sábado, 31 de outubro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 1



CAPITULO 1

Este capítulo é dedicado à BakkaPhoenix Books em Toronto, Canadá. Bakka é a livraria dedicada à ficção científica mais antiga do mundo, e me fez o mutante que sou hoje. Entrei nela por volta dos 10 anos, e pedi algumas recomendações. Tanya Huff (que não era a escritora famosa que é hoje) me levou até a seção de usados e colocou em minhas mãos um exemplar de Little Fuzzy de H.Beam Piper e mudou para sempre a minha vida. O tempo passou e, quando eu tinha 18 anos, eu trabalhava na Bakka; assumi o lugar de Tanya quando ela se aposentou para se dedicar a escrever em tempo integral e aprendi lições para uma vida toda sobre como e porque as pessoas compram livros. Acho que todo escritor deveria trabalhar em uma livraria (e muitos trabalharam na Bakka. No aniversário de 30 anos da livraria, eles fizeram uma antologia dos escritores que trabalharam na Bakka, que incluía trabalhos de Michelle Sagara (ou Michelle West), Tanya Huff, Nalo Hopkinson, Tara Tallan e eu!)
BakkaPhoenix Books: 697 Queen Street West, Toronto ON Canada M6J1E6, +1 416 963 9993

Sou um veterano na escola César Chávez, no ensolarado distrito da Missão, em São Francisco. E isto me faz uma das pessoas mais vigiadas do mundo. Meu nome é Marcus Yallow, mas antes da historia começar, eu era W1N5T0N. Pronuncia-se ‘Winston’.

Não pronuncie como ‘Dáblio-um-ene-cinco-tê-zero-ene’ - a não ser que você seja um oficial de disciplina sem noção que não sabe de nada e que ainda chama a Internet de “a super-via da informação”.
Eu conheço uma destas pessoas sem noção e seu nome é Fred Benson, um dos três vice-diretores da César Chávez. Ele é um ser humano desprezível. Mas se você vai ter um carcereiro, é melhor que seja um idiota do que alguém que saiba das coisas.

‘Marcus Yallow’ ele disse no sistema de som em uma sexta-feira pela manhã. O sistema de som da escola não é propriamente muito legal, e quando você combina com o habitual balbuciar de Benson, você consegue sons que mais parecem alguém com problemas em digerir um burrito estragado do que um aviso escolar. Mas os seres humanos são bons em identificar seus nomes no meio da confusão sonora - é uma questão de sobrevivência.

Agarrei minha mochila e guardei dentro o laptop, meio aberto - eu não queria perder os meus downloads e me preparei para o inevitável.
“Venha imediatamente ao escritório da administração.”

Minha professora de estudos sociais, Senhorita Galvez, olhou pra mim e eu para ela.
O sujeito estava pegando no meu pé só por que eu atravessava os firewalls da escola como se fossem feitos de guardanapos molhados, enganava o software de reconhecimento e detonava os chips delatores que eles usam para nos rastrear. Senhorita Galvez é legal, de qualquer modo nunca me causou problemas (principalmente quando eu a ajudo com seu webmail, para que ela consiga falar com seu irmão que está servindo no Iraque.)

Meu mano Darryl me beliscou o traseiro quando passei por ele. Conheço Darryl desde o tempo que usávamos fraldas e fugíamos da creche;  e eu sempre estava nos metendo ou nos tirando de confusões. Levantei meus braços sobre minha cabeça como um boxeador ao vencer uma luta e caminhei para fora da classe começando meu trajeto de humilhação como um condenado até o escritório.

Estava no meio do caminho quando meu celular tocou. Era um daqueles telefones baratos e configuráveis, “muy proibido” na escola - mas por que isso iria me impedir? Me enfiei num banheiro e me fechei numa cabine central, (a cabine mais longe estava sempre cheia por que muitos a procuravam, querendo escapar do cheiro ruim e  das coisas mais repugnantes - a jogatina e a higiene ficavam nas cabines do meio) Verifiquei o celular - meu PC de casa me mandara um email para dizer que tinha algo de novo acontecendo em Harajuku Fun Madness, que era o melhor jogo jamais inventado.

