sábado, 15 de agosto de 2009

A vida, o Universo e tudo mais - Douglas Adams


Dois anos depois disso ter acontecido, a manhã estava doce e calma quando Arthur saiu da caverna que chamava de "casa" até conseguir encontrar um nome melhor para aquilo ou então encontrar uma caverna melhor.

Sua garganta estava novamente irritada devido a seu grito matinal de horror, mas ainda assim ele estava de ótimo humor. Enrolou firmemente seu roupão esfarrapado ao redor do corpo e sorriu, feliz, olhando aquela linda manhã.

O ar estava claro e cheio de aromas suaves, a brisa acariciava levemente a grama alta que cercava a caverna, os pássaros gorjeavam uns para os outros, as borboletas borboleteavam lindamente ao seu redor e toda a natureza parecia conspirar para ser tão gentil e agradável quanto possível.

Não eram, contudo, aquelas delícias bucólicas que haviam deixado Arthur tão feliz.
Ele acabara de ter uma ótima idéia sobre como lidar com o terrível e solitário isolamento, os pesadelos, o fracasso de todas as suas tentativas de horticultura e a completa ausência de futuro e a futilidade de sua vida ali, na Terra pré-histórica.

Tinha decidido enlouquecer.

Sorriu de novo, feliz, e mordeu um pedaço de perna de coelho que havia sobrado de seu jantar. Mastigou alegremente durante algum tempo e então resolveu anunciar formalmente sua decisão.
Ficou de pé, endireitou o corpo e olhou de frente para os campos e montanhas. Para dar mais peso às suas palavras, enfiou o osso de coelho na barba. Abriu bem os braços e disse:
― Vou ficar louco!

― Boa idéia ― disse Ford Prefect, descendo com cuidado de uma rocha onde estivera sentado.

O cérebro de Arthur fez piruetas. Seu maxilar fez flexões.

― Eu fiquei louco por um tempo ― disse Ford ― e isso me fez muito bem. Os olhos de Arthur começaram a dar cambalhotas.

― Sabe... ― disse Ford.

― Por onde você andou? ― interrompeu Arthur, agora que sua cabeça havia parado com a ginástica.

― Por aí ― respondeu Ford ―, aqui e ali. ― Ele sorriu de uma forma que julgou (corretamente) ser absolutamente irritante. ― Tirei minha mente de circulação por uns tempos. Achei que, se o mundo precisasse muito de mim, ele viria me chamar. E veio.

Pegou em sua mochila, agora completamente em farrapos, seu Sensormático Subeta.

― Pelo menos ― prosseguiu ― acho que veio. Isso aqui tem se mexido bastante. ― Sacudiu o Subeta. ― Se for um alarme falso, vou enlouquecer. De novo.

Arthur sacudiu a cabeça e sentou-se. Olhou para cima.

― Achei que você estivesse morto... ― disse, perplexo.

― Foi o mesmo que eu pensei durante algum tempo ― disse Ford ― e depois decidi que eu era
um limão durante algumas semanas. Me diverti bastante nessa época, pulando para dentro e para fora de um gim-tônica.

Arthur limpou a garganta, depois repetiu:

― Onde ― disse ele ― é que você...?

― Onde encontrei gim-tônica? ― disse Ford, animado. ― Encontrei um pequeno lago que pensava ser um gim-tônica, então fiquei pulando para dentro e para fora dele. Bem, pelo menos creio que ele achava que era um gim-tônica.

― Eu poderia ― disse com um sorriso que faria qualquer homem são procurar abrigo nas árvores ― ter imaginado tudo isso.

Esperou alguma reação de Arthur, mas este já o conhecia demasiadamente bem.

― Continue ― disse ele, sem se alterar.

― Como você pode ver ― disse Ford ―, o sentido disso tudo é que não há sentido em tentar enlouquecer para impedir-se de ficar louco. Você pode muito bem dar-se por vencido e guardar sua sanidade para mais tarde.

― E isto é seu estado de sanidade, não é? ― disse Arthur. ― Estou perguntando apenas por curiosidade.

― Fui até a África. ― disse Ford. ― É?

― É.

― E como foi lá?

― Então esta é sua caverna, não é? ― disse Ford.

― Ehh, sim – respondeu Arthur. Sentia-se muito estranho. Após quase quatro anos de isolamento, estava tão feliz e aliviado por reencontrar Ford que tinha vontade de chorar. Por outro lado, Ford era uma pessoa que se tornava insuportável quase instantaneamente.

― Muito legal ― disse Ford, falando da caverna de Arthur.

― Você deve odiá-la.

Arthur sequer se preocupou em responder.

― A África foi bem interessante ― prosseguiu. ― Me comportei de forma bem estranha por lá.

Olhou para longe, pensativo.

― Resolvi ser cruel com os animais ― disse, meio aéreo. ― Mas apenas por diversão.

― Não me diga ― respondeu Arthur, cauteloso.

