sábado, 16 de janeiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 12


CAPÍTULO 12

Este capítulo é dedicado à Forbidden Planet, a cadeia britânica de livros de FC e fantasia, brinquedos, quadrinhos e vídeos. A Forbidden Planet tem lojas por todo Reino Unido e também em Manhattan e Dublin na Irlanda. É altamente perigoso botar os pés dentro da Forbidden Planet - raramente escapo com minha carteira intacta. Forbidden Planet lidera quanto a trazer as audiências gigantescas da TV e dos filmes de FC em contato com os livros de FC - algo absolutamente crítico para o futuro do gênero.
Forbidden Planet, UK, Dublin e New York City


Senhorita Galvez tinha aberto um amplo sorriso.
“Alguém sabe de onde ele tirou isso?”
Vários responderam em coro: “A Declaração da Independência.”
Eu fiz que sim.
“Por que leu isso para nós, Marcus?”
“Por que me parece que os fundadores da nossa nação disseram que governos só devem durar para sempre enquanto nos acreditarmos que eles estão trabalhando para nós e se pararmos de acreditar neles, devemos derrubá-los. É o que diz, certo?”
Charlie balançou a cabeça.
“Isso foi há centenas de anos atrás. As coisas são diferentes hoje.”
“O que é diferente?”
“Bem, nós não temos um rei. Eles estavam falando do tipo de governo que existia por que algum idiota muito-muito-muito-velho acreditava que Deus tinha o colocado no poder,  e que mataria qualquer um que não concordasse com ele. Nós temos um governo eleito democraticamente...”
“Eu não votei neles” eu disse.
“Então isso te dá direito de explodir um prédio?”
“O quê? Quem falou sobre explodir prédios? Os Yippies e hippies e todas estas pessoas acreditavam que o governo não os ouviam mais - veja como as pessoas que tentam registrar-se para votar no sul foram tratadas! Elas foram surradas e presas e....”
“Alguns foram mortos.” disse Senhorita Galvez. Ela então ergueu a mão e esperou que Charles e eu nos sentássemos. “Estamos quase estourando o tempo hoje, mas quero que saibam que esta foi uma das aulas mais interessantes com que eu trabalhei. Foi uma discussão excelente e aprendi muito com todos vocês. Espero que tenham aprendido também. Obrigado pelas suas contribuições. Eu tenho um crédito extra para aqueles que quiserem  participar de um pequeno desafio. Gostaria que escrevessem comparando a reação política contrária à guerra e os movimentos dos direitos civis com a reação atual aos direitos civis e a Guerra contra o Terror. Mínimo de três páginas, mas podem demorar o quanto for preciso. Estou interessada em ver o que pode surgir disso.”
O sino tocou logo depois e todos correram para fora da sala. Fiquei esperando por Senhorita Galvez.
“Marcus?”
“Isso foi demais! Nunca soube dessas coisas sobre os anos 60.”
“Os anos 70 também. Aqui foi um lugar sempre muito excitante de se viver em tempos de mudanças políticas. Eu gostei bastante da sua referência à Declaração... foi muita esperteza sua.”
“Obrigado. Me apareceu de repente. Eu nunca apreciei o que estas palavras queriam dizer antes de hoje.”
“Estas são as palavras que todo professor adora ouvir, Marcus.” ela disse e apertou minha mão. “Estarei esperando ansiosamente para ler seu trabalho.”

#

Comprei o pôster de Emma Goldman no caminho de casa e prendi-o sobre minha mesa, sobre uns pôsteres antigos. Comprei também uma camisa escrita ‘NUNCA ACREDITE’ com um Photoshop de Grover e Elmo chutando os traseiros de Gordon e Susan da Vila Sésamo. Me fez rir. Descobri depois que já havia uns seis concursos online de photoshop para escolher o slogan, em lugares como Fark e Worth1000 e B3TA e centenas de fotos trabalhadas onde se pudesse colocar merchandise.

