quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Da Terra à Lua - Jules Verne


Durante muito tempo, Barbicane e os companheiros olharam, mudos e pensativos, aquele mundo que apenas tinham visto de longe, como Moisés a terra de Canaã, e de que se afastavam definitivamente.

A posição do projétil em relação à Lua modificara-se. A sua base estava nesse momento voltada para a Terra.

Ao verificar tal alteração, Barbicane não deixou de surpreender-se. Se o projétil devia gravitar à volta do satélite, seguindo uma órbita elíptica, por que razão não lhe apresentava a parte mais pesada, como faz, a Lua em face da Terra? Havia algo de obscuro nisto.

Pela simples observação da marcha do projétil, podia verificar-se que ele seguia, ao afastar-se da Lua, uma curva idêntica à que havia quando da aproximação. Traçava, portanto, uma elipse muito alongada, que se prolongava provavelmente até o ponto de igual atração, onde se neutralizam as influências da Terra e do seu satélite.

Tal foi a conclusão que Barbicane tirou dos fatos observados, conclusão que, aliás, foi partilhada pelos seus dois amigos.

- E logo choveram as perguntas.

- E chegados a esse ponto morto, que nos acontecerá? - perguntou Michel Ardan.

- Isso é uma incógnita - respondeu Barbicane.

- Mas podem antecipar-se algumas hipóteses, suponho...

- Duas - precisou Barbicane -: ou a velocidade do projétil é insuficiente, e nesse caso ficará eternamente imóvel nessa linha de dupla atração...

- Prefiro a outra, seja qual for - comentou Michel. Velocidade é suficiente - concluiu Barbicane -, e então retomará a rota elícita, e gravitará eternamente à volta do astro da noite.

- Alternativa pouco consoladora - opinou Michel.

- Passar ao estado de humildes servidores de uma Lua que estamos habituados a considerar como nossa serva. Eis o futuro que nos espera.

Barbicane e Nicoles nada disseram.

- Ali! calam-se? - continuou o impaciente Michel.

- Mas se não há nada a dizer... - justificou-se Nicoles.

- E não haverá nada a tentar?

- Nada - respondeu Barbicane. - Ou pretendes lutar contra o impossível?

- E por que não? Um francês e dois americanos hão de recuar diante de semelhante palavra?

- Mas que queres fazer ?

- Dominar este movimento que nos arrasta!

- Dominá-lo?

- Sim - insistiu Michel, entusiasmando-se.

- Travá-lo, modificá-lo, usá-lo, enfim, de maneira a realizarmos os nossos projetos.

- E como?

- 0 problema é vosso! Os artilheiros que não são senhores dos seus projéteis não são artilheiros. Se é o projétil que manda no artilheiro, o melhor é que o artilheiro se meta dentro do canhão lugar do projétil. Belos sábios, sim, senhor. Ei-los que não sabem o que há de fazer depois de me terem induzido...

- Induzido - exclamaram Barbicane e Nicoles. - Induzido!

- Que queres dizer?

- Nada de recriminações! - avisou Michel. Eu não me queixo! Mas, por favor, façamos tudo o que for humanamente possível para cairmos em qualquer lugar, já que não o podemos fazer na
Lua!

- Mas nós também não queremos outra coisa, meu caro Michel - replicou Barbicane. - Só que não temos meios.

- Não podemos modificar o movimento do projétil?

- Não.

- Nem diminuir-lhe a velocidade?

- Não.

- Nem mesmo aliviando-o, como se alivia um navio com excesso de carga?

- Que queres alijar? - perguntou por sua vez Nicoles. - Não temos lastro a bordo. E, de resto,
parece-me que, se aliviássemos o projétil, a velocidade aumentaria.

- Diminuiria - insistiu Michel.

- Aumentaria - teimou Nicoles.

- Nem diminuiria nem aumentaria - asseverou Barbicane, pondo fim à disputa dos dois amigos -, porque flutuamos no vácuo, onde o peso específico não conta. Sendo assim - exclamou resolutamente Michel Ardan -, só há uma coisa a fazer.

- O quê? - quis saber Nicoles.

- Almoçar! - respondeu o imperturbável e audacioso francês, que propunha sempre esta solução quando se apresentavam as mais difíceis conjunturas.



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