sábado, 10 de outubro de 2009

Stalker (A máquina dos desejos) - Parte 5 de 6



QUINTA PARTE


O Stalker ouvia com a boca aberta o Escritor falar.
- Eu achava estar jogando um jogo novo e interessante – confessa o Escritor – Pensei na coisa como uma aventura. Logo compreendi amigo, que não seria fácil. E para dizer a verdade, não acredito muito nestas maravilhas todas. Pensei que se tivesse que pedir algo, seriam histórias e eu escreveria sobre elas. Por que nunca se escreveu sobre isso antes… todavia… Não, Olho de Lince, meu amigo, estes jogos eu não jogarei…
- Olha Professor, diz o Stalker desconcertado – o que se passa? Diga algo!
O Professor deu de ombros.
- Como é? Pergunta o Stalker -Estou indo em busca de saúde para minha filha, para minha desafortunada filha, e vou receber... sei lá o que?
- Sabe sim – disse carinhosamente o Professor – todos sabem perfeitamente bem.
- Deixe-o –interrompe o Escritor, e se faz um novo e embaraçoso silêncio.

Depois o Stalker diz com raiva:
- Já chega! Todos de pé!
O Professor vai taciturno e atrás o Escritor e, quase pisando-lhe nos calcanhares, o Stalker.

-Bom, não vou mentir – diz ele – quando vim para cá eu não pensava na minha filhinha, está bem… Mas agora, por ela sou capaz de qualquer coisa! E você me diz que…
-Olhe, pare de reclamar – diz o Escritor sem se virar – Por que me perturba? Eu não sei de verdade o que você deseja. Nem você sabe! E por Deus, não se distraia! Preste atenção no caminho… tudo que não precisamos agora é de você nos espancando…
Diante deles na trêmula névoa se vê erguida a caçamba de uma escavadora enferrujada e ao final eles param frente à suave descida que leva ao mesmo lugar de antes.
Param para olhar enfeitiçados o vale mágico.

O Stalker observa a encosta e nota algumas manchas negras.
- Bem, podem dizer que estão com sorte rapazes! Diz com a voz apagada – Ele se rendeu.
- Quem se rendeu? Pergunta passando por ele o Professor.
- O Açogueiro. Vêem as manchas pretas? O bandido entregou os pontos. Acabou! Podemos ir sem medo!
- Você enxerga um Açougue? Pergunta o Escritor e se senta ao chão – Bonito nome!
- Melhor não pode ser! Foi aqui que o Raposa usou de seu último coringa de carne e osso. Seu apelido era Kaschei o Imortal, um jovenzinho tonto...
- E você também me usou pra isso? Perguntou o Professor – Logo a mim? Nas mãos do Açougueiro?
- O que você pensa? O túnel e o Açougueiro valeram à pena! Só assim se pode seguir em frente. Uma chance em quatro... uma loteria! Mas na Zona não há jogos de azar...
- Isso é inconcebível! – disse o Escritor – Atravessar estes lugares mortais assassinando os amigos, e tudo por um saco de dinheiro...
- Em primeiro lugar – disse com firmeza o Stalker – não se vem até aqui com amigos. Além disso um Stalker não tem amigos. Seu amigo é ele mesmo, e em segundo lugar, por dinheiro se fazem coisas bem mais extremas. Será que você vive na lua?
- E se eu não tivesse ido? Pergunta o Professor.
- Chega! Grita o Stalker – Tivesse ido ou não... tivemos sorte e agora acabou. O túnel resultou em nada, o açougueiro se entregou. Acham que sou sádico? Pensam que fico feliz em ter que mandá-los para a morte? Bem, quer quer ir primeiro? Você? Perguntou ao Escritor – Você fez por merecer...
O Escritor balança a cabeça.
- Não! Já disse que não vou! Quero só olhar esta maravilha com meus próprios olhos. Sou um cético.
-Huh! Não tenha medo, eu disse que ele entregou os pontos. Mas se quer assim, eu vou primeiro. Que tal assim? Pergunta ao Professor.
- Vá, vá... só faltava isso, responde o Professor. Você nunca pensou em me perguntar antes...
- Como não? Perguntou o Stalker – Então para que veio aqui? Eu não precisei convencê-lo a vir... você mesmo pediu e me ofereceu dinheiro! Não?
Em vez de responder o Professor imitou o Escritor e sentou-se ao chão, colocando a mochila entre as pernas.

- Que barbaridade! Olhem os idiotas! Disse o Stalker desconcertado. – Arriscaram a vida, passaram por tudo isso para chegarem até aqui e vejam só o que fazem! Se sentam ai tranqüilos!
- E o fazemos acertadamente – diz o Escritor – você devia se sentar tambem. Precisamos descansar antes de regresar.
- Este bobalhão ficou careca e esse outro tem a polícia esperando por ele na cidade... peça ao menos que te devolvam o cabelo!
- Quem perde a cabeça não precisa de cabelo – disse o Escritor – deixa estar anjo da guarda, não se ofenda! Senta aqui com a gente, esperaremos um pouco e beberemos conhaque e então voltaremos para casa com a ajuda de Deus.
- Era só o que faltava! Para casa! Grita o Stalker fechando os pulsos.

