domingo, 23 de agosto de 2009

Uma lenda viva da Ficção Científica, Frederik Pohl, nos lembra sobre como era o Futuro



Pergunta: Você está perto dos 90 anos. Como se sente?

Pohl: Bem. Nunca planejei chegar até esta idade e não sei exatamente como isso aconteceu... mas acho que é melhor do que a outra alternativa.


P: Agora que você passou dos 80 anos, você continua com a sua rotina de escrever 4 páginas por dia?

Pohl: Sim e não. Alguns anos atrás eu comecei a ter problemas sérios para respirar e decidi parar de fumar. Isso me ajudou mas também arruinou, ao menos temporariamente, a coisa de escrever: 60 anos escrevendo com um cigarro queimando no cinzeiro ao lado era um hábito difícil de mudar. É quase impossível escrever qualquer coisa. Nos últimos meses a situação melhorou um pouco e acho que voltarei logo a escrever.


P: Existem rumores que você estaria escrevendo uma continuação de Gateway. É verdade?

Pohl: Sim, estou trabalhando em outro livro da série Heechee. Anos atrás, Bob (Robert) Silverberg, que é bem persuasivo quando quer ser, me convenceu a escrever um conto dentro do universo Heechee, para uma antologia que ele estava montando.Minha esposa e eu estávamos viajando pelo mediterrâneo e escrevi uma história a bordo do navio. Acabou sendo grande demais para sua antologia então escrevi outra e mandei para ele. Me dei conta de ter pelo menos 30.000 palavras para uma história sobre Heechee e resolvi escrever um pouco mais e transformar em um livro. Provavelmente se chamará From Gateway to the Core...


P: Gateway ganhou os prêmios Hugo, Nebula e o John W.Campbell Memorial. Também foi um campeão de vendas (se encontra na edição de núm.30). Você esperava tal reconhecimento ao escrevê-lo?

Pohl: Eu sabia que era um ótimo livro. Mas não sabia que ganharia tantos prêmios, mas fico feliz com isso. Eu ficaria desapontado se outro livro os tivesse ganho. É um bom livro.
Publiquei muito na minha vida e não sou louco por todos eles. Talvez por 20 ou 30 somente e Gateway é o que eu mais gosto ou esteja entre aqueles que mais gosto, eu acho. Isso muda todo dia, eu também gosto bastante de Chernobyl e The Years of City, mas Gateway, acho, é melhor.


P: Você é um fã, escritor e foi editor, tudo ao mesmo tempo, agente literário e até presidente da SFWA e da World SF, a organização internacional de pessoas ligadas a Ficção Científica. De todas estas experiências, de qual gosta mais?

Pohl: Escritor. Todo o resto é trabalho. Tinha muito prazer em ser editor sob certas circunstâncias, mas não se compara.


P: Como você consegue se manter sempre fascinado pela Ficção Científica?

Pohl: O que me mantêm interessado na FC é que é sobre ciência, uma constante desdobramento do conhecimento teórico através da observação de como funciona o universo e como pode se expressar através das histórias de FC.


P: Existem correntes da FC que não lhe interessam?

Pohl: Gosto de todo tipo de Ficção Científica. O que não me interessa são estas combinações de FC com Fantasia, pois nada me dizem, nada que C.L.Moore já não tenha feito antes. E melhor.


P: Dentro deste mesmo tópico, quais são estas correntes que o senhor acha que irão crescer?

Pohl: O bom da FC é que ela não é monolítica, não tem uma única tendência, vai em todas as direções ao mesmo tempo, na medida que os escritores surgem com pensamentos sobre coisas novas para explorar e outros aprendem com estes.


P: Você colaborou com outros escritores como C.M.Kornbluth, Isaac Asimov, Jack Williamson, Lester del Rey e L. Ron Hubbard. Qual o segredo de uma colaboração bem sucedida?

Pohl: Uma enorme paciência (risos). Você tem que ser amigável de verdade. Parece muito com um casamento, de muitas maneiras. Você não sabe para onde vai, até que já está dentro. Existem conflitos inevitáveis, de estilos e interesses. Não falo de estilo de se escrever mas de trabalhar. Algumas vezes pode ser fatal.

O livro que escrevi com Lester Del Rey, chamado Preferred Risk, custou um ano da minha vida. Um livro horrível. Se você for começar a lê-lo, não o faça. Foi originalmente publicado com um pseudônimo meu, que eu uso quando não quero assumir o livro. Ai a esposa de Lester, Judy Del Rey, republicou-o pela Del Rey Books e colocou nossos nomes nele. Nunca mais pude negar tê-lo escrito (risos).