Comecei a rir. Passar as sextas na escola era um tédio e fiquei feliz em ter uma desculpa para escapar dali.
Arrastei-me pelo resto do caminho até o escritório de Benson e acenei para ele enquanto entrava em sua sala.
“Se não é ‘Dablio-um-ene-cinco-tê-zero-ene’, ele disse.

Frederick Benson número de seguro social 545-03-2343, data de nascimento 15 de Agosto de 1962, nome de solteiro da mãe “Di Bona”, natural de Petaluna - é um pouco mais alto que eu. Tenho 1,73 enquanto ele mede 2,01. E seus dias de basquetebol na faculdade haviam ficado a muito para trás, de forma que os músculos peitorais haviam se tornado frouxos peitinhos perceptíveis através de sua camisa pólo, brinde de uma empresa pontocom. Ele sempre parecia pronto para chutar seu traseiro e ainda elevava a voz para aumentar o efeito dramático. Ambas estratégias haviam começado a perder sua eficácia devido à repetição.

“Desculpa, mas não sei quem é este seu R2D2.”
“W1n5t0n.” Ele disse, soletrando de novo. Olhou-me de esguelha, desconfiado, e esperou que eu me acalmasse. Era claro que era o meu Nick há anos, e era a identidade que eu usava quando fiz minhas contribuições ao campo da pesquisa de segurança aplicada. Você sabe, como escapar da escola e desabilitar o rastreio do meu telefone. Mas ele não sabia então que este era meu nick. Só um pequeno grupo de pessoas tinha essa informação, gente confiável.

“Hum, não tem nenhuma campainha tocando” Eu disse. Eu fizera um bom trabalho por aí, com aquele nick - tinha orgulho de ter liquidado aqueles delatores - mas se ele fosse capaz de juntar as duas identidades, então eu estava ferrado. Ninguém na escola me chamava de W1n5t0n ou mesmo Winston. Nem meus amigos. Eu era apenas Marcus.

Benson protegeu-se atrás de sua mesa e seu anel de grau batia nervosamente na mesa. Isso sempre acontecia quando as coisas estavam pretas para ele. Os jogadores de pôquer chamavam isso de “dica” - algo que ajuda você a saber o que está se passando dentro da cabeça do adversário. Eu conhecia todas as dicas de Benson de trás para frente.

“Marcus, espero que você perceba que a situação é muito séria.”
“Perceberei assim que me explicar do que se trata, senhor.” Eu sempre dizia “senhor” para uma autoridade quando eu estava sendo irônico com ela. Era a minha “dica”.

Ele balançou a cabeça e olhou para baixo. Outra dica. Daqui a pouco ele iria começar a gritar comigo.
“Escute aqui, garoto! Já é hora de você se tocar que sabemos tudo o que você anda fazendo e que não seremos tolerantes! Você vai ter com sorte se não for expulso antes desta conversa terminar. Você quer se formar?”
“Senhor Benson, o senhor ainda não me explicou qual é o problema...”
Ele socou a mesa e apontou para mim.
“O problema, Senhor Espertinho, é que você se envolveu em uma conspiração criminosa para subverter o sistema de segurança da escola e forneceu dispositivos de contramedida para seus amigos estudantes. Você sabe que conversamos com Graciella Uriarte semana passada sobre o uso de um de seus dispositivos.”
Uriarte tinha sido enganada. Comprara um bloqueador de rádio de uma espelunca perto da estação BART (Bay Area Rapid Transit) na rua 16 e ele deixou de funcionar bem na entrada da escola. Não era minha culpa, mas tive pena dela.
“E o senhor  pensa que estou envolvido nisso?”
“Temos informações confiáveis de que você é o W1N5T0N (novamente ele soletrou e eu comecei a imaginar se ele não tinha percebido ainda de que o 1 era I e o 5 um S). Nós sabemos que este tal de W1N5T0N é responsável pelo roubo dos testes standard no ano passado.”

Não verdade eu não tinha feito isso, mas era o tipo de coisa que você gosta que seja dito de você, como um elogio.
 “Além do mais, este fato é suscetível a muitos anos de detenção, a não ser que coopere comigo.”
“O senhor tem ‘informações confiáveis’? Eu gostaria de vê-las!”
Ele me encarou. “Sua atitude não vai ajudá-lo.”
“Se existe uma prova, senhor, acho que devia chamar a polícia e entregar a coisa para eles. Parece coisa séria, e eu não gostaria de ficar no caminho de uma investigação apropriada pelas autoridades responsáveis.”
“Quer que chame a polícia.”
“E meus pais, eu acho. Seria melhor assim.”

