sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A pátria de chuteiras e O Futuro à janela



Pátrias de Chuteiras é uma noveleta sobre futebol.

Como é? Não é história alternativa? Sim, também é. Mas, antes de tudo, é a história de uma partida de futebol. No caso, a final de uma Copa do Mundo.

A proposta era escrever um trabalho de ficção que fundisse o assunto futebol aos te-mas típicos da fantasia, do horror, da ficção científica ou da história alternativa. Caso apro-vado, o trabalho integraria a antologia temática que a Editora Ano-Luz estava organizando no início de 1998, a Outras Copas, Outros Mundos.

Neste sentido, Pátrias de Chuteiras é o trabalho mais fiel ao propósito precípuo da antologia, pois toda a ação da noveleta se passa dentro de um estádio de futebol, No fundo, a noveleta mostra o que acontece durante essa partida, intercalando à trama futebolística em si, o dilema do técnico de uma das seleções, dividido entre dois sentimentos de lealdade antagônicos: o patriotismo que nutre pelo Brasil e a vontade de defender os interesses da raça negra, discriminada no Brasil e discriminadora em Palmares.

Isto posto, é de todo provável que o leitor pouco afeito ao "rude esporte bretão" não se entusiasme muito com Pátrias de Chuteiras. Paciência. Em minha defesa, só posso apresen-tar a alegação de que, assim como a ficção científica não se limita a robôs, naves estelares e pistolas-laser, a história alternativa não se limita aos grandes efeitos de decisões militares, que mudam o curso de batalhas decisivas e, portanto, da história como conhecemos.

Em termos de história alternativa, Pátrias de Chuteiras insere-se na linha histórica dos Três Brasis, em tudo idêntica à nossa até 1647, ano em que Maurício de Nassau decide re-gressar ao nordeste brasileiro para reassumir o governo de Nova Holanda. Nassau estabele-ce uma aliança com a Confederação de Palmares. Juntas, Nova Holanda e Palmares, conse-guem derrotar a Coroa Portuguesa e, como resultado, Palmares torna-se a primeira nação independente da América, cerca de um século antes dos Estados Unidos.
É provável que alguns de vocês já conheçam esta linha histórica alternativa, da leitura das noveletas O Vampiro de Nova Holanda e Assessor Para Assuntos Fúnebres. A maior diferença é que, ao contrário daqueles trabalhos, em Pátrias de Chuteiras o filho-da-noite que atende pela alcunha de Dentes Compridos não dá o ar de sua graça.

A noveleta é o que os estudiosos do gênero da história alternativa — ou ficção alterna-tiva, como preferem alguns — costumam designar como "presente alternativo", ou seja, uma história cuja ação se passa nos dias de hoje, ou bem próximo disso. A decisão da Copa do Mundo dos Estados Unidos se dá em 1986, o ano da passagem do cometa de Halley, e também o ano em que os cientistas de Palmares divulgam para o mundo uma descoberta que mudará os rumos da civilização... Contudo, nada disso é importante para a história da partida. O drama do técnico Nascimento dos Santos me foi inspirado pelo jogador e técnico Didi.
Para quem não sabe, esse jogador eminentemente técnico foi um dos heróis da vitória da seleção brasileira no Mundial de 1958 na Suécia. Mais tarde, Didi tornou-se técnico da seleção peruana, conseguindo classificá-la para a Copa do Mundo do México, em 1970. Por ironia do destino, as seleções brasileira e peruana se enfrentaram nas quartas-de-final. Antes da partida, discutiu-se muito no Brasil (e provavelmente, também no Peru), como o técnico brasileiro da seleção peruana se comportaria. Ele cantaria o hino nacional brasileiro? Colo-caria a mão no peito durante sua execução? E durante a partida em si? Torceria pelo Brasil? Ou pelo Peru?

