sábado, 14 de novembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 3


CAPÍTULO 3

Este capítulo é dedicado a Bordlands Books de São Francisco, uma magnífica loja independente de livros de ficção científica. Bordelands se situa do outro lado da rua onde fica a fictícia escola Cesar Chávez, que aparece em Pequeno Irmão. Ela não é notória somente por seus eventos, noites de autógrafos, clubes do livro e coisas assim, mas também por seu incrível gato egípcio careca chamado Ripley, que vive empoleirado como um gárgula no computador da loja. Bordelands é a livraria mais amigável que você pode encontrar, cheia de recantos confortáveis para sentar-se e ler, com atendentes maravilhosos e conhecedores de tudo que se pode saber sobre ficção cientifica. Melhor ainda, aceitam encomendas do meu livro (pela internet ou por telefone) e mantêm alguns por lá para eu assinar, quando passo pela loja e enviam para os Estados Unidos inteiro sem custo.
Borderlands Books: 866 Valencia Ave, São Francisco CA USA 94110 +1 888 893 4008



Passamos por muita gente no caminho da estação Bart na rua Powell. Corriam ou caminhavam, os rostos pálidos e silenciosos, ou gritando em pânico. Sem-teto agachados nas entradas dos prédios olhando com medo para tudo, enquanto uma prostituta negra e alta gritava algo para dois caras de bigodes. À medida que ficávamos mais próximos da Bart, aumentava o número de pessoas. Quando chegamos aos degraus da estação já era uma cena de multidão, as pessoas lutavam tentando subir as escadas estreitas. Alguém acertou minha cara e outro alguém me empurrava pelas costas.

Darryl ainda estava do meu lado - ele era grande o bastante, difícil de ser empurrado e Jolu bem a direita dele, meio que se segurando nele. Consegui ver Vanessa a poucos metros dali, presa no meio do povo. “Se dana!” Eu ouvi Van gritando. “Seu tarado! Tira as mãos de mim!”

Consegui me mexer e vi Van olhando feio para um cara mais velho de terno e que ria para ela. Ela mexia em sua bolsa e eu sabia o que ela estava procurando.
“Não jogue o spray paralisante nele!” Gritei acima da zoeira. “Vai acertar a gente também”.

Bastou a menção da palavra “paralisante” para que o cara fizesse uma careta de horror e recuasse, sumindo em meio a multidão que continuava a avançar. Acima das cabeças, consegui ver uma dona de meia-idade num vestido hippie vacilar e cair. Ela gritou enquanto caía e vi que lutava para tentar ficar de pé, mas não podia, a pressão da multidão era mais forte. Assim que consegui chegar perto dela, eu me curvei para ajudá-la e quase caí sobre ela. Acabei pisando em seu estômago quando a multidão me empurrou, mas não vi se ela sentiu algo. Eu estava mais assustado do que nunca. Havia gente gritando por toda parte e mais corpos no chão e a pressão que vinha trás era impiedosa como a de um trator. A única coisa que eu podia fazer era ficar em pé.

Nós estávamos na área de acesso onde ficavam as catracas de entrada. De qualquer forma era melhor ali - o espaço enclausurado ecoava as vozes ao redor como um rugir que fazia minha cabeça doer e o cheiro de todos aqueles corpos fez com que me sentisse claustrofóbico como nunca imaginei.

O povo ainda se comprimia nas escadas e mais gente estava sendo espremida nas roletas e além, pelas escadas rolantes que levavam às plataformas, e estava claro para mim que aquilo não acabaria bem.
“Vamos tentar sair daqui?” Eu disse para Darryl.
“Sim, aqui tá brabo!” Ele disse.

