sábado, 22 de agosto de 2009

Além do corpo: a carne como ficção cientifica


As linhas do imaginário são verdadeiras linhas de vida.
Gaston Bachelard

– E o que você me conta de novo sobre seu corpo?
–Nada! Não quero mais desse corpo que não presta, que se estraga, que fica doente, que atrapalha meu pensamento e dificulta a minha própria razão... Não sou mais um corpo! Cogito ergo sum: Sou um puro espírito, um ser inteligente. Adeus corpo! (Le Breton, 1999)

Esse discurso sobre o corpo, que parece ser extrato de um romance de ficção científica é o tema central do novo livro de David Le Breton.

Só que David Le Breton não é romancista, mas antropólogo especializado nas questões ligadas à corporalidade humana e autor de mais de dez ensaios relativos ao corpo.

Para David Le Breton, o indivíduo, na sociedade contemporânea, pensa o corpo como um material, como um simples suporte e veículo da pessoa, assim andando e pensando, ele parece se afastar cada vez mais do seu próprio corpo e concebê-lo como uma matéria imperfeita, corrigível e finalmente dispensável.

Le Breton, nesse livro sobre o corpo na cultura ocidental pós-moderna, mostra até que ponto o novo imaginário do corpo revela a contemporaneidade do dualismo cartesiano e convida o leitor a segui-lo na sua “antropologia das aventuras do corpo dissociado da pessoa, percebido como um material acidental, infeliz e moldável” (1999: 21).

Ao longo dessa viagem de iniciação, Le Breton demostra como esse grande desprezo pelo corpo, essa vontade de corrigir e eliminar o corpo, está principalmente veiculado pelas tecno-ciências (medicina, genética, robótica, informática...) que pretendem liberar o homem do seu corpo, mudar a condição humana, declarando o fim do corpo e das suas imperfeições. Esse mito da saúde perfeita, analisado por Lucien Sphez, alimenta o discurso científico atual e nos anuncia uma profunda mutação epistemológica: pensar um homem sem corpo.

A partir das descobertas e experiências dos primeiros anatomistas (Vesale,1543), o corpo ocidental tornou-se matéria viva, “coisa” de medicina, e o dualismo cartesiano encontrou um imenso campo de experimentação “ao vivo”: a Ciência Moderna se lança de corpo e alma nos estudos do corpo como realidade autônoma, totalmente separada do homem, da pessoa.

Descartes corta, disseca, retira a inteligência do homem do seu corpo, da sua carne: “Eu não sou esse conjunto de membros que chamamos de corpo” (Descartes, 1970). Hoje, “o corpo é escaneado, purificado, gerado, remanejado, renaturalizado, artificializado, recodificado geneticamente, decomposto e reconstruído ou eliminado, estigmatizado em nome do grande ‘espírito’ ou do gene ‘ruim’. A sua fragmentação é conseqüência da do sujeito.
O corpo aparece hoje como o maior desafio político, ele é o analisador fundamental
das nossas sociedades contemporâneas” (1999: 21).

David Le Breton mostra como, nas representações pós-modernas do corpo e nas
novas técnicas corporais ocidentais, o espaço que separa o homem do seu corpo se estendeu. Para ele, já entramos no tempo “pós-biológico” da história humana, período no qual a humanidade busca superar as fragilidades e as imperfeições ligadas a sua condição “corporal”.

As novas tecnologias, com seus discursos, suas experiências e suas descobertas, sonham com um corpo biônico, tão perfeito e controlável quanto um computador, e nos convidam a conceber a carne do corpo como um puro feitiço, do qual seria melhor se livrar logo.

A ficção científica sempre esteve muito interessada nas conseqüências que as novas tecnologias poderiam ter sobre o corpo; do cinema à literatura, muitos foram os romancistas que entenderam que, no “futuro”, o homem iria querer mudar sua condição corporal e que a noção de corpo se constitui como uma grande musa da imaginação futurista.