P: Em sua obra, você freqüentemente se utiliza de comentários sobre assuntos sociais e políticos.

Pohl: Sou um interessado pela sociedade. Eu era um radical quando adolescente e me transformei num democrata, que basicamente é um tipo de radical se comparado aos republicanos. Li muitos livros sobre pensadores políticos, todos os utopistas e sobre tipos de sociedades que eu imaginava poder gostar de escrever sobre elas.

Não há dúvidas que existem coisas terrivelmente erradas com a nossa sociedade. A parte difícil é tentar imaginar como fazê-la melhor, no que eu tenho fracassado. Mas uma das vantagens de se escrever FC é que você pode pensar sobre como outras sociedades poderiam funcionar bem se as regras fossem um pouquinho diferentes, e então escrever a história e ver como as pessoas serão afetadas por isso. A maior parte da FC que eu gosto, trata disso. Contudo existe também uma outra parte que é uma espécie de celebração da ciência e da investigação do desconhecido. Mas eu passei bastante tempo escrevendo o que eles chamam de FC social.


P:A sátira é um elemento predominante no seu trabalho. Quais são suas influências literárias?

Pohl: Bem, a primeira ficção que me lembro de ter lido foi Voltaire. Cândida. Minha mãe me deu para ler quando eu tinha uns oito anos. Ela pensou que se tratasse de uma história de fadas. Voltaire foi um dos grandes escritores do Iluminismo, e li Jonathan Swift e todos os clássicos.
Existia um elemento de sátira na FC que eu gostava, quando comecei a ler. Até Edgar Rice Borroughs em sua série Mars (Marte), trata-se de uma sátira aos costumes, a religião e a política da Terra.

É claro, Brave New World (Admirável Mundo Novo) de Aldous Huxley e alguns escritores, como um homem chamado Stanton A.Cobletz em particular, que escrevia um tipo de FC bem pesada, crua mas muito satírica. Acho que me influenciaram, mas tudo que eu li me influenciou de certa maneira.


P: Quais são alguns de seus filmes de FC prediletos de todos os tempos?

Pohl: Acho que o que eu mais gostei foi 'Things to Come'. Foi lançado em 1936 e me acertou em cheio. Acho que vi umas 25 ou 30 vezes.

Também gostei de Forbidden Planet (Planeta Proibido). Me ofereceram a chance de escrever uma versão do filme antes dele ser lançado e eu pensei que não seria tão bom e recusei. Então quando eu o vi no cinema, fiquei muito chateado comigo mesmo, porque era um dos poucos filmes de FC que dariam uma boa história para ser publicada como livro.

O primeiro filme de FC que vi se chamava 'Just Imagine', lançado em 1930. Era sobre o incrível futuro distante de 1980. Nele Nova Iorque era cheia de arranha-céus e as pessoas viviam de pílulas. Quando um casal queria um bebê, colocavam vinte e cinco centavos numa máquina e o bebê surgia. Foi também o primeiro filme de Maureen O'Sullivan e eu me apaixonei por ela.


P: Durante sua vida, você assistiu a invenção dos computadores, os foguetes foram à lua, você viu o DVD, o telefone celular, forno de micro-ondas, todas estas invenções científicas importantíssimas. Será que a FC algumas vezes não se amedronta com o fato científico ?

Pohl: Não. Todas estas coisas vieram da FC. Quero dizer, nada disso me deixou surpreso por que eu já tinha lido algo sobre isso, bem antes de acontecer. Eu estava em Paris em Agosto de 1945 e eu estava cortando o cabelo numa barbearia no Champs Elyssees. Eu olhava sobre o ombro do homem ao meu lado e ele estava lendo um jornal e a manchete era 'Le Bomb Atomique'.

E a primeira coisa que eu pensei foi: 'Estes franceses malucos publicam qualquer coisa em seus jornais.' Então eu olhei mais de perto e vi que aquilo tinha mesmo acontecido. Eu senti, bem, eu já sabia que um dia aconteceria.

Todo mundo que lia Ficção Científica sabia que havia uma boa possibilidade. Existem vários tipos de FC que você não pode mais ler. Você não escreve mais sobre o primeiro robô inteligente, a primeira viagem a Lua ou a primeira guerra nuclear, por que já ocorreram, mas as conseqüências de tudo isso vão ficando mais claras a cada dia.


P: Você recentemente escreveu The Other End of Time, The Siege of Eternity e The Far Shore of Time ou Eschaton Sequence. O que é Eschaton?

Pohl: Eschaton é um termo teológico significando quando tudo fica diferente, quando todas as regras mudam. Foi usado pelo físico Frank Tippler para descrever o instante quando o universo tiver se expandido ao máximo e então irá sofrer um colapso, o chamado Big Crush. Quando tudo vai voltar a ser uma coisa só, é o que ele chama de Eschaton.