Olhei para Vanessa, mas não havia como ela me ouvir. Consegui pegar meu telefone e enviei uma mensagem de texto para ela.
>Estamos indo embora.
Vi que ela sentiu o vibrador de seu telefone e olhou para baixo e então para mim e concordou vigorosamente. Darryl, neste meio tempo, já tinha avisado Jolu.
“Qual é o plano?” gritou Darryl no meu ouvido.
“Temos que voltar!” eu gritei, apontando para a desumana massa de corpos que se empurrava.
“Não dá!” Ele disse.
“Vai ficar pior se a gente esperar mais!”
Ele deu de ombros. Van batalhava para chegar perto de mim e me agarrou pelo pulso. Eu peguei Darryl e Darryl agarrou a mão de Jolu, e juntos nós avançamos empurrando a multidão.

Não foi fácil. Nos movíamos a três centímetros por minuto no início, depois mais lentamente e daí mais lento ainda quando chegamos às escadas. As pessoas pelas quais passamos não se mostravam muito felizes com o empurra-empurra. Um casal nos xingou e um cara me olhou como se estivesse prestes a me socar se conseguisse libertar os braços. Passamos por mais pessoas caídas,  mas não havia como ajudar. Naquele momento eu nem pensava em ajudar alguém. Tudo que eu pensava era arranjar espaço na nossa frente para poder nos mover, com Darryl apertando meu pulso e eu trazendo Van agarrada atrás de mim.

Saltamos livres como rolhas de champanhe uma eternidade depois, piscando em meio à luz esfumaçada e cinza. As sirenes de ataque aéreo ainda berravam e o choro das sirenes dos veículos de emergência rasgando a rua do Mercado eram ainda mais altas. Já não havia quase ninguém nas ruas - apenas o povo desesperançado que tentava chegar aos abrigos. Muitos choravam.  Apontei para alguns bancos vazios - que usualmente ficavam cheios de mendigos bêbados de vinho.

Fomos até lá, com a fumaça e as sirenes nos fazendo arquear e segurar uns nos ombros dos outros. Assim que chegamos aos bancos, Darryl desmaiou.
Todos gritamos e Vanessa o segurou e o virou. Sua camisa estava vermelha na lateral e a mancha se alargava. Ela levantou a camisa, revelando um corte profundo e longo.
“Algum maluco o esfaqueou!” Jolu disse com os punhos cerradas. “Deus, isso é loucura!”
Darryl gemeu e olhou para nós, para o seu lado e sua cabeça pendeu.
Vanessa tirou a jaqueta jeans e a camisa de algodão que estava por baixo. Com ela pressionou o lado do corpo de Darryl.
“Pegue a cabeça dele” ela disse para mim “Deixe ela levantada.” E disse para Jolu: “Levante seus pés - arranje alguma coisa, um casaco, para pôr embaixo.” Jolu obedeceu rápido.

A mãe de Vanessa era enfermeira e ela tinha passado por treinamento de primeiros socorros em um acampamento de férias. Ela gostava de fazer piada das pessoas que prestavam socorros ruins nos filmes. Eu estava muito feliz em tê-la conosco.
Ficamos sentados durante bastante tempo, segurando a camisa contra a lateral do corpo de Darryl. Nós continuávamos insistindo em que ele estava bem e que nós o levaríamos dali e Van continuava nos mandando calar a boca e ficar quietos antes que ela nos batesse.
“Que tal ligarmos para 911 (emergência)?” Jolu perguntou.

 Eu me senti como um idiota. Peguei o telefone e teclei 911. O som de resposta sequer foi de ocupado - mas como uma lamento de dor vindo do sistema telefônico. Não se consegue sons como este a não ser que três milhões de pessoas estejam ligando para o mesmo número ao mesmo tempo. Quem precisa de botnets quando se tem terroristas?
‘E a Wikipédia? ‘ Perguntou Jolu.
‘Sem telefone, sem dados.’ Respondi.
‘E quanto a eles?’ Darryl disse apontando para a rua. Eu olhei para onde apontava pensando se ele delirava, vendo um policial ou um paramédico que não estava lá.
“Tá tudo bem, camarada, descanse.” Falei.
“Não, seu idiota, os tiras nos carros. Lá!”
Ele estava certo. A cada cinco segundos um carro de polícia, uma ambulância ou um caminhão de bombeiros passava. Com Van, colocamos Darryl de pé e caminhamos até a rua do Mercado.

