sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 16


CAPÍTULO 16
Este capítulo é dedicado a Booksmith de São Francisco, escondida na histórica vizinhança de Haight-Ashbury, poucas portas distante da Ben and Jerry’s na esquina da Haight e Asbury. O pessoal da Booksmith sabe de verdade como promover um evento com um autor - quando eu morava em São Francisco, eu costumava ir lá sempre e ouvia escritores fantásticos falarem. (A vez com William Gibson foi inesquecível). Também faziam pequenos cartões para os autores parecidos com cartões de figurinhas de beisebol - tenho dois, das vezes que apareci por lá.
Booksmith: 1644 Haight St. São Francisco CA 94117 USA +1 415 863 8688

Primeiro, mamãe ficou chocada, depois furiosa e por final deixei-a de queixo caído quando falei sobre os interrogatórios, de urinar-me, e do saco na cabeça, de Darryl. Mostrei-lhe o bilhete.
“Por quê?”
Em cada sílaba, cada recriminação que sofri sozinho à noite, cada momento que me faltou coragem de dizer ao mundo o que realmente havia ocorrido e o verdadeiro motivo de estar lutando. O que realmente inspirou a Xnet.
Fiquei sem fôlego.
“Eles me disseram que eu seria mandado para a cadeia se falasse sobre isso. Não por algum tempo, mas para sempre. Eu estava, estava apavorado.”
Mamãe sentou junto a mim por algum tempo sem dizer nada e então disse:
“E quanto ao pai de Darryl?”
Ela sabia como ninguém como enfiar uma agulha em meu peito. O pai de Darryl. Devia achar que o filho estava morto.
E não estava? Depois do DHS tê-lo mantido preso ilegalmente por três meses, por que o deixaram sair?
Mas Zeb saíra. Talvez Darryl pudesse sair. Talvez eu e a Xnet pudéssemos ajudar Darryl a sair de lá.
“Eu não contei a ele.” eu disse.
Agora era mamãe quem chorava. Ela não costumava chorar com facilidade. Uma faceta britânica. Isso fazia seu choro e soluçar bem pior de ouvir.
“Você tem que lhe contar. Você deve.”
“Eu vou.”
“Mas primeiro temos que falar com seu pai.”

#

Fazia já algum tempo que papai não tinha um período regular em casa. Entre seus clientes de consultoria, tinha bastante trabalho, agora que a DHS estava priorizando tarefas de data-mining pela península e as viagens a Berkeley, ele deveria estar em casa alguma hora entre as seis e meia noite.
Naquela noite mamãe ligou para ele dizendo que viesse agora para casa. Ele disse algo e ela repetiu dizendo que deveria vir agora para casa. Quando ele chegou, estávamos na sala de estar com o bilhete sobre a mesa de café. Seria mais fácil falar uma segunda vez. O segredo agora estava mais suave. Eu não  precisava embelezar a verdade, não precisava esconder nada.
Já tinha colocado coisas a limpo antes, mas eu nunca entendia o que significava fazê-lo até aquele momento. Manter segredo tinha me prejudicado, machucado meu espírito. Me fez ter medo e vergonha. Me tornava tudo que Ange disse que eu era.
Papai sentou-se tenso, sua face dura como pedra. Quando eu passei para ele o bilhete, ele o leu duas vezes e então o depositou de volta a mesa com cuidado.
Balançou a cabeça, levantou-se e foi para a porta da frente.
“Onde você vai?” mamãe perguntou alarmada.
“Preciso andar.” foi tudo que ele conseguiu dizer, com a voz entrecortada.
Nos olhamos sem jeito, e esperamos que ele voltasse. Eu tentava imaginar o que passava em sua cabeça. Ele tinha se tornado uma pessoa diferente desde a explosão da ponte e eu soube pela mamãe que o que o fizera mudar foi pensar naqueles dias que eu estava morto. Ele acreditara que os terroristas tinham assassinado seu filho e isso o fez enlouquecer.
Foi o bastante para fazer o que quer que a DHS pedisse, o bastante para se tornar a boa ovelhinha e deixar-se ser controlado, guiado.
Agora ele sabia que fora a DHS que me mantivera preso, o DHS tinha mantido as crianças de São Francisco hospedadas no presídio da baia. Fazia sentido agora que eu pensava nisso. Era claro que tinha sido a Treasure Island onde tínhamos ficado. Onde mais podíamos chegar de barco em dez minutos saindo de São Francisco?
Quando papai voltou, estava mais zangado do que jamais estivera em sua vida.
“Você tinha que ter me contado!” esbravejou comigo.
Mamãe se interpôs entre nós. “Você está culpando a pessoa errada. Não foi Marcus quem raptou e intimidou.”
Ele balançou a cabeça e disse “Não culpo Marcus. Sei exatamente de quem é a culpa. Minha. Minha e da estúpida DHS. Vistam seus casacos!”
“Onde vamos?”
“Ver o pai de Darryl. Depois vamos até Barbara Stratford.”

