sábado, 23 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 13



CAPÍTULO 13

Este capítulo é dedicado à Books-A-Million, a gigantesca cadeia de livrarias espalhada pelos EUA. Meu primeiro encontro com a Books-A-Million foi no hotel Terre Haute em Indiana (eu daria uma palestra naquele dia mais tarde,na Rose Human Institute of Tecnology). A loja ficava junto do hote, e eu precisava mesmo de material de leitura -estava na estrada há um mês e tinha lido tudo que tinha na mala e tinha mais cinco cidades pela frente antes de voltar para casa. Como fiquei algum tempo olhando as prateleiras, um balconista veio me perguntar se precisava de ajuda. Eu já trabalhei em livrarias antes, e sei que um funcionário com conhecimento vale seu peso em ouro, então eu disse, é claro, e comecei a descrever meus gostos nomeando os autores de quem gostava. O funcionário sorriu e disse “Tenho o livro certo para você” e me deu um exemplar do meu primeiro romance, “Down and Out in the Magic Kingdom.” Comecei a rir e me apresentei, e tivemos uma ótima conversa sobre ficção científica, que quase me fez perder a hora da minha palestra!
Books-A-Million



“São umas prostitutas!” disse Ange cuspindo a palavra. “Na verdade é um insulto ao trabalho duro de todas as prostitutas! São, são uns especuladores!” Olhávamos uma pilha de jornais que escolhemos e compramos no café. Todos traziam reportagens sobre a festa em Dolores Park e eles faziam parecer como uma orgia de garotos bêbados e drogados que atacaram os policiais. O USA Today descrevia o custo da baderna e incluído o custo de lavar os resíduos do spray de pimenta das bombas de gás, o surgimento de diversos casos de ataques asmáticos que encheram as emergências da cidade e o custo de processar oitocentas pessoas presas como baderneiros.

Nenhum deles contava o nosso lado.

“Bem, de qualquer jeito, a Xnet divulgou a coisa como aconteceu.” Eu disse.
Tinha salvo vários blogs, vídeos e fotos no meu telefone e mostrei-os para ela.
Eram relatos em primeira mão de pessoas que sofreram com os gases e que foram espancadas. O vídeo mostrava as pessoas dançando e se divertindo, os discursos políticos pacíficos e todos cantando “Pegue de volta” e Trudy Doo falando sobre sermos a única geração que poderia lutar por nossa liberdade. “Precisamos que as pessoas saibam sobre isso” ela disse.
“Sim” eu disse, mal humorado. “É uma bela teoria.”
“Por que você acha que a imprensa nunca publica o nosso lado?”
“Você já disse, são prostitutas.” Eu disse.
“Sim, mas prostitutas fazem isso por dinheiro. Eles podem vender mais jornais e propagandas se conseguirem uma controvérsia. Tudo que eles têm agora é um crime -controvérsia rende muito mais.”
“Ok, ponto para você. Então por que não fazem isso? Os repórteres podem procurar facilmente nos blogs de sempre, mas não sabem o que rola no Xnet. Não é um lugar realmente fácil para chegar.”

“Sim, bem, nós podemos consertar isso, certo?” Ela falou.
“Huh?”
“Vamos passar isso pra frente. Colocar em tudo quanto é lugar, em todos os links. Um lugar onde possamos deixar com a intenção de que a imprensa possa achar e ver o quadro todo. Linkar aos HOWTOs (Como fazer) para a Xnet. Os usuários de internet vão usar a Xnet, desde que não se importem com o que a DHS pensa sobre o que estão fazendo.” Ela falou.
“Acha que vai funcionar?”
“Bem, se não funcionar, é a coisa certa a se fazer.”
“Por que eles nos ouviriam?” perguntei.
“Quem não ouviria o M1k3y?”

Baixei o café. Peguei meu telefone e guardei no bolso. Levantei, girei nos
calcanhares e sai andando do café. Escolhi uma direção qualquer e continuei andando. Meu rosto mostrava meu cansaço, meu estômago parecia manteiga. Eles sabiam quem você era, pensei. Sabiam quem era M1k3y. Era isso. Se Ange tinha descoberto isso, o DHS também tinha. Estava amaldiçoado. Sabia disso desde que tinham me deixado sair do caminhão da DHS, que algum dia eles voltariam e me prenderiam e desapareceriam comigo para sempre, para onde quer que Darryl tivesse sido mandado.