A ficção exagera a realidade. Em Pátrias de Chuteiras, o negro brasileiro Nascimento dos Santos, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, torna-se técnico da seleção palmarina. Só que Palmares e Brasil são os piores inimigos. Ao longo de suas histó-rias, as duas nações já travaram cerca de uma dezena de guerras e conflitos menores. Con-flitos onde Palmares quase sempre se saiu vitorioso; a ponto do território brasileiro nessa linha histórica alternativa ter se reduzido aos estados das regiões sul, sudeste e metade da centro-oeste. Como se isto não bastasse, além deste antagonismo histórico, ambas as sele-ções já se sagraram campeãs mundiais duas vezes e, pelo regulamento da FIFA, a primeira seleção nacional a se sagrar tricampeã mundial conquistará a posse definitiva da Taça Jules Rimet, um troféu de ouro maciço que, muito mais que seu valor material, trará consigo imenso prestígio político ao país que conseguir levá-lo para casa.

Se mesmo em nossa linha histórica, futebol no Brasil já é coisa séria, na LHA descrita, essa partida se desenrola como autêntica batalha campal - reflexo não só da rivalidade de mais de três séculos entre brasileiros e palmarinos, como do choque entre duas visões de mundo muito diferentes, e de dois ideais de superioridade racial incompatíveis.

Na época em que a antologia Outras Copas, Outros Mundos foi publicada, alguns lei-tores me perguntaram se Nascimento dos Santos seria um "Pelé Alternativo". A resposta é depende. Depende do que se entenda por "Pelé Alternativo". Em termos estritos, não. É inconcebível imaginar a existência do futebolista Edson Arantes do Nascimento numa LHA que já divergiu da história que conhecemos há mais de três séculos. Não obstante, alguns paralelismos histórico-pessoais que, por capricho, decidi introduzir no enredo.
Em termos genéricos, eu diria que sim. Embora não seja o Pelé, o personagem Nascimento dos Santos foi livremente inspirado nessa grande figura da história esportiva, e foi idealizado como uma homenagem ao Pelé de NLH.


Gerson Lodi-Ribeiro, Março de 2002


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Muitos anos me separam agora desta obra.
Quando escrevi as primeiras linhas (de qual dos contos, não tenho mais memória) decorria o ano de 1990, um ano pessoalmente mágico e terrível em iguais proporções, cheio de grandes sucessos e enormes desalentos, marcado por aquela forma peculiar que a juventude confere aos acontecimentos da nossa vida, tornando-se intensos e imensos, transformando o banal em épico, embora só bem mais tarde os recordemos assim.

Nesse ano estava aberto o concurso da Caminho para recepção de originais de ficção científica, cujo vencedor e menções honrosas estariam destinados a publicação nos livros de bolso azuis de uma colecção que alternava com o género policial, na época em que ambas as manifestações de literatura popular tinham no nosso país e junto das editoras uma conotação semelhante e seguiam de mãos dadas nas colecções alternativas e baratas. Recordo-me ainda de receber o regulamento (que já antecipava, uma vez que se tratava de um prémio bienal) das mãos de um colaborador do stand da editora na Feira do Livro, numa quente tarde de Maio, após a faculdade.

Nos dois anos precedentes habituara-me a colaborar esporadicamente com os suplementos literários do Diário Popular (a secção policiária dos sábados) e do Diário de Notícias (o extinto DN Jovem). Este último em particular havia-se tornado num campo de treinos particularmente exigente, mas que finalmente conquistara com a publicação de um texto muito pessoal – sobre um autor de Ficção Cientifica, o Theodore Sturgeon – publicado no mês de Fevereiro desse mesmo ano. A conquista surgiria a tempo de ser incluído na selecção exclusiva da dúzia e meia de autores que constaram da única Antologia DN Jovem em formato livro (e com capa dura), lançada em Setembro desse mesmo ano, onde surgiria precisamente com um conto de Ficção Científica.

Corria-me por isso a confiança nas veias e muita vontade de arriscar. E, graças à publicação regular do suplemento e à minha vontade de contribuir, conseguira um ritmo de escrita, uma rotina de me sentar à máquina de escrever (este livro foi todo escrito antes dos computadores, àparte o presente prefácio), que é imprescindível a qualquer escritor. Tinha textos por recolher, tinha um objectivo em mente. Tinha na memória a qualidade da Espinha Dorsal da Memória, do brasileiro Bráulio Tavares, último galardoado com o prémio (em 1989). Tinha, finalmente, muitas leituras em português e inglês, de histórias de ficção científica, livros de
física e astronomia, e algumas opiniões, então bem vincadas, sobre o que considerava formas correctas e erradas de escrever ou abordar determinados temas. O terreno estava propício à fecundação.

