sábado, 2 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 10



CAPÍTULO 10
Este capítulo é dedicado à Anderson’s Bookshops, uma lendária livraria infantil de Chicago. A Anderson’s é uma antiga empresa familiar, que começou como um mercado de outros tempos: além de outras coisas, também vendia livros. Hoje é um império de sucesso em livros infantis e com incríveis e inovadoras práticas de venda que unem crianças e livros de maneira realmente excitante. A melhor delas são as feiras móveis de livros, quando eles enviam enormes caminhões abarrotados de livros diretamente para as escolas das crianças - voilá, feira de livros instantânea!
Anderson's Bookshops: 123 West Jefferson, Naperville, IL 60540 USA +1 630 355 2665

O que você faria se descobrisse que tem um espião no seu meio? Você poderia denunciá-lo, colocá-lo contra a parede e obrigá-lo a confessar. Mas você terminaria com outro espião e o novo espião seria mais cauteloso do que o anterior e talvez não pudesse ser descoberto tão fácil.

Aqui está uma idéia melhor: comece interceptando as comunicações do espião e passando-lhe informações erradas. Vamos dizer que os superiores dele o instruíram para obter informações sobre seus movimentos. Deixe o espião lhe seguir à vontade e tomar todas as notas que quiser, porém quando ele for enviar as informações ao Quartel General, substitua estas informações por falsas. Se quiser, mande informações erradas e estranhas para que ele seja desacreditado.Você pode fabricar uma crise de modo a fazer com que o outro lado revele a identidade de seus espiões. Resumindo, você os controlaria. 
Isso se chama ataque do homem-no-meio; se você parar para pensar é bem assustador. Alguém que fique nesta posição pode te prejudicar de muitas maneiras.

É claro, tem um jeito sensacional de escapar do ataque do homem-no-meio: Usando cripto. Com criptografia, não importa se o inimigo pode ver suas mensagens, porque ele não pode decifrá-las, alterá-las e reenviá-las. Esta é uma das principais razões para usar criptografia.

Mas lembre-se: para a criptografia funcionar, você precisa ter chaves para as pessoas com quem você quer falar. Você e seu parceiro precisam compartilhar este segredo, ter algumas chaves para que possam criptografar e descriptografar mensagens de modo que o homem-do-meio fique de fora.
É onde reside a idéia da chave pública. É um pouco trabalhosa, mas é inacreditavelmente funcional também.
Em criptografia de chave pública, cada usuário fica com duas chaves. São longas cadeias matemáticas ininteligíveis, e possuem uma propriedade quase mágica. Qualquer coisa que você embaralhe com uma chave o outro poderá entender e vice-versa. E são as únicas chaves com as quais você poderá fazer isso - se você pode desembaralhar uma mensagem com uma chave, você sabe que pode embaralhar com a outra (e vice-versa).

Então você usa uma destas chaves (não importa qual) e você a publica. Deste modo ela não é mais secreta. Qualquer um no mundo poderá conhecê-la. Por este motivo, obviamente, ela se chama “pública”.
A outra chave você guarda no canto mais longínquo do seu cérebro. Protege-a com a sua própria vida. Não deixa que outra pessoa fique sabendo dela. É chamada chave privada (Duh!)
Agora digamos que você é um espião e quer falar com seus chefes. Suas chaves públicas são conhecidas por todos. Ninguém conhece a sua chave privada, só você. Ninguém sabe a chave privada deles a não ser eles.

Você quer mandar uma mensagem. Primeiro você a criptografa com sua chave privada. Você poderia mandar a mensagem deste jeito, e funcionaria bem, desde que eles soubessem quando a mensagem chegasse e foi você que a mandou. Como? Porque se eles podem decriptografá-la com sua chave pública, significa que só pode ter sido criptografada com sua chave privada. É o equivalente a pôr seu selo ou assinatura no fim da mensagem. Isso diz “Eu escrevi isso e ninguém mais. Ninguém a adulterou ou alterou.”
Na verdade, isso infelizmente não mantém sua mensagem secreta, porque sua senha pública é bem conhecida (e tem que ser, ou você estaria limitado a mandar mensagens para as poucas pessoas que têm sua chave pública). Qualquer um que interceptar a mensagem vai poder lê-la. Eles não podem mudá-la e fazer parecer que veio de você, mas se você não quiser que qualquer um saiba o que está dizendo, então precisa de uma solução melhor.

