sábado, 12 de setembro de 2009

Stalker


Em 1977, enquanto George Lucas estava tomando as rédeas da Ficção Científica americana, ao criar Star Wars, Andrei Tarkovsky estava criando um dos marcos da Ficção Científica soviética ao produzir um filme de arte caracteristicamente cerebral.

O ano do lançamento do filme também foi marcado pela publicação em inglês do livro, “Piknik na obochine”(Roadside picnic ou Piquenique à margem da estrada), no qual o filme se baseou.

O romance de Boris e Arkady Strugatsky (traduzido para o inglês por Antonina W. Bouis) é tão cerebral e simbólico como sua contraparte cinematográfica, e tão poderoso e fresco como o dia em que foi publicado pela primeira vez .

Roadside Picnic abrange oito anos na vida de Redrick "Red" Schuart. Red é um homem inculto, propenso a beber, mulherengo e brigão.

E ele também é um Stalker.

Aos vinte e três anos, quando o livro começa, Red já é um especialista em perigos e possibilidades da Zona.

A Zona é uma das diversas áreas caracterizadas pelos restos de uma breve visita de alienígenas ao novo planeta. Agora que se foram, os alienígenas deixaram no seu rastro, itens de avançada tecnologia e áreas onde as leis da física não se aplicam mais, ou onde substâncias estranhas são capazes de matar de imediato, matar ou nocautear qualquer ser humano que entra em contato com elas.

É claro que os humanos criaram um instituto que investiga a Zona, a fim de extrair tecnologia. Igualmente sem surpresa, a Zona atrai também Stalkers ilegais, que se aventuram na Zona sem as salvaguardas tecnológicas oferecidas pelo instituto, mas para quem o potencial de ganhos no mercado negro é muito maior.

Conforme o livro avança, seguimos Red, como ele primeiro fica atraído para este mundo da ilegalidade e, em seguida, após um período na prisão, ao se preparar para aventurar-se nas profundezas da Zona em busca de uma bola de ouro, que se diz conceder desejos.

Embora alguns críticos tenham rapidamente projetado a sua própria opinião a respeito da União Soviética, ao interpretar o livro como uma crítica à burocracia e as economias planejadas, Roadside Picnic na verdade não é imediatamente identificável como um livro produzido sob um governo comunista.Mesmo os nomes dos personagens não são fáceis de identificar uma determinada cultura ou classe social.

A história bem poderia se passar na Rússia, mas poderia facilmente ocorrer na Europa ou na América; Harmont é uma cidade que cresceu ao redor da Zona e tem uma relação muito mais estreita com a Zona do que com o mundo exterior.

Os irmãos Strugatsky também tendem a dar apelidos para os Stalkers como "Porcupine", "Buzzard", ou "Professor", distanciando-os mais do mundo real, onde as pessoas têm nomes normais, bem como consolidar a sua relação com a Zona, cujas maravilhas também têm apelidos peculiares como "geléia de bruxas".

A cidade fictícia dos Strugatsky não é uma interpretação das cidades soviéticas e da vida nelas, mas sim, é uma cidade onde tudo e todos são definidos por sua relação com a Zona.

Red tem toda sua vida determinada pela Zona.

A Zona em si não é um conceito único na FC. Em 1960, Rogue Moon de Algys Budry era também um lugar irreal cheio de grandes recompensas e armadilhas mortais. Também Gateway(1976) de Frederik Pohl. Embora existam diferenças entre a forma de explorar a idéia (Para Pohl, por exemplo, ela é muito mais compreensível do que a dos irmãos Strugatsky), todos eles visitam a idéia de uma Heterotopia do espaço, completamente em desacordo com a segurança do mundo normal e apenas visitável por aqueles que buscam benefícios psicológicos ou materiais, que não seriam acessíveis a eles.

Na verdade a metáfora aparece mesmo no gênero Fantasia, com o conceito da masmorra (Dungeon), tão popular em jogos de RPG de Fantasia. A idéia é antiga: tudo o que muda é o aspecto ou o tipo de bizarrice que os escritores desejam acentuar. No entanto, em muitos aspectos, a Zona continua a ser a concepção mais clara e mais influente das perigosas recompensas deste Outro-espaço. Nova Swing de M. John Harrison, apresenta uma homenagem a Zona na forma do Site, um lugar onde as leis da lógica e até mesmo da sanidade estão partidas.

Mesmo no mundo real o conceito existe: As pessoas que se arriscam pelas 1.400 milhas quadradas da Zona de Alienação ao redor de Chernobyl, referem-se a si mesmos como Stalkers (há inclusive um game baseado nisso).

Se a bola de ouro representa o desejo em potencial, então eu diria que a região como um todo pode ser tomada como um símbolo da esperança, da aspiração, um reino de possibilidades e probabilidades.

Red é um personagem que, desiludido com as precauções excessivas e a forma pouco gratificante de explorar a Zona, resolve fazê-lo por conta própria. Ele quer estar na Zona, porque lá tudo é possível. É por isso que ele está distante de sua família, é por este motivo que toda a cidade de Harmont está voltada para a Zona e longe do resto do mundo: todos são criaturas da Zona, e todos preferem viver na esperança ao invés do mundo real, o mundo das realidades e certezas, onde até mesmo o perigo é higienizado, limitado e controlado.

Com essa mentalidade, é talvez inevitável que Red veja a sua "vida familiar normal" como algo irreal e temporário. Porque a zona tem potencial para mudar essa vida para melhor e para pior, a vida doméstica dos Stalkers é tão boa quanto o produto da última excursão para a Zona.

Assim, apesar das potencialidades e das possibilidades, a Zona é basicamente a única medida verdadeira da vida de um Stalker.

O possível torna-se o real e o real torna-se o potencial.

Jonathan McCalmont


Roadside Picnic - Boris e Arkady Strugatsky [ Download ]