O livro demorou-me o resto do ano a preparar, e pelo meio tive ainda tempo de recolher uma magra antologia de textos dispersos, denominá-la A Arquitectura do Possível, e enviá-la para um concurso do Instituto Português da Juventude (não me lembro bem do que sucedeu posteriormente, àparte ser contactado para o que seria uma proposta de Associação de Jovens Escritores Portugueses, que de logo me desagradou pelo elevado nível de demagogia política envolvida e escândalos públicos que inevitavelmente a acompanharam). Foi um ano de bastante escrita, e não só. Mesmo assim ficaram histórias por escrever ou por acabar, que tinha intenção de incluir. Outras tiveram de ser recuperadas da gaveta, desenvolvidas e acabadas (salvoerro, «A Última Tarde», e talvez «Também Há Natal em Ganímedes») porque o prazo se aproximava e era necessário preencher um mínimo de páginas, diversidade e estrutura.

Se tivesse tido mais tempo ou energia, teria resultado num livro ligeiramente diferente – embora, estou em crer, não muito. Os temas que me preocupavam então eram bastante uniformes, mais do que julgara a início, do que resultou numa colectânea tematicamente mais coesa do que imaginara.

E foi assim que nos últimos dias do ano de 1990, o Natal já ido, preparava as quatro colecções de duzentas e tal fotocópias exigidas pelo regulamento, as enviava para encadernar, e as iria entregar em mãos, no dia 31, à sede da editora (sem antes me ter preocupado em confirmar se a recepção da empresa estaria aberta, e até que horas, tal era a minha inocência dos assuntos empresariais). E assim foi. Uma lenta espera até ao dia 17 de Junho do ano seguinte, em cuja quente tarde tardei a chegar a casa e a receber a notícia que alguém da Caminho me telefonara para casa. Telefonei de volta, de imediato, e falei pela primeira vez com o Belmiro Guimarães, que me anunciou a conquista do primeiro prémio. Agendámos logo uma reunião, uma preparação dos próximos passos. Ao conhecê-lo, perguntou-me se desejava manter a Introdução. Parecia-lhe uma justificação dispensável do livro. Ponderei então, como ainda pondero hoje, e continuo a sentir que o livro sem esta contextualização, sem este entendimento, acontece abruptamente. Está na natureza das antologias e colectâneas serem explicadas, embora não no romance nem na novela individual. O grupo tem de fazer sentido.

Muitas portas se abriram, então, embora, olhando para trás, nem todas viessem a revelar-se a caminhos válidos. Recordo-me de jornalistas me ligarem para casa, em particular o Zé Pedro, com quem continuaria a contactar ao longo dos anos vindouros, que me apontou uma falha importante no livro (corrigida na edição do Círculo de Leitores, na qual esta se baseia), e que colocaria uma das perguntas mais interessantes de todas as entrevistas que concedi: se havia uma intenção consciente na ordenação dos contos (sim, há). Recordo-me da sessão de entrega do prémio na York House, onde conheci o João Barreiros e o José Manuel Morais, que me convidou então a participar na Omnia. Recordo-me do João me telefonar no dia 20 de Dezembro para me dizer que a sua crítica ao livro fora publicada no Público (e eu, fiel atento do suplemento literário-cultural das sextas-feiras, no qual o João costumava participar com artigos extensos e críticas acérbicas, já o conhecia de reputação bem à famosa caneta de aparo de titânio): não tenho mais a totalidade do texto, mas lembro-me que destacava a «Série Convergente», também um dos meus contos preferidos, e a «Criança Entre as Ruínas», cujo ambiente comparava a Stephan Wul (cujos livros eu só viria a encontrar depois das minhas primeiras idas a França).