Nós ficamos nos encarando através da mesa. Ele esperava que eu me entregasse assim que soltou a bomba sobre mim. Eu não me dobrei. Eu tinha um truque para desarmar gente como Benson: eu olhava levemente para a direita das suas cabeças e pensava nos versos de velhas canções irlandesas, do tipo que tem trezentos versos. Isso me fazia parecer perfeitamente controlado e despreocupado.
 E a asa veio do pássaro, e o pássaro veio do ovo, e o ovo estava no ninho, e o ninho estava na folhagem, e a folhagem estava no galho, e o galho estava no ramo, e o ramo estava no tronco, o tronco está na árvore, a árvores estão no pântano, o pântano no vale - ho!
“Pode voltar para a sua classe. Eu o chamarei assim que a polícia estiver pronta para falar com você.”
“Vai chamar agora a polícia?”
“O processo para chamar a polícia é complicado. Eu esperava poder resolver isso de forma clara e rápida. Mas já que você insiste…”
“Eu posso esperar enquanto o senhor os chama. Não me importo.”
Ele bateu seu anel novamente e eu esperei a explosão.
“Saia daqui! Saia do meu escritório, seu miserável!”

Saí, mantendo minha expressão neutra. Ele não iria chamar os tiras. Se ele tivesse provas suficientes para ir até a polícia, ele teria feito isso primeiro. Ele me odiava. Então imagino que tivesse ouvido algum boato e esperava me assustar o bastante para que eu o confirmasse.

Fui seguindo pelo corredor, leve e solto, mantendo o passo para evitar as câmeras de vigilância. Elas tinham sido instaladas um ano antes e eu amava enganá-las. Algum tempo atrás nos tínhamos câmeras de reconhecimento facial cobrindo cada espaço público das escolas, mas a corte julgou como anti-constitucional. Então Benson e outros administradores paranóicos gastaram o dinheiro dos nossos computadores escolares comprando aquelas câmeras idiotas que deveriam ser capazes de acompanhar as pessoas. Tá certo, me engana que eu gosto!

Voltei para a classe e me sentei. Senhorita Galvez me recebeu preocupada. Desempacotei o computador escolar modelo standard e entrei no modo sala de aula. Estes computadores eram a tecnologia mais delatora que havia:  registravam cada tecla apertada, vigiavam o tráfego da rede procurando palavras chaves suspeitas, contavam cada clique, mantendo registro de cada pensamento que você colocasse na rede. Nós já tínhamos isso quando eu era calouro, e levava pouco mais de um mês para perder a graça. Uma vez que as pessoas percebiam que estes laptops grátis trabalhavam para “os omi” e exibiam uma lista sem fim de anúncios odiosos quando se ligava, eles passaram a parecer pesados e incômodos.

Crackear meu computador escolar foi fácil. O crack ficava online e não precisava fazer muito mais - só baixar uma imagem para um DVD, queimá-lo, inseri-lo e dar boot, enquanto se apertava varias teclas ao mesmo tempo. O DVD fazia o resto: instalava um monte de programas que ficavam escondidos na máquina mesmo quando a comissão educacional fazia seu acesso diário remoto para checar a integridade dela.  Agora mesmo eu fazia um update do software para driblar os testes mais recentes da comissão, mas isso era um preço pequeno a se pagar para se ter um pouco de controle da coisa.

Disparei meu IMParanoid, um messanger instantâneo secreto que eu usava quando queria ter uma conversa sem ser registrado bem no meio da aula. Darryl já tava logado.
>O jogo está de pé! Tem alguma coisa de sinistro acontecendo com o Harajuku Fun Madness. Tá dentro?
>De jeito nenhum. Se eu for pego, estou frito. Cara, você sabe. Deixa pra depois da escola.
>Você tem o recreio e a sala de estudos, certo? São duas horas. Tempo bastante prá sair fora e voltar antes que eles percebam. Vou levar o time completo.