― É verdade ― afirmou Ford. ― Não vou perturbá-lo com os detalhes porque eles iriam...

― O quê?

― Perturbá-lo. Mas você pode achar interessante saber que sou o integralmente responsável pela evolução do animal que, dentro de alguns séculos, vocês irão chamar de girafa. Também tentei aprender a voar. Acredita?

― Conte-me.

― Eu conto depois. Só vou mencionar que o Guia diz...

― O quê?

― O Guia do Mochileiro das Galáxias. Você se lembra, não?

― Sim, lembro-me de tê-lo jogado no rio.

― Ê, mas eu o pesquei de volta depois ― disse Ford.

― Você não me contou isso.

― Não queria que você o jogasse fora de novo.

― Tudo bem ― respondeu Arthur. ― E o que ele diz?

― O quê?

― O que o Guia diz?

― Ah. O Guia diz que há toda uma arte para voar ― respondeu Ford. ― Ou melhor, um jeitinho.

O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar. ― Deu um sorrisinho. Apontou para as marcas em suas calças na altura dos joelhos e levantou os braços para mostrar os ombros. Estavam arranhados e machucados. ― Até agora não dei muita sorte ― disse. Depois estendeu a mão. ― Estou muito feliz em vê-lo novamente, Arthur.

Arthur sacudiu a cabeça em um acesso súbito de emoção e perplexidade.

― Há anos que não vejo alguém ― disse. – Absolutamente ninguém. Mal me lembro de como se fala. Me esqueço de algumas palavras. Tenho praticado, sabe.

Eu pratico falando com... falando com... como se chamam aquelas coisas que fazem os outros acharem que ficamos loucos quando falamos com elas? Como George III.

― Reis? ― tentou Ford.

― Não, não ― respondeu Arthur. ― As coisas com as quais ele costumava falar.Estamos cercados por elas, mas que droga. Eu mesmo plantei centenas delas. Todas morreram. Árvores! Eu pratico falando com árvores. Para que é isso?

Ford continuava com a mão estendida. Arthur olhava, sem entender.

― Aperte ― sugeriu Ford.

Arthur apertou a mão, meio nervoso no início, como se ela pudesse se transformar em um peixe.

Então segurou-a vigorosamente com suas duas mãos, sentindo um enorme alívio. Apertou, apertou e apertou.

Depois de um tempo, Ford achou que já bastava. Subiram em uma colina rochosa próxima e olharam o cenário em volta.

― O que aconteceu com os golgafrinchenses? Arthur deu de ombros.

― Muitos não sobreviveram ao inverno, três anos atrás. Os poucos que viveram até a primavera disseram que precisavam de umas férias e partiram em uma jangada. A História nos diz que devem ter sobrevivido...

― É ― disse Ford. ― Certo, certo. ― Ele colocou as mãos na cintura e olhou novamente em volta para o planeta vazio. Repentinamente, Ford sentiu-se cheio de energia e perspectivas.

― Estamos de partida ― disse, animado.

― Para onde? Como? ― perguntou Arthur.

― Não sei ― disse Ford ―, mas posso sentir que chegou a hora. Vão acontecer coisas. Estamos a caminho.

Falou em voz baixa, quase sussurrando.

― Detectei ― disse ele ― perturbações na corrente. Lançou um olhar decidido para o horizonte, como se quisesse que o vento soprasse em seus cabelos dramaticamente naquele momento. O vento, contudo, estava ocupado brincando com umas folhas não muito longe.

Arthur pediu para Ford repetir o que acabara de dizer, porque não havia compreendido totalmente o sentido. Ford repetiu.

― A corrente? ― perguntou Arthur.

― A corrente do espaço-tempo ― disse Ford e, quando o vento soprou brevemente ao redor

deles, abriu um largo sorriso.

Arthur concordou, e limpou a garganta.

― Estaríamos falando ― perguntou, cautelosamente ― a respeito de alguma coisa que os vogons arrastam por aí ou o que exatamente?

― Há um zéfiro ― disse Ford ― no contínuo espaço-temporal.

― Ah ― concordou Arthur ―, onde ele está? Onde está? ― Colocou as mãos nos bolsos de seu
roupão e perscrutou o horizonte.

― O quê?

― Bem, quem é esse tal de Zéfiro exatamente? ― perguntou Arthur.

Ford olhou para ele, furioso.

― Você quer me ouvir, por favor? Não estou falando de uma pessoal

― Eu estava ouvindo ― disse Arthur ―, mas não acho que tenha ajudado muito.

Ford agarrou-o pelas lapelas do roupão e falou com ele tão lenta, articulada e pacientemente como se fosse alguém do serviço de atendimento ao cliente de uma companhia telefônica.

― Parece... ― disse ― ...haver alguns núcleos... ― disse em seguida ― ...de instabilidade... ― continuou ― ...na tessitura... ― prosseguiu.

Arthur olhava abestalhado para o tecido de seu roupão, onde Ford o segurava. Ford soltou o roupão antes que Arthur transformasse seu olhar abestalhado em uma observação abestalhada.