Mamãe levantou uma sobrancelha ao ver minha camisa e papai balançou a cabeça e me alertou para que não procurasse por encrenca. Me senti um pouco inocentado pela reação.
Ange me achou online de novo e nós flertamos via IM até tarde da noite de novo. A van branca com antenas voltou e desliguei o Xbox até que ela tivesse passado. Todos fazíamos isso.
Ange estava realmente excitada com a coisa da festa. Parecia que ia ser monstruosa. Tantas bandas tinham se inscrito que já falavam de um segundo palco.
> Como eles conseguiram permissão de tocar música no parque a noite inteira? Existem muitas casas por lá!
> Permissão? O que é isso? Me fale mais sobre esta sua permissão, humano.
> Caramba, é ilegal?
> Alôoooo? Tá com medo da lei?
> Justamente
> LOL (Lot Of Laughts = risos)

Eu senti uma premoniçãozinha de nervoso. Quer dizer, eu tinha um encontro com esta garota maravilhosa este fim de semana - bem, tecnicamente era ela quem tinha convidado - para uma rave ilegal. No mínimo isso seria interessante.

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Interessante.
As pessoas começavam a chegar em Dolores Park na tarde de sábado, aparecendo entre os jogadores de frisbee e aqueles caras que passeavam com os cães. Não ficou claro realmente onde o show iria acontecer, mas tinha um monte de policiais e outros tipos disfarçados por lá. Dava para saber quem estava disfarçado porque, como Melequento e Espinhoso, tinham cortes no estilo Castro e o físico dos de Nebraska: sujeitos pesadões com cabelo curto e bigodes por fazer. Eles ficavam por ai, parecendo desajeitados e pouco confortáveis em seus enormes shorts e camisas largas que sem duvida serviam para encobrir seus aparatos ao redor da cintura.

Dolores Park era bonito e ensolarado, com palmeiras, quadras de tênis e várias colinas e árvores aonde as pessoas corriam ou ficavam de bobeira. Os sem-teto dormiam lá de noite, mas também o faziam em toda parte de São Francisco.

Encontrei Ange na livraria anarquista. Tinha sido minha sugestão. Em retrospecto, tinha sido uma sugestão bacana, para mostrar-me para a garota, mas ao mesmo tempo conveniente. Ela lia um livro chamado ‘Up Against the Wall Motherfucker’ (Contra a parede, filho-da-puta) quando cheguei.
“Legal.” eu disse. “Você beija sua mãe com esta boca?”
“Sua mãe não reclama.” ela respondeu. “Na verdade é a história de um grupo de pessoas como os Yippies, mas de Nova Iorque. Todos usavam esta palavra em seus sobrenomes, tipo ‘Ben Filhodaputa’. A idéia era ter um grupo que fizesse e acontecesse, mas que não pudesse ter o nome publicado, para sacanear a mídia. Legal!” Ela devolveu o livro à prateleira e eu pensava agora se devia abraçá-la. As pessoas na Califórnia se abraçam tanto para dizer olá quanto para adeus o tempo todo. Exceto quando não o fazem. E as vezes beijam as bochechas.
Tudo muito confuso.

Ela sinalizou isso para mim quando me puxou para abraçar e puxou minha cabeça para baixo junto dela, beijando-me seco na bochecha e então soprou meu pescoço imitando um peido. Eu ri e a empurrei.
“Quer um burrito?” perguntei.
“É uma pergunta ou uma declaração do óbvio?”
“Nada disso. É uma ordem.”
Comprei alguns adesivos engraçados que diziam “ESTE TELEFONE ESTÁ GRAMPEADO” bem do tamanho certo para serem colados nos receptores dos telefones de rua que ainda se viam na Missão, o tipo de vizinhança onde as pessoas não podem comprar um telefone celular.
Saímos para a noite. Contei a Ange sobre o que tinha visto no parque.
‘Aposto que eles têm uma centena destes caminhões estacionados por todo quarteirão.” ela disse “Para ferrar melhor com a gente.”
“Hum.” Eu olhei à volta “Eu achava que você diria que eles não tinham chance de fazer nada sobre isso.”
“Não acho que seja mesmo a idéia. A idéia é colocar um monte de civis em uma situação onde os policiais terão que decidir: vamos tratar estes pobretões como terroristas? É como interferir com tudo, mas ao invés de usar aparelhos vai ser a música. Você faz interferência, não?”
Às vezes eu esquecia que todos meus amigos não sabiam que Marcus e M1k3y eram a mesma pessoa. “Sim, um pouco.” eu disse.
“É como zoar com eles, só que com um monte de bandas maravilhosas.”
“Entendo.”

