domingo, 30 de agosto de 2009

Entrevista com Brian Aldiss



Brian W. Aldiss é uma das lendas vivas da Ficção Científica britânica.

Nascido em 1925, começou a publicar seus contos em meados dos anos 50, e alguns anos depois teve início a sucessão de livros de Ficção Científica que o tornariam famoso.

Fortemente associado com a New Wave britânica da década de 60, Aldiss é um experimentador literário radical desde então e continua a ser uma voz distinta na FC e fora dela. Um estilista, um ambicioso, um pensador audacioso da inventiva ficção especulativa, um crítico moral e um brilhante contador de histórias. Ele é, além disso, um dos mais importantes historiadores da FC.



Pergunta: Você comemorou recentemente o 50 º aniversário da publicação de seu primeiro conto. Olhando para trás para sua obra extraordinariamente rica e variada, qual parece ser para você, os maiores destaques? Qual de seus livros te deixa mais orgulhoso?


Aldiss: Estou orgulhoso de ter escrito um livro: When the Feast is finished (1999). É a história da minha esposa Margaret, vida e morte, e do nosso amor, de nossa família encantadora. Em um período de sofrimento, fiquei feliz por criar este modesto memorial para ela.

Quanto ao resto, bem, orgulhoso? Aliviado, desculpe ... Não exatamente orgulhoso; porque sempre se sente, quando a coisa está concluída, que talvez poderia ter sido melhor, ter formulado melhor, ter tentado mais, por exemplo com a formação de sentenças individuais. E com FC há sempre o perigo de se falar besteira. Entre pela magia e você estará mal...

Claro, eu fiquei feliz por Hothouse ser tão bem sucedido, apesar de que eu estava um pouco preocupado. Ah, eu estou muito satisfeito com Report on probability, uma vez que saiu tão bom quanto era a intenção. E há Forgotten Life (1988). E como eu ri enquanto escrevia Cretan Teat (2002)!


Pergunta: Algo que passa através de sua ficção, seja ela FC ou mainstream, é seu conhecido e freqüentemente cáustico, mas também muito carinhoso, comentário sobre a sociedade Inglesa, suas desigualdades e suas excentricidades. Como você vê a Inglaterra hoje em dia, em relação ao que era.


Aldiss: Sim, sei o suficiente para perceber o quão pouco sei. A ameaça de devastação e destruição, fora dos limites do mundo ocidental, tem aguçado minha apreciação dos benefícios que gozamos aqui e principalmente aqueles aos quais estamos acostumados.

Tenho um bom exemplo da nossa boa sorte: O aeroporto de Viena. Supondo que você chega lá vindo da Macedônia, um país bastante agradável, você fica impressionado com a beleza e a organização do aeroporto. Pessoas elegantes sentadas em espaços abertos, bebericando um bom café, conversando, rindo. As lojas são lindas, abastecidas com produtos atraentes. As pessoas são educadas. Tudo funciona sem problemas. E não apenas para aquele dia que você passa por ali. Todos os dias. Ano após ano. O Ocidente floresce porque seus habitantes estão preparados para trabalhar e sustentar aquilo que eles começaram.

Eu amo profundamente a Inglaterra, embora muitas vezes ela possa ser irritante. Certamente ela tem melhorado desde que eu era um rapaz: não só em seus muitos avanços científicos, mas na liberdade das relações entre as pessoas, pelo menos em certos setores da sociedade.


Pergunta: Há um otimismo, quase de utopia, ao contrário da tecnofília dos escritores americanos de Ficção Científica, que muitas vezes aparecem para expressar uma filosofia relativamente fatalista do futuro humano. Neste século, o aquecimento global e o conflito crescente entre ricos e pobres... o quanto esperançoso você está quanto a duração da prosperidade a da sobrevivência da raça humana?


Aldiss: Olhando a situação do mundo, você vê motivos de esperança e motivos para desespero. Eu gosto do desespero, é tão desintoxicante. Serve melhor à prosa. Eu adorei The Day After Tomorrow. O mundo vai para o inferno de vez. Mas, em muitos aspectos, pode-se ver alguma melhora. O século 20 foi um período de crescimento fenomenal. Você não pode duvidar disso se você for uma mulher e olhar para o passado... ou um homem olhando para o que está por vir

Eu acho que nós vamos nos manter à tona, até a chegada do próximo Grande Meteoro.