Harajuku Fun Madness era o melhor jogo já lançado. Eu sei que eu já disse isso, mas não custa repetir. É um ARG, um game de realidade alternativa. A história era sobre uma gangue de adolescentes japoneses transados que descobre uma pedra de cura miraculosa em um templo em Harajuku. Esse era o lugar onde os japoneses adolescentes espertos haviam inventado toda e qualquer subcultura dos últimos dez anos. Eles são então caçados por monges do mal, a Yakusa (Máfia japonesa), alienígenas, inspetores de impostos, pais e uma inteligência artificial canalha. No jogo havia mensagens codificadas que nós precisávamos decodificar e outras pistas.

Imagine a melhor tarde que você já passou na vida vagabundeando pelas ruas da cidade, encontrando todo tipo de gente estranha, dinheiro de mentira maneiro e lojas iradas. Agora acrescente uma caçada que requer que você pesquise uns filmes antigos muito loucos, músicas e toda cultura jovem ao redor do planeta, através do tempo e do espaço. E é uma competição, onde o time vencedor ganha o prêmio de dez dias em Tóquio, curtindo em Harajuku, passeando por Akirabara, e levando para casa todo o Astro Boy que puder comer, exceto aquele chamado “Atom Boy” no Japão.

Isso era Harajuku Fun Madness e uma vez que você resolve um enigma ou dois, você não precisa voltar atrás nunca mais.
>Não cara, não mesmo! Nem vem!
>Eu preciso de você, D. Você é o melhor que eu tenho. Eu juro. A gente sai e volta e ninguém vai saber. Você sabe que eu consigo fazer isso.
>Eu sei que pode.
>Então você tá dentro?
>Caramba, não!
>Vamos lá, Darryl! Você não vai pro seu leito de morte desejando ter passado mais tempo estudando.
>Nem vou pro meu leito de morte esperando ter passado mais tempo em ARG também.
>Tá, mas pense... você pode ir pro seu leito de morte desejando ter passado mais tempo com Vanessa Pak?
Vanessa fazia parte do meu time. Ela tinha vindo de uma escola particular para moças de East Bay, mas eu sabia que ela estava querendo escapar e ir para a Missão comigo. Darryl tinha uma queda por ela há anos, mesmo antes que a puberdade a favorecesse em abundância com seus presentes. Darryl se apaixonara por ela. Triste verdade.
>Você não presta.
> Você vem?
Ele olhou para mim e balançou a cabeça. Então concordou. Pisquei para ele e comecei a trabalhar para juntar meu time.

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Nem sempre estive metido com ARG. Eu tinha um segredo obscuro. Eu costumava ser um LARPeiro. LARP significava Jogo de Representação e Interpretação de Personagens; nele você anda por aí vestindo fantasias, falando com sotaque, fingindo ser um super-espião, um vampiro, ou um cavaleiro medieval. É como Roube a Bandeira combinado com monster-drag, com uma pitada de Drama Club. E os melhores eram aqueles em que jogávamos em acampamentos fora da cidade, em Sonoma ou na Península. Esses épicos de três dias costumavam ser barra, marchas de um dia inteiro, batalhas com espadas de bambu, atirando feitiços uns nos outros gritando ‘Bola de Fogo’ e coisas assim. Muito divertido, se você é um tanto bobo. Nem de perto tão estúpido quanto se sentar numa mesa apinhada de latas de diet Coke e miniaturas pintadas e ficar falando sobre o que o seu elfo vai fazer; era algo bem mais físico do que ficar em casa em mouse-coma, diante de um game multi-jogadores estúpido.
A coisa que me deixava mal de verdade eram os mini-games em hotéis. Toda vez que um convenção de Ficção Científica chegava à nossa cidade, alguns LARPeiros conseguiam convencê-los a realizar mini-games de seis horas durante a convenção, meio que aproveitando o espaço alugado deles. Ter um bando de garotos entusiasmados, vestindo fantasias e correndo por toda parte acabava dando um pouco de animação ao evento, e nós podíamos ter nossa festa no meio de pessoas mais socialmente depravadas do que nós mesmos. O problema com os hotéis é que eles costumam ter um monte de gente que não está lá para jogar - e não falo só do pessoal da ficção científica. Pessoas normais, quero dizer. Vindas de lugares que os nomes terminam com muitas vogais, pessoas de férias.
E algumas vezes, estas pessoas não compreendem que se trata de um jogo.
Bom, vamos deixar assim, ok?