Os burritos da Missão eram uma instituição. Baratos, enormes e deliciosos. Imagine um tubo do tamanho de uma bazuca, cheia de carne grelhada temperada, guacamole, salsa, tomates, feijões fritos, arroz, cebolas e coentro. Estava para um Taco Bell assim como um Lamborghini para um carrinho HotWheels.
Havia umas duzentas barraquinhas de burrito na Missão. Eram todas horrorosas, com bancos desconfortáveis e uma decoração mínima - pôsteres desbotados do escritório de turismo do México e fotos-hologramas de Jesus e Maria e música mariachi altíssima. A única coisa que os distinguiam era o tipo exótico de carne que eles usavam. Os lugares mais autênticos tinham cérebros e língua. Nunca comi, mas era legal saber que tinham.

A barraca para qual fomos tinha tanto miolos quanto língua, que não pedimos. Eu escolhi carne assada e ela quis galinha desfiada; cada um pediu um copo grande de horchata.
Assim que sentamos, ela abriu seu burrito e tirou uma garrafinha da bolsa. Era uma latinha de aço escovado do tipo aerossol e que para qualquer um que visse seria uma unidade de spray de pimenta para auto-defesa. Ela espalhou o conteúdo em seu burrito exposto com uma fina e vermelha spray oleoso. Tossi e minha garanta fechou e meus olhos lacrimejaram.
“O que diabos você está fazendo com o pobre e indefeso burrito?”
Ela sorriu para mim. “Sou viciada em comida apimentada. Isso é óleo de capsaicina.”
“Capsaicina...”
“É, o troço que eles põem no spray de pimenta. Este é mais leve, mais diluído. E muito gostoso. Pense como Colirio de Pimenta Cajun, se quiser.”
Meus olhos queimavam só de pensar. “Você tá brincando. Não vai comer isso.”
Suas sobrancelhas se levantaram. “Isso parece um desafio, cara. Olha só!”
Ela fechou o burrito e cuidadosamente o re-enrolou no papel laminado, descascando uma das pontas e a levou à boca. E então mordeu. Eu não podia acreditar que ela tinha feito isso. Quer dizer, basicamente ela usava uma arma em sua comida.
Ela mastigou deliciada. Engoliu. Dava a impressão de estar tendo um delicioso jantar.
“Quer uma mordida?” ela perguntou inocentemente.
“Sim.” respondi. Eu gostava de comida condimentada. Sempre pedia curry com a marca de 4 chilis no menu dos restaurantes paquistaneses.
Descasquei e dei uma bela mordida.
Grande erro.

Sabe aquela sensação quando você morde rábano ou wasabi ou qualquer outra coisa e parece que seu nariz está fechando, ao mesmo tempo que a traquéia e sua cabeça se enchesse de ar quente que tenta encontrar um caminho através dos olhos e narinas? Parece como se vapor fosse sair dos ouvidos como nos personagens dos desenhos animados?
Pois foi bem pior.

Foi como colocar a mão dentro de um forno quente, só que não era a mão, mas o interior da sua cabeça do seu esôfago até o estômago. Meu corpo todo encheu-se de suor e eu sufoquei.
Sem dizer nada ela me passou minha horchata que eu despejei pela boca sugando tudo, bebendo praticamente metade num gole.
“Tem uma escala, a escala Scoville, que nós, os amantes do chili, usamos para falar sobre como uma pimenta é forte. Capsaicina pura tem mais ou menos 15 milhões de Scovilles. Tabasco umas 2.500. O spray de pimenta chega a uns 3 milhões. Isso aqui tem uns 100 mil. Levei um ano para aperfeiçoar. Os caras que são usuários brabos conseguem meio milhão, ou duzentas vezes mais forte que Tabasco. É de enlouquecer. Com um grau desses, seu cérebro se inunda de endorfinas. É melhor para pirar do que haxixe. E é bom para você.”
Estava começando a conseguir respirar de novo.
“E é claro que você consegue um bom calor quando vai fazer o número 2.” disse piscando para mim.
Caramba!
“Você é maluca!”
“Isso é lindo, vindo de um homem cujo hobby é montar e esmagar laptops.” ela disse.
“Touché!” eu disse.
“Quer mais?” ela levantou seu burrito.
“Eu passo!” disse tão rápido que acabamos rindo.

Quando deixamos o lugar e rumamos para o Dolores Park e ela colocou seu braço a volta da minha cintura, e achei que ela tinha o tamanho certo para eu colocar meu braço a volta dos ombros dela. Isso era novo para mim. Nunca fui um cara alto e as garotas que namorei eram da minha altura - meninas adolescentes crescem mais rápido do que meninos, o que era uma piada cruel da natureza.
Agora eu me sentia bem.

