em excesso. Mas quanto será que o leitor precisa? Quanto a mente do leitor é capaz de reter de uma só vez? Veja o personagem em sua totalidade e apenas mencionar três características foi o que eu decidi fazer. Então continuo com a história.

Se uma quarta característica aparecer, tudo bem, mas mantenha as três iniciais.
Não precisa de mais do que três.
Outras características irão aparecer, com certeza, assim que você necessitar delas.

‘Ele era alto, rosto infantil e tinha um ombro mais alto que o outro’ ao invés de ‘Ele era alto, rosto infantil, grandes olhos azuis e tinha um ombro mais alto que o outro’ pode fazer o leitor perder o foco e prejudicar a imagem ‘mental’ do personagem.

Detalhes em demasia criam uma sobrecarga sensorial, impedindo o leitor de visualizar.
Se outros detalhes forem importantes para a linha seguida, use-os depois, dando um tempo para que a primeira ‘visualização’ seja absorvida.

‘Yeah, ele exclamou com seus olhos azuis brilhando’.

Mencionei que personagens e cenários são tipicamente reflexões que fazemos quando estamos escrevendo, e isto começa a funcionar quando praticamos, depois de algum tempo, isto se torna uma segunda natureza do escritor. Mas este é apenas um dos muitos truques que qualquer um neste negócio, acaba aprendendo.

Mas penso que escrever não se trata só disso.

A coisa mais importante para mim é o desenvolvimento, o refinamento da nossa percepção do mundo, experimentando outros pontos de vista.

Isto é o coração da arte de escrever e todas as técnicas são simplesmente ferramentas.

É a abordagem do autor para aquele material que faz com que a história seja única.

Por exemplo, eu tenho vivido no sudoeste dos EUA a quase uma década, e acabei me interessando por índios. Passei a dar atenção aos festivais, as danças, textos antropológicos, comecei a ler e ir a museus, até ficar familiarizado com os índios.

A principio meu interesse se concentrava apenas em saber mais sobre eles.
Este foi o começo, depois... Comecei a sentir que uma história estava ganhando formato em algum nível mais baixo de minha consciência. Eu aguardei e continuei a me familiarizar com informações e experiências nesta área. Um dia meu foco concentrou-se nos navajos. Então percebi que se eu pudesse determinar por que meu interesse havia de repente tomado essa direção, eu poderia escrever uma história. Isto começou ao descobrir o fato que a tribo navajo havia desenvolvido centenas de palavras próprias ou haviam aprendido a nomear diversas peças de máquinas modernas. O mesmo não ocorria com outras tribos indígenas e eu sabia disso.

Quando foram apresentadas aos automóveis, as outras tribos simplesmente passaram a usar as palavras em inglês para carburador, pistão, etc, mas os navajos haviam criado novas palavras para esses itens, um sinal, na minha maneira de ver, de sua independência e sua adaptabilidade.

Eu fui adiante. Os hopis, vizinhos dos navajos, tinham danças da chuva em seus rituais. Os navajos não faziam grandes esforços para controlar o tempo. Ao invés disso, eles se adaptavam à chuva ou à seca.

Adaptabilidade, era isso. Este seria o tema da minha história.
Perguntei a mim mesmo, eu deveria ter um navajo contemporâneo e isso significava utilizar os efeitos da dilatação do tempo em viagens espaciais. Imaginei que este navajo estaria em boas condições de saúde, digamos, aos 170 anos de idade.

Por necessidade, a minha história teria uma abertura para o tempo em que ele estivesse fora, um período no qual muitas mudanças teriam ocorrido na Terra.
Foi assim que a idéia de “Eye of Cat” veio a mim.

Mas uma ideía não é uma história de ficção científica. Como você torna uma coisa na outra?

Perguntei a mim mesmo o motivo dele estar freqüentemente no espaço. Supus que ele fosse algum tipo de caçador. Uma opção lógica seria que ele fosse um caçador de espécies alienígenas. Isso parecia verossímel, então eu segui daí. O problema envolveria um alienígena foragido e isto serviria como razão para tirar o meu personagem navajo de sua aposentadoria e providenciaria um conflito básico.

Eu também queria alguma coisa que representasse seu passado e as tradições navajo, algo mais do que simplesmente sua característica primitiva e suas habilidades. Algo que significasse um motivo para ele ser envolvido na história.

As lendas navajo me providenciaram um chindi, uma espécie de demônio ou espírito que poderia ser usado para atormentá-lo. Ocorreu-me que este espírito maligno poderia estar incorporado em alguma criatura que o navajo tivesse trazido para a terra há algum tempo atrás.

Essa era a idéia básica, mas não estava completa. Isso apenas me diria como a história tomaria forma, começando de uma simples observação e me levando a criar um personagem e uma situação. Este pequeno segmento da história é o que eu chamo de “inspiração”; todo o resto envolve a aplicação da razão ao que a imaginação providenciou.

Isso requer algumas considerações duvidosas. De minha parte, eu firmemente acredito que poderia escrever a mesma história uma dúzia de vezes, cada uma diferente da outra, tanto como comédia, como tragédia, algo entre as duas, a partir da visão de um personagem menor, em primeira pessoa, em terceira, etc, etc, mas eu acredito que na ficção existe uma maneira melhor do que outra. Eu sinto que o material deve prevalecer na decisão sobre a forma. Fazê-lo é algo muito difícil e recompensador no ato de escrever. Isto vai além de simples truques de reflexão, pois entra na área da estética.

Então eu tinha que determinar qual a abordagem que melhor reproduziria a intenção desejada. Para isso, é claro, eu precisava tornar claros os meus sentimentos.