O primeiro veiculo a passar com a sirene berrando - uma ambulância - sequer diminuiu a velocidade. Nem o carro da polícia que passou ou o caminhão de bombeiros, e nenhuma das três viaturas da polícia seguintes. Darryl não estava bem - o rosto estava pálido e o suéter de Van estava empapado de sangue.
Eu estava cheio destes carros passando sem parar. Quando o carro seguinte apareceu na rua, eu caminhei para o meio da rua, balançando os braços acima da cabeça, gritando “PARE”.  O carro sacolejou freando e somente então eu percebi que não se tratava de um carro da polícia, ambulância ou de bombeiros.

Era um jipe militar, como um Hummer blindado, só que sem insígnias militares nele. O carro parou bem na minha frente, e eu saltei para trás e perdi meu equilíbrio e acabei caindo. Senti que as portas se abriram e então foi uma confusão de botas movendo-se perto de mim. Olhei para cima e vi um bando de sujeitos parecendo militares em macacões, carregando grandes e enormes rifles e usando máscaras contra gases. Tinham os rostos pintados.

Quase não tive tempo de olhar para eles antes dos rifles estarem apontados para mim. Nunca tinha olhado para a mira de uma arma antes, mas tudo que ouviu falar a respeito é verdade. Você congela, o tempo pára e seu coração começa a bater em seus ouvidos. Abri a boca e a fechei e então lentamente eu ergui as mãos.
O homem sem rosto e sem olhos acima de mim continuava a manter sua arma apontada. Eu nem respirava. Van gritava algo e Jolu estava berrando e eu olhei para eles num segundo e foi quando alguém colocou um saco na minha cabeça e o amarrou apertado sobre minha traquéia, tão rápido e com tanta força que mal pude respirar antes. Fui empurrado rudemente e algo me prendeu os pulsos juntos e apertados, como se fosse um fio para empacotar, quase cruelmente. Gritei e minha voz foi abafada.

Estava numa  escuridão total e tentava ouvir o que estava acontecendo com meus amigos. Ouvi-os gritando através do tecido de camuflagem do saco e então estava sendo colocado de pé pelos pulsos, os braços levados as costas, meus ombros doendo.
Tropecei, então uma mão empurrou minha cabeça para baixo e fui colocado dentro do Hummer. Outros corpos eram empurrados para dentro junto de mim.

“Pessoal?” gritei, e ouvi uma pancada na minha cabeça . Ouvi Jolu responder, e ouvi a pancada como se ele fosse punido também. Minha cabeça parecia um gongo.
 “Ei!”Eu disse para os soldados. “Ei, me ouçam! Nós somos apenas estudantes.
Eu fiz sinal para vocês porque meu amigo estava sangrando. Alguém o esfaqueou!”

Eu não tinha idéia do quanto eles estavam conseguindo me ouvir através do saco camuflado. Eu continuei falando: “Ouçam - isso é algum tipo de mal-entendido. Nós estávamos levando nosso amigo para o hospital...”

Alguém me acertou na cabeça novamente. Senti algo como um bastão ou parecido - fui mais duro do que qualquer coisa que já me tivessem batido antes. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu literalmente perdi a respiração por causa da dor. Um momento depois, recuperei a respiração, mas não disse mais nada. Aprendera a lição.

Quem eram estes palhaços? Eles não usavam insígnias. Talvez fossem terroristas. Eu nunca tinha acreditado antes nesta historia de terroristas - quer dizer, eu sabia de forma abstrata que existiam terroristas em alguma parte do mundo, mas não que representassem um risco para mim. Havia milhares de maneiras de ser morto - começando por ser atropelado por alguém dirigindo bêbado e velozmente a caminho de Valencia - o que era infinitamente mais possível do que terroristas. Terroristas matavam menos gente do que quedas no banheiro e eletrocuções acidentais. Me preocupar com eles sempre me pareceu tão útil quanto ter medo de ser atingido por um raio.

