sábado, 9 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 11



CAPÍTULO 11

Este capítulo é dedicado à livraria University da Universidade de Washington, cuja seção de Ficção Científica se compara às melhores que existem, graças ao olhar aguçado e dedicado de seu responsável por compras, Duane Wilkins. Duane é um verdadeiro fã de Ficção Científica - eu o encontrei pela primeira vez na Convenção Mundial de Ficção Cientifica em 2003 em Toronto - e isso se mostra na vitrine eclética e atualizada de sua loja. Um dos indicadores de uma grande livraria está na qualidade de suas resenhas próprias - pequenos cartões presos às prateleiras (geralmente escritos a mão) exortando as virtudes dos livros que de outra forma você não conheceria. O pessoal da University é claramente beneficiado graças à tutela de Duane.  
The University Bookstore 4326 University Way NE, Seattle, WA 98105 USA +1 800 335 READ

Jolu ficou de pé, tomando a palavra:
“É assim que a coisa começa, pessoal. Assim é que ficamos sabendo de que lado vocês estão. Vocês podem não querer ser parados nas ruas e ser presos por suas crenças, mas se vocês possuem crenças, isso nos deixara saber isso. Isso irá criar a rede de confiança que nos dirá quem está dentro e quem está fora.. Se formos pegar nosso pais de volta, precisamos fazer isso. Nós precisamos fazer algo assim.”
Alguém na audiência - foi Ange - levantou a mão segurando uma garrafa de cerveja.
“Pode me chamar de burra, mas eu não entendi isso tudo. Por que vocês querem que a gente faça isso?”
Jolu olhou para mim e eu para ele. Parecia tão óbvio quando nós organizamos aquilo.
“A Xnet não é só uma maneira de jogarmos games de graça. É a última rede de comunicação livre da América. É a única maneira de nos comunicarmos sem sermos espionados pela DHS. Para que isso funcione, precisamos saber que a pessoa com quem falamos não é um espião. Isso quer dizer que precisamos saber com quem trocamos mensagens são as pessoas que pensamos ser.”
“É ai que vocês entram. Vocês estão aqui por que acreditamos em vocês. Acreditamos de verdade. Acreditamos o bastante para arriscar nossas vidas.”

Alguns vaiaram. Isso pareceu melodramático e estúpido.
Eu voltei ao meu discurso.
“Quando as bombas explodiram” eu disse e algo perfurou meu peito, algo doloroso. “Quando as bombas explodiram, haviam quatro de nós na Rua do Mercado. Por algum motivo, o DHS decidiu que isso nos fazia suspeitos. Colocaram sacos em nossas cabeças, nos levaram para um barco e nos interrogaram por dias. Eles nos humilharam. Mexeram com nossas cabeças. E então nos deixarão ir embora.”
“Todos saímos, exceto uma pessoa. Meu melhor amigo. Ele estava conosco quando eles nos prenderam. Ele tinha sido ferido e precisava de cuidados médicos. Ele nunca mais foi visto. Eles disseram que se nós contássemos para alguém o que aconteceu, eles nos prenderiam e sumiriam com a gente para sempre.”
“Para sempre.”

Eu tremia. A vergonha. A maldita vergonha..Jolu tinha apontado a luz em mim.
“Deus do céu!” eu disse. “Você são os primeiros a saber dessa história. Se ela se espalhar, podem apostar que eles saberão quem contou. Podem apostar que eles virão bater na minha porta.” Respirei fundo. “É por este motivo que me ofereci para trabalhar pela Xnet. Este é o motivo da minha vida, a partir de agora, servir para combater a DHS. Cada respiração minha, todos os dias. Até que fiquemos livres novamente. Qualquer um de vocês pode me mandar para a cadeia agora, se quiser.”
Ange levantou a mão de novo. “Nós não vamos trair você.” ela disse. “Não mesmo. Eu conheço bem cada um aqui e posso prometer isso. Eu não sei dizer em quem eu posso confiar, mas eu sei em quem não posso confiar: gente velha. Nossos pais. Adultos. Quando eles pensam que alguém pode ser espionado é sempre um outro alguém, um sujeito ruim. Quando pensam em alguém sendo preso e mandado para uma prisão secreta, é sempre um outro alguém - alguém de cor, alguém jovem, alguém do estrangeiro.”
‘Eles se esqueceram de como é ter a nossa idade. Ser objeto de suspeita o tempo todo. Quantas vezes vocês já subiram num ônibus e cada pessoa nele deu para você aquele olhar como se você estivesse gargarejando com merda e arrancando a pele de animaizinhos? E o que é pior, eles estão se tornando adultos cada vez mais cedo. Antigamente costumava-se dizer que não se podia acreditar em ninguém com mais de 30. Eu digo, não confie em ninguém com mais de 25!”