Viramos a esquina da rua 20 e caminhamos até Dolores. Antes mesmo do primeiro passo, dava para ouvir o barulho. Era como um milhão de abelhas zunindo. Muita gente ia em direção ao parque e quando olhei para lá. vi que tinha umas cem vez mais gente do que antes, quando fui encontrar Ange.
Aquilo fazia o sangue correr mais quente. Era uma bela noite e nos íamos festejar, festejar de verdade, como se não houvesse amanhã. “Coma, beba e seja feliz, pois amanhã estaremos mortos.”
Sem falar nada nós começamos a correr. Havia muitos policiais, expressões tensas, mas o que diabos iriam fazer? Tinha gente demais no parque. Eu não era bom em estimar multidões. Os jornais depois anunciariam que os organizadores disseram que eram 20 mil pessoas, a polícia diria 5 mil. Talvez isso significava que fossem 12.500.
Fosse o que fosse, era mais do que eu jamais vira, como parte de um não esquematizado, não sancionado evento ilegal.

Logo estávamos no meio de tudo. Não posso jurar, mas acho que não tinha ninguém ali com mais de 25 naquela compressão de corpos. Todos sorriam. Alguns garotos também, 10 ou 12 anos e isso me fez sentir melhor. Ninguém faria nada estúpido com crianças tão pequenas na multidão. Ninguém iria querer ver crianças pequenas feridas. Aquela seria uma gloriosa noite de celebração primaveril.
Achava que o melhor a fazer era ir até as quadras de tênis. Abrimos nosso caminho através do povo, e para ficar juntos, demos as mãos Ficar juntos não significava precisar entrelaçar os dedos. Isso era apenas por prazer, e foi muito prazeroso.

As bandas todas estavam nas quadras, cm suas guitarras e teclados e até um set de baterias. Mais tarde, na Xnet, eu acharia um vídeo no Flickr deles camuflando as coisas, cada peça, em sacolas de ginástica e debaixo das roupas. E aquelas enormes caixas de som, do tipo que você vê em lojas automotivas de material e entre eles pilhas de baterias. Eu ri. Aquilo era genial. Era como eles iriam eletrificar seus equipamentos. De onde estava, dava para ver que eram células de carros híbridos, um Prius. Alguém tinha depenado um carro ecológico para fornecer eletricidade a uma noite de diversões. As baterias estavam ao longo das cercas das quadras, carregando e ligadas através de fios em ligação corrente. Contei 200 baterias! Cristo! Aquelas coisas pesavam uma tonelada.
Não tinha jeito de organizar isso sem email e wikis e mailing lists. Não tinha jeito das pessoas espertas como eram ter usado a internet pública. Aquilo era coisa da Xnet, eu apostava.
Enquanto as bandas ligavam seus aparelhos nós ficamos andando no meio da multidão. Vi Trudy Doo à distância, na quadra de tênis. Ela parecia estar numa gaiola, como um lutador profissional de luta livre. Ela vestia uma camiseta de alças rasgada e o cabelo comprido solto, com tranças fluorescentes rosa até a cintura. Usava pintura de camuflagem das forças armadas e botas góticas gigantescas com presilhas de metal. Naquele instante ela pegava uma jaqueta de motociclista, tão gasta quanto as luvas de um pegador de beisebol, e a vestia como armadura. Eu entendi por quê.

Tentei acenar para ela, para impressionar Ange, imagino, mas ela não me viu e eu devia parecer um doido; então, parei. A energia da multidão era maravilhosa. Você ouve pessoas falando sobre vibração e energia, mas até que você experimenta isso, provavelmente pensa que é só uma figura de retórica.
Mas não é, não. São os sorrisos, contagiosos e grandes como melancias, em cada rosto. Todos oscilando um pouquinho, ao som de um ritmo inaudível, os ombros balançando. A conversa rolava, risos e gargalhadas. O tom de cada voz alto e excitado, como se fossem fogos de artifício. E não há nada a fazer a não ser participar daquilo. Por que você é parte daquilo.

