sábado, 12 de setembro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 1 de 6



A segunda edição da revista Ficção Contemporânea, dedicada a Ficção Científica soviética, trazia um texto intitulado 'Stalker or The desire machine' (O guia ou A máquina dos desejos), escrita por um dos grandes mestres da FC mundial, Arkadi Strugatsky.

Não se trata exatamente do roteiro do filme Stalker (1979), dirigido por Andrei Tarkovsky, que também fora responsável por filmar a obra máxima de FC de Stanislav Lem, Solaris.

O Guia ou A Máquina dos desejos é um relato fluido, da FC seminal dos irmãos Boris e Arkadi Strutgasky (sumariamente FC humanista), e que incluiu um pouco da atmosfera do filme de Tarkovski.

No livro dos irmãos Strugatsk, 'Piquenique à margem da estrada', de onde a ídeia para o filme foi retirada, a Zona se encontra no Canadá e Tarkovsky utilizou o nome em inglês, Stalker ('guia' em inglês), e não em russo.



INTRODUÇÃO

Há vários anos atrás tivemos a honra de participar da criação do filme 'Stalker'.
Este filme teve primeiramente como base, o quarto capítulo de nosso livro 'Piquenique à margem da estrada'.
No decorrer do trabalho (que levou 3 anos para ser concluído) percebemos que o filme não teria nada em comum com o livro. O roteiro definitivo apenas manteve do livro a palavra Stalker, e a mística Zona, o lugar onde os desejos se tornam realidade. Aqui está um dos primeiros roteiros e que resultou no conhecido filme. Nos propuseram muito gentilmente publicá-lo também, pois assim como o filme, o roteiro teria direito a existência.
Arkadi Strugatsky.


***



PRIMEIRA PARTE

A casa do Stalker


Uma casa cheia de trastes velhos. Uma manhã de inverno bem cedo. Lá fora, reina a escuridão. Um homem taciturno joga o cobertor para o lado e se levanta da cama em silêncio. Pega algumas roupas e na ponta dos pés, vai até o banheiro e começa a se vestir. Não vê quando sua mulher aparece, desgrenhada e sonolenta à porta do banheiro, numa camisola velha.
- Aonde vai tão cedo?
Nenhuma resposta.
- Pegar rãs... volto logo. Eu tenho um assunto a tratar. Durma...
- O que você quer dizer com logo?
- Eu disse que voltarei e é o suficiente. Vá dormir.
- Não minta. Eu sei para onde você vai. Esqueça! Não deixarei que vá!
- Calma! E não grite...
- Eu não quero que vá. Meu coração me avisou... você e seus truques velhos outra vez! Quer parar na cadeia?
- Vale mais ir para a prisão... do que continuar nesta vida. Pra mim chega.
- Você não vai a lugar nenhum.
Ele endireitou bruscamente. Ela grita:
- Vá em frente, me bate, me bate, sim, você pode fazê-lo! Por que não me bate? Molengão...você é um molenga! Onde está a sua palavra? Olha o que você se tornou!
- Acalme-se! Assim vai acordar o bebê...
- Que acorde! Para ver o seu pai, ver o que ele é! Diga-me, onde está a sua palavra? Onde? Sai como um ladrão na ponta dos pés...
- É o que eu sou, um ladrão! Parece novidade para você! Descobriu a pólvora! Mas não roubo das pessoas... eu disse para você se acalmar!
- Não, agora não me acalmarei. Por cinco anos você foi para a Zona e eu nada disse. Esperando que a qualquer momento te capturassem. Fiquei calada enquanto você estava na cadeia. Você me ouviu dizer uma palavra, hein? Dois anos sem um centavo nesta casa, e eu em silêncio. A pulseira, lembrança de minha mãe, você roubou e foi jogar no hipódromo, não pense que não sei o que aconteceu com ela!
- Vai se calar ou não?
- Me ouve! Eu imploro! Eu nunca pedi nada. Se você quiser, eu fico de joelhos ... Espera, espere um minuto... Eu vou e volto logo.
Sai do banheiro e voltou com um envelope nas mãos.
- Olha, aqui está o dinheiro. Você quer? Toma, vá com os amigos para as corridas... talvez você
esteja com sorte...
- O que é isso? Você está louca? Guardamos esse dinheiro para o médico...
- Não importa, você vai receber mais. Pedirei emprestado... Mas não vá para lá...
- Acalme-se de uma vez! Pode ficar calada? Não vai pedir emprestado pra ninguém, ninguém vai dar mais... Olhe para você! Não podemos viver assim!
- Mas você me prometeu! Você me deu sua palavra...
- Eu fui um idiota, por isso eu te prometi. Você também é culpada! Você mesma me levou a este ponto! Você quer que eu, um Stalker, peça esmolas? Que viva do seu dinheiro? Basta. Melhor não me perturbar.
- Mas se te prometeram trabalho! Você me disse que sim. Que você estava indo trabalhar em um táxi.
- Aghh, de novo esta história do táxi? Quantas vezes eu tenho que dizer que não vou trabalhar para eles! Nunca trabalhei para ninguém! Eles que trabalhem para mim! Deixe-me ir!
- Não!
- Eu parei de ir para a Zona e o que mudou? O bebê ficou curado? Temos mais dinheiro?
- E se você não voltar, o que será de nós?
- Não seja uma ave de mau agouro! E se eu não voltar, merecerei o que receber!
Ele a empurra.
- Está bem, sai daqui! Oxalá apodreça por lá! Maldito seja o dia que eu te conheci! Verme!
Amaldiçoei Deus por ter me dado esta criança! É tudo culpa sua, Canalha! Ladrão! Ladrão! Ladrão!
A menina começa a chorar. Ele sai para o corredor, batendo a porta.
Uma lâmpada pendurada no bocal ilumina a beirada da janela. Lá embaixo, no pátio, um homem bem vestido cambaleia, sem chapéu, com seu casaco manchado. Olhando de perto se vê que está mais bêbado que um gambá.