Era o fim.

Ela logo me alcançou quando estava já na rua do Mercado. Estava ofegante e furiosa.
“Qual diabos é o seu problema?”
Eu me soltei e continuei andando. Era o fim.
Ela me agarrou de novo. “Para, Marcus! Você está me assustando. Vamos, fale comigo.”
Parei e olhei para ela. Era uma mancha na minha frente. Não conseguia focalizar em nada. Desejava pular na frente do trilho do bonde e ser despedaçado bem no meio da rua. Melhor morrer do que voltar para lá.
“Marcus!” Ela então fez algo que só tinha visto em filmes. Ela me deu um tapa bem forte no rosto. “Fale comigo!”
Olhei para ela segurando meu rosto, onde doía mais.
“Ninguém pode saber quem eu sou. Se você sabe, então está acabado. Todos saberão, é o fim!”
“Meu Deus, me desculpa! Olhe, eu só sei disso porque, bem, eu fiz chantagem com Jolu. Depois da festa eu segui você um pouco, tentava saber se você era o cara legal que parecia ser ou o maníaco assassino do machado. Conheço Jolu há muito tempo e quando eu perguntei sobre você ele se emocionou como se você
fosse o Salvador, ou algo assim, mas sabia que tinha alguma coisa que ele nãoestava me contando. Conheço ele, ele namorou minha irmã mais velha em um acampamento de informática quando era moleque. Sei de uns segredos bem podres dele. Disse que eu contaria para todo mundo se ele não contasse para mim.”

“Então ele te contou.”
“Não. Ele me mandou pro inferno. Então eu contei algo sobre mim. Algo que nunca contei para ninguém.”
“O que foi?”
Ela olhou para mim. Olhou à volta. Olhou para mim de novo. ‘”Tá bom. Não vou pedir que guarde segredo, por que não faria sentido. Além disso, posso confiar em você.”
“No ano passado, eu... no ano passado eu roubei algumas provas padrão, e as publiquei na rede. Foi só por diversão. Estava passando pela sala do diretor e vi que estavam no cofre e a porta estava aberta. Tinha umas seis cópias, eu peguei uma e guardei na bolsa e quando cheguei em casa, as escaneei e as subi para um
site pirata na Dinamarca.”
“Foi você?” Perguntei.
Ela corou. “Hum. Fui.”
“Caramba!”

Isso tinha sido um acontecimento na época. A comissão de Educação declarou que custou dez milhões de dólares para promover e criar as provas e que teriam que gastar a mesma quantia de novo, por conta do vazamento. Chamaram de “Terrorismo-educacional”. Os jornais tinham especulado interminavelmente sobre as motivações políticas do responsável por aquilo, imaginando se fora um protesto dos professores, um aluno, um ladrão ou um alguém descontente de dentro do governo.

“Foi VOCÊ?”
“Fui eu.” ela disse.
“E você contou isso para Jolu...”
“Porque eu queria que ele tivesse certeza que eu guardaria segredo. Se ele sabia meu segredo, então tinha algo que poderia usar para me colocar na cadeia se eu abrisse o bico. Dê um pouco, pegue um pouco. ‘Quid pro quo’, como no “Silêncio dos Inocentes.”
“Então ele te contou.”
“Não. Ele não contou.”
“Mas...”
“Então eu disse para ele que estava a fim de você. Como eu planejava me atirar em você. Então ele contou.”

Não consegui pensar em nada para dizer. Eu olhava para meus tênis. Ela segurou minhas mãos e as apertou. “Me desculpa. Eu arranquei isso dele. Devia ser sua decisão de dizer pra mim se é que você planejava de me contar. Eu não devia...”
“Não.” Eu disse. Agora que sabia como ela tinha conseguido saber, estava mais calmo.
“Não, é bom que você saiba. Só você.”
“Só eu. Euzinha.”
“Ok. posso viver com isso. Mas tem algo mais.”
“O quê?”