Do doutor Frankenstein (Wells, 1990) aos trabalhos do doutor Moreau (Shelley, 1983), de Blade Runner a Matrix, o uso do corpo humano como um material biológico disponível coloca sempre em cena personagens cuja evidência “humana” é rompida e cujo estatuto antropológico suscita o medo. Em Matrix, a carne é considerada como uma doença, a condição corporal vista como epidemia e os corpos humanos são fabricados e controlados industrialmente pelos próprios robôs, que inverteram os papéis e demostraram a superioridade dos materiais eletrônicos sobre as matérias vivas, da eternidade sobre a morte.

Esse poder de “dar a vida” que têm os robôs no filme parece muito com os poderes que querem adquirir os geneticistas e os engenheiros da Inteligência Artificial do final do século XX.

As criaturas moldadas por Moreau na sua ilha de experimentação genética eram híbridas, hoje, a clonagem de animais (e a ciência de reprodução do “idêntico” ultrapassa tecnologicamente a das misturas) já foi realizada várias vezes (o primeiro caso foi de uma ovelha e do seu clone Dolly).

Através de uma leitura antropológica da literatura de ficção científica contemporânea (Dick, Ballard, Moravec, Gibson...), Le Breton coloca em evidência a velocidade das transformações nas representações e nos usos sociais e medicinais do corpo humano. Tradicionalmente inspirada pelas últimas descobertas científicas e as suas possíveis perspectivas futuras, a ficção científica de hoje está sendo, paradoxalmente, cada vez mais “realista”.

A aceleração das descobertas nas biociências e os avanços tecnológicos produzem um
“efeito de real” que ultrapassa muitas vezes o próprio desafio “futurístico” da ficção científica: descrever um futuro radicalmente diferente do presente, uma ficção do tempo no mundo.

“O nosso próprio mundo virou um universo de ficção cientifica” (1999: 159).

O futuro do corpo é hoje, nos avisa Le Breton, e ele está sendo questionado tanto pelas literaturas de ficção quanto pelos científicos.

David Le Breton, que já sabe há muito tempo que a única realidade do corpo é de ordem simbólica, mergulha entre o biológico e o ético, entre o corpo “real” e o “virtual” (ou feitiço), sem nunca se perder numa ficção antropológica, justamente porque ele sabe usar um para analisar o outro, e vice-versa. Nesse último livro, David Le Breton consegue navegar através dos novos paradigmas do corpo (o corpo-(alter)ego; o corpo virtual; o corpo genético...), conceitos que aparecem fundamentais para entender a condição humana no século XXI. Neste percurso, ele dirige o leitor com firmeza e precisão, e, ao mesmo tempo, o convida a viajar em torno dos futuros corpos, entre as descobertas e os delírios da ciência e da tecnologia.

Na primeira parte do livro, ele aborda as tentativas do indivíduo, nas nossas sociedades ocidentais, de dominar seu corpo, suas emoções, seu eu corporal tanto através de biopoderes coletivos (Foucault) quanto através de um autocontrole de si que passa por um profundo desprezo do corpo. O primeiro passo dessa desconfiança com o corpo concerne a sua aparência, sua exterioridade e visibilidade. Assim que o corpo chega, a sociedade toma conta dele, o corpo é concebido e vivido como se fosse um objeto inacabado, incompleto, um puro rascunho da identidade pessoal.

Em busca de um corpo ideal (Malysse, 1998), os indivíduos procuram incorporar as normas de uma nova estética corporal. No Rio de Janeiro, muitas pessoas procuram mudar seu corpo através de uma hipermalhação para transformar a imagem do seu “eu” e, assim, sua vida social.

Nessas práticas de modificação da aparência, o corpo é vivido como um parceiro e não se apresenta mais como dado, dando início a processos psicológicos e sociais, mas como produto desses processos. Nessa linha de pesquisa, Le Breton analisa também as marcas corporais (tatuagens, piercing...) como signos de uma mudança radical em relação ao corpo.

No vasto campo do body art, ele apresenta os trabalhos do Faquir Musafar, líder dos “Primitivos Modernos” que experimenta no seu próprio corpo várias modificações corporais inspiradas pelas culturas primitivas. David Le Breton considera também o transexualismo como uma marca corporal, pois “a marca corporal traduz a necessidade de completar, por iniciativa pessoal, um corpo que não chega a incorporar/encarnar a identidade pessoal” (1999: 98).