Isso fez com que todos rissem, e ela riu também. Ela era pequena, de uma maneira bem esquisita de ser, como um jóquei de cavalos, com uma cara longa e queixo cumprido. “Eu não estou brincando, sabe? Quer dizer, pense nisso. Quem é que elege todos estes palhaços? Quem deixa que eles invadam nossa cidade? Quem votou para que colocassem câmeras nas salas de aula e nos seguissem por aí com estes assustadores chips espiões nos nossos passes de trânsito e nos carros? Não foi alguém de 16 anos. Podemos ser bobos, podemos ser jovens, mas não somos escória.”
“Eu quero uma camisa dizendo isso!” falei.
“Seria uma boa.” ela disse. Nós sorrimos.
“Onde preciso ir para conseguir minhas chaves?” ela perguntou e puxou seu telefone.
“Vamos fazer isso logo ali, num lugar isolado nas cavernas. Eu te levo até lá e preparo para você. Então você vai poder fazer o que precisa e vai deixar a máquina para seus amigos tirarem fotos de sua chave pública e eles poderão assiná-la quando chegar em casa”.

Levantei a voz e falei: “Mais uma coisa! Caramba, eu esqueci de dizer! Não acredito! Apaguem as fotos após terem entrado com as chaves. A última coisa que queremos são estas fotos num álbum no Flickr com todos nós aparecendo conspirando juntos.”
Houve um consentimento geral, risos nervosos e então Jolu apagou a lanterna e na súbita escuridão eu não pude ver mais nada. Aos poucos, meus olhos se ajustaram e fui até as cavernas. Alguém vinha atrás e era Ange. Virei-me e sorri para ela e ela sorriu de volta, com dentes luminosos na escuridão.
“Obrigada por dizer aquilo! Você foi demais!”
“Você passou mesmo por tudo isso? O saco na sua cabeça e tudo mais?”
“Sim. Aquilo aconteceu. Eu nunca contei para ninguém, mas aconteceu.” Pensei por um momento e disse: “Sabe, ficamos muito tempo sem falar sobre isso e começou a parecer como se tivesse sido apenas um pesadelo. Mas foi de verdade.” Parei e entrei na caverna. “Estou contente de poder finalmente contar para as pessoas sobre isso. Se tivesse demorado mais, eu acho que começaria a duvidar da minha própria sanidade.”
Coloquei o laptop sobre uma rocha seca e liguei-o inicializando a partir do DV nele enquanto ela observava. “Vou religá-lo para cada pessoa. Este é um disco ParanoidLinux padrão, acho que vai precisar confiar em mim.”
“Diabos!” ela disse. “Mas isso é mesmo sobre confiança, não é?”
“É. Confiança.”

Dei alguns passos me afastando enquanto ela executava o gerador de chaves, ouvindo-a teclar e mexendo o mouse para gerar o aleatoriamente, ouvindo as ondas quebrando longe e os ruídos de toda festa onde havia cerveja.
Ela saiu da caverna carregando o laptop. Nele, em letras brancas luminosas estava a sua chave pública, sua “impressão digital” e seu endereço de email. Ela segurou a tela junto do rosto enquanto eu puxava meu telefone.
 “Xis” ela disse. Eu tirei sua foto e devolvi o celular ao bolso. Ela foi até os outros e deixou-se ser fotografa com o laptop. Foi engraçado. Ela tinha bastante carisma, você não sentia vontade de rir dela, mas com ela. Enfim, foi divertido! Nós estávamos declarando uma guerra secreta à polícia secreta. Quem diabo a gente pensava que era?