O Stalker dá meia volta e se encaminha para a encosta. Seus passos decididos em um primeiro momento, vão perdendo força até se deter sem saber o que fazer. Dá meia volta e com o mesmo passo decidido regressa até eles.
- Está bem, pode me explicar por que não quer ir ? pergunta ao Escritor – Mas fale a verdade e pare com charlatanice!
- Não me importa. Estou com medo. Não me conheço e eu não confio em mim. A única coisa que sei com segurança é que ao longo de minha vida minha alma se encheu com tudo que não presta. Não quero descarregá-la encima de gente que não conheço e logo depois, como o Raposa, meter o pescoço na corda. É melhor eu encher a cara tranquilo e pacificamente na minha asquerosa mansão. Vai! Mas não pense que por estarmos vivos você não nos matou. Você nos matou! Mesmo estando vivos! E não vá achando que sabe tudo! O que pode saber um ingênuo como você! Chora lágrimas de arrependimento pela filha… me perdoe, mas você é como aquele bandido que tinha sangue até os cotovelos e levava no peito uma tatuagem que dizia ‘Não esqueço o amor de minha mãe’. Fica calmo Stalker. Não estamos ainda no ponto para merecer o lugar, nem devíamos ter vindo em busca da felicidade.
- Se eu estivesse limpo do pó e sujeira, é possível que eu tampouco tivesse vindo! Grita com raiva o Stalker.
- Está falando como o burro de Balaam! Diz o Escritor.
- Nao compreendo! Reclama o Stalker balançando a cabeça – Não compreendo...
- Sorte sua não compreender! Vá até lá e então compreenderá... mas então estará perdido! Você sempre se viu nas alturas, como se fosse melhor que todos... como se fosse um homem de ferro, altivo e livre, mas na realidade é um jumento e nada mais! E vai voltar de lá feito um incapacitado, meio morto e coberto de vergonha. Em comparação contigo, o Raposa pareceria um anjo. Acabou! Deixa-me em paz!

Enquanto discutiam o Professor havia retirado da mochila um cilindro prateado que ao sol brilhava pálido.
O cilindro sem detalhes lembrava na parte superior, o disco do telefone do centro de controle.
- O que é isso Professor? Perguntou o Escritor.
- Uma bomba atômica.
- Atômica?
- Sim, vinte quilotons.
- De onde veio isso e para que?
- Eu e meus amigos a fizemos, quero dizer, meus ex-amigos. Decidimos que precisávamos destruir este lugar. Ainda acho isso. O lugar não traz felicidade para ninguém. Mas se cair nas mãos erradas… dá medo de pensar. Mas agora já não sei... eles começaram a falar que isso era uma maravilha e uma esperança, que não se deve matar uma maravilha destas, e que não devemos matar a esperança. Nos arrependemos. De uma forma que só os cientistas sabem como. E eles esconderam a bomba, mas eu a encontrei – ergueu os olhos – vocês compreendem? Ainda estou certo do que devo fazer. Basta marcar quatro números e dentro de uma hora... o fim, ninguém mais vai vir até aqui.
Calou-se um instante antes de completar:
- E jamais na Terra haverá um lugar como este novamente.
- Pobrezinho... disse baixinho o Escritor.
- Compreendem? Trata-se de um principio geral – diz o Professor – Não faça nunca algo que não pode ser reversível. Enquanto este lugar estiver acessível, não haverá descanso para ninguém, nem sossego... nem descanso nem sossego.
Neste momento o Stalker explodiu.
- Maditos sejam! Por que fui me juntar a vocês! - grita – Porcaria de intelectuais! Charlatões! Eu devia ter ido, devia ter aceito o dinheiro sem pensar em mais nada, viveria à toda, como todos vivem! E me arrumaram uma encrenca! Me corroeram a alma, parasitas! E o que eu faço agora? Hein ? Não posso fazer nada! Não posso ir até lá, nem ficar aqui... Quer dizer que tudo foi inútil e que nunca mais haverá coisa alguma?
O Stalker agarra o Professor pelos ombros.
-Então acabe com tudo! Não será então de todo inútil! Ao menos haverá um proveito!
Leva as mãos à cabeça agitado. E logo se torna imóvel.
- Olha – susurra ele na cara do Escritor – Eu não valho nada, mas e minha mulher? Por minha filha, que tal? Não por mim, por mim não, mas por minha mulher! Ela é uma santa! A única coisa que ela tem é o bebê. Por minha mulher, hein?
Agarra o Professor e o sacode.
- Não! Não faça isso! Não deve! Não toque nela! Não há outra esperança!

O Professor afasta suas mãos. O Escritor e o Stalker contemplam o Professor enquanto este desenrosca com esforço a parte superior do cilindro, a levanta e arranca alguns cabos que saem de dentro e começa a desmontá-la e arrancar peça após peça.

Neste instante o sol se põe e vem a escuridão.



FIM DA QUINTA PARTE