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Eu conhecia o nome Barbara Stratford de algum lugar, mas não me lembrava de onde. Pensei que fosse uma amiga dos velhos tempos dos meus pais, mas não conseguia saber exatamente de onde.
Enquanto isso, fui levado até a casa do pai de Darryl. Eu nunca me sentia bem perto do velho, que tinha sido operador de rádio da Marinha e comandava sua casa como um navio. Ele tinha ensinado Morse a Darryl quando era ainda pequeno, o que eu sempre achei muito legal. Isso foi um dos motivos de acreditar na carta de Zeb. Mas para cada coisa legal como o código Morse, o pai de Darryl tinha algum tipo de disciplina militar que parecia ser para sua própria segurança, como insistir em aparelhar as quinas das camas com proteções e se barbear duas vezes ao dia. Isso deixava Darryl louco!
A mãe de Darryl não gostara também disso e foi embora, viver com sua família em Minnesota, quando Darryl tinha dez anos - Darryl passava os feriados de verão e Natal com ela.
Eu estava sentado no banco de trás e podia ver a parte de trás da cabeça do papai enquanto dirigia. Os músculos de seu pescoço estavam tensos e saltavam quando movia o maxilar.
Mamãe mantinha uma das mãos no braço dele, mas não havia ninguém para me consolar. Se eu ao menos pudesse falar com Ange. Ou Jolu ou Van. Talvez eu falasse com eles depois.
“Ele deve ter enterrado o filho em sua mente.” disse papai enquanto fazia as curvas que levavam a Twin Peaks até a pequena casa que Darryl e seu pai dividiam. A neblina fechada de Twin Peaks, como toda noite em São Francisco e os faróis refletiam de volta nela. Sempre que virávamos uma curva, eu vi ao vale e a cidade lá embaixo, bolas de luz tremulas movendo-se na névoa.
“É aqui?”
“Sim.” eu disse. “É aqui.” Fazia tempo que não estava com Darryl, mas tinha passado anos bastantes ali para reconhecer a casa logo que a vi.
Ficamos os três junto do carro por um pouco, esperando para ver quem iria tocar a campainha na casa. Para minha surpresa, fui eu.
Toquei a campainha e esperamos em silêncio, com a respiração suspensa. Toquei de novo. O carro do pai de Darryl estava na entrada e tínhamos visto uma luz na sala. Eu estava indo tocar de novo quando a porta abriu.
“Marcus?” o pai de Darryl não se parecia com o que eu lembrava. Barbado, em roupas de ficar em casa e descalço, unhas por cortar e olhos vermelhos. Tinha engordado e um queixo extra crescera sob a mandíbula firme militar. O cabelo desgrenhado e farto.
“Senhor Glover.” eu disse. Meus pais se aproximaram atrás de mim.
“Oi, Ron.” disse minha mãe.
“Ron.” meu pai disse.
“Vocês também? O que foi?”
“Podemos entrar?”