E foi assim, na próxima hora e depois, todos tirando fotos e fazendo fotos. Encontrei todos por lá. E eu conhecia muitos deles - alguns eram meus convidados - e os outros eram amigos dos meus amigos ou amigos dos amigos de meus amigos. Devíamos ser todos amigos. E ficamos conforme a noite se ia. Eram todos gente boa.

Quando quase todos tinham ido embora, Jolu foi fazer sua chave e voltou de lá rindo encabulado. Minha raiva por ele tinha passado. Ele estava fazendo o que tinha que fazer. Sabia que não importava o que ele tinha dito, ele sempre estaria lá para me ajudar. Tínhamos ido para a cela da DHS juntos. Van também. Não importava, aquilo tinha nos unido para todo sempre.
Fiz minha chave e fui encontrar minha turma e deixei que tirassem fotos minhas, então subi na mesma ruína de antes e chamei a atenção de todos.
“Alguns de vocês perceberam que há uma falha vital no processo: o que aconteceria se este laptop não fosse confiável? Se secretamente gravasse nossas instruções? Se estivesse nos espionando? Se Jose-Luis e eu não fossemos confiáveis?”
Mais alguns risos, um pouco mais calorosos que antes, mais alcoólicos.
“Quer dizer, se nós estivéssemos do lado errado, isso aqui poderia a todos nós - todos nós! - em apuros. Provavelmente na cadeia.”
Os risos ficaram nervosos.
“É por isso que vou fazer isso!” disse, e peguei o martelo do meu pai, que havia trazido comigo.
Coloquei o laptop numa pedra e ergui o martelo, Jolu o seguiu com sua lanterna.
CRASH - sempre sonhei em acabar com um laptop com um martelo e finalmente consegui. Me senti pornograficamente bem. E mal.
A tela plana se partiu em milhões de pedaços. Continuei batendo nele até o teclado saltar, expondo a placa mãe e o HD. CRASH - mirei no HD e acertei com tudo que podia. Precisou de três porradas para o case se partir, expondo o interior frágil. Continuei até que não tivesse restado nada maior do que um isqueiro, então joguei tudo dentro de um saco de lixo. A platéia gritava loucamente - alto o bastante para eu ficar preocupado de que alguém longe dali pudesse ouvir e chamar a lei.
“OK! Agora se quiserem me acompanhar, vou até o mar e mergulhar isso em água salgada por dez minutos.”
A princípio ninguém se interessou, mas então Ange veio de trás e pegou meu braço com sua mão quente e disse no meu ouvido: “Isso foi lindo” e seguimos juntos para a praia.

O caminho até lá estava bem escuro e traiçoeiro, mesmo iluminado por nossas pequenas lanternas. Umas pedras lisas e pontudas que dificultavam nossa caminhada ainda mais carregando três quilos de componentes eletrônicos quebrados em um saco plástico. Quase caí e ia me machucar feio, mas ela me segurou com uma pegada surpreendentemente forte e me manteve firme de pé. Fui jogado contra ela, perto o bastante para sentir seu perfume, igual ao de um carro novo. Eu adorava este cheiro.
“Obrigado.” consegui dizer, encarando seus olhos enormes que pareciam ampliados ainda mais por seus óculos masculinos e pretos. Não conseguia saber de que cor eles eram no escuro, mas eu apostava que eram negros, baseado no seu cabelo negro e complexão azeitonada. Parecia mediterrânea, talvez grega, espanhola ou italiana.

Me curvei para mergulhar o saco na água salgada do mar, deixando se encher. Uma onda veio e ensopou meus sapatos e ela riu. Mal falávamos diante do mar. Tinha algo de mágico neste silêncio sem palavras.
Até aquele momento eu tinha beijado um total de três garotas em toda minha vida, sem contar aquela vez que voltei para a escola e fui recebido como um herói. Não era um número gigantesco, mas também não era pouco. Eu tinha um radar muito bom para garotas, e achei que deveria beijá-la. Ela não era UAU no sentido tradicional, mas tinha algo sobre ela e a noite e a praia, alem disso ela era esperta e entusiasmada e comprometida.