Sentado na traseira do Hummer, com minha cabeça num saco, minhas mãos presas atrás das costas, enquanto era jogado de um lado para outro com machucados na cabeça, terrorismo de repente me pareceu um risco maior.
O carro acelerava e freava e saltava colina acima. Imaginei que estávamos indo para Nob Hill, e pelo ângulo de subida, parecia que íamos pelo pior caminho – pela rua Powell, pensei.
Agora estávamos descendo. Se meu mapa mental estava certo, íamos em direção ao Embarcadouro dos Pescadores. Você consegue barcos por lá, para escapar. Isso batia com a hipótese do terrorismo. Mas por que diabos terroristas iriam raptar um bando de estudantes?

Paramos no meio de uma descida. O motor morreu e as portas se abriram. Alguém me arrastou pelos braços para a rua, então me soltou no chão pavimentado. Segundos depois, eu estava sendo levado por uma escada de metal, que batia em meus joelhos. As mãos nas minhas costas me deram outra sacudida. Fiquei de pé cauteloso, sem poder usar as mãos. Estava no terceiro degrau, indo para o quarto, mas não havia quarto degrau. Caí de novo, mas outras mãos me pegaram puxando-me por um piso de aço e então me forçaram a ficar de joelhos e prenderam minhas mãos em alguma coisa atrás de mim.
Outros movimentos e a sensação de que corpos eram colocados ao meu lado. Murmúrios e gemidos. Então um longo silêncio, uma eternidade nas trevas dentro do saco, respirando meu próprio exalar, ouvindo minha própria respiração.

#

De alguma forma consegui dormir lá, de joelhos e com a circulação das pernas cortada, minha cabeça na penumbra do tecido de lona. Meu corpo havia disparado um ano do suprimento de adrenalina na minha corrente sanguínea  no espaço de trinta minutos, e quando aquela coisa lhe dava a força para virar automóveis e saltar prédios altíssimos o preço era sempre alto.
Acordei com alguém puxando o capuz da minha cabeça. Eles não eram nem grosseiros nem cuidadosos - apenas impessoais. Como alguém do Mcdonalds colocando os hambúrgueres juntos.
A luz na sala era tão brilhante que tive que fechar os olhos, mas lentamente pude abri-los aos poucos e então olhar ao redor.

Estávamos na traseira de um grande caminhão de 16 rodas. Pude ver o lugar dos eixos e o intervalo regular entre eles. Mas a traseira do caminhão tinha sido modificada para ser alguma coisa entre posto de comando e cárcere. Mesas de aço seguiam as paredes e painéis de instrumentos e monitores finos presas a braços articulados que os permitiam ser posicionados em semicírculo ao redor dos operadores. Cada mesa possuía uma bela cadeira de escritório em sua frente, enfeitadas com manoplas para ajuste milimétrico do assento assim como inclinação.  E havia a parte das celas, na frente do caminhão, do lado mais distante das portas, grades de aço de um lado a outro do veiculo, e dentro destas jaulas estavam os prisioneiros.

Encontrei Van e Jolu bem à direita. Darryl poderia estar entre os outros algemados na traseira, mas era impossível ter certeza - haviam muitas pessoas bloqueando minha visão. Aquilo fedia a suor e medo.
Vanessa olhou para mim e mordeu o lábio. Estava apavorada. Eu também estava. E Jolu também, seus olhos não paravam de um lado para outro. E não era só isso, eu precisava mijar logo!
Procurei ao redor por nossos raptores. Até então eu tinha evitado olhar diretamente para eles, do mesmo jeito que você não olha para a escuridão de um armário, quando sua mente lhe diz ter visto um monstro lá dentro. Você não quer saber se você está certo.

Mas eu precisava dar uma olhada melhor nos panacas que nos seqüestraram. Eu precisava saber se eram terroristas. Eu não sabia como um terrorista se parecia, apesar dos programas de tevê se esforçarem para fazê-los parecidos com árabes de pele morena, barbudos e roupas de algodão que ficavam quase penduradas aos ombros.
Nossos capturadores não eram assim. Eles poderiam estar se exibindo no show de intervalo do Superbowl. Pareciam Americanos comuns, de um jeito difícil de definir exatamente. Queixudos, baixos, cortes de cabelo que não eram militares. Brancos e negros, homens e mulheres, e sorriam livremente uns para os outros sentados na traseira do caminhão, brincando e bebendo café em copos descartáveis. Eles não eram árabes vindos do Afeganistão, pareciam mais turistas do Nebraska.