Quando chegou a vez das bandas eu já estava absolutamente louco no meio da vibração da galera. A abertura foi um tipo de turbo-folk sérvio, que eu não sabia como dançar. Sei dançar dois tipos de musica: trance (você se mistura e deixa a musica te levar) e punk (sai se batendo em tudo até se machucar ou cair exausto) a musica seguinte foi hip-hop de Oakland, com uma banda de trash metal de fundo, que era melhor do que isso pode parecer. E então algum tipo de pop chiclete. Ai então as Putas Velozes tomaram o palco e Trudy Doo pegou o microfone.

“Meu nome é Trudy Doo e você é um idiota se acreditar em mim. Tenho trinta e dois e é já tarde demais para mim. Estou perdida. Estou presa à maneira antiga de se pensar. Ainda deixo que outras pessoas tirem minha liberdade. Vocês são a primeira geração a crescer no Gulag Americano e vocês sabem que a sua liberdade vale cada miserável centavo!”

A multidão veio abaixo. Ela tocava rápido pequenos acordes nervosos em sua guitarra e sua baixista, uma guria gorda enorme com corte de cabelos lésbico e botas ainda maiores e um sorriso de abrir latas de cerveja seguia ainda mais rápido e pesado. Eu queria pular. Pulei. Ange pulava comigo. Suávamos livres ao anoitecer fedido de transpiração e maconha. Os corpos quentes se batendo e de todos os lados. Todos pulavam também.

“Não acredite em ninguém com mais de 25!” ela gritava.
Nós gritávamos. Nós éramos a garganta de um só enorme animal, gritando.
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”
“Não acredite em ninguém com mais de 25!”

Ela espancou sua guitarra e a outra guitarrista, uma fadinha com piercings abundantes na cara atacou um riff  wheedle-dee-wheedle-dee-dee arrebatador lá em cima.
“É a droga da nossa cidade! É a droga do nosso país! Nenhum terrorista vai tirar isso da gente enquanto formos livres. Se não formos mais livres, eles vencem! Peguem de volta! Tomem de volta! Vocês são jovens o bastante e estúpidos o bastante para não saber que não podemos vencer, então vocês são os únicos que podem nos guiar para a vitória! TOMEM DE VOLTA!”
 “TOMEM DE VOLTA!” nós gritávamos. Ela arrancava as notas em sua guitarra. Nós gritávamos de volta, alto de verdade.

#

Dancei até ficar tão cansado que não conseguia dar mais um passo. Ange dançava ao meu lado. Tecnicamente estivemos esfregando nossos corpos suados um contra o outro por horas, mas, acredite ou não, não era coisa de sexo. Estávamos apenas dançando, perdidos na batida divina e gritando “Tomem de volta! Tomem de volta!”
Quando não podia mais, eu agarrei a mão dela e ela a apertou como se estivesse caindo do alto de um prédio. Me levou para longe da multidão, onde o ar era fresco. Lá, nos limites do parque deixamos nossos corpos suados ao ar frio instantaneamente resfriar. Nós tremíamos e ela jogou seus braços em volta do meu corpo. “Me aqueça.” ela ordenou. Eu não precisava da dica. Abracei Angie. Seu coração ecoava as batidas distantes e rápidas do palco - a musica era rápida e furiosa e sem palavras.
Ela cheirava a suor, um cheiro amargo, penetrante e ótimo. Sabia que estava cheirando a suor também. Meu nariz no topo da sua cabeça e seu rosto na minha clavícula. Suas mãos se moveram para meu pescoço e o puxou.
“Vem cá embaixo, não trouxe escada.” foi o que ela disse, e eu tentei sorrir, mas era difícil sorrir quando está se beijando.

Como disse, eu tinha beijado três garotas na minha vida. Duas nunca tinham beijado ninguém antes. Outra tinha namorado desde os 12 anos. Ela tinha experiência.
Nenhuma beijava como Ange. Ela fazia com que toda sua boca ficasse macia, como o interior de uma fruta madura e não empurrou sua língua na minha boca, mas a escorregou para lá e sugou meus lábios ao mesmo tempo, como se minha boca e a sua se fundissem. Ouvi a mim mesmo gemendo e a agarrei e a apertei forte.