Mas eu não a beijei nem peguei sua mão. Ao invés disso, nós tivemos um instante que eu poderia chamar de “espiritual”. As ondas quebrando, a noite, o mar e as rochas e nossa respiração. O momento se prolongou. Eu suspirei. Tinha sido bem trabalhoso. Tinha muita coisa para fazer ainda esta noite, colocar todas as chaves no meu chaveiro, assiná-las e passar à frente as chaves assinadas. Dar o “start” na rede de confiança.
Ela suspirou também.
“Vamos embora” eu disse.
“Vamos” ela disse.
Voltamos. Tinha sido uma noite boa.

#

Jolu esperou que o amigo de seu irmão viesse pegar as geladeiras. Eu fui andando com o resto do pessoal pela estrada até o ponto de ônibus mais perto e subi a bordo. É claro que nenhum de nos estava usando um passe municipal original. Os Xnetters costumavam clonar os passes de outros, três ou quatro vezes por dia, assumindo nova identidade a cada viagem.

Era difícil ficar quieto no ônibus. Estávamos um pouco bêbados e nossas caras na luz do ônibus estavam hilárias. Falávamos um pouco alto e o motorista usou seu inter-comunicador para baixarmos a voz duas vezes então disse para calarmos a boca ou ele chamaria a polícia.
Isso nos fez rir bastante e acabamos desembarcando em massa antes que ele chamasse os policiais. Estávamos agora em North Beach e havia muitos ônibus, taxis, o BART da Rua do Mercado, clubes com suas luzes neon e cafés, para separar nosso grupo, então nos dispersamos.
Cheguei em casa,  liguei o Xbox e comecei a salvar as chaves da tela do meu telefone celular Era um trabalho chato e hipnótico. Estava um pouco bêbado e quase dormindo.

Estava prestes a cochilar quando uma janela nova do IM (Instant Messager) se abriu.
> Oi
Não reconheci o apelido -- spexgril -- mas tinha uma idéia de quem podia ser.
> Oi
Teclei cautelosamente.
> Sou eu, de hoje à noite
Então ela colou um bloco de cripto. Eu já tinha entrado sua chave pública no meu chaveiro, então fiz o client do IM tentar decodificar o código com a chave.
> Sou eu, de hoje à noite
Era ela!
> Legal te encontrar aqui
Teclei e criptografei para minha chave pública e enviei por correio
> Foi ótimo te encontrar.
Eu teclei
> Você também. Não conheço muitos garotos espertos que são também uma graça e tão sociais. Bom Deus, você não dá muita chance para uma garota.
Meu coração socava no peito.
 > Olaaaa? Tá ligado?  Não nasci aqui, pessoal, mas vou acabar morrendo aqui. Não esqueça de dar gorjeta ao garçom, eles trabalham duro. Estou aqui a semana toda.
Ri demais.
> Estou aqui, aqui. Rindo tanto que não consigo teclar.
> Ao menos meu humor-fu ainda funciona!
Hum.
> Foi realmente ótimo te conhecer.
> Sim, costuma ser. Para onde você vai me levar?
> Levar você?
> Na nossa próxima aventura.
> Não tenho nada planejado.
> Ok -- então eu vou te levar. Sexta. Dolores Park. Um concerto ilegal a céu aberto.
> O que?
> Não lê a Xnet? Está por toda parte. Já ouviu falar das Putas Velozes?
Quase sufoquei. Era a banda de Trudy Doo-- a mulher que pagou a Jolu para aprimorar o código da sua indienet.
> Sim. Já ouvi falar deles.
> Vão fazer um enorme show e vai ter tipo cinqüenta bandas lá nas quadras de tênis e vão trazer suas próprios amplificadores e o som vai rolar a noite inteira.

Senti como se eu vivesse debaixo de uma pedra. Como pude perder isso? Tinha uma livraria anarquista em Valencia que eu passava em frente às vezes quando ia para a escola e que tinha um pôster de um velho revolucionária chamada Emma Goldman com um titulo “Se eu não puder dançar, não quero fazer parte da sua revolução!” Tinha gasto todas minhas energias pensando em como usar o Xnet para organizar a luta contra o DHS, mas aquilo era muito mais legal. Um grande show - Não tinha idéia de como fazer um desses, mas eu ficava feliz que alguém o fizesse.

E agora que pensei nisso, eu estava orgulhoso pra caramba deles estarem usando a Xnet para isso.