Olhei para um deles, uma jovem branca com cabelo castanho e que parecia um pouco mais velha do que eu, do tipo atraente, de uma maneira poderosa. Se você olha para alguém por muito tempo, essa pessoa eventualmente irá olhar para você. Ela o fez e seu rosto mudou totalmente de configuração, para uma maneira desapaixonada, quase um robô. O sorriso desapareceu em um instante.

“Ei!” eu disse. “Olhe, eu não entendo o que está se passando aqui, mas eu realmente preciso urinar, sabe?”
Ela olhou direto através de mim, como se não ouvisse.
“Estou falando sério, se não for ao banheiro logo, vamos ter um acidente horrível. Vai começar a cheirar muito mal isso aqui, tá sabendo?”
Ela se virou para os colegas, um grupinho de três deles, e começaram a conversar baixo. Não dava para ouvi-los devido ao barulho dos ventiladores dos computadores.
Ela então se virou para mim e disse: “Segure por mais dez minutos e você vai poder mijar.”
“Acho que não vou conseguir segurar mais dez minutos.” eu disse demonstrando mais urgência do que era verdade, fazendo uma voz sofrida. “É sério, senhorita, é agora ou nunca.”

Ela balançou a cabeça e me olhou como se eu fosse um idiota patético. Ela e seus amigos trocaram mais algumas palavras e então um deles veio dos fundos. Era velho, talvez uns trinta anos e bem grande, como se malhasse. Ele parecia chinês ou coreano - mesmo Van não sabia dizer a diferença muitas vezes - mas com aquele comportamento que eu não podia deixar de reconhecer que era de  Americano.
Ele tirou a jaqueta e pude ver seus apetrechos. Reconheci uma pistola, um tazer e uma lata que podia ser spray de pimenta ou gás paralisante.
“Não me arranje problemas.” ele disse.
“Nenhum problema.” eu concordei.

Ele tocou alguma coisa no cinto e as algemas que me prendiam à parede nas minhas costas se abriram, meus braços subitamente caíram frouxos atrás. Era como se ele usasse um cinto de utilidades do Batman - controle remoto sem fio para as algemas! Fazia sentido, pensei, você não quer se debruçar sobre seus prisioneiros com todo aquele armamento mortal ao alcance dos olhos - eles poderiam agarrar sua arma com os dentes e puxar o gatilho com a língua ou algo assim.

Minhas mãos ainda estavam presas atrás por tiras de plástico e agora que eu não estava seguro pelas algemas, senti como se minhas pernas tivessem virado papa devido ao fato de terem ficado muito tempo naquela posição. O que se seguiu foi longo, mas breve também, basicamente eu caí de cara ao chão, mexendo as pernas fracas enquanto tentava ficar de pé.

O cara então me agarrou, me colocando de pé e eu andei feito um palhaço para um pequeno reservado em formato de caixa logo ali. Tentei enxergar Darryl nos fundos, mas ele podia ser qualquer um dos cinco ou seis desmoronados ali. Ou nenhum deles.
“Entre ai” disse o sujeito.
Mostrei os pulsos. “Por favor, pode tirar?”. Meus dedos pareciam salsichas púrpuras devido às horas amarrados pelas tiras de plástico.
Ele não fez nada.
“Olhe” falei tentando não parecer sarcástico ou irritado (o que não era fácil). “Olhe, você libera meus pulsos ou vou precisar de sua ajuda. Uma visita ao banheiro não é algo que possa ser feito com as mãos amarradas.” Alguém no caminhão riu baixo. O cara não gostava de mim, eu podia dizer isso pelo jeito que os músculos de seu maxilar se retesavam. Cara, este pessoal não estava para brincadeiras.

