sábado, 5 de setembro de 2009

Queda Livre - Lois McMaster Bujold



A borda resplandecente do planeta Rodeo girava vertiginosamente frente ao porto de observação da estação de transferência orbital.

Uma mulher que Leo Graf reconheceu como sendo um de seus companheiros de viagem e que desembarcara da nave de Salto junto com ele, olhava ansiosamente para fora por minutos e então virou-se, piscando e engolindo seco e sentou-se abruptamente em uma das brilhantes cadeiras almofadadas. Fechou e abriu os olhos embaraçada.

Leo sorriu com simpatia. Imune as náuseas das viagens espaciais, foi assumir um lugar no posto de observação de cristal. Uma delgada capa de nuvens girava na fina atmosfera muito abaixo, mal permitindo ver o que parecia ser um gigantesco deserto de areia vermelha.

Rodeo era um mundo marginal, servindo somente para as operações de mineração e perfuração da Galactech, e para suas instalações de apoio.
Mas o que ele estava fazendo ali? Leo se perguntou de novo. Operações subterrâneas não faziam parte do seu campo de atuação.

O planeta saiu da vista devido a rotação da estação. Leo procurou a outra janela, dando a volta ao redor do eixo da estação enquanto observava os pontos de stress imaginando quando fora a última vez que foram radiografados buscando falhas escondidas.
As forças centrífugas agindo na borda do salão de passageiros, parecia ter cerca da metade da gravidade da Terra, ou um pouco menos.

Seria para deliberadamente reduzir o stress, previstos na estrutura?
Mas ele estava aqui para treinamento, disseram no Quartel general da Galactech na Terra, estava ali para ensinar procedimentos de controle de qualidade em soldagem e construção em queda livre. Mas para quem? E por aqui, no fim do mundo? O "Projeto Cay" era um título singularmente pouco informativo para sua missão.

"Leo Graf?"

Leo virou-se. Sim.

A pessoa que lhe chamara era alto e de cabelos escuros, talvez trinta, talvez quarenta anos. Usava roupas civis conservadoras, mas um alfinete de lapela o identificava como um homem da empresa. Do tipo executivo sedentário, Leo pensou. A mão estendida para Leo era uniformemente bronzeada, mas macia.

"Eu sou Bruce Van Atta".

A mão rude de Leo era pálida, com manchas marrons. Leo era do tipo corpulento, nos seus quarenta anos, vestia o confortável uniforme vermelho da Companhia, como de hábito, em parte para poder-se misturar com os trabalhadores que supervisionava, mas principalmente para que não precisasse perder tempo pensando no que vestir de manhã.

"Graf", viu ele na credencial sobre o seu bolso no peito esquerdo, eliminando assim todo o mistério.

"Bem-vindo a Rodeio, a axila do universo", sorriu Van Atta.

"Obrigado", Leo sorriu de volta automaticamente.

"Estou à frente do Projeto Cay agora, vou ser o seu chefe," Eu solicitei você pessoalmente, sabe? Você vai me ajudar a conseguir que essa divisão entre finalmente em funcionamento. Você é como eu, eu sei, não tem paciência com os tontos. Foi um trabalho infernal que me deram, tentar fazer com que esta divisão fosse lucrativa - mas se eu conseguir, vou ser o Garoto de Ouro da empresa".

"Solicitou-me?" Leo estava contente em pensar que sua fama o precedia, mas por que não poderia ser solicitado ao menos uma vez por alguém em um Jardim paradisíaco? "Ah, bem...Eles me disseram na sede que eu estava sendo enviado aqui para dar uma versão expandida do meu curso de curta duração em testes não-destrutivos."

"Isso foi tudo que lhe disseram?" Van Atta perguntou com espanto.

Quando Leo encolheu os ombros afirmativamente, ele jogou a cabeça para trás e gargalhou.

"Questão de segurança, suponho eu" Van Atta disse quando parou de rir. "Você vai ter uma surpresa. Bem, bem. Eu não vou estragá-la."

O sorriso malicioso de Van Atta foi tão irritante quanto uma cotovelada nas costelas.
Demasiado familiar... oh, inferno, Leo pensou, esse cara me conhece de algum lugar. E ele acha que eu o conheço ... Leo sorriu educadamente tentando esconder um leve pânico.
Ele havia conhecido milhares de pessoas em dezoito anos de carreira na GalacTech. Talvez Van Atta dissesse algo mais que aumentasse as possibilidades de reconhecê-lo.

"Minhas instruções dizem que um Doutor Cay seria o titular do Projeto Cay," Leo falou. "Irei encontrá-lo?"

"Informação antiga", disse Van Atta. "O Doutor Cay faleceu no ano passado... muitos anos depois do que deveria ter sido forçosamente aposentado, na minha opinião, mas ele era vice-presidente e acionista majoritário e profundamente arraigado, mas isso é passado. Eu o substituí". Van Atta balançou a cabeça. "Não posso esperar para ver a expressão no seu rosto quando você tiver visto... venha comigo. Tenho um transporte particular esperando.