O Bar

O Stalker atravessa a rua escura e lamacenta devido a neve.
Entra no bar aberto dia e noite. Não há quase ninguém e o taberneiro cochila atrás do balcão. Sentado em uma mesa tomando café está o cientista. Ao ver o Stalker ele consulta o relógio, e este faz um gesto com a mão.
- Espere, eu vou tomar um café.
Pega uma xícara de café no balcão e senta-se na frente do cientista e bebe alguns goles.
O cientista olha para ele.
- Bem, não fique muito esperançoso - diz o Stalker. - Você pode retornar de mãos vazias. Isso depende do tempo... Então, não fique feliz por antecedência. Não se esqueceu da lanterna?
- Não, ela está no carro.
Deixam o bar e entram no carro estacionado nas proximidades.
O Stalker ao volante. O carro arranca.


Na Casa do Escritor

Todas as janelas estão iluminadas. Há música, vozes e risos embriagados de mulheres.
No portão estão o Escritor e uma convidada. O Escritor está vestindo um longo casaco preto e
um cachecol de malha. A convidada está na frente dele com uma garrafa e um copo às mãos.
- Querida! O mundo é um absurdo - enfatiza o Escritor acenando e agitando um dedo. Mais chato do que uma ostra... Sendo assim, não pode haver telepatia ou fantasmas, ou discos voadores. Nada disso...
- Sim, mas a nota de Campbell ... diz a convidada.
- Campbell é um romântico. Avis Rara in Terris, como não há nenhuma outra. O mundo é governado por leis implacáveis e não poderia ser mais chato... Você nunca percebeu que só é interessante quando elas são violadas? E não existem discos voadores de nenhuma espécie: o que seria muito interessante...
- Mas e o Triângulo das Bermudas Não vai dizer que...
- Sim. Eu vou. Não há Triângulo das Bermudas. Há um triângulo ABC onde a, b e c são as medidas dos lados do triângulo... Não acha isso tedioso? Na Idade Média era interessante. Havia bruxas, fantasmas, gnomos... Cada casa tinha o seu fantasma, em cada igreja havia um Deus... O mundo era novo, entende? Mas agora, de cada quatro pessoas uma é velha. Que tédio, meu anjo. Oh, que chatice!
- Mas você não vai dizer que a Zona... é criação de uma supercivilização que...
- Mas e se a área não tem nada a ver com qualquer supercivilização? Simplesmente tenha se manifestado por outra lei safada e chata que não conhecíamos antes... E mesmo que uma... supercivilização existisse, também provavelmente seria chata... Também teria suas leis, seus triângulos e não teria duendes, nenhum Deus...
Som de automóvel. E escritor se vira.
- Estão vindo me buscar. Adeus minha querida amiga.
Arranca a garrafa da convidada e se encaminha para o carro.
Iluminado pelos faróis junto a porta do motorista, aparece a cara risonha e molhada e que por um instante parece perplexa.
- Perdão... diz o Escritor. Creio que estão me procurando.