― ...na tessitura do espaço-tempo ― concluiu.

― Ah, é isso ― disse Arthur.

― Sim, isso ― confirmou Ford.

Lá estavam eles, sozinhos sobre uma colina na Terra pré-histórica, olhando um para o outro intensamente.

― E isso fez o quê? ― disse Arthur.

― Isso ― respondeu Ford ― desenvolveu núcleos de instabilidade.

― É mesmo?? ― disse Arthur, sem piscar os olhos por um segundo sequer.

― Sim, de fato ― retrucou Ford, com o mesmo grau de imobilidade ocular.

― Que bom! ― disse Arthur.

― Entendeu? ― disse Ford.

― Não ― disse Arthur. Fizeram uma pausa silenciosa.

― A dificuldade desta conversa ― disse Arthur, depois que uma expressão pensativa havia lentamente subido por todo o seu rosto, como um alpinista escalando uma passagem traiçoeira ― é que ela é muito diferente das que tenho tido nos últimos tempos. Como expliquei há pouco, foram basicamente com árvores. Não eram assim. Exceto talvez por algumas conversas que tive com os olmeiros, que algumas vezes ficam um pouco desorientados.

― Arthur ― disse Ford.

― Sim? ― disse Arthur.

― Basta acreditar no que eu lhe disser e tudo será extremamente simples.

― Puxa, não sei se acredito nisso.

Sentaram-se para tentar reorganizar os pensamentos. Ford pegou o Sensormático Subeta. Estava emitindo zumbidos variados e havia uma luz piscando, fraquinha.

― Pilha fraca?

― Não ― disse Ford ―, há uma perturbação em movimento na tessitura do espaço-tempo, um zéfiro, um núcleo de instabilidade, e parece estar bem próximo de nós.

― Onde?

Ford moveu o aparelho em um semicírculo, balançando-o ligeiramente. De repente a luz piscou.

― Lá! ― disse Ford, apontando com o braço. ― Bem atrás daquele sofá!

Arthur olhou. Ficou completamente surpreso ao notar que havia um sofá Chesterfield, forrado de veludo paisley, no campo bem na frente deles. Olhou para ele com uma perplexidade inteligente. Perguntas perspicazes perpassaram sua mente.

― Por que ― perguntou ele ― tem um sofá naquele campo?

― Acabei de explicar! ― gritou Ford, irritado. ― Um zéfiro no contínuo espaço-temporal.

― E este sofá é do Zéfiro? ― perguntou Arthur, tentando se apoiar em seus pés e, apesar da falta de otimismo, também em seus sentidos.

― Arthur! ― gritou Ford com ele. ― Aquele sofá está ali por causa da instabilidade no
espaço-tempo que estou tentando incutir em sua mente terminalmente debilitada. Ele foi jogado para fora do contínuo, é um resíduo nas margens do espaço-tempo ― aliás, seja o que for, temos que agarrá-lo, pois é a única forma de sairmos daqui!

Saltou até a base da rocha onde estavam e começou a correr pelo campo.

“Agarrá-lo?”, pensou Arthur, depois levantou as sobrancelhas, espantado, quando viu que o Chesterfield estava balançando e flutuando lentamente pela grama.

Com um grito de prazer totalmente inesperado, desceu saltitante da rocha e saiu correndo atrás de Ford Prefect e daquela peça irracional de mobília.

Correram tresloucadamente pela grama, pulando, rindo e gritando instruções para levar aquela coisa para um lado ou para o outro. O sol brilhava ardentemente sobre a relva e pequenos animais saíam correndo para abrir caminho.

Arthur sentia-se feliz. Estava profundamente contente porque, pelo menos uma vez, seu dia estava saindo exatamente como planejado. Há apenas 20 minutos havia decidido ficar louco e, pouco depois, lá estava ele, caçando um Chesterfield através dos campos da Terra pré-histórica.
O sofá ondulava de um lado para o outro, parecendo ser ao mesmo tempo tão sólido quanto as árvores ao passar entre algumas delas e tão nebuloso quanto um sonho alucinado ao flutuar como um fantasma através de outras.

Ford e Arthur corriam desvairadamente atrás dele, mas o sofá se desviava e se esquivava como se seguisse uma complexa topografia matemática própria ― era exatamente o que estava fazendo. Continuavam a perseguição, o sofá continuava dançando e girando, até que,subitamente, virou-se e mergulhou, como se estivesse cruzando o limite de um gráfico catastrófico, e se viram praticamente em cima dele. Dando impulso e gritando, subiram no sofá, o sol tremeluziu, caíram por um vazio doentio e apareceram inesperadamente no meio do campo de críquete conhecido como Lord's Cricket Ground, em St. John's Wood, Londres, perto do final da última partida [Test Match] da Série Australiana no ano de 198―, quando a Inglaterra precisava de apenas 28 runs para vencer.




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