#

Sua sala de estar parecia com um daqueles lugares que aparecem em noticiários sobre crianças que são abandonadas por meses, vivendo por conta própria, até serem resgatadas por vizinhos. Caixas de comida congelada, latas vazias de cerveja, garrafas vazias de suco, vasilhas de cereais e pilhas de jornais velhos. Havia um cheiro ruim de urina de gato e lixo sob nossos pés. Mesmo sem a urina de gato, o cheiro era terrível, como o do banheiro da estação de ônibus.
O sofá estava coberto com um lençol cinzento e dois travesseiros sebosos de uso.
Ficamos parados ali por algum tempo em silêncio, o embaraço acima de qualquer outra emoção. O pai de Darryl parecia como se quisesse morrer.
Lentamente afastou o lençol do sofá e limpou a área, levando o que podia para a cozinha e ouvimos um barulho como se tudo tivesse sido largado no chão.
Sentamos nos lugares que ele limpou e quando voltou, ele se sentou também.
“Desculpe,” disse vagamente “não tenho café para oferecer a vocês. Vou precisar fazer compras amanhã...”
“Ron.” disse meu pai, “Ouça, temos algo a lhe dizer, e não será fácil de ouvir.”
Ele sentou-se como uma estatua enquanto eu falava. Olhou para o bilhete, leu sem parecer ter entendido e o devolveu para mim.
Ele tremia.
“Ele está...”
“Darryl está vivo.” eu falei. “Darryl está vivo e preso na Treasure Island.”
Ele cobriu a boca com a mão e fez um barulho terrível.
“Temos uma amiga.” meu pai falou. “Ela escreve para o Bay Guardian. Ela é repórter investigativa.”
Era daí que eu conhecia o nome. O semanal Guardian tinha perdido vários repórteres para os jornais diários e para a internet, mas Barbara Stratford sempre esteve nele. Tinha uma vaga memória de ter estado em um jantar com ela quando criança.
“Estamos indo agora falar com ela.” Minha mãe disse. “Você vem conosco, Ron? Pode contar a ela sobre Darryl?”
Ele colocou o rosto entre as mãos e respirou pesadamente. Papai tentou colocar a mão em seu ombro, mas ele se desviou violentamente.
“Preciso tomar um banho. Esperem um minuto.”
Quando o senhor Glover desceu as escadas era outro homem Tinha se barbeado, penteado e vestido um uniforme militar com medalhas ao peito. Fez um gesto para suas roupas e disse:
“Não tenho muita coisa limpa que seja apresentável no momento. E isso me pareceu apropriado. Vocês sabem, se ela quiser tirar fotografias.”
Ele e papai saíram na frente e eu logo atrás. De perto, ele cheirava um pouco a cerveja, como se ela saísse de seus poros.

#

Era por volta da meia noite quando batemos na porta de Barbara Stratford. Ela vivia fora da cidade, em Mountain View, e durante o caminho pela rodovia 101, ninguém disse uma palavra.
Aquela era uma área da Baía diferente de onde eu vivia; parecia mais com o subúrbio Americano que aparece na televisão. Muitas casas semelhantes, onde não se via mendigos empurrando carrinhos de feira pela calçada, e nem mesmo havia calçadas.
Mamãe havia telefonado para Barbara Stratford enquanto esperávamos o senhor Glover se aprontar. A jornalista estava dormindo,  mas mamãe estava tão tensa que toda aquela fleuma britânica foi esquecida assim como qualquer embaraço por acordá-la. Disse a ela, bastante nervosa, que tinha algo para falar e que tinha que ser pessoalmente.
Quando saíamos para ver Barbara, meu primeiro pensamento foi na série Brady Bunch - uma casa rancho com muros de tijolos em frente e perfeitamente quadrado Chegamos à entrada e vimos que as luzes estavam acesas dentro de casa.
Ela abriu a porta antes que tivéssemos chance de usar a campainha. Ela devia ter a idade dos meus pais, uma mulher alta e magra, com a feição de uma águia e olhos apertados com rugas. Usava jeans que poderiam ser vistos nas vitrines das butiques de Valencia Street e uma blusa solta de algodão indiana bem comprida. Pequenos óculos redondos que brilharam na luz da entrada.
Sorriu um sorriso pequeno para nós.
“Vieram com a turma toda, pelo que vejo.” ela disse.
Mamãe assentiu: “Você entenderá o porquê em um minuto.” O senhor Glover entrou junto com meu pai.
“E você serviu na Marinha?”
“Nos bons tempos.”
Fomos apresentados e ela tinha um aperto de mão bastante firme de dedos longos.
Sua casa era repleta de mobiliário minimalista estilo japonês, precisamente proporcional, móveis baixos, vasos de barro com bambu que subiam ao teto e o que parecia ser uma peça rústica de motor diesel sobre uma mesa polida de mármore. Gostei. O chão era de madeira velha, ariada, dando para ver brechas e cortes sob o verniz. Realmente gostei daquilo.
“Fiz café. Alguém vai querer?”
Todos erguemos as mãos. Eu desafiava meu pais.
“Certo.” ela disse.
Ela desapareceu em outra sala e voltou de lá depois com uma bandeja de bambu com garrafas térmicas de meio galão e seis copos com o mesmo design rústico. Gostei também.
“Agora.” ela disse depois de nos servir. “É bom ver vocês de novo. Marcus, a última vez que o vi, devia ter uns sete anos de idade. Me lembro que estava excitado com seu novo videogame, e mostrou-o para mim.”
Eu não lembrava disso, mas soou como algo que eu faria os sete anos. Deveria ser meu Sega Dreamcast.