- Sim estamos, diz o Stalker. Sente-se no banco de trás.
- Ah, você está aqui... muito prazer. Mas quem é este outro sujeito? Achei que eu estava de óculos...
- Rápido!
O carro arranca.
O Escritor cai ao banco traseiro.
- Eu digo - pronuncia gaguejando - Eu tenho uma pequena surpresa: Onde deixei os óculos?
O cientista aperta os lábios.
- Óculos, pode dizer o que quiser, mas são um sintoma de intelectualidade! Pontifica o Escritor.
O Stalker fala sobre seu ombro:
- Está bêbado?
- Eu? De que maneira... De jeito nenhum. Não muitos copos. Tomei alguns copos, sim. Antes de ir pescar. Porque agora nós vamos pescar. Não?


O Posto de segurança

O carro pára em uma caminho de terra secundário. Ao redor se vê um matagal confuso.
O Stalker sai do carro calmamente e vai para o final da estrada, onde se vê o asfalto reluzente e molhado. O Cientista também vai sai do carro e caminha ao seu lado.
- Para que trouxe este intelectual? Pergunta o Cientista.
- Não importa, responde o Stalker. Ele ficará bem. Eu prometo. E depois de dar uma pausa, acrescenta - Por outro lado, o dinheiro dele não é pior do que o seu...
O Cientista o observa rapidamente, mas não abriu mais a boca.
Eles param em uma encruzilhada e do mato avistam o posto de segurança que está na estrada, cerca de cem metros à frente.
Na casa não há luz na janela. Em seguida, o brilho pálido de um refletor poderoso, duas motocicletas com sidecar e um carro patrulha blindado estacionados.
À direita e à esquerda da estrada, muros cobertos por arame e torres armadas com
metralhadoras. A portas da Zona estão abertas.
- A patrulha, diz o Stalker.
- Estão todos dormindo. Completa o Cientista. - Temos de acelerar e atravessar com toda velocidade...Eles não terão tempo nem mesmo para piscar.
- Você é um estrategista. Diz o Stalker.
Sobre o posto de guarda desce lentamente um nevoeiro cinza. Em poucos minutos o nevoeiro engoliu a construção, a porta da garagem e muro. Na névoa cinza vê-se uma mancha pálida de luz.
- Assim é melhor. Diz o Stalker.
Retornam rapidamente ao carro. O Escritor, que dormia no banco de trás, acorda.
- Hã? Pronuncia com uma voz tonitruante. - Chegamos?
O Stalker se vira e, segurando seu rosto com seus cinco dedos, empurra-o com força.
O Escritor atordoado, abre os olhos arregalados e diz num sussurro:
- Ok... entendido... vou ficar calado.
O carro começa a rolar, lentamente, saindo do mato para a estrada, vira e lentamente, muito lentamente, corresponde avança em direção aos sinais de luz que limitam a velocidade, passa frente ao posto de segurança. Ao entrar no raio de luz do farolete das viaturas, iluminando o nevoeiro, vê-se na nas laterais negras uma inscrição em três idiomas:

INSTITUTO DAS NAÇÕES UNIDAS DE CULTURAS EXTRATERRESTRES.