P: Como você acha que será o próximo século?

Pohl: Não dá para dizer em uma entrevista de 30 minutos (risos). Um jornal de Chicago me pediu para enumerar cinco coisas que não existirão em 2210. Eu respondi: 'Não existirão computadores, aparelhos de televisão, engarrafamentos de carros, hospitais ou aeroportos.' Tenho quase certeza disso. O que mais for acontecer, dependerá do que as pessoas fizerem.

Existem muitas tentativas por parte de pessoas brilhantes e bem informadas, de conceber metodologias para prever o futuro. Um monte de nomes estranhos como Delphi Herman Kahn, Mapeamento Metodológico, Extrapolações de tendências, etc. Todas tem uma coisa em comum: Nenhuma delas funciona.

Um homem chamado Dennis Gabor, que é mais conhecido por ter inventado o holograma, é um dos lideres no estudo do futuro e sumariza tudo ao dizer: 'É impossível se predizer o futuro, o melhor que podemos fazer é inventá-lo'.

Você não pode dizer o que vai acontecer no século 21 ou 22, pode apenas dizer o que poderá acontecer, e tem certas coisas que não estarão lá, como as cinco que mencionei.


P: No mesmo tema, que tipos de futuro-possíveis (futuribles) mais te intrigam ou o preocupam atualmente?

Pohl: Isso é uma coisa que me interessa: (a) a questão do aquecimento global (nota do editor: Pohl e Asimov escreveram 'Our Angry World' que trata exatamente disso); (b) como será o mundo quando computadores se tornarem menores que um botão e mais baratos que chiclete e estarão em todas as coisas; (c) antecipar os resultados do próximo megacrash do mercado de valores.


P: Qual foi a inspiração para 'Man Plus'?

Pohl: A inspiração original não é minha mas de uma mulher que queria produzir um filme. Ela tinha a idéia de que o filme deveria ser sobre ciborgues no espaço. Era tudo que ela sabia dizer sobre o filme. Eu passei alguns meses tentando escrever um roteiro para ela. Acabei não chegando em parte alguma. Nunca fui pago por isso também (risos). Depois eu juntei tudo e resolvi que escreveria um livro disso.


P: E o que pensa sobre a seqüência escrita por Thomas T. Thomas, Mars Plus ?

Pohl: A seqüência veio por que Jim Baen, o dono da Baen Books, me levou para almoçar um dia e disse: 'Quero que você me escreva um esboço para uma seqüência e outra pessoa escreverá o livro'. Eu concordei. Eu não costumava fazer isso e não estou certo de que o faria de novo.

Penso que Thomas T. Thomas fez um ótimo trabalho, não é o livro que eu escreveria, mas é um livro satisfatório, baseado nas minhas idéias. Eu o teria feito diferente, mas ele fez coisas que eu não pensei em fazer. Deu realmente uns toques bem interessantes.


P: Vênus é cenário de muitos de seus livros. O planeta tem apelo especial para você?

Pohl: Venus está mais próximo da Terra em muitos aspectos. As únicas coisas em que é diferente são a temperatura e a pressão atmosférica. E isso aparentemente se deve por estar 40 milhões de milhas mais perto do sol. Então, se você pudesse lidar com a temperatura, que é quente o bastante para derreter chumbo, ou a pressão do ar, que é grande o bastante para esmagar qualquer coisa viva, seria um bom planeta para se viver.

Acho que já escrevi sobre cada planeta do sistema solar onde fosse possível suportar alguém caminhando em sua superfície. Os grandões como Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, não parecem ter uma superfície, então não contam, mas você pode escrever histórias com Marte, Vênus, Mercúrio, Plutão, a Lua, Calisto, Ganimedes e vários outros satélites. Mas Vênus é o planeta mais fácil de se ir, é o mais próximo da Terra. Na maioria do tempo, mais próximo do que Marte. Não tenho mais carinho com o planeta do que isso.


P: Algo mais que queira dizer?

Pohl: Acabei de voltar de um cruzeiro pelo canal do Panamá, onde escrevi bastante. Cruzeiros estão se tornando um ótimo lugar para que eu possa escrever sossegado. O telefone nunca toca. A viagem pelo Canal foi especial. Passei meu primeiro ano de vida na cidade de Gatun, onde meu pai tinha um emprego trabalhando nas comportas e desde aquela época, nunca tinha voltado até lá. Então eu queria dar uma olhada no lugar e amei a viagem.



Entrevista concedida a Michael McCarty em 2001.