Ela trouxe um gravador, um bloco amarelo e lápis.
“Estou aqui para ouvir o que quer que tenham para me dizer e prometo que será mantido em segredo. Mas eu não posso prometer que farei algo com isso ou que será publicado.’
Do jeito que ela disse aquilo me fez ver que minha mãe pedira um grande favor ao tirá-la da cama, sendo amiga ou não. Devia ser um saco ser um grande nome da investigação jornalística. Provavelmente um milhão de pessoas devia querer envolvê-la em suas causas.
Mamãe me fez um sinal. Eu já tinha contado a história três vezes aquela noite e estava cansado de falar. Era diferente de contar para meus pais. Diferente de contar para o pai de Darryl. Era como começar um novo movimento no jogo.
Comecei devagar e olhava Barbara tomando notas. Bebi uma xícara toda de café antes de dizer como funcionava o ARG e como fugíamos da escola para jogar. Mamãe e papai e o senhorGlover ouviam com atenção esta parte. Peguei de outra xícara e bebi antes de dizer como tínhamos sido capturados. Então contei a história toda; eu precisava sair dali e ir ao banheiro urinar.
Seu banheiro era tão bacana quanto a sala, com sabão orgânico que cheirava bem. Quando voltei os adultos me olhavam silenciosos.
A seguir, o senhor Glover contou sua história. Não tinha nada a dizer sobre o que aconteceu conosco, mas contou que era um veterano e que seu filho era um bom garoto. Falou sobre como se sentiu acreditando que seu filho estava morto, como sua ex-esposa teve um colapso quando soube e acabou no hospital. Chorou um pouco, as lagrimas correndo seu rosto marcado e escurecendo o colarinho de seu uniforme.
Quando terminou, Barbara foi até outra sala e voltou com uma garrafa de uísque escocês.
“É um Bushmills 15 anos.” ela disse distribuindo quatro copos pequeninos. Nenhum para mim.
“Foi vendido há dez anos e acho que este é o momento apropriado para abri-lo.”
Ela serviu os quatro copinhos, ergueu o seu e bebeu metade do copo. Os outros adultos a imitaram. Beberam mais uma vez e terminaram. Ela serviu novamente.
“Certo.” ela falou. “Isso é o que posso dizer agora a vocês. Eu acredito em vocês. Não apenas por que conheço você, Lilian. A história faz sentido, e bate com alguns rumores que ouvi. Mas as suas palavras não bastam, vou precisar investigar cada aspecto disso, e cada elemento de suas vidas e histórias. Preciso saber se tem alguma coisa que não me disseram, algo que possa ser usado para desacreditá-los depois que isso vier a luz. Preciso de tudo. Podem passar muitas semanas antes de isso ser publicado.”
“Vocês precisam pensar na segurança de vocês e na de Darryl. Se ele está realmente sob o controle deles, qualquer pressão sobre a DHS pode levá-los a mudá-lo para algum lugar distante, quem sabe a Síria. Podem inclusive fazer algo pior.” Fez aquele gesto no ar. Eu sabia que ela queria dizer como eles poderem matá-lo.
“Vou escanear agora este bilhete. Preciso de fotos de vocês dois, agora e depois, posso mandar um fotografo, mas quero documentar isso como puder ainda esta noite.”
Fui com ela até seu escritório e escaneamos. Eu esperava um estiloso, porém antigo computador que cominasse com a decoração, mas ao invés disso em seu escritório havia um PC de última geração, top de linha, grandes monitores de tela plana e um scanner grande o bastante para registrar uma pagina inteira de jornal aberta. Ela foi rápida com aquilo também. Notei com aprovação que ela rodava ParanoidLinux. Aquela senhora levava seu trabalho a sério.
“Um, Barbara?”
‘Sim?”
“Quando você disse sobre poderem usar algo para me desacreditarem...”
“Sim?”
‘O que vou te dizer agora você não poderá repetir para ninguém, certo?”
“Em teoria. Deixe-me dizer deste jeito. Prefiro ir para a prisão do que revelar minha fonte.”
“Ok, ok, Bom. Prisão. Ok.” Respirei fundo. “Ouviu falar da Xnet? De M1k3y?”
“Sim.”
“Eu sou M1k3y.”
“Oh.” ela disse. Ela trabalhava escaneando o lado oposto do bilhete. Escaneava numa resolução absurda de 10.000 pontos por polegada ou mais, e na tela parecia algo como o resultado de um microscópio de túnel de elétrons.
“Bem, com isso a coisa muda de figura.”
“Sim.” eu disse “Imaginei que sim.”
“Seus pais não sabem.”
“Nadinha. E acho que não quero contar para eles.”
“É algo que você vai precisar pensar. Eu preciso de tempo para pensar sobre isso. Você pode vir ao meu trabalho? Eu gostaria de conversar sobre exatamente o que isso significa.”
“Você tem um Xbox Universal? Eu instalar para você.”
“Sim, acho que posso arranjar um. Quando for ao meu escritório, diga que Mister Brown deseja me ver. Eles sabem o que significa. Ninguém irá anotar sua presença e toda gravação feita pelas câmeras de segurança naquele dia será automaticamente limpa e as câmeras desativadas até que vá embora.”
“Uau. Você pensa como eu.”
Ela sorriu e me deu um tapinha no ombro. “Garoto, eu estou neste jogo faz tempo. Sendo assim, faço o que posso para passar mais tempo livre do que atrás das grades. A paranóia é minha amiga.”