Lenta e gentilmente deitamos na grama. Deitamos de lado, agarrados um no outro, beijando e beijando. O mundo desaparecera e só havia o beijo.
Minhas mãos acharam seu traseiro, sua cintura. A beirada da sua camisa. Seu estômago morno, seu umbigo macio. Minha mão continuava a subir. Ela gemeu também.
“Aqui não.” ela disse “Vamos mais para lá.” Apontou para o outro lado da rua para uma igreja branca que dava seu nome ao parque e à Missão. De mãos dadas nos movemos rápidos e atravessamos até a igreja. Tinha pilares frontais enormes. Ela colocou minha costas contra um deles e puxou meu rosto para junto do dela de novo. Minhas mãos foram rápidas de novo para sua camisa e subindo pela frente.
“Tem que abrir pelas costas.” ela sussurrou na minha boca. Um erro enorme. Movi minhas mãos à volta das suas costas, que eram fortes e achei a presilha com os dedos, que tremiam. Apalpei por algum tempo, pensando em todas aquelas piadas sobre como os garotos são péssimos em tirar um sutiã. Eu era. Então a presilha soltou-se livre. Ela arfou na minha boca, eu deslizei as mãos sentindo a umidade de suas axilas - que eram sexys e não ásperas por algum motivo - e toquei de leve os lados de seus seios.
Foi quando as sirenes começaram a ser ouvidas.
Mais alto do que qualquer coisa que já ouvi. Um som que era quase uma sensação física, como se alguém gritando na sua orelha. Alto, tão alto que os ouvidos não conseguiam processar e então mais alto ainda.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE” ouviu-se a voz, com Deus furioso em meu cérebro.
“ESTA REUNIÃO É ILEGAL. DISPERSEM IMEDIATAMENTE.”

A banda parou de tocar. O barulho da multidão além da rua mudou. Medo. Ódio.
Ouvi o clique do sistema de amplificadores dos carros de som e baterias nas quadras de tênis.
“TOMEM DE VOLTA!”
Foi um grito de desafio, como o som e um grito do surf ou gritado de um penhasco.
“TOMEM DE VOLTA!”
A multidão gritou de volta o que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem.
“TOMEM DE VOLTA!”’ eles cantavam “TOMEM DE VOLTA! TOMEM DE VOLTA! TOMEM DE VOLTA!”

A polícia se movia em linhas, carregando escudos plásticos, vestidos como Darth Vader, os capacetes cobrindo os rostos. Cada um tinha um cassetete preto e óculos infra-vermelhos. Pareciam soldados de um filme futurista de guerra. Deram um passo adiante em uníssono e cada um deles bateu com o cassetete no escudo, um som de coisa se partindo, como o chão se abrindo. Outro passo, outra batida. Já cercavam o parque e se aproximavam agora.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!” disse a voz de Deus de novo. Agora chegaram os helicópteros, mas sem aqueles holofotes poderosos.  Os óculos para visão noturna, é claro. Tinha miras infravermelhas nos helicópteros também. Eu empurrei Ange para a entrada da igreja, nos protegendo.
“TOMEM DE VOLTA!” trovejou o amplificador. Era o grito rebelde de Trudy Doo e ouvi sua guitarra cuspindo acordes e o baterista e então o baixo pesado.
“TOMEM DE VOLTA!” a multidão respondeu e partiram fervendo para fora do parque e para as linhas de policiais.

Nunca estive numa guerra, mas agora sei como deve se parecer. Quando garotos assustados atravessam um campo atacando as forças inimigas, sabendo o que virá, correndo de qualquer jeito, gritando.
“DISPERSEM IMEDIATAMENTE!” disse a voz de Deus, que vinha dos caminhões estacionados ao redor do parque, caminhões que surgiram nos últimos segundos.
Então veio a névoa. Caindo dos helicópteros, só pegamos parte dela. Me fez sentir como se fosse desmaiar, fez meu nariz parecer estar sendo perfurado por picadores de gelo. Meus olhos incharam e lacrimejaram e a garganta fechou-se.
Spray de pimenta. Não o de 100 mil Scovilles. O de 1 milhão e meio. Estavam atirando gás na multidão.
Não vi o que aconteceu em seguida, mas ouvi, acima do som de Ange e eu tossindo abraçados. Primeiro som de tosse, de vômito. Guitarra, bateria e baixo pararam de súbito.
E os gritos. Gritos por um longo tempo. Quando consegui ver de novo, os policiais tinham levantado as viseiras para trás da cabeça e os helicópteros derramavam tanta luz sobre Dolores Park que era como se fosse dia. Todos olhavam para o parque, o que era bom, por que com tanta luz como aquela nos éramos totalmente visíveis.