Recordo-me das menções simpáticas no semanário Independente da Sarah Adamopoulos (que nunca conheci). Recordo-me dos encontros «Palarvas Para Quê?», que tiveram lugar na livraria São Bento 34 – uma das primeiras que misturava prateleiras com livros, espaço para café e um poço verdadeiro (sim, um poço) –, que eram organizados pelo Nuno Artur Silva, o Rui Zink e o Alberto Oliveira Pinto, e cujo propósito era de reunir os jovens autores de então para, durante três sextas-feiras consecutivas, se debater literatura e ler-se excertos das respectivas obras por actores profissionais (no meu caso, foi o António Feio, que escolheu o segmento «Jean-Luc Armand» do «Poetas da Rua»). Recordo-me da leitura na rádio, pelo prestigiado Rui de Carvalho, da secção inicial do «Jogo do Gato e do Rato». Recordo-me da reportagem na revista Ler, e de como desta surgiu ao Círculo de Leitores a ideia de constituir uma colecção temática de obras de jovens autores portugueses, na qual O Futuro à Janela ganharia uma reedição em capa dura, em 1998, sete anos depois da edição original.

Estávamos contudo, noutro século, noutro universo. Escrevia-se sem recurso da Internet, apenas das bibliotecas pessoais e públicas. A divulgação era mínima, e a capacidade de intervenção individual muito mais limitada do que o é neste final de primeira década do século XXI. As editoras não tinham ainda descoberto o filão de ouro da fantasia para jovens, e este género, embora tolerado, não era acarinhado como devia. O valor do prémio (300 mil escudos, que representava a totalidade da edição) continua a ser, ainda a esta data, o maior volume financeiro de royalties que recebi por uma obra minha 2 . A edição da Caminho saiu cheia de gralhas e com alguns cortes acidentais no texto que lhe alteravam o sentido, o que obviamente me entristeceu – só na edição do Círculo de Leitores conseguiria finalmente recuperar o sentido original do livro. E por fim, o tratamento dos livreiros face ao género, escondendo literal e envergonhadamente a Ficção Científica nas prateleiras mais recônditas, enquanto que os restantes jovens autores portugueses eram expostos com pompa e glória nas mesas de destaque ao público, o silêncio relativo de fãs (àparte os conhecidos e contactos esporádicos) e críticos, a inexistência de clubes e movimentos associativos, a falta inclusive de outros autores, começou a ensinar-me como escrever neste mercado, nesta língua e nesta época se tratava mais de um custo efectivo do que um benefício.

Isto até ao advento da Internet. Tratando-se de uma ferramenta de verdadeira democracia, talvez a primeira, quase mais importante que o direito ao voto, tem permitido a expressão individual e a divulgação mais ou menos facilitada de autores e obras (e não só) até agora de difícil acesso ou presentes somente nas listas especializadas de alguns entusiastas.

Apenas o futuro dirá se esta forma de estar no mundo virtual irá permanecer ou se não passa de um sintoma de uma tecnologia/sistema cultural ainda não completamente interiorizado e legislado que rapidamente terá os grilhões do controlo autocrático firmemente cravados – não interessa, há que aproveitar. Muitos autores internacionais o têm feito, com alguma polémica envolvida, para se auto-promover mediante iniciativas de divulgação, entre as quais figura a disponibilização gratuita das suas obras.

Eis o enquadramento desta ideia de colocar online O Futuro À Janela, quase vinte anos após a sua concepção. Tanto quanto saiba, é a primeira obra a ficar assim disponível ao grande público deste território virtual que teve uma existência física e um currículo apreciável na área da ficção científica portuguesa. Se me perguntarem sobre perdas eventuais desta iniciativa, creio que me vou limitar a devolver-vos um sorriso simpático – seguramente que ninguém se lembrará mais de um prémio há muito atribuído, em particular de um livro que dificilmente se encontrará nas livrarias ou poderá ser encomendado, e decerto que não corro o risco de não enriquecer com a perda de vendas. Por outro lado, quem sabe se desta forma ganhe um pequeno novo alento e encontre leitores que não teria oportunidade de conhecer?

Fica disponível para vossa leitura, impressão, distribuição, e talvez crítica. Apenas peço que sigam as orientações de direitos reservados indicada no fim do livro.

Façam o favor de abrir a janela. Lá fora, é já amanhã.

Luís Filipe Silva - 25 de Junho de 2007
Email: contacto@TecnoFantasia.com
Website : www.TecnoFantasia.com

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