Ele mexeu no cinto e pegou um pequeno estojo de mil e uma utilidades. Puxou dele algo como uma faca e cortou o plástico e minhas mãos ficaram livres.
“Obrigado” Falei.
Ele me empurrou para dentro do banheiro. Minhas mãos estavam imprestáveis, como bolos de barro na ponta dos pulsos. Quando estiquei os dedos, eles latejaram de um jeito que quase chorei de dor. Baixei o assento, baixei as calças e sentei nele. Não confiava em mim o bastante para ficar de pé. 
 Esvaziei a minha bexiga e chegou a vez dos meus olhos. Curvei-me chorando silenciosamente e indo para frente e para trás enquanto as lagrimas rolavam sem parar. E tudo que eu podia fazer era continuar chorando - cobrei minha boca e abafei os sons. Não queria dar a eles esta satisfação.
Por fim, acabei de mijar, gritei e o cara começou a bater na porta. Limpei meu rosto o melhor que pude com a toalha de papel, enfiei tudo na privada e dei descarga, então olhando a volta procurando uma pia achei apenas uma embalagem de pressão de um higienizador de mãos coberta com uma lista dos bio-agentes que continha. Joguei um pouco nas mãos e saí.
“O que você estava fazendo lá?” o cara disse.
“Usando o banheiro” eu disse. Ele me virou e prendeu minhas mãos com um novo par de tiras. Meus pulsos haviam inchado desde que o último par havia sido tirado e as novas doeram muito mais na pele macia, mas eu me recusei a dar a ele o prazer de me ver gritar.
Ele me empurrou de volta ao meu lugar e prendeu-me junto da pessoa mais próxima, que, eu via agora, era Jolu. Seu rosto estava inchado e com uma feia mancha roxa na bochecha.
“Você está bem?” perguntei para ele, e meu amigo do cinto de utilidades colocou abruptamente a mão na minha testa e empurrou com força, batendo minha cabeça na parede de metal do caminhão com um som de algo se quebrando. “Sem conversa” disse enquanto eu me esforçava para conseguir enxergar.

Eu não gostava dessa gente. Decidi bem ali que eles iriam pagar um preço alto por aquilo.
Um por um, todos os prisioneiros foram para o reservado e voltaram e quando acabou, meu guarda voltou para seus amigos e tomou outro copo de café - eles bebiam de uma grande embalagem para viagem da Starbucks, eu vi - e começaram a conversar algo que terminou com risos.
Então a porta dos fundos do caminhão se abriu e ar fresco entrou, não o ar enfumaçado de antes, mas marcado por ozônio.  Antes que a porta se fechasse, eu vi que estava escuro e chuviscando, aquela chuvinha característica de São Francisco que era em parte névoa.
 O homem que entrou vestia uniforme militar. Um uniforme militar Americano. Saudou os nossos raptores e eles o saudaram de volta e foi então que eu soube que não era prisioneiro de alguns terroristas - eu era prisioneiro dos Estados Unidos da América.

 #

Eles prenderam uma pequena tela no final do caminhão e passaram a vir nos pegar um por um, nos empurrando e levando-nos para lá. O mais perto que podia chegar de mentalmente contar segundos - um hipopótamo - dois hipopótamos - era que as entrevistas duravam por volta de sete minutos cada. Minha cabeça estava confusa por conta da desidratação e da falta de cafeína.
Eu fui o terceiro, fui levado por uma mulher com um corte de cabelo militar. Olhando rapidamente, ela parecia cansada, com bolsas sob os olhos e linhas de preocupação nos cantos da boca.
“Obrigado” eu disse automaticamente quando ela desligou remotamente minhas algemas e me colocou de pé.
Eu odiava a mim mesmo por conta desta cortesia, mas estava dentro de mim.
 Ela não piscou um olho. Eu segui a sua frente para o fim do caminhão e além da tela de segurança. Havia uma cadeira lá e me sentei nela. Dois deles - a mulher do cabelo raspado e o homem do cinto de utilidades - olharam para mim do alto de suas cadeiras super-ergonômicas.
Tinham entre eles uma pequena mesa, onde estavam os conteúdos de minha mochila e de minha carteira.