“Não tem um jeito de dizer isso sem parecer um idiota, então vou dizer assim mesmo. Pessoas que namoram ou o que quer que estejam fazendo -elas rompem.Quando acontece, ficam zangados com o outro. Às vezes, um com o outro. É muita frieza pensar que isso pode vir a acontecer com a gente, mas você sabe, temos que pensar nisso.”

“Eu solenemente prometo que não há nada que você possa me fazer que me fizesse trair seu segredo. Nada. Transe com dúzias de animadoras de torcida na minha cama enquanto minha mãe assiste, me faça ouvir Britney Spears. Roube meu laptop e quebre-o com o martelo e mergulhe-o no mar. Eu prometo. Nada. Nunca.”

Respirei aliviado.
“Agora seria um bom momento para me beijar.” ela disse, e ergueu o rosto na minha direção.

#

O próximo grande projeto de M1k3y na Xnet era capturar todas as matérias a respeito da festa NÃO ACREDITE em Dolores Park e colocá-las juntas. Coloquei os sites mais agressivos que podia, com seções mostrando a ação por local e por tempo e por categoria -violência policial, dança, as conseqüências, a cantoria. Subi o concerto todo.

Tinha o bastante para o resto da noite. E da noite seguinte e da seguinte.
Minha caixa postal ficou lotada de sugestões de pessoas. Me mandaram cópias tiradas de seus telefones e câmeras. Então recebi um email de um nome que reconheci - Doutor Eeevil, (com 3 ‘e’), um dos primeiros mantenedores do ParanoidLinux.

> M1k3y
> Estive vendo seu experimento na Xnet com grande interesse. Aqui na Alemanha temos muita experiência sobre o que acontece quando o governo perde o controle.
> Uma coisa que você precisa saber é que cada câmera tem um sinal de ruído único, que pode ser usado depois para ligar uma foto com a câmera. Isso significa que as fotos que você publica no seu site podem potencialmente ser usadas para identificar os fotógrafos, se forem pegos depois por algum motivo.
> Felizmente não é difícil apagar estas assinaturas, se quiser. Tem um utilitário no ParanoidLinux que voe pode usar para isso -chama-se Photonomus e vai achar no /usr/bin. Leia a pagina principal da documentação. É bem simples.
> Boa sorte com o que está fazendo! Não seja preso. Permaneça livre. Permaneça paranóico.
> Doutor Eeevil.

Retirei as impressões digitais de todas as fotos que postei e coloquei-as de volta com uma nota explicando o que Doutor Eeevil tinha me dito, alertando todos da mesma forma. Todos nós tínhamos o mesmo conhecimento básico da instalação do ParanoidLinux, de forma que podíamos transformar nossas próprias fotos em fotos anônimas. Não dava para fazer nada com aquelas que já podiam ter sido copiadas ou baixadas, mas de agora em diante eu ficaria mais esperto.
Isso era tudo que importava naquela noite, até eu descer para o café da manhã no dia seguinte e mamãe ligar o rádio para ouvir o noticiário da NPR.

“A agência de notícias árabe Al-Jazeera está exibindo fotos, vídeos e relatos em primeira mão dos incidentes da ultima semana em Missão Dolores Park.” O locutor disse, enquanto eu bebia meu suco de laranja. Tentei não cuspir o suco por toda sala, mas me engasguei um pouco.

“Os repórteres da Al-Jazeera disseram que este material foi publicado pelo chamado Xnet, uma rede clandestina usada por estudantes e simpatizantes da Al-Quaeda na Bay Area. A existência desta rede era há muito um boato, mas hoje marca sua primeira menção pública.”

Mamãe balançou a cabeça. “Era tudo que nós precisávamos. Como se a polícia não fosse ruim o bastante. Crianças correndo por ai, brincando de guerrilha e dando para eles a desculpa para realmente botar a casa abaixo.”

