domingo, 24 de janeiro de 2010

Entrevista com Jerry Pournelle




O trabalho de Jerry Pournelle vai além do que muitos escritores de FC hoje em dia consideram 'realista'. bestsellers como 'Lucifer’s Hammer', 'Starswarm' e 'The mote in God's eye', redefiniram o gênero, e ajudaram muitos escritores a serem vistos com mais seriedade do que no passado.

Pournelle também escreve artigos sobre os impactos da aplicação da tecnologia em nosso estilo de vida, e é um incentivador do uso da tecnologia para evitar a destruição de elementos fundamentais da humanidade.


Pergunta: Que tipo de objetivos deve ter em mente um escritor iniciante de Ficção Científica?

Jerry Pournelle: Eu diria a qualquer escritor iniciante: Escreva bastante. Mande o que escreveu para quem possa comprá-lo. Não mande pra mim. Eu não iria comprar mesmo se gostasse. Você sabe que muita gente me pergunta: 'Como eu consigo um agente?' É uma pergunta muito boa, e eu não tenho uma resposta, devo dizer. Nunca tive este problema, por que eu era bastante utilizado por Mr.Heinlein, como uma fonte de dados científicos, e ligava para ele pedindo para que lesse meu trabalho, o que era um grande favor. Jovens escritores não entendem o quão gigantesco é este favor. E Robert Heinlein leu meu trabalho e gostou o bastante para me mandar ao seu agente, que tem sido o mesmo desde então.

Eu não tive nenhuma dificuldade nesta área, mas você tem que se lembrar que eu provavelmente escrevi um milhão de palavras (sem ser ficção) antes disso, muitos relatórios, avaliações, propostas técnicas; eu escrevi muito, então eu já sabia como escrever.

Existe um bom número de escritores conhecidos, populares, que já construíram suas reputações, e quando você lê o que eles escreveram, vinte anos atrás, percebe que eram impublicáveis! Basta observar o mercado, você pode dizer o por que, não pode? Eles não seriam vendidos se não fosse pelo nome, e não acho que estaria fazendo um favor ao leitor, dando-lhes para ler, algo que não era bom o bastante, quando não sabiam quem você era.


P: Você acha que isto tem a ver com o status ganho pelos escritores de maneira geral?

JP: Claro, tem muito dinheiro nisso e cada vez mais. Quando você chega na minha idade, quero dizer, que diabos, eu botei fogo no meu baú! Por que, se eu tivesse as histórias antigas, que eu não vendi, eu poderia tentar transformá-las, e fazer algum dinheiro. Eu tenho 70 anos, e é muito trabalhoso escrever um romance e se eu tivesse um romance pronto, eu provavelmente conseguiria de 150 a 250 mil dólares nele, mesmo antigo, ou eu faria dele um roteiro para o cinema.


P: Você tem algum interesse em trabalhar em seus escritos não publicados?

JP: Eu não poderia mesmo que desejasse; joguei todos fora! Pensava que se não vendiam antes, não seriam vendidos depois, não via nenhum sentido em vendê-los no futuro. Escrever é trabalhoso e não há segredos, e fazer parte de um clube de escritores também não faz nenhum bem a você, na minha opinião.


P: Seguindo esta ideia, qual é a parte mais difícil em escrever FC para viver?

JP: Vou colocar desta forma, Randall Garret tinha uma regra, ele dizia que nenhum escritor profissional se fez freqüentando salas de aula.

E eu não conheço uma só exceção hoje em dia. Larry Niven fez o famoso Writer's Course, mas ele não chegou nem na metade dele, ele começou a ser publicado e largou-o. Você sabe que ele teria conseguido de qualquer maneira. Ele não aprendeu nada lá. Talvez ele tenha conquistado confiança, e isto é necessário para você continuar no seu trabalho e chegar lá, mas a maioria do escritores incentivam cursos e clubes de escritores, e workshops, e todo o resto. É preguiça pura. Fazem você se sentir um escritor, sem ter que escrever coisa alguma. Alguns deles valem a pena, mas a maioria são apenas negócios -  pra fazer dinheiro.


P: Quais são as responsabilidades de um escritor de FC, e algo mudou desde que você começou a escrever?

JP: A gente batalha para sobreviver. Se é isso que você está atrás, então tem que batalhar bastante para sobreviver. Eu vivo bem de vender palavras. Eu não construí esta casa assim. Você entende onde eu quero chegar? Minha obrigação com as pessoas que compram meus livros, é fazer valer seu dinheiro. Eu acho que os escritores tem cada um a sua história, e muitas respostas diferentes para esta pergunta.


P: Como o seu trabalho com Larry Niven, afetou a sua colaboração com S.M.Stirling?

JP: Nós não nos entendemos, um ao outro, tão bem como Niven e eu nos entendemos. O problema é que Stirling quer que seus vilões vençam. Quero dizer, tente escrever um romance onde Hitler vence, e veja quantos livros você vai vender. Não é sobre isso que se trata 'The producers'? Eles tentam escrever a pior peça do mundo para que seja um fracasso, então surge 'Primavera para Hitler'. Você não quer que os vilões vençam, você não pode fazê-los muito poderosos. As pessoas podem até ler este tipo de história, mas não frequentemente, quero dizer, '1984' por exemplo, você não o lê várias vezes, lê? Mas Orwell não escreveu muito, ele escreveu 'Animal Farm' e terminou escrevendo  '1984'. E não fez mais nada, ele não estava interessado em entreter a ninguém.