#

Eu parecia um zumbi na escola no dia seguinte. Tinha dormido apenas três horas de sono e mesmo três copos daquela lama de cafeína tinham falhado em despertar meu cérebro. O problema com a cafeína é que é muito fácil se assimilar e cada vez mais você precisa de doses maiores do que o normal.
Passei a noite pensando o que eu faria. Parecia correr através de diversas passagens, porém todas conduziam ao mesmo beco sem saída. Quando fosse ver Barbara estaria feito. Não importava o que eu pensasse.
Finalmente a aula acabou e tudo que eu queria era ir para casa e cair na cama. Mas eu tinha um encontro, lá no Bay Guardian, junto ao cais. Meus olhos não saíam dos meus pés e quando eu cheguei na rua 24 outro par de pés estava na minha frente. Reconheci-os e parei.
“Ange?”
Ela se parecia comigo. Estava sem dormir, com olheiras de guaxinim.
“Oi! Surpresa! Me liberei da aula de francês na escola. Eu não conseguia me concentrar mesmo.”
“Hum.” eu disse.
“Cala a boca e me dá um abraço, seu idiota.”
Eu dei. E foi bom. Mais do que bom. Senti-me como se uma parte que tivesse sido amputada de mim tivesse sido recolocada de volta.
“Eu te amo, Marcus Yallow.”
“Eu te amo, Ângela Carvelli.”
 “Ok.” ela falou mudando de assunto. “Gostei do seu post sobre não fazer interferência. Posso entender. E o que você fez a respeito de encontrar um jeito de bagunçar a casa deles sem ser preso?”
“Estou a caminho de encontrar-me com uma jornalista investigativa que vai publicar a historia de como fui parar na cadeia, como comecei a Xnet e como Darryl está sendo mantido preso irregularmente pela DHS numa prisão secreta na Treasure Island.”
Ela olhou ao redor. “Você não acha que está sendo, você sabe, ambicioso?”
“Quer vir?”
“Quero sim. E queria que explicasse isso em detalhes, se não se importa.”
Depois de recontar tantas vezes, esta vez, enquanto caminhávamos de Potrero Avenue até a rua 15, foi a mais fácil. Ela segurava minha mão e às vezes a apertava.
Subimos as escadas até os escritórios do Bay Guardian de dois em dois. Meu coração pulava. Cheguei à recepção e a mesa da recepção e disse a moça entediada trás dela “Estou aqui para ver Barbara Stratford. Meu nome é Mister Green.”
“Acho que quer dizer Mister Brown.”
“Sim! Mister Brown.” Disse, corando.
Ela fez algo em seu computador e disse: “Sente-se. Barbara irá atendê-lo num minuto. Posso lhe servir alguma coisa?”
“Café!” dissemos em uníssono. Outra razão para amar Ange era que éramos viciados na mesma droga.
A recepcionista, uma pequena latina pouco mais velha que nós, vestida no estilo GAP já tão antigo que passava atualmente como um tipo de hipster-retro, assentiu e saiu, voltando depois com um par de xícaras.
Bebemos em silêncio, observando os visitantes e repórteres indo e vindo. Por fim Barbara veio até nós. Vestia praticamente a mesma roupa da noite anterior. Caía bem nela. Levantou uma sobrancelha para mim quando viu que eu estava acompanhado.