Pergunta: Ao mesmo tempo que você conseguiu sintetizar tão bem a Inglaterra, você sempre exibiu um certo exotismo extravagante, como em Hothouse, The Malacia Tapestry e Helliconia. Nomes como Hanra TolramKetinet, Itsobeshiquetzilaha, locais como o continente que abrange as árvores Banyan, a lua capturada nas teias de aranha, bizâncios alternativos, um mundo cujas estações duram séculos... De onde vem tudo isso? Você serviu no exército britânico no sudeste da Ásia, é claro que você é muito viajado...


Aldiss: É impossível dizer de onde o exotismo vem. Tem sido sempre uma parte de mim. Claro que eu vi a árvore Banyan, no Jardim Botânico de Calcutá ... a "maior árvore do mundo", sempre crescendo. Não tenho dúvidas de que os quatro anos de exílio no Extremo Oriente, ajudou a minha imaginação. Eu ainda tenho uma nostalgia, não por East Dereham, Norfolk, onde eu nasci, mas por Sumatra, onde vivi por um ano após a Segunda Guerra Mundial. Medan, a capital destruida, semi-funcional, calma, perigosa, exótica, sem dinheiro, mas pelo menos uma mulher adorável vive lá.


Pergunta: Sempre saboreei seu estilo de escrita, a sua opulência periódica, a sua poesia, a sua mistura de elegância cercada de aspereza. Quais foram suas influências literárias e como você avaliaria o seu desenvolvimento estilístico desde os anos 50?


Aldiss: "Opulência periódica"! Essa é boa. O estilo desenvolveu-se a partir de muita leitura, coisas que mais tarde seriam vistas como inúteis, assim como os chamados "bons livros". Certamente que o gosto pelo exótico, como por exemplo 'The Lost Steps' de Alejo Carpentier, maravilhosamente traduzido para a lingua inglesa, vem de estar sempre atento para sua origem estrangeira. Um livro que gostaria de ter escrito. Também 'Sabres of Paradise' de Lesley Blanche, um livro tão denso, com sabor de assado de javali selvagem, com presas e tudo. Um dos livros mais nutritivos que já li. Blanche ainda está viva aos 101, vivendo no sul da França. É claro.

Desenvolvimento estilístico. Você certamente fica mais exigente ao longo da vida. Doris Lessing (Shikasta, etc) tem sido bom exemplo para mim... por que um romance comum não pode suavemente ser visto através da ficção científica? Como aconteceu com Somewhere East of Life (um romance que eu ainda gosto muito, ao menos por razões não-literários... ele me levou ao Turquemenistão).

Depois de trabalhar com Stanley Kubrick em IA, e com a chegada de um novo século, eu gostaria de tentar novas formas de contar uma história. Com Super-State (2002), eu tentei abolir a estrutura narrativa, ou dividi-la em episódios. Esses episódios, ficando distantes, tinham que ser nítidos e incisivos. Eu nunca vou perdoar Little Brown por sua falta de cuidado na edição e promoção desse livro, que deveria ter tido uma grande audiência.

Gostei das dificuldades na escrita e da forma de Super-State, assim tentarei novamente, em uma escala menor. Hampden Ferrers é a história de uma aldeia fictícia e de seus habitantes. A brincadeira, o surrealismo e o romance, adocicam a pílula do debate sobre a natureza do universo. Trata-se de FC ou não? Bem, claramente não. E no entanto... Você acha que eu me importo com o que ela é? Eu acredito que o fiz provavelmente para ninguem, a não ser para mim mesmo.

Então eu fui ainda mais fundo. Sanity and the Lady (Peter Crowther Publishing) é sobre uma família e uma mulher corajosa, em particular. Não é certamente FC tradicional. É o que eu faço.
Experimentar novos estilos e temas ajuda a manter-me fresco e pronto.


Pergunta: Seus romances mais recentes, como você diz, geralmente podem ser lidos como mainstream ou como FC/Fantasia, e uma observação semelhante pode ser feita sobre seus trabalhos anteriores. ... Assim sendo, gêneros e categorias de publicação não se aplicam em sua escrita?