“O que a gente vai fazer?”’ perguntou Ange. Sua voz veio espremida, com medo. Não acreditei, por um instante,  que eu pudesse falar. Engoli diversas vezes.
“Vamos embora!” eu disse. “É tudo que podemos fazer. Sair daqui. Como se a gente só estivesse passando por aqui. Descemos a Dolores, viramos a esquerda e reto até a rua 16. Como se a gente só estivesse passeando. Como se não fosse problema nosso.”
“Nunca vai funcionar.”
“É o que dá para fazer.”
“Não acha melhor a gente correr?”
“Não. Se a gente correr, eles vão nos perseguir. Se a gente andar,  eles vão pensar que não fizemos nada e vão nos deixar em paz. Eles têm um monte de gente para deter. Vão ficar ocupados por muito tempo.”

O parque estava repleto de corpos caídos, jovens e adultos cobrindo o rosto com as mãos e tossindo. Os policiais os arrastavam pelas axilas, então prendiam os braços com algemas de plástico e os empurravam para dentro dos caminhões como bonecas de pano.
“OK?” perguntei.
“OK!” ela disse.
E foi o que fizemos. Caminhamos, de mãos dadas, rápidos, com pressa, como duas pessoas evitando a confusão feita por outros. O tipo de andar que você adota quando quer fingir que não viu o mendigo ou não quer se envolver com uma briga de rua.
E funcionou.

Chegamos à esquina e viramos e continuamos indo. Nenhum de nós se atreveu a falar por dois quarteirões. Então arfei sem dar conta que estava prendendo a respiração até então.
Chegamos à rua 16 e seguíamos sem direção à Missão. Normalmente sempre há um pessoal bem assustador às 2 da manhã de um sábado a noite. Naquela noite foi um alivio - os mesmos vendedores de drogas e prostitutas e bêbados de sempre. Nenhum tira com cassetete, nem gás.
“Hum.” respirei o ar e disse “Café?”
“Casa.” ela respondeu. “Acho melhor ir para casa. Deixa o café para depois.”
“Tá.” Ela morava em Hayes Valley. Vi um táxi perto e fiz sinal. Um pequeno milagre - nunca há taxis disponíveis em São Francisco quando se precisa de um.
“Tem um cabfare (cartão eletrônico de passagem) para casa?”
“Sim.” ela respondeu. O taxista olhou para nós da sua janela. Abri a porta de trás antes que ele pudesse arrancar.
“Boa noite.” falei.
Ela colocou suas mãos no meu rosto e o puxou. Beijou a minha boca com força, nada sexual nisso, mas de forma íntima.
“Boa noite.” sussurrou no meu ouvido e escorregou para dentro do táxi.
Com a cabeça flutuando e envergonhado por ter deixado todos os Xnetters à mercê da DHS e da SFPD, tomei rumo de casa.

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Segunda de manhã Fred Benson estava junto da mesa de Senhorita Galvez.
‘Senhorita Galvez não dará aulas mais para esta classe.’ disse assim que nos sentamos. Tinha um ar de auto-satisfação que reconheci imediatamente. Dei uma olhada discreta em Charlie. Ele sorria como se fosse seu aniversario e tivesse ganhado o melhor presente do mundo.
Levantei minha mão.
“Por que não?”
“É política da Comissão não discutir assuntos empregatícios com ninguém exceto os empregados e o comitê disciplinar.” Ele disse sem sequer esconder o quanto estava contente com o que dizia.
“Vocês estarão começando uma nova matéria hoje, segurança nacional. Seus computadores escolares já têm textos novos. Por favor, abram os seus computadores.”
A tela de abertura tinha o logo da DHS e o título: “O QUE CADA AMERICANO DEVERIA SABER SOBRE SEGURANÇA NACIONAL.”
Eu queria atirar meu computador escolar no chão.

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Combinei encontrar Ange numa cafeteria no seu bairro após a escola. Peguei o BART e sentei entre dois caras vestindo ternos. Estavam lendo o Chronicle, que mostrava em uma página inteira o obituário da baderna dos jovens em Missão Dolores Park. Ficavam reprovando e cacarejando sobre isso. Então um disse para o outro: “É como se estivessem fazendo um tipo de lavagem cerebral ou algo assim. Jesus Cristo, seremos sempre tão estúpidos?”
Tive que me levantar e trocar de assento.




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