#

No dia seguinte eu parecia um zumbi. Ange e eu tínhamos conversado/flertado, até as 4 da manhã. Felizmente para mim era sábado e pude dormir à vontade, mas entre a ressaca e o sono profundo, mal pude colocar duas idéias juntas.

Lá pelo almoço me levantei e fui para as ruas. Fui até o Turk para comprar meu café - nestes dias, se estava sozinho, eu sempre comprava meu café lá, como se o Turco e eu fizéssemos parte de algum clube secreto.
Pelo caminho passei por alguns grafites frescos; eu gostava dos grafites da Missão, grandes painéis atraentes, ou estênceis bem humorados dos estudantes de arte. Gostava dos caras poderem fazer isso bem debaixo do nariz da DHS. Era um outro tipo de Xnet, suponho - eles tinham tudo quanto é jeito de saber o que estava acontecendo, onde pintar, que câmeras estavam funcionando. Algumas câmeras tinham sido pintadas por spray, eu percebi.

Talvez usassem a Xnet!

Pintado em letras de cinco metros de altura, na parede ao lado do estacionamento estava escrito:
 ‘NÃO ACREDITE EM NINGUÉM COM MAIS DE 25’.

Parei. Será que alguém tinha saído da minha ‘festa’ na noite passada e vindo até ali com uma lata de tinta? Muitos viviam nesta vizinhança.

Dei uma volta pela cidade com meu café. Pensava se devia ligar alguém para ver se estavam a fim de ir ao cinema ou coisa parecida. Era quase sempre assim nos sábados. Mas quem chamar? Van não estava falando comigo. Não estava a fim de falar com Jolu e Darryl… bem, não podia ligar para Darryl.
Fui para casa e fiz alguma pesquisa nos blogs do Xnet. Estes blogs eram impossíveis de se rastrear - a não ser que o autor fosse estúpido demais de colocar seu nome nele - e tinha muitos assim. A maioria era apolítica, mas muitos não eram. Falavam sobre escolas e da falsidade das pessoas. Falavam sobre a polícia..
O show no parque estava sendo muito falado. O assunto pulava de um blog para outro, virando uma avalanche sem que eu percebesse. E o concerto se chamava ‘Não confie em ninguém com mais de 25.’
Bem, isso explicava de onde Ange tirara aquilo. Era um bom slogan.

#

Na segunda pela manhã eu decidi que queria dar uma checada naquela livraria anarquista de novo, ver se conseguia algum daqueles pôsteres de Emma Goldman. Precisava de uma lembrança.
Voltei à rua 16 e a Missão, no meu caminho da escola, e daí para Valencia. A loja estava fechada, mas peguei o horário de funcionamento e me certifiquei de que ainda tinham os pôsteres.
Andando pela Valencia, fiquei impressionado com a quantidade de coisas a respeito do ‘Não Confie em
Ninguém com mais de 25’. Metade das lojas tinham ao menos um produto na vitrine: Lancheiras, roupas, estojos, bonés. As lojas modernas estavam cada vez mais rápidas. Quando um meme surgia na rede, em um dia ou dois as lojas já colocavam o produto à venda. Bastava um vídeo engraçado de um cara no Youtube, de um cara voando com jatos feitos de propulsão de água com gás aparecer na sua caixa de entrada na segunda, para na terça você já poder comprar uma camisa com fotografias do vídeo.

Mas era incrível ver algo fazer a passagem do Xnet para as lojas. Jeans detonados com o slogan escrito com tinta imitando caneta escolar.
Boas notícias voam.

Estava escrito no quadro quando entrei na sala durante a aula de Estudos Sociais de Senhorita Galvez. Todos sentados em suas cadeiras, sorrindo. Parecia haver algo profundamente animador na idéia de que todos podiam confiar uns nos outros e que o inimigo poderia ser identificado. Eu sabia que não era completamente verdade, mas também não era inteiramente falso.
Senhorita Galvez veio ajeitando o cabelo e sentou-se à frente de seu computador escolar e o ligou. Então virou-se e viu o que estava escrito no quadro. Todos rimos. Bem espontâneos, mas rimos.
Quando se virou ela também ria. “Parece que a presunção pegou os escritores de slogan do país. Quantos de vocês sabem de onde esta frase veio?”