Eles tinham um transporte para seis pessoas à disposição para os dois apenas, mais o piloto.
O assento do passageiro moldou-se ao corpo de Leo durante os breves períodos de aceleração.
Períodos muito breves, claramente não eram de frenagem para a reentrada planetária.
Rodeo estava abaixo deles, se afastando.

"Onde estamos indo?" Leo perguntou a Van Atta, sentado junto dele.

"Ah", disse Van Atta, "Vê aquele pontinho há cerca de trinta graus sobre o horizonte? Olhe para ele. É a base do Projeto Cay."

A partícula cresceu rapidamente tornando-se uma estrutura longínquos caótica, cheia de ângulos e projeções, com luzes coloridas iluminando seus contornos sombrios. O olho treinado de Leo descobriu as pistas para suas funções, os tanques, os portos, os filtros faiscando na luz solar, o tamanho dos painéis solares em relação ao volume estimado da estrutura.

"Um habitat orbital?"

"Você acertou" afirmou Van Atta.

"É enorme".

"De fato".

"Quantas pessoas podem viver ali? "

"Oh... umas quinhentas".

As sobrancelhas de Van Atta subiram, talvez decepcionado por não ter sido capaz de oferecer uma estimativa correta. "Quase isso. Quatrocentas e noventa e quatro pessoas da Galactech em regime de turno e mil habitantes permanentes."

Os lábios de Leo ecoaram a palavra, permanente... "Falando de turno - Como você lida com o condicionamento das equipes? Eu não vejo..." seus olhos inventariaram a estrutura enorme "Eu não vejo um anel de exercícios. Não tem um ginásio?"

"Há um ginásio sem gravidade. O pessoal rotativo passa um mês lá embaixo a cada três meses do turno."

"Sai caro".

"Mas colocamos o Habitat lá por menos de uma quarto do custo do mesmo volume de alojamento com gravidade".

"Mas certamente você vai perder o que economizou em custos de construção, ao longo do tempo, no transporte de pessoal e em despesas médicas",Leo argumentou. "As viagens extras, as longas dispensas... cada um que quebrar um braço ou uma perna irá processar a Galactech por angústia mental, tendo ele uma desmineralização óssea significativa ou não. "

"Resolvemos esse problema também", disse Van Atta. "Se o custo-benefício da solução for ótimo... bem, é para isso que você e eu estamos aqui, para tentar provar que vale a pena."

O veículo delicadamente se alinhou com a escotilha ao lado do Habitat e acomodou-se com um tranqüilizador clique. O piloto desligou os sistemas e retirou o cinto e flutuou passando por Leo e Van Atta, indo verificar a escotilha. "Pronto para desembarcar, Sr. Van Atta."

"Obrigado Grant."

Leo soltou-se das presilhas de sua cadeira e esticou relaxado na familiar e prazerosa falta de peso. Ele não sofria com as indesejáveis náuseas que abatiam tantos funcionários.
O corpo de Leo era normal; mas aqui, onde o controle e a prática e a sagacidade contavam mais do que a força, ele era um atleta. Sorrindo para si mesmo, ele seguiu Van Atta de apoio de mão em apoio de mão, através da escotilha do ônibus espacial.

Um técnico de rosto rosado operava o painel de controle no interior do corredor de conexão. Vestia uma camiseta vermelha com o logotipo da Galactech sobre o peito esquerdo. Os cachos loiros de sua cabeça lembraram para Leo um cordeiro, talvez um efeito de sua óbvia juventude.

"Olá, Tony, Van Atta cumprimentou-o com alegre familiaridade.

"Boa tarde, Sr. Van Atta," o jovem respondeu com deferência. Sorriu para Leo e fez um movimento com a cabeça para Van Atta em uma pantomima pedindo uma introdução. "É este o novo professor que nos falou?"

"Certamente que é. Leo Graf, este é o Tony... ele vai estar entre os seus primeiros estagiários. Ele é um dos residentes permanentes do habitat", disse Van Atta adicionado uma ênfase peculiar. "Tony é soldador e marceneiro, segundo grau - trabalhando na primeira, certo Tony?" Van Atta sorria com afetação.

Tony colocou-se obedientemente de lado ao painel de controle. Vestia shorts vermelhos e...
Leo pestanejou e então quase parou de respirar.
O menino não tinha pernas. Um segundo par de braços saia de seus shorts.

Braços funcionais, usava-os agora mesmo. O braço inferior esquerdo, Leo supôs que teria que chamá-lo assim...ancorava-o. Quando estendeu a mão para Leo. O sorriso deste foi inconsciente.
Leo tinha perdido o controle da própria mão e teve dificuldade em recuperá-lo, e esticou-se desajeitadamente para atender ao aperto de mão oferecida.

"Como vai você," Leo conseguiu dizer.

Era quase impossível não olhar. Leo forçou-se a concentrar o seu olhar nos olhos azuis do jovem.

"Olá, senhor. Eu estava ansioso por conhecê-lo."

O aperto de mão de Tony era tímido, mas sincero, com a mão seca e forte.

"Hmm ..." Leo vacilou. "Qual é o seu sobrenome, huh, Tony?"