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A aula terminou em dez minutos e não me deixou tempo suficiente para me preparar. A primeira coisa a ser feita era tratar das câmeras do corredor. Como eu disse, elas haviam começado como câmeras de reconhecimento facial, mas então foram decretadas como anti-constitucionais. Pelo que sei, nenhuma corte determinou sequer se estas câmeras de acompanhamento eram legais, e até eles decidirem, continuávamos dando um jeito nelas.

 ‘Galope’ é uma palavra engraçada para um jeito de andar. As pessoas eram boas em identificar jeitos de andar - a próxima vez que for viajar para um acampamento, preste atenção no movimento da lanterna enquanto um camarada seu vem em sua direção. Existe uma grande chance de você identificá-lo apenas pelo movimento da luz, pelo jeito característico de subir e descer que diz ao nosso cérebro de macaco que é uma pessoa se aproximando.

O software de reconhecimento de galope tira fotos do seu movimento, tentando isolá-lo nas fotos como silhuetas e então tenta comparar a silhueta num banco de dados pra ver quem é você. É um identificador biométrico, como impressão digital ou scan de retina, mas tem bem mais ‘choques’ do que estes outros. Um ‘choque’ biométrico se dá quando se encontra mais do que uma combinação possível. Apenas você possui a sua impressão digital, mas sua maneira de andar pode ser imitada por outros.

Não exatamente, é claro. Seu caminhar, centímetro a centímetro, é pessoal e somente seu. O problema é que ele muda, de acordo com seu cansaço, ou devido ao material de que o chão é feito, do jeito que mexe o tornozelo machucado no basquete, ou se está com um tênis diferente. Então o sistema policia seu perfil, procurando pessoas que caminhem do jeito que você caminha.

E tem um monte de gente que anda como você. E mais, é fácil andar diferente do normal - basta tirar um pé do sapato. É claro você sempre andará como você anda com um sapato apenas. Neste caso, então as câmeras eventualmente vão ver que ainda é você. Por este motivo eu prefiro injetar uma pequena randomicidade em meus ataques ao reconhecimento de galope. Eu coloco uma mão cheia de cascalhos em cada pé de tênis. Barato e efetivo e nunca dois passos se parecem com outro. Além disso, você ganha uma ótima massagem reflexológica dos pés neste processo. (Estou brincando. Reflexologia é sobre o uso cientifico do reconhecimento de galope)

 As câmeras costumam disparar um alarme a cada vez que alguém não-reconhecido entra no campus.
As nossas não funcionam assim.
Os alarmes são desligados a cada dez minutos. Quando o carteiro entra, quando um pai ou mãe aparece no pátio, quando alguém lá da rua entra na quadra de basquete, quando um aluno aparece com um tênis novo.
Então basta tentar saber quem está aonde e quando. Se alguém passa pelos portões da escola durante a aula, seu andar é checado para ver se combina com o andar de algum aluno senão o alarme dispara!

A Escola Chávez é cercada por canteiros de cascalhos. Eu costumo ter sempre um punhado de pedras na mochila, para o caso de ser preciso. Silenciosamente, passei para Darryl dez ou quinze destas pequenas miseráveis e nós enchemos nossos tênis com elas.
 A aula estava prestes a acabar e percebi que ainda não tinha checado o site do Harajuku Fun Madness para ver onde estava a próxima pista! Tinha ficado focado demais no lance da fuga e não me preocupei em saber para onde iríamos.

Voltei-me para o teclado do PC escolar. O navegador (web-browser) que usávamos vinha com a máquina. Era uma versão limitada e controlada do Internet Explorer, a bosta de um crashware da Microsoft que ninguém com menos de 40 anos usava voluntariamente.

Eu tinha uma copia do Firefox no meu drive USB já preparado do meu jeito, mas não era o bastante - o PC escolar rodava Windows Vista 4School, um antigo sistema operacional desenhado para dar aos administradores escolares a ilusão de que controlavam os programas que seus alunos podiam usar.

Mas o Vista4School era seu pior inimigo. Havia um monte de programas que ele não te deixava encerrar - protetores com senhas, softwares de censura - e estes rodavam em um modo especial que era invisível ao sistema. Não dava para desativá-los porque você sequer conseguia encontrá-los.