Então, ao invés de só criptografar a mensagem com sua chave privada, você também a criptografa com a chave pública de seus chefes: agora ela está duplamente fechada. A primeira criptografia- a chave pública de seus chefes - só pode ser aberta com a chave privada de seus chefes. A segunda criptografia- sua chave privada - só é aberta com sua chave pública. Quando seus chefes receberem a mensagem, eles a abrirão com ambas as chaves e agora eles terão certeza de que a) você a escreveu e b) apenas eles podem ler.
Muito legal! O dia que eu descobri isso, Darryl e eu imediatamente trocamos chaves e passamos meses trocando mensagens como se fossem altos segredos militares sobre onde iríamos nos encontrar após a escola ou onde quer que Van pudesse nos encontrar.

Mas se você quer entender sobre segurança, você precisa considerar as possibilidades mais paranóicas. Do tipo, o que aconteceria se eu te enganasse pensando que minha chave pública é a chave pública de seu chefe? Você poderia criptografar a mensagem com sua chave privada e minha chave pública. Eu descriptografaria a mensagem, leria, criptografaria novamente com a chave pública verdadeira do seu chefe e a mandaria. Assim o seu chefe saberia que ninguém, a não ser você, poderia ter escrito a mensagem e ninguém, a não ser ele, poderia ter lido.

E eu ficaria no meio, como uma aranha gorda na teia, e todos seus segredos me pertenceriam.
Agora, a maneira mais fácil de consertar isso é anunciar amplamente sua chave pública. Se for realmente fácil para qualquer um saber qual é sua verdadeira chave, as coisas para o homem do meio ficam muito, muito difíceis. Mas sabe o que mais? Fazer as coisas serem bem conhecidas é tão difícil quanto guardar um segredo. Pense nisso - quantos bilhões de dólares são gastos em comerciais de xampu e outras porcarias apenas para fazer com que muitas pessoas conheçam o que algum anunciante quer que elas saibam?

Tem um jeito mais barato de fazer isso: A rede de confiança. Digamos que, depois de sair do Quartel General, você e seus chefes sentem para um café e um conte ao outro suas chaves. Nada mais de homem-do-meio! Você tem certeza das chaves que possui porque foram todas colocadas em suas mãos.
Até aí, tudo bem. Mas existe um limite natural para se fazer isso: com quantas pessoas você consegue encontrar-se fisicamente e trocar chaves? Quantas horas do dia você quer se dedicar a escrever o equivalente a seu próprio catalogo telefônico? Quantas destas pessoas estão dispostas a fazer o mesmo por você?  

Pense nisso como um auxílio à lista telefônica. O mundo é um lugar com várias listas telefônicas e quando você precisa de um número, você pode procurar na lista. Mas muitos destes números você já conhece ou pode perguntar a alguém. Hoje, quando estou na rua com meu telefone celular, eu perguntaria a Jolu ou Darryl se eles têm o número que eu procuro. É mais rápido e fácil do que procurar online e eles também são mais confiáveis. Se Jolu tem o número e eu confio nele, então confio também neste número. Isso se chama “confiança transitiva” - a confiança que se move através da rede de nossos relacionamentos.
Uma rede de confiança é uma versão maior que isso. Digamos que eu encontre Jolu e pegue sua chave. Posso colocá-la no meu “chaveiro” - uma lista de chaves que eu assino com minha chave privada. Isso significa que você não pode abri-la com minha chave pública e fica claro para mim - ou alguém com minha chave, enfim - diz que “essa chave pertence a este cara.”
Então eu te passo meu “chaveiro” e a confiança de que eu pessoalmente verifiquei cada chave nele, você pode então acrescentá-lo ao seu “chaveiro”. Agora você encontra alguém e lhe passa seu “chaveiro”. O chaveiro começa então a ficar maior e maior, e determina que você confia no cara seguinte na corrente e ele confia no cara seguinte e assim vai, você está assim bastante seguro.

O que me traz de volta às festas de assinatura das chaves. Isso significa exatamente o que quer dizer, uma festa onde todos se encontram e assinam um as chaves dos outros. Quando Darryl e eu trocamos chaves foi tipo uma mini festa de assinatura de chaves, uma festa com apenas dois tristes geeks. Mas, com mais gente, está criada a semente da rede de confiança, e a rede se espalha a partir daí. Assim que qualquer um com seu “chaveiro” sai pelo mundo e encontra outras pessoas, acrescentam mais e mais nomes as suas chaves. Você não precisa encontrar gente nova a partir daí, apenas acreditar que a chave que você pegou das outras pessoas de sua rede é válida.
Por isso, rede de confiança e festas particulares são como arroz e feijão.