Inesperadamente ouvem uma rajada de metralhadora.
Luzes violáceas do posto se acendem em meio ao nevoeiro.
Agora o carro corre a toda velocidade pela estrada molhada.
O Stalker, com uma ponta de cigarro no canto da boca, lida com o volante.
O clarão das luzes brilham nos óculos de seu vizinho à direita.
O escritor, inclina-se a frente, agarrando com as duas mãos o encosto do banco da frente e fica olhando para a estrada. As coisas se acalmam.
O Stalker diminui e com as luzes apagadas o carro desliza com cautela para fora da estrada, sai pelo caminho, deixando-se fundir com alguns arbustos. Depois que o motor para, ele fala na escuridão:
- Rápido. Sigam-me de perto. Não levantem a cabeça, a mochila deve ser levada à esquerda. Não tenham medo, eles não nos vêem. Se tocar em algo, não gritem nem corram. Se eles nos pegam, nos matarão. Precisaremos nos afastar da estrada. Pela manhã irão nos procurar. Está claro?
- Eu tomaria um trago, disse baixo o Escritor.
- Calma seu beberrão. Vamos!


Antes da partida

Um túnel escuro sem iluminação. Brilham à luz dançante da lanterna elétrica.
Todos os três estão na beira de um vagonete de manutenção. Uma faísca azul por um momento ilumina com estrondo a abóbada úmida. Passam por uma lâmpada que mal ilumina.
- Que ótimo, diz o Escritor. Está mais escuro do que a boca de um lobo. Não vejo nada. É verdade que você é um Professor?
- Sim.
- Meu nome é... começa o Escritor a dizer, mas é interrompido pelo Stalker.
- Você se chama Escritor.
- Hum... diz o Cientista. Se for assim como eu devo me chamar?
- Você é o Professor, responde o Stalker.
- Eles me chamam de Professor, bem, e eu sou um Professor.
- Encantado, diz o Escritor. Bem, eu sou um Escritor e eu, naturalmente, todo mundo me chama, não sei porquê, de Escritor. Você pode imaginar como é chato?
- Você é um escritor famoso?
- Não.
- E o que você escreve?
- Como posso dizer... Principalmente sobre gente. Eles não querem ler outra coisa.
- Acho que tem razão. Provavelmente não vale a pena escrever sobre mais nada.
- Não é verdade. Em geral não vale a pena escrever sobre nada. E você é um químico?
- Mais um físico.
- Também deve ser muito chato, não?
- Acho que sim. Sobretudo quando não se tem muita sorte.