“Os weblogs da Xnet trazem centenas de relatos e arquivos multimídia de jovens que participaram do confronto e que alegam que o se tratava de uma manifestação pacifica até que a polícia os atacou. Aqui está um desses relatos:”

“Tudo o que fazíamos era dançar. Levei meu irmãozinho comigo. As bandas estavam tocando e falando sobre liberdade, de como nós a estávamos perdendo para aqueles idiotas que dizem odiar terroristas, mas que nos atacam, nós não somos terroristas, somos americanos. Acho que odeiam a liberdade, não nós. A gente estava dançando e as bandas tocavam e estava muito divertido e então os policiais começaram a gritar para que dispersássemos. Gritávamos tome de volta. Significando trazer a América de volta. Os policiais nos jogaram gás de pimenta. Meu irmãozinho tem doze anos. Ele perdeu três dias de escola. Os idiotas dos meus pais dizem que foi minha culpa. Mas e quanto à polícia? Nós os pagamos e eles supostamente deveriam nos proteger mas eles jogam gás na gente sem uma boa razão, como se fossemos soldados inimigos.”

“Relatos semelhantes, incluindo áudio e vídeo, podem ser encontrados no website da Al-Jazeera e na Xnet. Você encontra orientações de como acessar a Xnet na página da NPR.”

Papai apareceu.
“Você usa a Xnet?” ele perguntou, olhando intensamente para mim. Senti-me comprimido.

“Só para jogos” eu disse. “A maioria usa para isso. É só uma rede sem fio. É o que todos fazem com estes Xboxs gratuitos que ganhamos ano passado.”

Ele me olhou com raiva: “Jogos? Marcus, você não se dá conta, mas você está dando cobertura para pessoas que planejam atacar e destruir nosso país. Não quero que use a Xnet. Nunca mais. Fui claro?”

Quis falar algo. Diabos, eu queria agarrá-lo e sacudi-lo. Mas não o fiz. Desviei o olhar. Eu disse “Claro, papai.”

E fui para a escola.

#

Primeiro fiquei aliviado ao descobrir que eles não iriam colocar o senhor Benson responsável pela minha aula de Estudos Sociais. Mas a mulher que eles acharam para substituí-lo era o meu pior pesadelo.

Era jovem, uns 28 ou 29 anos, bonita, de certa forma. Era loura e falava com um sotaque do sul e se apresentou como Senhora Andersen. Isso disparou ao alarmes. Não conheço ninguém com menos de 60 anos que chame a si próprio por “Senhora.”
Mas eu iria fazer vistas grossas quanto a isso. Ela era jovem, bonita. Deveria ser legal.
Mas ela não era.

“Sob que circunstâncias o governo federal deveria suspender a Declaração dos Direitos do Cidadão?” ela disse, virando-se para o quadro negro e escrevendo uma seqüência de números numa coluna até dez.
“Nunca.” falei sem esperar ser chamado. Essa era fácil. “Os direitos constitucionais são absolutos.”
“Essa não é uma observação muito elaborada, Marcus. Por exemplo, digamos que um policial conduza uma busca imprópria -que vá além do que foi especificado em seu mandado. Ele descobre evidências que um sujeito matou seu pai. É a única evidência que existe. Este sujeito deve ficar livre?”
Eu sabia a resposta, mas não podia explicar. “Sim. Mas a polícia não deveria conduzir buscas inapropriadas.”
“Errado.” Ela disse. “A resposta certa para o erro na conduta da polícia é uma ação disciplinar contra a polícia, não punindo toda a sociedade pelo erro de um policial.” E escreveu no quadro. “Culpa criminal.”
“Outras maneiras de substituir a Declaração dos direitos do cidadão?”
Charles ergueu a mão. “Pondo fogo num teatro lotado?”
“Muito bom.” Disse, consultando a pauta de classe sobre a mesa – “Charles.Existem muitas instâncias nas quais a Primeira Emenda não é absoluta. Vamos listar algumas delas.”
Charles levantou a mão novamente: “Quando um oficial fica em perigo durante a execução da lei.”

“Sim, quando um policial ou oficial de inteligência trabalhando disfarçado tem revelada sua identidade. Muito bem.” Ela escreveu esta abaixo. “Outras?”
“Segurança nacional.” disse Charles sem esperar que ela chamasse de novo.
“Calúnia. Obscenidade. Corrupção de menores. Pornografia infantil. Instruções para fabricar bombas.” Mrs. Andersen escrevia rápido, mas parou em pornografia infantil. “Pornografia infantil é um tipo de obscenidade.”