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‘Diz ao pessoal que é uma festa super-privada, somente convidados. É para não trazer ninguém de fora ou eles não serão admitidos!’ Eu disse.
Jolu me olhou sobre seu café. “Tá brincando não é? Se você disser isso, todo mundo vai trazer amigos de fora.”
“Argh” eu disse. Eu passava uma noite por semana com Jolu, atualizando o código do indienet. O Porco Melancólico pagava por isso, o que era realmente bizarro. Eu nunca tinha sido pago para escrever programas.  
“Então o que a gente faz? Só queremos pessoas em quem confiamos de verdade, e não queremos dizer o motivo até ter as chaves de todos e então poder mandar uma mensagem em segredo para eles.”
Jolu reescrevia e eu olhava sobre seu ombro. Isso se chamava “Programação extrema” o que era um pouco embaraçoso. Nós chamávamos apenas “programação”. Duas pessoas conseguem visualizar erros melhor do que uma. Como diz o clichê “duas cabeças...”.

Estávamos acabando a última lista de erros e prestes a acabar uma nova versão. Tudo gravado em background, assim nossos usuários não precisariam fazer nada, eles acordariam com um programa melhor esperando por eles. Era muito louco saber que o código que eu escrevi seria usado por centenas de milhares de pessoas, amanhã.

“O que faremos? Eu não sei! Acho que teremos que viver com isso…”
Lembrei dos nossos dias de  Harajuku Fun Madness. Desafios sociais envolvendo grande número de pessoas como parte de um jogo.
“OK, você está certo. Mas vamos ao menos tentar manter em segredo. Diga-lhes que podem trazer no máximo uma pessoa e tem que ser alguém que conheçam pessoalmente, no mínimo por uns cinco anos.”
Jolu olhou para a tela. “Hei, isso vai dar certo. Já posso ver. Quero dizer, se você me diz para não trazer ninguém, todos dirão ‘Quem diabos ele pensa que é?’ Mas quando você põe desta maneira, parece algo do tipo 007.”
Eu encontrei um erro. Bebemos mais café. Fui para casa e joguei um pouco de Clockwork Plunder, tentando não pensar em donos de chaves com perguntas estúpidas e dormi como um bebê.

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Sutro Baths era uma autêntica ruína romana de mentira, em São Francisco. Quando abriu em 1896, era a maior casa de banhos do mundo, um gigantesco solarium de vidro vitoriano repleto de piscinas e banheiras e até uma queda d’água. O declínio começou nos anos 50 e os proprietários a incendiaram em 1966 para receber o seguro. Tudo que restou foi um labirinto de pedra desgastada pelo tempo próximo às bordas de um penhasco em Ocean Beach. Se parece com uma ruína romana, desmoronada e misteriosa e além estão algumas cavernas que vão dar no mar. Quando o mar está alto e bravo, as cavernas se inundam e invadem as ruínas - são conhecidos casos ocasionais de turistas que se afogaram por lá.

Ocean Beach fica um pouco depois do parque Golden Gate, uma linha de precipícios com caríssimas residências abandonadas sobre o abismo de uma praia estreita e infestada por águas-vivas e surfistas malucos. Há uma pedra enorme e branca que se sobressai na praia rasa, chamada Seal Rock e costumava ser o lugar onde os leões marinhos se juntavam até que foram realocados para um ambiente mais propício para os turistas, em Fisherman Wharf.

À noite é difícil encontrar alguém por lá. É muito frio, com o spray de sal que impregna seus ossos se você deixar. As rochas são pontiagudas e há sempre vidro quebrado e de vez em quando, agulhas deixadas por viciados.

Um lugar sensacional para uma festa.

Minha idéia era espalhar alguns panos encerados no chão e alguns aquecedores químicos. Jolu sabia onde conseguir a cerveja - seu irmão mais velho, Javier, tinha um contato que tinha um lance de venda de bebidas para menores de idade, o que pagava bem e iria providenciar para nossa festinha privada, barris com gelo e quanta cerveja nós quiséssemos. Usei uma parte da grana que ganhei com a programação da indienet e o cara ficou de aparecer na hora, 8 da noite, uma hora após o pôr do sol e trazer seis barris de gelo em sua picape até as ruínas dos Banhos. E trouxe até um barril vazio.