O túnel fica para trás.
Na escuridão do amanhecer, iluminado pelas faíscas, o carrinho elétrico rola ao longo do aterro.
- Bem, para mim, é o oposto, diz o escritor. Me aborrece quando a sorte está comigo há muito tempo...
- E quem a sorte acompanha por muito tempo? Pergunta o Stalker. - Se você perde tudo um dia nas corridas.
- Caro olho de lince, diz o escritor. - O Professor e eu estávamos conversando sobre outras corridas bem diferentes. Nós a cavalgamos toda a vida, e não chamamos de obstáculos, mas os reflexos da realidade objetiva, ou falando na linguagem de leigos, na busca da verdade. Ela se esconde, e nós a procuramos. Encontramos a armadilha, nós divertimo-nos e seguimos em frente. Não é verdade, Professor?
- Minha verdade, em qualquer caso, não se esconde, diz o Professor. Deus é astuto, mas não mal-intencionado.
- O Diabo, corrige o Escritor.
- Einstein dizia "Deus", e se referia à natureza.
- Mas os maniqueístas dizem "o Diabo" e se refere ao Diabo. Pois bem, o Diabo, pode não ser mal-intencionado: esconde a verdade de nós desde o início, e jamais a encontramos.Vocês saem cavando em um lugar ou noutro. Cavam e, ah, o núcleo é composto de prótons. Cavam um pouco mais e que beleza! O triângulo ABC. Não foi tão mal. O meu diabo é diferente. Ele está de braços cruzados. Busco a verdade, mas enquanto isso ele não faz nada com ela. E quando consigo extrair a verdade, temos uma bagunça. Tomemos por exemplo o princípio de Arquimedes... Desde o começo era verdade, continua a ser assim hoje e sempre. Qualquer um pode ver. Mas basta achar qualquer vaso do século oitavo... sim, no século VIII, que agora estão num Museu despertando a admiração pela simplicidade do desenho e da forma, e todos ao redor abrem um palmo de boca, até que se diz que não são do século oito, que que foram feitos por Gur, que o meteu no meio das escavações para causar impacto. Sua forma continua sem igual e o desenho simples, mas a admiração desaparece.
- Espere. Você não tem razão, diz o Professor - Você está falando dos profanadores e dos esnobes.
-Nada disso. Falo dos vasos, diz o Escritor, eu mesmo levo vinte anos modelando e como sou um escritor bastante conhecido, me admiram os críticos pelo meu desenho lacônico e pela forma sem igual. Mas dentro de dez anos pode aparecer um moleque que irá gritar que o rei está morto. E dentro de cem anos, quem sabe, aparecerá outro e começará a gritar: Eureca! Referindo-se as minhas obras. Casos assim já ocorreram.
-Meus Deus, exclama o Professor, você pensa nisso mesmo?
- Foi a primeira vez na vida. Em geral penso pouco. A mim isso me prejudica.
- Quero dizer que não é possível, seguramente, escrever uma historia e pensar como se irá ler a mesma em cem anos.
- Claro que não. Mas por outro lado, se não vão ler, para que eu escreveria?
- E o dinheiro? intercede maldoso o Stalker. - Não pensa nisso? Eu penso em mulheres, corridas, são tudo em que penso. A pura verdade! Vale mais perguntar o quanto lhe pagam por linha escrita.
Silêncio e depois o Professor diz em voz baixa.
- Se é tão simples assim, por que veio a Zona conosco?
- Silencio! ordenou o Stalker.

A velocidade do vagonete diminuiu.
À frente, emergindo da escuridão, se aproximam das ruínas do edifício da estação.
- Chegamos. O Stalker salta sobre os dormentes - Vamos fazer uma pausa.
- Que bom! Diz o Escritor se endireitando. Bem, pelo menos podemos tomar um trago?