"Oh, Tony é meu apelido, senhor. Meu nome completo é TY-776-424-XG".

"Eu, huh... acho que vou chamá-lo de Tony então." Leo murmurou cada vez mais atordoado. Van Atta parecia estar gostando do desconforto de Leo.

"Todos me chamam assim" disse Tony agradavelmente.

"Pegue as malas do Senhor Graf, Tony", disse Van Atta. "Venha Leo, vou mostrar-lhe seu quarto, e então nós podemos fazer turismo pela base."

Leo seguiu seu guia flutuando na corredor, olhando por cima do ombro com espanto renovado ao ver como Tony lançou-se com precisão pela câmara e através da escotilha do ônibus.

"Isto é..." Leo engoliu em seco, "o defeito congênito mais extraordinário que já vi. Alguém teve uma idéia genial ao dar-lhe um emprego em queda livre. Ele seria um aleijado em terra."

"Defeito de nascença." Van Atta riu-se. "Sim, é um jeito de descrevê-lo. Eu queria que você pudesse ter visto a expressão em seu rosto quando ele apareceu. Quero parabenizá-lo por seu autocontrole. Eu quase vomitei quando vi pela primeira vez, e eu estava preparado. Você no entanto se acostumou com os pequenos chimpanzés consideravelmente rápido."

"Há mais do que um ?"

Van Atta abria e fechava as mãos em um gesto de contagem. "Quase mil. A primeira geração dos novos super-trabalhadores da Galactech. O nome deste jogo, Leo, é bioengenharia. E eu pretendo vencer".

Tony com a valise de Leo em sua mão direita mais baixa, cruzou entre Leo e Van Atta no corredor cilíndrico e parando a frente deles com três toques hábeis nos apoios de mão da passagem, disse: "Senhor Van Atta, posso apresentar o Senhor Graf para alguém, no caminho da ala dos visitantes? Não nos desviaremos muito...Hidroponia".

Os lábios franzidos de Van Atta se transformaram num sorriso gentil. "Por que não? Hidroponia está no itinerário desta tarde de qualquer maneira."

"Obrigado, senhor" gritou Tony e voou com entusiasmo para abrir a comporta de ar antes deles, ao final do corredor, e aguardou para fechá-la novamente atrás deles no outro lado.

Leo prestava atenção em seu redor, como uma alternativa menos rude do que estudar o menino.

O Habitat era efetivamente uma construção barata, na sua maioria unidades pré-fabricadas combinadas. Não era uma concepção esteticamente elegante ... um certo aspecto acidental indicava um padrão de crescimento orgânico na criação do Habitat, com unidades presas aqui e ali para acomodar novas necessidades. Mas esta mesma arquitetura caótica incorporava vantagens de segurança que Leo aprovou, como o sistema intercambiável de selagem atmosférico, por exemplo.

Passaram pelas alas dos dormitórios, de preparo de alimentos e de áreas de refeições, uma oficina para pequenos reparos... Leo fez uma pausa para olhar para baixo em seu comprimento e teve de se apressar para recuperar o atraso em relação a seu guia.

Diferentemente da maioria dos espaços habitáveis em queda-livre que Leo tinha conhecido, não havia nenhum esforço aqui para manter uma arbitrariedade de direções, o acima e abaixo, para facilitar a psicologia visual dos habitantes. A maioria das câmaras eram cilindros com espaços de trabalho e de armazenagem da embalagem, presos de forma eficiente nas paredes e ao centro-esquerda, sem obstrução à passagem de... bem, mal dava para chamá-los de pedestres.

No caminho eles passaram por uma dúzia de... pessoas com quatro mãos, o novo modelo de trabalhadores, o povo de Tony, ou o que quer que fossem chamados... será que tinham uma designação oficial, Leo se perguntou.

Ele olhou disfarçadamente, desviando seu olhar sempre que outro olhava de volta, o que ocorreu muitas vezes, eles abertamente olhavam para ele e cochichavam entre si.

Ele entendeu porque Van Atta chamou-os de chimpanzés. Eles tinham sido modificados, não possuíam os poderosos músculos do glúteo locomotor que as pessoas tem por conta das pernas. O conjunto de braços menores tendia a ser mais musculoso do que a parte superior em ambos os sexos masculino e feminino, poderosas garras. Estavam vestidos na maioria com o traje confortável e prático que Tony usava, evidentemente codificados por cores. Leo passou por vários deles em amarelo, atentamente pairando em torno de um humano normal num macacão da Galactech, que trabalhava numa unidade de bombeamento, meio distante e falando sobre sua função e sobre o reparo em si. Leo pensou em um bando de canários, de esquilos voadores, de macacos, de aranhas, de lagartos ágeis brilhantes do gênero que sobe pelas paredes.
Davam a Leo a vontade de gritar, quase chorar, e não era pelos braços ou pela rapidez, ou as demasiadas mãos.

Tinha quase alcançado a Hidroponia quando foi capaz de analisar o seu intenso mal-estar.

Eram seus rostos que o incomodava, Leo percebeu.

Tinham rostos de crianças...



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