“Vocês meninos, brinquem direito!” ele disse ajeitando seu chapéu de cowboy. Ele era um samoano gordo com um enorme sorriso e uma pavorosa camisa sem manga dando para ver os pêlos saindo do sovaco e da barriga. Tirei vintinho da minha grana e passei para a sua mão - sua margem de lucro era de 150%. Nada mal.

Ele olhou para a minha grana e disse “Você sabe, eu poderia tirar isso de você.” disse sorrindo. “Afinal de contas eu sou um criminoso.”
Guardei o dinheiro no bolso e olhei francamente nos olhos dele. Eu tinha sido estúpido de mostrar quanto dinheiro eu estava carregando, mas eu sabia que algumas vezes você tem que se garantir.
“Tô só de brincadeira contigo!” ele disse, finalmente. “Mas toma cuidado com este dinheiro. Não sai mostrando ele por aí.”
“Valeu!” eu falei. “Onde está a DHS quando se precisa dela?”
Seu sorriso ficou ainda maior. “Há! Eles nem são tiras de verdade. Aqueles pica-paus não sabem de nada.”
Olhei para sua picape. Bem em seu quebra-vento havia um passe rápido. Pensei quanto tempo demoraria até pegarem ele.
“Vai ter garotas aqui esta noite? É pra isso que você pediu tanta cerveja?”
Eu sorri e acenei para ele como se me despedindo. Ele entendeu a dica e foi embora. Seu sorriso nunca se abalava.

Jolu me ajudou a esconder as geladeiras nos entulhos, trabalhando à luz de pequenas lanternas de LED branco presas a nossas testas. Uma vez que estavam no lugar, jogamos pequenos porta-chaves com LEDs dentro dos isopores para facilitar encontrá-los depois. 
Era uma noite sem lua e com neblina, e as luzes de rua distantes nos iluminavam. Eu sabia que pareceríamos labaredas à mira infravermelha, mas não há como juntar um monte de gente sem ser visto. Eu estava preparado para ser mandado embora dali, como se fosse uma pequena festa de bêbados na praia.

Eu não bebia muito. Sempre tinha cerveja, maconha e ecstasy nas festas que ia desde que tinha 14 anos, mas eu odiava fumar (contudo sou meio favorável a um brownie de haxixe às vezes), ecstasy tem um efeito muito prolongado - leva um final de semana para ficar no barato e outro para voltar ao normal - e cerveja, bem, é legal, mas eu ainda não entendo o que tem de tão bom. Meu favorito são grandes e elaborados coquetéis, do tipo servido em uma réplica de vulcão de cerâmica, com seis camadas, em fogo e um macaco de plástico na beirada, mas isso tudo é mais teatral do que qualquer outra coisa.

Eu gosto de ficar bêbado. Só não gosto da ressaca, e cara, eu sempre fico de ressaca. Provavelmente isso deve ter a ver com o tipo de drinques que são servidos em um vulcão de cerâmica.
Mas não dá pra dar uma festa sem colocar um tonel ou dois de cerveja no gelo. É o esperado. Faz a coisa toda funcionar. As pessoas fazem coisas bem estúpidas depois de muitas cervejas, mas não como meus amigos, e sim aqueles que têm carros. E pessoas fazem mesmo coisas estúpidas, não importa - cerveja ou maconha ou o que for, são todas secundárias ao fato principal.
Jolu e eu abrimos cada qual uma cerveja - Anchor Steam para ele e Bud Lite para mim - brindamos batendo as garrafas e sentamos numa pedra.
“Você disse para eles 9 da noite?”
“Sim!” ele disse.
“Eu também.”
Bebemos em silêncio. A Bud Lite era a coisa menos alcoólica no gelo. Eu precisava ter as idéias bem claras mais tarde.
“Você ficou com medo alguma vez?” eu disse ao fim.
Ele se virou para mim. “Não, cara, não fiquei. Eu sempre estou com medo. Tenho medo desde o minuto que as explosões ocorreram. Tenho tanto medo as vezes que não quero nem sair da cama.”
“Então por que está fazendo isso?”
Ele sorriu e disse:
“Talvez eu não faça isso por muito tempo. Quero dizer, é ótimo te ajudar. Legal mesmo! Não me lembro de ter feito algo assim tão importante. Mas, Marcus, meu camarada, tenho que te dizer...” e sua voz se arrastou até sumir.
“O quê ?” Eu sabia o que viria em seguida.
“Não posso fazer isso para sempre” disse, finalmente. “Talvez nem mais um mês. É muito arriscado. O DHS, não dá para brigar contra eles. É loucura. De verdade.”
“Você parece aVan.” eu disse. Minha voz soou mais amarga do que eu pretendia.
“Não estou te criticando, cara. Acho muito bacana você ser tão corajoso e fazer tudo isso. Mas não dá. Não posso viver minha vida o tempo todo apavorado.”
“O que está dizendo?”
“Estou dizendo que estou fora. Eu vou ser uma destas pessoas que agem como se tudo estivesse bem, como se tudo fosse voltar ao normal algum dia. Vou usar a internet como sempre usei e somente usarei a Xnet para jogos. Eu vou parar com tudo isso, é o que estou dizendo. Nunca mais vou fazer parte dos seus planos.”
Eu não disse nada.
“Eu sei que estou te deixando sozinho. E não queria isso, acredite. Não gostaria que você desistisse de mim. Você não pode declarar guerra ao governo dos EUA. Não é uma briga que alguém possa vencer. Ver você tentar é como assistir um pássaro se jogando contra o vidro de uma janela, de novo e de novo.”