“Olá! Hum, esta é...”
“Senhorita Brown.” disse Ange estendendo uma mão. Sim, lógico, nossas identidades supostamente deviam ser secretas.
“Eu trabalho com Mister Green.” ela me deu uma cotovelada de leve.
“Vamos, então.” disse Barbara e nos levou para uma sala com grandes paredes de vidro com persianas baixas. Ela trouxe uma tigela de algo similar aos biscoitos Oreo orgânicos da Whole Foods, um gravador digital e um bloco amarelo.
“Vai querer gravar também?” ela perguntou.
Eu não tinha pensado nisso. Conseguia ver algum uso caso eu quisesse contestar o que Barbara publicasse, pensei. Ainda assim, se não podia confiar que ela faria a coisa certa, tudo estaria mesmo perdido.
“Não, tudo bem.” eu disse.
“Certo, vamos começar. Minha jovem, meu nome é Barbara Stratford e sou repórter investigadora. Acho que sabe por que estou aqui e estou curiosa de saber o porquê de você estar aqui.”
“Trabalho com Marcus na Xnet” ela disse. “Precisa saber meu nome?”
“Agora não.” Barbara disse. “Pode ficar anônima, se quiser. Marcus, eu lhe pedi para me contar esta história porque eu preciso saber como isso se liga ao que você me contou sobre seu amigo Darryl e o bilhete que me mostrou. Posso usar isso para explicar a origem da Xnet. ‘Eles criaram um inimigo do qual nunca se esquecerão’, este tipo de coisa. Mas honestamente, eu preferia não ter que contar esta história se não precisasse.”
“Eu preferia uma história clara contando sobre uma prisão secreta bem à nossa porta, sem ter que argumentar sobre os prisioneiros serem o tipo de pessoas que caminham por aí e criam um movimento underground para desestabilizar o governo federal. Tenho certeza que você entende.”
Eu entendia. Se a Xnet fizesse parte da história, alguns iriam dizer, “Veja, eles precisam colocar estes caras na prisão ou eles começarão uma rebelião.”
“O show é seu, Barbara. Acho que você precisa dizer ao mundo sobre Darryl. Quando fizer isso, estará dizendo a DHS que eu vim a público e eles virão atrás de mim. Talvez eles pensem que estou envolvido com o Xnet. Talvez me liguem ao M1k3y. Acho que o que quero dizer é que, uma vez que você publique a história sobre o Darryl, tudo terá acabado para mim. Assim, ficarei em paz.”
“Tanto faz ser preso por roubar um porco ou por dois.” ela disse. “Certo. Estamos de acordo. Quero me vocês me contem tudo sobre a fundação e a operação da Xnet e depois eu quero uma demonstração. O que vocês usam? Quem mais usa? Como se disseminou? Quem escreveu o software, tudo!”
“Vai levar algum tempo.” disse Ange.
“Eu tenho algum tempo.” disse Barbara. Bebeu café e mordeu um Oreo de mentira. “Esta pode ser a história mais importante da Guerra contra o Terror. Pode ser a história que irá desnudar o governo. Quando você tem uma história destas, você precisa ser cuidadoso.”



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