“Olá, Marcus.” Disse a mulher. “Temos algumas perguntas para você.”
“Estou sendo preso?” Perguntei. Não era uma pergunta sem propósito. Se você não está sendo preso, existem limites sobre o que os tiras podem ou não podem fazer com você. Para começar, eles não podem te deter indefinidamente sem prender você, precisam lhe dar o direito de fazer um telefonema e deixar que você converse com um advogado. E pode acreditar, eu tinha muito pra falar pra um advogado.

“Pra que serve isso?” ele disse com meu telefone em sua mão. A tela exibia uma mensagem de erro que você normalmente recebe quando tenta usar sem dar a senha correta. Era uma mensagem bem rude - uma animação de uma mão fazendo um gesto universalmente conhecido - porque eu gostava de customizar meus aparelhos.

“Eu estou sendo preso?” Eu repeti. Eles também não podem lhe obrigar a responder qualquer pergunta se você não estiver sendo preso e se você pergunta se está sendo preso, eles são obrigados a responder. São as regras.
“Você está sendo detido pelo Departamento de Segurança do Estado.” disse a mulher.
“Estou sendo preso?”
“Você precisa ser mais cooperativo Marcus, é melhor começar agora.” Ela não disse “senão...” mas estava implícito.
“Eu gostaria de contatar um advogado.” Eu disse. “Gostaria de saber do que estou sendo acusado. Gostaria de ver algum tipo de identificação de vocês dois.”
Os dois agentes se entreolharam.

“Acho que você deveria realmente reconsiderar sua atitude diante desta situação.” Disse a mulher de cabelo raspado. “Eu acho que deveria começar agora mesmo. Encontramos vários mecanismos suspeitos com você. Encontramos você e seus camaradas próximos do local do pior atentado terrorista que este país já viu. Coloque estes dois fatos juntos e as coisas não ficam boas para você, Marcus. Você pode cooperar ou pode lamentar muito, muito mesmo. Agora, o que vai ser?”
“Você pensa que eu sou um terrorista? Eu tenho dezessete anos!”
“A idade certa – A Al-Qaeda adora recrutar garotos impressionáveis e idealistas. Nós googlamos você, você sabe. Você postou um monte de coisas ruins na internet pública.”
“Eu gostaria de falar com um advogado.” eu disse.

A mulher olhou seria para mim. Eu era um inseto. “Você está achando erroneamente que foi pego pela polícia devido a um crime. Esqueça tudo isso. Você está sendo detido como um inimigo em potencial do governo dos Estados Unidos. Se eu fosse você, eu pensaria bastante em como nos convencer que você não é o inimigo. Muito mesmo. Por que existem alguns buracos escuros em que os inimigos podem desaparecer, buracos bem escuros e profundos, buracos onde tudo desaparece. Pra sempre. Está me ouvindo, meu jovem? Quero que desbloqueie o telefone e então descriptografe os arquivos da memória. Quero que diga o que você estava fazendo na rua. O que você sabe sobre o ataque a esta cidade?”
“Não irei desproteger meu telefone para você” eu disse indignado. A memória do meu telefone tinha todo tipo de coisas privadas nela: fotos, emails, pequenos hacks e mods que eu instalei.
“É coisa particular.”
“O que você tem a esconder?”
“Tenho direito a privacidade. E quero falar com um advogado.”
“Esta é a sua última chance, garoto. Gente honesta não tem nada a esconder.”
“Eu quero falar com um advogado.” Meus pais pagariam por isso. Todas os guias sobre ser preso eram claros neste ponto. Continue pedindo para falar com um advogado, não importa o que lhe digam ou façam.

Não há nenhuma vantagem para você ao conversar com um tira sem seu advogado presente. Estes dois diziam que não eram policiais, mas se isso não era ser preso, então o que era?

Em retrospecto, talvez eu devesse ter desbloqueado meu telefone para eles.



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