Ele esperava que eu dissesse algo. O que eu queria dizer era, Jesus Cristo, Jolu, muito obrigado por me abandonar! Você se lembra como foi quando eles nos soltaram? Você se lembra como era o nosso país antes deles tomarem conta de tudo? Mas não era o que ele queria que eu dissesse. O que ele queria era:
“Eu entendo, Jolu. Eu respeito a sua escolha.”
Ele virou o resto da garrafa, puxou outra e arrancou a tampinha.
“E tem mais uma coisa...” ele falou.
“O quê?”
“Eu não ia dizer isso, mas quero que entenda o motivo de estar fazendo isso.”
“Caramba, Jolu, o que?”
“Eu odeio dizer isso, mas você é branco. Eu não sou. Gente branca pode ser pega com cocaína e só precisam passar pelo tratamento de reabilitação. Pessoas de cor são pegas com crack e vão para a prisão por vinte anos. Pessoas brancas vêem a polícia na rua e se sentem seguras. Pessoas de cor vêem os policiais na rua e pensam que estão ali pra te prender. Sabe o modo que o DHS está lidando com você? A lei deste país sempre foi assim conosco.”

Aquilo era injusto. Eu não pedi para ser branco. Eu não pensava que podia ser corajoso apenas por ser branco. Mas eu sabia o que Jolu estava dizendo. Se os policiais paravam alguém na Missão e pediam para ver a identidade, havia grande chance desta pessoa não ser branca. Qualquer risco que eu estivesse correndo, o de Jolu era maior ainda. Qualquer penalidade que eu tivesse que pagar, Jolu pagaria mais.
“Não sei o que dizer.” falei.
“Não precisa dizer nada. Eu só queria que você soubesse, para que pudesse entender.”
Vi algumas pessoas vindo pelo caminho na nossa direção. Eram amigos de Jolu, dois mexicanos e uma garota que eu conhecia de vista, pequena e engraçada, sempre com óculos escuros tipo Buddy Holly que a faziam parecer uma estudante de artes rebelde que sempre conseguia alcançar o sucesso nos filmes para adolescentes.

Jolu nos apresentou e demos cervejas para eles. A garota não quis e tirou da bolsa uma garrafinha pequena e prateada de vodka e me ofereceu. Tomei um gole - vodka quente requer um paladar apurado - e devolvi o frasco que era decorado com Parappa o Rapper.
“É japonesa” ela disse. “Eles têm estas garrafinhas para birita baseadas em jogos infantis. Totalmente demais!”
Eu me apresentei e ela se apresentou como ‘Ange’, e apertamos as mãos um do outro - sua mão era quente e seca com unhas curtas. Jolu apresentou seus camaradas, que eram seus conhecidos desde um acampamento de computadores na quarta série. Mais gente foi surgindo - cinco, então dez, e então vinte. Já era um grupo bem grande.