P: Você considerava que ele estava além da literatura (ou de fora)?

JP: Bem, ele escrevia ensaios, e fez de um ensaio um romance magnífico. Aldous Huxley também é um pouco assim. Pouca gente lê Huxley, do mesmo modo que lêem outros. Você não lê um romance de Huxley, qualquer que seja, 'Point Counterpoint' ou... você vai ler 'Antic Hay' para se entreter, mas mesmo assim, isso cansa após um tempo. E certamente não vai ler 'Admirável Mundo Novo' para se divertir.

Não quer dizer que não se possa transmitir mensagens e ao mesmo tempo entreter, mas como eu costumo dizer sobre 'Burning City', é o tipo de romance social, mas afortunadamente, os personagens não sabem disso.' Assim como eles não sabem que estão em um drama social, você não pode fazer um monte de coisas. Tão logo os personagens percebem que são arquétipos...você entende onde eu quero chegar? Eu não quero escrever isso! Pouca gente o quer! Quantas cópias vendeu '1984' da primeira vez que foi publicado? '1984' é um desses livros que continuam vendendo pouco a cada ano, sabe? E nunca sai de catálogo.

Não é como Joseph Conrad, que quando ele vende, ele conta historias, e as pessoas o compram por suas histórias e só mais tarde, as pessoas se apercebem que existe mais do que uma simples e boa aventura nos mares do sul em 'Lord Jim'.


P: Você acha que seus personagens sabem que são arquétipos?

JP: Não. Mas Conrad é um contador de histórias como eu. Se você quer me comparar a alguém, então tente Robert Louis Stevenson. Não o acho um 'peso leve', mas acho que ele nunca se viu como um escritor literário. Ele era um contador de historias, de aventuras, e  acho que também sou. Tento ser como Sir Walter Scott, é outro. Scott queria escrever para viver, por toda sua vida. E tinha histórias para contar, tinha mensagens nelas. Eu tenho mensagens nas minhas, por Deus, mas os personagens não sabem disso. 

Falkenburg sabia que era um mensageiro, mas tinha propósitos diferentes em sua vida. Não era apenas um mensageiro, mas também um professor. Ele tinha que ensinar aos seus jovens oficiais o porquê de estarem matando pessoas, além de como fazê-lo. Ele tinha que criar uma reputação de ser o cara que valia a pena ser ouvido, antes que eu pudesse fazê-lo dar conselhos.

O mais perto que eu cheguei de fazer uma pregação foi na cena em que o príncipe dos mercenários está no helicóptero, quando Falkenburg diz para o jovem príncipe:
 'Não faço isto sempre, mas também não é sempre que tenho um futuro príncipe como platéia.'


P: Por que o grande intervalo até a sequência de 'The mote in God's Eye', e o que o motivou, e a Larry Niven, para fazê-lo?

JP: Levou 20 anos para sair a sequência por que nós não sabíamos como fazê-la. Então um dia Niven chegou e disse: 'The Gripping Hand!' e eu disse 'O que?', e ele começou a me contar o romance, e pareceu uma boa história, eu decidi sentar e escrevê-la, e quando o fizemos, pensamos que ficou bastante bom. A sociedade que construímos no primeiro livro, não tinha nada a ver com nada que escrevemos para o segundo livro. Parecia bastante com a Arábia antes do profeta. E nos tínhamos um árabe nacionalista no primeiro livro, que coube perfeitamente no segundo livro, e seria o único cara no mundo que teria entendido a sociedade 'Motie', por que se parecia com a Arábia antes do profeta.


P: O que mudou na promoção dos seus livros?

JP: Eu costumava ir a São Francisco para participar daqueles programas na madrugada, quase todo mês. Então uma vez eu estava em San Diego, tarde da noite, e era um programa de rádio, desses 24 horas no ar, e valia a pena aparecer nele.

Então você vai e fica sentado lá das onze da noite até as cinco da manhã, falando sobre seus livros, e tudo mais. Quando perguntei ao meu agente o porquê, na primeira vez que ele me pediu pra fazê-lo, ele me respondeu 'muita gente insone lê livros, Jerry'.

Eu não sei como são as coisas hoje, não sei como se ganha publicidade hoje em dia. Eu já sou bem conhecido, sou convidado para dar palestras em convenções e estas coisas, mas eu não sei como se faz para chegar lá...


P: O que você faz para relaxar?

JP: Jogos de computador.


P: O que gosta de jogar?

JP: Gosto de jogos on-line. Everquest e Dark Age of Camelot.


P: São jogos 'históricos'.

JP: Dark Age sim, Everquest é fantasia direto!


P: Veremos uma sequência para 'Starswarm'?

JP: Não sei. Não foi fácil explorar aquela historia. Eu não sei se quero fazê-lo também. Meu planos atuais são mesmo terminar uma dúzia de trabalhos, em que venho me concentrando à muito, e pronto. Ai então vou me sentar e pensar no que virá em seguida.



Entrevistado por Cristopher Hennessey-DeRose