Eu estava ficando doente. Não era isso que eu aprendera ou acreditava sobre meu país. Levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Não estou entendendo. Você faz parecer que a Declaração dos Direitos éopcional. É a Constituição! Supostamente nós a seguimos sem pestanejar.”
“Esta é uma simplificação bastante comum.” disse sorrindo falso. “O fato que importa é que aqueles que escreveram a Constituição tinham a intenção de que fosse um documento vivo, revisado de tempos em tempos. Entendiam que a República não poderia durar para sempre, se o governo não pudesse governar de acordo com as necessidades de seu tempo. Nunca pretenderam que a Constituição fosse vista como uma doutrina religiosa. Afinal, eles vieram para cá fugindo de doutrinas religiosas.”
Balancei a cabeça; “O quê? Não. Eles eram mercadores e artesões leais ao Rei, até que ele instituiu políticas que eram contra seus interesses, e o fizeram de maneira brutal. Aqueles que fugiram por motivos religiosos tinham vindo antes.”
“Alguns dos que escreveram a Constituição eram descendentes destes primeiros” ela disse.
“E a Declaração dos Direitos não é algo que você pega e escolhe. O que eles odiavam era a tirania. Supostamente a Declaração dos Direitos prevenia contra isso. Eram um exército revolucionário e queriam estabelecer princípios que qualquer um pudesse concordar. Vida, liberdade e a busca pela felicidade. O direito das pessoas de derrubar seus opressores.”
“Sim, sim” ela disse acenando para mim. “Eles acreditavam no direito das pessoas de livrar-se de seus reis, mas...” Charles estava rindo e quando ela disse, seu sorriso foi maior ainda.
“Eles elaboraram a Declaração dos Direitos por que eles pensavam que tendo direitos absolutos era melhor do que o risco de alguém os tirar. Como a Primeira Emenda, deveria nos proteger prevenindo que o governo de criar dois tipos de discurso, o permitido e o criminal. Não queriam encarar o perigo de que algum caipira pudesse decidir que as coisas que ele achasse desagradáveis fossem ilegais.”
Ela se virou e escreveu: “Vida, liberdade e a busca da felicidade” no quadro.
“Estamos um pouco à frente da lição, mas vocês parecem um tipo de grupo mais avançado.” Os outros alunos riram disso, de nervoso.
“A função do governo é assegurar aos cidadãos os direitos a vida, a liberdade eda busca da felicidade. Nesta ordem. É como um filtro. Se o governo quer fazer algo que nos fará infelizes, ou tire um pouco da nossa liberdade, está certo, já queestão fazendo-o para garantir nossas vidas. É por isso que os policiais podem te deter, se acharem que você é perigoso para você ou outros. Você perde sua liberdade e felicidade para proteger a vida. Se você está vivo, pode ser capaz de ter liberdade e felicidade depois.”
Alguns ergueram suas mãos. “Isso não significa que podem fazer qualquer coisa
que queiram se eles disserem para impedir alguém de magoar-nos no futuro?”
“Sim.” disse um garoto. “Parece que você está dizendo que a segurança nacional
é mais importante que a Constituição.”
Eu estava tão orgulhoso de meus colegas que disse: “Como você pode proteger a liberdade suspendendo a Declaração dos Direitos?”
Ela balançou a cabeça como se estivéssemos falando uma estupidez. “Os pais da revolução atiravam em traidores e espiões. Eles não acreditavam em liberdade absoluta, não quando ameaçava a República. Agora, pegue este pessoal da Xnet...”
Procurei não demonstrar nada.
“...esses chamados espalhadores de interferência que estão nos jornais de hoje. Depois da cidade ter sido atacada por pessoas que declararam guerra a este país, eles começaram a sabotar as medidas de segurança estabelecidas para agarrar os criminosos e evitar que eles o façam de novo. Eles colocaram em risco seus
camaradas concidadãos...”
“Eles fazem isso para mostrar que nossos direitos estão sendo negados em nome da proteção deles mesmos!” eu disse. OK. Eu gritei. Deus, ela me deixou fervendo. “Eles fizeram isso porque o governo estava tratando a todo como suspeitos de terrorismo!”
“Então eles queriam provar que não podem ser tratados como terroristas, então eles agem como terroristas? Cometendo atos de terrorismo?” gritou Charles.
Eu pirei.
“Oh, pelo amor de Deus! Cometendo atos de terrorismo? Eles mostraram que a vigilância universal é mais perigosa do que o terrorismo. Olhe para o que aconteceu no parque no final de semana passado. Aquelas pessoas estavam dançando e curtindo a música. Como isso pode ser terrorismo?”