Sobre um jornal estendido sobre a plataforma do vagonete, colocam a garrafa térmica de café, uma garrafa de licor e alguns pacotes abertos de comida.
Os três mastigam com vontade, bebendo dos copos descartáveis.
Já está totalmente claro, mas as névoa não se dissipam de tão densas, não leitosas mas quase verdes.
- Para mim vocês dois não passam de principiantes, diz o Stalker. Nunca os vi na Zona e não espero nada bom de vocês. Podem ter me contratado e vou me esforçar para mantê-los vivos o maior tempo possível, portanto, não se ofendam. Não há tempo para gentilezas. Vou castigá-los com o que estiver à mão se não fizeram as coisas direito...
- Por favor, não no meu braço esquerdo, disse o Escritor.
- Por quê?
- Eu o fraturei quando jovem. Eu tenho cuidado com ele.
- Ah... o Stalker sorriu malicioso. Eu pensei que você era canhoto e escrevia com a esquerda. Bem, então te acertarei na cabeça.
- Você está sendo muito severo conosco, disse o escritor esticando a mão para alcançar a garrafa.
O Stalker pega a garrafa, enrosca a tampa com força e a guarda no bolsos do casaco.
O Escritor cantarola enquanto se serve de café.
- Que silêncio, diz o Professor fumando pensativo, encostado com as costas na lateral do vagonete.
-Aqui é sempre silencioso, diz o Stalker. As metralhadoras ficam longe, cerca de quinze quilômetros e não há na Zona nada que faça barulho.
- É possível que estejam a quinze quilômetros? Diz surpreso o Professor. - Eu não tinha idéia de que poderiamos ter penetrado tanto...
- Podemos. Penetramos. Já, já a névoa vai se dissipar e verás como.
De repente eles ouvem um ruído longo e chilreante em meio à névoa.
Todos tremem, até o Stalker.
- O que é isso? Pergunta o Escritor que ficou pálido.
O Stalker balança a cabeça em silêncio.
- E se, apesar de tudo, for verdade que eles vivem aqui...? Pergunta o Professor.
- Quem? Pergunta desdenhosamente o Stalker.
- Eu não sei ... Mas há uma lenda que diz que algumas pessoas ficaram na Zona...
- Isso não é boato e não é lenda, interrompeu o Stalker. Aqui não existe e não pode haver ninguém. É a Zona, entende? A Zona!
Enquanto conversam o Escritor vira a cabeça olhando de um lado para o outro. Está ainda pálido, mas gradualmente se acalma.
- E claro, eu entendo, ele diz que a Zona é a Zona e não uma festa, ou uma bebedeira ou um banquete...mas em todo caso, trouxe algo comigo...
- O que você trouxe? Os olhos do Stalker estão fixos sobre o escritor.
- O que você trouxe espantalho?
O Escritor dá um tapinha no bolso traseiro.
- Me dá! diz o Stalker estendendo a mão.
- Por quê?
- Me dá, já disse!
O Escritor hesita. A expressão de superioridade desaparece em seu rosto.
- Na Zona não se pode atirar, imbecil, diz o Stalker. - Me dê sua arma.
- Não dou, diz com determinação o Escritor, mas acrescenta imediatamente, baixando-o. - Eu preciso dela, entende?
- Eu entendo, diz o Stalker com a voz inesperadamente suave. - Mas não vai precisar dela. Se te pegarem, nem Deus vai poder te salvar. Mas se você estiver em perigo, eu te salvarei. Morto, não, morto vou deixá-lo aqui. Mas se estiver vivo eu te salvarei. Prometo. Não peguei seu dinheiro para nada. Me dá.
O Escritor puxa do bolso de trás uma pequena Browning para uso feminino.
- Não tem mais do que uma bala... na câmara, balbucia
- Entendi...
O Stalker faz saltar o cartucho e atira a arma de maneira desdenhosa entre os dormentes.
- Na Zona não se pode atirar, diz como se ensinando-o. Na Zona às vezes é perigoso atirar até mesmo uma pedra. E você? pergunta virando-se ao Professor.
Ele passa dois dedos ao bolso do casaco.
- Para um caso desses, eu trouxe uma pílula , diz sério.
- O quê, o quê?
- Uma pílula. Veneno.
O Stalker está pasmo.
- Vamos, vamos meninos...Será que vieram até aqui para morrer? Bem, não querem aproveitar para alíviar-se? Pergunta o Stalker saltando os dormentes. - Mais tarde pode ser que não tenham tempo para isso, ou não tenham onde fazer...
Ele se afasta da vagonete e desaparece no nevoeiro.
- Bem, ele está certo, por que você está aqui? Um escritor famoso, com uma casa maravilhosa... mulheres, seguramente está muito bem de vida.
O Professor olha para o Escritor, levantando as sobrancelhas.
- Isso você não pode compreender, Professor, responde o escritor distraidamente atirando para o ar e pegando com a mão o copo descartável. - Há um conceito que é chamado de inspiração. Vou pedir por ela.
- Como é? Significa que perdeu a veia literária? O Professor pergunta baixinho.
- O quê? Ah, sim, o fato é que eu nunca tive. Bem, isso não interessa. E você?
O Professor não tem tempo para responder.
O Stalker reaparece.
- Vamos partir em breve. Preparem-se.


FIM DA PRIMEIRA PARTE