Tínhamos dito para que chegassem as 9:30 em ponto e aguardamos até as 9:45 para ver quem ainda apareceria. Quase 3/4 dos amigos de Jolu estavam presentes. Eu havia convidado todas as pessoas que realmente eu confiava. Ainda assim, eu era mais discriminador que Jolu, ou menos popular. Agora que ele me contou que estava saindo fora, me fez pensar que ele era menos discriminatório. Eu estava bravo com ele, mas tentava não demonstrar, concentrando-me em socializar com os outros. Mas ele não era estúpido. Ele sabia o que estava rolando. Eu podia ver que estava realmente deprimido. Bom.
“OK!” eu disse subindo em uma ruína. “OK, EI, ALÔ?” Alguns poucos mais próximos prestaram atenção em mim, mas aqueles ao fundo continuavam conversando. Levantei os braços como um juiz de futebol, mas estava escuro demais. Ao final tive a idéia de usar a lanterna LED do chaveiro para apontar cada um deles que ainda conversavam e atrair a atenção para mim. Aos poucos, a turma se aquietou.

Saudei a todos e agradeci por terem vindo e pedi que se aproximassem para que eu pudesse explicar o motivo de estarem ali. Podia dizer que estavam cientes da discrição da coisa, intrigados e um pouco calorentos por conta da cerveja.

‘É o seguinte. Todos vocês usam o Xnet. Não foi uma coincidência a Xnet ter sido criada logo apos a DHS tomar conta da cidade. As pessoas que a criaram são parte de uma organização devotada à liberdade individual, e criaram a rede para nos manter a salvo da DHS.”Jolu e eu já tínhamos trabalhado naquele discurso com antecedência. Nós não iríamos contar que estávamos por detrás disso tudo, não para todos.
Era muito arriscado. Ao invés, iríamos nos colocar como meros tenentes do exército de “M1k3y”, agindo para organizar a resistência local.
“A Xnet não é pura. Ela pode ser usada pelo outro lado, assim como nós. Sabemos que existem espiões da DHS que também a utilizam. Eles usam truques de engenharia social para tentar que nós nos revelemos, para poderem vir nos prender. Para que a Xnet tenha sucesso, precisamos pensar numa maneira de evitar que eles nos espionem. Precisamos de uma rede dentro da rede.”

Parei e esperei que entendessem. Jolu havia sugerido que poderia ser um pouco pesado para alguns entender que eles estavam sendo recrutados para uma célula revolucionária.
“Prestem atenção, não estou pedindo que façam nada. Vocês não precisam sair por ai causando interferência ou coisa assim. Vocês foram convidados para vir por serem pessoas legais e sabemos que podemos confiar em vocês. É com esta confiança que eu espero que contribuam esta noite. Alguns de vocês já conhecem a rede de confiança e as festas de assinatura de chaves, mas para o resto de vocês, eu vou explicar bem devagar como isso funciona...’ E foi o que fiz.
‘Agora o que eu quero de vocês esta noite é que encontrem aqui as pessoas e pensem o quanto podem confiar nelas. Nós ajudaremos a vocês a gerar chaves e compartilhar elas com os outros.’

Esta parte era complicada. Pedir para que trouxessem seus laptops não funcionaria, mas ainda precisávamos fazer algo muito complicado e que não funcionaria muito bem com papel e caneta.
Eu havia trazido um laptop que eu e Jolu montamos na noite anterior quase que a partir do zero. “Eu trouxe este laptop de confiança. Cada componente foi colocado dentro dele com nossas próprias mãos. Está executando uma versão não padrão de ParanoidLinux, a partir de um DVD. Se existe uma máquina confiável neste mundo, com certeza é esta aqui.”

“Eu tenho um gerador de chaves nela. Vocês vão vir aqui e fazer uma entrada aleatória - apertar as teclas, mexer o mouse - e isso será usado para criar uma chave aleatória pública e privada para você. Essa chave aparecerá na tela. Vocês poderão tirar uma foto dela com o celular e apertar qualquer tecla para que ela desapareça para sempre - ela não será guardada neste computador. Então o programa irá te mostrar a sua chave pública. Neste instante, você vai chamar todas as pessoas daqui em quem confiam e que confiam em você e eles vão tirar uma foto da tela com você junto dela, assim eles saberão de quem é a chave.”
“Quando vocês chegarem em casa, vão precisar converter as fotos em chaves. Isso vai dar um pouco de trabalho, eu receio, mas só precisarão fazer isso uma vez. Vocês precisam ser super cuidadosos ao digitar - um erro e estarão ferrados. Felizmente temos um jeito de dizer se deu certo; debaixo da chave tem um número menor, chamado “impressão digital”. Uma vez que você tenha digitado a chave, você pode gerar uma “impressão digital” dela. É só comparar. Se forem iguais, você está digitando certo.”

Todos estremeceram. OK, eu estava pedindo para fazer algo bem estranho, mas ainda assim era preciso.




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