A professora atravessou a sala e parou diante de mim, quase me cobrindo até que eu me calasse. “Marcus, você parece pensar que nada mudou neste país. Você precisa entender que a explosão da Bay Bridge mudou tudo. Milhares de nossos amigos e parentes estão mortos no fundo da baía. Este é um tempo para união nacional em face do violento insulto que nosso pais sofreu...”

Fiquei de pé. Eu já tinha tido muito daquela lengalenga de que tudo mudou.
“Unidade nacional.” A questão toda era que nós somos do país onde discordar é bem vindo. Somos um país de discordantes, lutadores e universitários que se recusam a servir na guerra, da liberdade de expressão.

Pensei na última aula de Senhorita Galvez sobre os milhares de estudantes de Berkeley que cercaram os carros da polícia quando tentaram prender um cara por distribuir material sobre os direitos civis. Ninguém atentou para aqueles caminhões quando eles partiram levando as pessoas que dançavam no parque. Eu sequer tentei. Eu estava fugindo.

Talvez tudo tivesse mudado.

“Acredito que você saiba onde fica a sala do Senhor Benson.” ela disse para mim. “Se apresente a ele imediatamente. Não vou ter minha aula perturbada por comportamento desrespeitoso. Para alguém que clama amar a liberdade de expressão, você certamente deseja derrubar qualquer um que discorde com você.”

Coloquei meu computador escolar na bolsa e saí. A porta tinha um dispositivo que tornava impossível batê-la, ou eu o teria feito. Fui direto para a sala de Benson. As câmeras me filmavam no caminho. Meu
passo foi gravado. Os arphids em meu crachá escolar passaram minha identidade para os sensores do corredor. Era como estar sendo preso.

“Feche a porta, Marcus” disse o senhor Benson. Ele virou sua tela e pude ver a sala de aula de estudos sociais. Ele estivera me observando.
“O que tem para dizer em seu socorro?”
“Ela não está ensinando, aquilo era propaganda. Ela nos disse que a Constituição não importava.”
“Não, ela disse que não era uma doutrina religiosa. E você a atacou como um tipo de fundamentalista querendo provar seu ponto. Marcus, você, de todas as pessoas, deveria entender que tudo mudou desde que aponte foi explodida. Seu amigo Darryl...”
“Não diga uma maldita palavra sobre ele.” eu disse borbulhando de raiva.
“Você não pode falar sobre ele. Sim, eu entendo que tudo está diferente agora. Nós costumávamos ser um país livre. Agora não somos mais.”
“Marcus, você sabe o que significa ‘tolerância zero’?”
Eu baqueei. Ele podia expulsar-me por comportamento ameaçador. Isso supostamente era para ser usado contra garotos de gangue que intimidam seus professores. Mas é claro que ele não tinha remorso algum sobre usá-lo contra mim.
“Sim, eu sei do que se trata.”
“Acho que me deve desculpas.”

Olhei para ele. Claramente estava segurando seu sorriso sádico. Parte de mim queria humilhar-se. Queria pedir sua clemência, para minha vergonha. Eu suprimi esta parte e decidi que era melhor ser chutado para fora do que pedir desculpas.

“Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que se de alguma forma este se tornar destrutivo. é do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em ais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade.” Eu me lembrava de cada palavra.

Ele balançou a cabeça. “Lembrar de certas coisas não é o mesmo que compreender seu significado, garoto.” Ele se debruçou sobre o computador e fez alguns cliques. Sua impressora começou a bramir. Ele passou para minhas mãos um comunicado ainda quente em que no cabeçalho dizia que eu estava suspenso por duas semanas.

“Irei mandar um email para seus pais agora. Se ainda estiver nas propriedades desta escola em 30 minutos, eu irei prendê-lo por invasão.”

Olhei para ele.
“Você não quer declarar guerra contra mim na minha própria escola.” ele disse.
“Você não pode vencê-la. Saia!”

Eu fui embora.



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