Aldiss: Eu não sei a resposta para esta pergunta. Eu só sei que a minha opção não é pelo caminho da riqueza ou da fama. Tenho me educado para não buscar essa ilusão, fama. Estamos na era das celebridades. A minha popularidade foi nos anos 60 e 70, quando eu não me importava com o que eu escrevia. Embora é claro que eu perdi um pouco com isso, mas me alegro que minha criatividade continua funcionando, que as palavras ainda fluem, que o meu jardim dê flores ainda, que a minha TV ainda está desligada, que minha amada tem o poder maravilhoso de uma mulher para desafiar e encantar.


Pergunta: Você se tornou conhecido muito cedo, por suas magníficas coletâneas de contos, tais como Espaço, Tempo e Nathaniel, gemas individuais como "Old Hundredth", e você permaneceu razoavelmente prolífico em contos curtos desde então. Quais são para você, as principais virtudes de um conto de FC? Por que você ficou tão fortemente comprometido com ele?


Aldiss: Não se esqueça que eu comecei a minha vida de escritor como um campeão em contar histórias em dormitórios escuros, de várias escolas públicas. Eu contava histórias e as crianças todas escutavam. Contos meio que surgem. Você pode estar no meio de um romance e após uma frase, digamos, desperta uma questão secundária. Você estaciona o romance numa rua secundária e conta para si mesmo a tal história.

Nos anos 70, eu costumava me exercitar assim: Rabiscava seis frases mais ou menos aleatórias. "Uma nuvem em forma de um piano, um piano em forma de uma nuvem." "Como é o arrebatamento, querida?" "Todos esses encantos duradouros da idade."

Eventualmente, eles serviram como ingredientes ou pelo menos, trampolins de mergulho para as histórias de Last Orders. Talvez eu fosse um pouco louco na época.
Talvez eu não seja um escritor de FC. Talvez eu seja um surrealista.


Pergunta: Um bom número de seus primeiros livros, Non-Stop, The Dark Light Years (1964)... são space-operas de uma espécie inovadora, não-convencional, e mais tarde você editou uma série de importantes antologias de space-opera. Hoje a space-opera domina a FC britânica.
Qual é o encanto deste subgênero, antes desprezado. Seria devido a sua fecundidade experimental? Porque você acha que ela é tão popular hoje em dia?


Aldiss: Eu não sei. Talvez seja popular porque você pode percorrê-la com sua mente e perder-se por lá.


Pergunta: Você, J.G. Ballard e Michael Moorcock formavam o ABC (ou ABM), da New Wave britânica dos anos 60 e início dos anos 70. Analisando a New Wave hoje, quais foram suas principais realizações, em geral e para você pessoalmente?


Aldiss: O que Mike Moorcock fez quando assumiu a revista New Worlds? Ele jogou fora toda aquela assustadora ficção de segunda categoria. Aquelas ideias eram claramente gastas, escritas imitando o estilo americano, meras sombras de Bester, Blish, Simak, etc . Não quero ser rude, mas era feita por fãs, por amadores. Nos termos de Mike, a literatura tinha que ser renovada.

Surgiu uma nova audiência, uma audiência inteligente (que não estava drogada). As convenções mudaram bruscamente de um ano para o outro, de repente havia gente que você queria conhecer. Nunca se esqueça de nossa dívida com Mike. Já não sentiamos vergonha de estar escrevendo Ficção Científica. O bom e velho Mike quase morreu fazendo o que fez.


Pergunta: Nos anos 70 você escreveu Frankenstein Unbound, uma homenagem apocalíptica à obra prima de Mary Shelley, e Billion Year Spree (1973), que apregoava "Frankenstein" como sendo o primeiro romance de FC genuíno. Você mantêm a sua opinião de que a FC é moldada predominantemente a partir do gótico?


Aldiss: A popular "virada", onde sempre algo terrível está para acontecer, é uma invenção gótica. O maravilhoso romance de Mary Shelley tem a influência da escrita de seu pai, William Godwin, que escreveu Caleb Williams. Este mês eu estava no Kansas para receber um prêmio póstumo por Mary Shelley. Eu penso que Frankenstein, ou The Modern Prometheus, é o primeiro romance científico. Por que os leitores ingleses nunca apoiaram minha escolha? O caso é completamente explicado em Billion e Trillion Year Spree.


Pergunta: Sobre esta última questão, nos anos 80 você e David Wingrove expandiram Billion Year Spree para a atual Trillion Year Spree. Uma Quadrillion Year Spree está por vir?