Qualquer programa cujo nome começasse com $SYS$ é invisível para o sistema operacional. Não aparece em listas do conteúdo do disco rígido ou num monitor de processos. Então a minha copia do Firefox se chamava $SYS$Firefox - e quando eu a ativa, ela  se tornava invisível ao Windows e aos softwares de detecção e busca da rede.

Neste instante eu já tinha um navegador independente rodando. Eu precisava de uma conexão de rede independente também. A rede da escola registrava cada entrada e saída do sistema, o que é péssimo se você está planejando entrar no site do Harajuku Fun Machine atrás de alguma diversão extra-curricular.

A resposta era algo chamado de TOR -  The Onion Router (O roteador cebola).

Um roteador cebola é um site de internet que pega pedidos de acessos a páginas da web e os passa através de outro roteador e para outro roteador até que um deles decide finalmente pegar a página e trazê-la de volta até você pelas camadas da cebola. O tráfego pelos roteadores cebola é criptografado, o que significa que a escola não consegue ver o que você está procurando, e as camadas da cebola não sabem para quem estão trabalhando. São milhões de nós - o programa fora criado para o Escritório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos para ajudar pessoas afetadas por softwares de censura em países como Síria e China, o que significava que era perfeito para ser operado no confinamento da média das escolas Americanas.

Tor funcionava por que a escola tinha uma lista negra de sites de conteúdo proibido e os endereços dos nós mudavam o tempo todo; não tinha como a escola manter uma lista atualizada de todos eles. Firefox e TOR me transformavam no homem invisível, impenetrável aos xeretas do Comitê Escolar, livre para visitar o Harajuku Fun Machine e ver o que estava rolando.

Havia uma nova pista. Como todas as pistas do HFM, havia um componente físico, online e mental. O componente online era um quebra-cabeças que devia ser resolvido, o que requeria que você pesquisasse a resposta em um bando de charadas obscuras. Este pacote incluía um bom número de perguntas sobre tramas de d™jinshi -- livros de quadrinhos desenhados por fãs de mangá (histórias de quadrinho japonesas). Eles podiam ser tão grandes quanto o quadrinho original que os inspirou, mas bem mais esquisitos, com outras histórias combinadas e algumas vezes com canções e outras coisas bem idiotas. Histórias de amor aos montes, é claro. Todo mundo gostava de ver seu personagem de quadrinhos favorito amarrado.
Eu iria resolver os enigmas depois, quando chegasse em casa. Eram mais fáceis de resolver junto com a turma toda, baixando toneladas de arquivos de d™jinshi e vasculhando-os atrás das respostas do quebra-cabeça.

Tinha acabado de salvar todas as pistas quando a campainha soou e começamos nossa fuga. Disfarçadamente, com minhas botas curtas Blindstones australianas cheias de cascalho, ótimas para correr e escalar, com seu design botou-tirou sem laços, bastante conveniente devido aos número sem fim de detectores de metal que estavam por ai.

Nós também tínhamos que evitar a vigilância física, mas isso se tornava mais fácil na medida em que acrescentavam outra camada de bisbilhotice - todas as campainhas e buzinas acalmavam nossa amada escola com uma falsa sensação de segurança. Deslizamos na multidão dos corredores, em direção à minha saída favorita. Na metade do caminho, Darryl chiou ‘Caracas! Eu esqueci, tô com um livro da biblioteca na minha mochila.’

‘Tá brincando’ Falei, e empurrei-o pra dentro do banheiro mais perto. Livros de biblioteca eram má noticia. Todos tinham um arphid - uma lingüeta identificadora de radiofreqüência - colada, que tornava possível aos bibliotecários checar os livros através de uma leitora e a estante de livros sabia se o livro estava ou não em seu lugar.

Mas isso também permitia que a escola soubesse onde você estava o tempo inteiro. Era outra daquelas ‘aberturas’ na lei, as cortes de justiça não permitiam que as escolas usassem as arphids para rastreamento de alunos, apenas dos livros da biblioteca e usar estes registros para dizer a eles quem estava carregando qual livro.

Eu tinha um pequeno Faraday de bolso na mochila - pequenas pastas cobertas com fios de cobre que efetivamente bloqueavam sinais de radio, silenciando arphids. Mas os de bolso eram feitos para neutralizar cartões de identificação e etiquetas transponders, não livros.
 “Introdução à Física?” Eu gemi Esse livro era do tamanho de um dicionário!


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