Olhamos uns para os outros. “Hippies.” disse alguém e nós rimos. Os hippies estavam por toda São Francisco, assim como os tipos meio doidos com barbas enormes e roupas tingidas e o tipo mais novo, menos mal vestido e que talvez jogasse mais fotbag, do que protestasse contra alguma coisa.
“Bem, Hippies, sim. Mas quando pensamos em hippies hoje em dia, pensamos somente na música e nas roupas. As roupas e a música foram incidentais para a maior parte daqueles daquela época, os anos 60. Vocês já ouviram falar dos movimentos dos direitos civis e o final da segregação, garotos brancos e negros pegando ônibus para o sul, para manifestar-se pelo voto negro e protestar contra o racismo oficial. A Califórnia era um dos lugares de onde vieram os líderes dos direitos civis. Sempre fomos um pouco mais políticos do que o resto do país e aqui foi um lugar onde os negros podiam conseguir empregos iguais aos brancos, um pouco melhor do que nossos amigos sulistas.”
“Os estudantes de Berkeley fizeram sua parte, nos campus de Bancroft e Telegraph Avenue. Vocês provavelmente já sabem. Bem, o campus tentou impedi-los. O presidente da Universidade baniu qualquer tipo de organização política no campus, mas os garotos dos direitos civis não pararam. A polícia tentou prender um deles e o colocaram detido num automóvel, mas 3000 estudantes cercaram a polícia e não a deixaram sair. Não iriam deixar o garoto ser colocado na prisão. Subiram no veículo e começaram a discursar sobre a Primeira Emenda e Liberdade de Expressão.”
“Aquilo gerou o movimento pelo direito à liberdade de expressão. Começou com os hippies, mas foi também do movimento estudantil radical que veio. Grupos pelo poder aos negros, como os Panteras Negras  e mais tarde dos direitos dos gays, como os Panteras Rosas também. Grupos radicais de mulheres, até separatistas lésbicas que queriam abolir os homens no geral!  E os Yippies. Alguém já ouviu falar dos Yippies?”
“Eles não levitaram o Pentágono?” falei. Tinha visto um documentário sobre isso.
Ela riu. “Tinha esquecido disso, mas sim, foram eles! Yippies eram hippies bastante políticos, mas não eram muito sérios do jeito que pensamos a política atual. Eram brincalhões. Atiravam dinheiro na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Cercaram o Pentágono com centenas de manifestantes e disseram que um feitiço mágico iria levitá-lo. Inventaram um tipo de LSD imaginário, que podia ser atirado por spray nas pessoas com armas de espirrar até ficarem chapados. Eram hilários e faziam grandes shows na televisão - um yippie chamado Wavy Gravy costumava colocar os manifestantes vestidos de Papai Noel para que as câmeras pudessem mostrar oficiais da polícia prendendo e arrastando o velho Noel no noticiário noturno - e mobilizava muita gente.”
“O grande momento deles foi durante a convenção democrática nacional de 1968, onde foram protestar contra a guerra do Vietnã. Milhares invadiram Chicago, dormindo em parques e fazendo piquete o dia inteiro. Levavam para as ruas uns troços bizarros naquele ano, como escolher um porco (pig) chamado Pigasus como candidato a presidência. A polícia e os manifestantes brigavam nas ruas, como já tinham feito antes, mas os policiais de Chicago não eram tão espertos ao ponto de deixarem os repórteres em paz. Bateram nos jornalistas e estes retaliaram mostrando o que acontecia de verdade nestes embates, o país todo pôde ver os garotos sendo espancados pela polícia de Chicago. Chamou-se de ‘Police riot’ (Baderna polícial)”
“Os Yippies gostavam de dizer ‘Não confie em ninguém com mais de 30’ Queriam dizer que as pessoas que tinham nascido antes de um certo tempo, quando a América tinha lutado contra os nazistas, não conseguiam entender o que significava amar seu país o bastante para se recusar a lutar contra os vietnamitas. Diziam que uma vez que se atingia os 30 anos, suas atitudes ficavam congeladas e que não podia entender o por que os jovens de hoje iam para as ruas, desertavam, piravam.”
“São Francisco foi o Marco Zero para eles. Exércitos revolucionários foram fundados aqui. Alguns explodiam prédios e roubavam bancos pela causa.  Alguns destes garotos crescerem para ser mais ou menos normais, enquanto outros acabaram na cadeia. Alguns daqueles caras da universidade que fugiram do alistamento fizeram coisas magníficas - por exemplo, Steve Jobs e Steve Wozniak, que fundaram a Apple Computadores e inventaram o PC.”