Meu protagonista, Billy Blackhorse Singer, nasceu num ambiente praticamente neolítico e só depois recebeu uma educação formal avançada. Isto é o bastante para criar conflitos internos. Um deles poderia ser a rejeição do seu passado ou a tentativa de viver com ele. Billy o rejeita. Ele é um homem muito capaz, mas dominado por esta dúvida. Eu decidi que daria ao personagem uma oportunidade de pôr à prova tudo em sua vida.

Percebi também que estava indo em direção à história de um personagem. Mostrar alguém tão complexo como Billy iria requerer mais trabalho. O início de sua vida estava envolvido em mitos, lendas e o xamanismo de seu povo, e isso tudo era um elemento forte em seu caráter. Tentei mostrar essa influência na narrativa utilizando paráfrases de diferentes partes da criação do mito navajo e outras lendas das quais me apropriei. Decidi fazer de forma poética alguma coisa original dos navajos e outras vagamente baseadas em suas tradições.

Dessa forma eu esperava dar ao livro um sabor diferenciado e ajudar a caracterizar meu personagem.

O problema de injetar um background futurístico no material me preocupou porque eu já havia carregado a narrativa de doses intermitentes de material navajo. Eu precisava achar uma maneira de encapsular e abreviá-los. Então, utilizei um truque da trilogia americana “Dos Passos”: introduzi sessões independentes, algumas páginas aqui e ali como manchetes, reportagens, trechos de canções populares para dar o devido sabor da época.
Esse expediente serviu-me bastante de fundo sem prejudicar o ritmo e o formato diferente certamente era suficiente para tornar interessante ao leitor curioso.

O enredo envolvente requeria a introdução de meia dúzia de personagens secundários e não apenas alguns coadjuvantes como também personagens complexos de fundo.

Parar para fazer grandes apresentações de cada personagem significava grandes flashbacks e isso seria fatal à narrativa.

De qualquer forma, coloquei-os para aparecer somente à medida em que a história seguia seu ritmo.

Posso dizer que arrisquei e, assim, quebrei uma das maiores regras de como se deve escrever.

Todo livro que você ler sobre a arte de escrever vai lhe dizer, “mostre, não conte”.

Isso quer dizer que você não pode, simplesmente, dizer ao leitor como é o personagem.
Você tem que deixá-lo demonstrar, por que dizer geralmente irá produzir um efetivo de distanciamento, como resposta do leitor.
É necessário uma pequena identificação do leitor, uma pequena empatia deve ser criada ao invés de, meramente, falar sobre o personagem.

Decidi que não iria, simplesmente, dizer ao leitor como cada personagem era.
Eu iria tentar fazer com que essa experiência fosse uma leitura interessante.
De fato, eu tinha que fazê-lo!

Se você vai quebrar uma regra, capitalize sobre ela, faça grandemente. Explore-a. Faça de uma maneira que ninguém nunca fez, e assim você a torna uma virtude.

Eu utilizei uma seção para cada nome de personagem, colocando após o nome uma vírgula e escrevendo uma sentença longa e complexa, quebrando assim várias frases em linhas separadas, de maneira a parecer um poema de Walt Withman.
Assim, eu procurei manter o interesse visual que puxaria o leitor diretamente para a trama.

Outro problema surgiu no livro quando um número de telepatas usa sua habilidades pouco usuais para formar, temporariamente, uma mente coletiva. Havia pontos que eu precisava mostrar essa mente em funcionamento. Ocorreu-me que "Finnegan´s Wake" seria um bom modelo para o fluxo de consciência que eu queria usar. E o conto de Anthony Burgess, “Joysprick”, que eu havia recentemente lido, continha uma parte que poderia ser primordial para escrever esta sensação, e eu a utilizei.

Então, a fim de garantir uma verossimilhança, viajei pelo canyon de Chelly com um guia navajo. Quando eu escrevi as partes do livro que se passam no canyon, eu tinha comigo, além das minhas memórias, um mapa, minhas fotos e descrições arqueológicas da rota que Billy seguiu.

O uso do realismo, eu esperava que pudesse trazer um equilíbrio entre impressionismo e as técnicas radicais de escrever uma história que eu havia usado até então.

Estes foram alguns dos problemas com que eu me deparei escrevendo “Eye of Cat” e algumas das soluções que eu usei para resolvê-los. Tematicamente, muitas dessas perguntas eu fiz a mim mesmo e muitas das ideías eu considerei como coisas que estavam comigo há muito tempo, somente as soluções técnicas e a resolução da história foram diferentes desta vez.
A esse respeito posso dizer que, de certa forma, eu estava também me plagiando e nada há de errado nisso, se ocorre neste meio-tempo um crescimento.

Tudo que eu disse pode parecer que esta novela foi uma experiência selvagem.
Não foi.

O tema era comum e eterno, uma consideração sobre mudanças e adaptações durante o crescimento.

Enquanto a ficção científica costuma trabalhar com o futuro, pensamentos profundos envolvem a natureza humana, que deve ser a mesma por muito tempo e eu acredito que continue como é, para sempre.

De certa maneira, nós constantemente procuramos novas formas de dizer coisas antigas.

Mas a grande faceta da humanidade é a generalidade.
O indivíduo muda e se adapta e isso se aplica ao escritor assim como a seus personagens.
E essas mudanças requerem auto-conhecimento, percepção e sensibilidade.

E penso que as melhores e mais valiosas histórias se servem desta fonte, não importando quais são os mecanismos que mais se ajustam ao que é escrito.