Aldiss: Há uma edição, ligeiramente revisada, de Trillion, disponível na House of Stratus para impressão por demanda. É grande, 340 páginas. Mas Quadrilion? Esqueça! Estou descansando meus remos.


Pergunta: Seu excepcional romance dos anos 70, do gênero fantástico, The Malacia Tapestry: barroco, cheio de vida e ainda assim e acima de tudo, um estudo da decadência, do extâse cultural artificial. Como foi que sua visão de Malacia surgiu primeiro e, posteriormente evoluiu? Você ainda está tentado a escrever uma seqüência?


Aldiss: Barroco, sim, isso é o que é Malacia. Alguns tolos dizem que não tenho idéias novas, na verdade, eu senti que a Inglaterra naquela época tinha crescido mas não avançado, ficou presa em seu passado, e eu pretendia usar Malacia como uma metáfora. Porém mais do que isso, fiquei maravilhado com aquilo, adorando, um pouco como G.B. Tiepolo (pintor veneziano), capricci e scherzi. Gravuras de um mundo misterioso, de sacrifício e adoração do diabo, e a vida popular escavada a partir do solo, e serpentes queimando nos altares pecaminosos e tudo o que é balbuciado, ele representou aquilo tão bem. Lembre que ele foi um artista que tinha pintado centenas de belos tetos em toda a Europa. Alguma vez você viu sua obra-prima no Residenz em Wurzburg? Aposentou-se, passando a viver em Veneza, e em sua velhice ele pintava estes pequenos retratos de um mundo estranho e suntuoso. Era sobre isso que eu queria escrever, arabescos e tudo mais.

Sem sequências porêm. Nunca olhe para trás, como eu estou fazendo aqui.


Pergunta: Sua trilogia Helliconia do início e meados dos anos 80, continua a ser uma conquista retumbante, um dos maiores romances planetários de FC. Que vasto quadro você pintou! Que dificuldades você encontrou ao escrever tal épico? E foi esta trilogia de alguma forma, a sua despedida da FC em grande escala, sua palavra final sobre a FC como um gênero amplo?


Aldiss: Eu queria que Helliconia estivesse no centro de um romace científico. Eu vi a avalanche de imitações de Tolkien quebrando como ondas de um mar venenoso, sobre aquilo que eu considerava como sendo a velha FC, a FC direta e rígida, presidida por John Campbell no auge da revista Astounding... O vasto quadro era uma exigência para estender o Grande Ano de Helliconia. Eu estava doente na época, sofrendo do que é conhecido como síndrome de fadiga pós viral.

Após dois anos de pesquisa, comecei a escrever, para encher a minha tela com os seres humanos e phagors e sabe Deus mais o quê. Beleza e terror, amor e emoção e a estupidez. Isso se chama liberdade criativa.

Você pergunta se ela foi o meu Adeus para alguma coisa. Acho que sim. E o meu Olá para outra...


Pergunta: Seu interesse em mitos gregos parece vir à tona no seu próximo trabalho (The Cretan Teat, etc). Por que isso? São romances históricos ou algo totalmente diferente?


Aldiss: Provavelmente algo totalmente diferente, como você diz. Meu querido filho Clive, e sua esposa grega, Youla, vivem em Atenas. Naturalmente eu tenho a tendência de aparecer por lá. Depois de Creta Teat vem Jocasta, que deve aparecer pela Rose Press em uma edição limitada em setembro. Eu também escrevi uma ópera, Édipo em Marte, o neto de Jocasta, para a qual a música está sendo composta.


Pergunta: Que outros projetos estão por vir? Você parece tão prolífico como sempre...


Aldiss: Novos contos serão lançados pela Tachyon Publications nos Estados Unidos. Título, Cultural Breaks. Minha conexão francesa ainda é forte. Estou trabalhando na penúltima revisão do meu tomance ainda inacabado, Walcot. É mais uma ambiciosa história de uma família ligeiramente disfuncional ao longo do século 20. Talvez fique boa. Talvez seja um fracasso. 'Talvez' é algo ótimo. Como é excitante não saber! Mas vale a pena tentar de qualquer maneira. E eu acho que há uma centelha, ou eu não me incomodaria sequer em continuar. Poucos contos nascem de verdade. Palestras. Interrupções como esta entrevista...



Entrevista dada a Nick Gevers - Science Fiction Weekly (Julho/2004).