Nessas práticas de individualização, que levam a uma recriação de si, o corpo se torna uma extensão do eu, a parte visível do “ego” e Le Breton relaciona essas práticas de “correção” do corpo com a medicalização da vida cotidiana e com a produção farmacológica de si.

Por um lado, o corpo visível é reconstruído, por outro, as emoções e sensações são controladas através do uso cotidiano dos psicotrópicos. Do dentro ao fora, do visível ao sensível, essa desconfiança com o corpo leva os indivíduos a usar pílulas e medicamentos para tudo: para acordar, para dormir, para estar em forma, para combater o estresse, a apatia, para engordar, para emagrecer, para bronzear...

Para Le Breton, “o corpo humano virou um continente explorado pelos cientistas em busca de benefícios. No tempo dos anatomistas, os pesquisadores somente procuravam nomear cada fragmento do corpo, hoje eles tomam posse dele para melhor gerenciar os seus usos econômicos potenciais.
A colonização não é mais espacial, ela investe na corporeidade humana” (:117).

Através de uma leitura crítica dos avanços em genética humana e reprodução artificial, Le Breton mostra em quais pontos o homem procura dominar a sua incorporação ao mundo: a fecundação in vitro (FIV), os controles de “fabricação”, os testes do embrião, a idéia de uma infanticida na medicina, a utopia de uma gravidez masculina, estes são os signos de uma forma de eugenismo pós-moderno.

O Projeto Genome que tenta cartografar a estrutura do DNA humano, considerando que o nosso destino é inscrito nos nossos genes, e as experiências com a clonagem que aparecem como uma tentativa de avaliar as razões genéticas das coisas “humanas”: de explicar tudo pelo genético.

Assim, hoje, certos cientistas americanos, pensam “seriamente” que a violência pode ser de origem genética, como seriam também o homossexualismo, o alcoolismo... e isso, “do mesmo jeito que, na época da escravidão, teriam descoberto a existência de um gene do escravo!”
(1999: 104).

As questões de Bioética, levantadas por essas novas ciências, aparecem aqui como novas perturbações introduzidas na configuração do corpo e na configuração do mundo. Da mesma forma, “o virtual marca o começo de um novo paradigma da relação do homem com o mundo” (: 16). Ciberespaço, cibersexualidade, inteligência artificial, mito do Andróide sensível e inteligente...

O corpo da realidade virtual aparece desencarnado e a carne vira uma pura ficção.

O ciberespaço parece poder livrar finalmente o homem da “escravidão do corpo” (Timothy Leary). A noção de “carne-no-mundo” e toda a fenomenologia do corpo desenvolvida por Merleau-Ponty não tocam mais ninguém, a relação com o mundo está sendo radicalmente transformada numa troca de informações, na qual os homens sonham ser “eletrônicos”... Esse mito do “homem silicium” pode assustar os mais sensíveis, os leitores mais emotivos, aqueles que ainda estão-no-mundo, mas o discurso de Le Breton é sem exagero e sem ambigüidades, ele termina seu livro confessando que “felizmente, ficamos em carne e osso para não perder o gosto do mundo”(: 223). Da sua “ciência” antropológica, David Le Breton consegue mostrar com explicações sábias os elementos mais recentes da imensa história do corpo descrevendo com fineza as conseqüências das novas tecnologias sobre o nosso “corpo” total (Mauss, 1950), social, biológico e psicológico.

Da sua paixão pela “ficção”, ele escolhe os melhores exemplos ilustrativos, as imagens mais marcantes do nosso novo imaginário do corpo. Como Paul Stoller, David Le Breton sabe desfrutar de todas as riquezas descritivas e evocativas da literatura e por meio desse diálogo incessante entre Antropologia e Literatura.

Ele criou um estilo de escrever a “Antropologia” rompendo definitivamente as fronteiras entre os gêneros. Ele faz na escrita, na sua prática antropológica, o que James Clifford e os pós-modernos americanos apenas teorizaram: “Para mim, somente a literatura pode realmente dar conta desse mundo de sutileza e de fragilidade do corpo humano” (Barthes, 1978).



Stéphane Rémy MALYSSE Coordenador do Núcleo Visual de Antropologia – UFBA REVISTA DE ANTROPOLOGIA, SÃO PAULO, USP, 2000, V. 43 nº 2.