Eu estava ligado na coisa. Conhecia um pouco sobre aquilo, mas nunca tinha ouvido ninguém contar deste jeito. Ou talvez nunca me importasse tanto quanto agora. Subitamente, aquelas demonstrações de rua não pareciam tão estúpidas depois de tudo. Talvez tivesse algo para o tipo de ação do movimento Xnet.
Levantei a mão. “Eles venceram? Os Yippies venceram?”

Ela me olhou demoradamente e disse:
“Eles meio que se implodiram. Alguns foram presos por drogas e outras coisas. Outros mudaram e se tornaram yuppies e mudaram de lado, passando a dar palestras contando sobre como foram estúpidos, sobre como a ganância era boa e como eles tinham sido cegos.”
“Mas eles mudaram o mundo. A guerra no Vietnã acabou e aquele tipo de conformidade de obediência sem questionamento que chamavam de patriotismo ficou fora de moda totalmente. Direitos para os negros, mulheres e gays. Direitos para os chicanos, para pessoas deficientes, toda a tradição de liberdades civis foi criada ou fortalecida por esta gente. Os movimentos de protesto de hoje são diretamente descendentes daquelas lutas.”
“Não poso acreditar que esteja assim falando deles.” disse Charlie. Ele estava curvado em seu assento, meio sentado e seu rosto magro e afilado tinha ficado vermelho. E suado, olhos grandes e lábios grandes e excitado parecendo um pouco cm um peixe.
Senhorita Galvez fez-se ereta um pouco e disse; “Continue, Charlie.”
“Você acabou de descrever terroristas. Os terroristas de hoje. Eles explodiam prédios, como disse. Tentaram destruir nossa Bolsa de Valores. Batem em policiais e evitam que os policiais prendam quem está quebrando a lei. Eles nos atacaram!”

Senhorita Galvez assenti lentamente. Poderia dizer que ela estava tentando pensar como agir com Charlie, que parecia estar prestes a explodir.
“Charles levantou um ponto interessante. Os Yippies não eram estrangeiros, eram cidadãos Americanos. Quando diz que eles nos atacaram, precisa pensar em quem são ‘eles’ e ‘nós’. Quando são seus compatriotas...”
“Besteira!” ele gritou. Estava de pé. “Estamos em guerra com eles. Estes caras estão ajudando o inimigo. É fácil dizer quem somos nós e quem são eles: se você apóia a América, você é um de nós. Se você apóia as pessoas que atiram em Americanos, então é um deles.”
“Alguém mais quer comentar?”

Várias mãos se ergueram. Senhorita Galvez os chamou. Alguns disseram que a razão dos vietnamitas atirarem em Americanos era por que os Americanos se meteram no Vietnã e começaram a andar pelas selvas de lá com armas. Outros disseram que Charles tinha razão e que pessoas não deviam ser permitidas a fazer coisas ilegais.

Todos debatiam bem, exceto Charlie, que só sabia gritar e interromper quando eles tentavam colocar suas idéias. Senhorita Galvez tentava fazê-lo esperar por sua vez várias vezes, mas não estava conseguindo.
Eu procurava algo no meu computador escolar, algo que eu sabia ter lido.
Encontrei. E fiquei de pé. Senhorita Galvez parou, esperando. Os outros a imitaram e se calaram. Mesmo

Charlie olhou para mim depois de um tempo, seus olhos enormes e úmidos queimando e me odiando.
“Queria ler uma coisa.” Eu disse. “ É curto. Os Governos são instituídos entre os homens, dando a eles o poder pelo consenso dos governados, sendo que, se de alguma forma este se tornar destrutivo, é do direito do povo alterá-lo ou o abolir e instituir novo governo, amparando sua fundação em tais princípios e organizando seus poderes da forma que garantam sua efetiva segurança e felicidade.”
 


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