sábado, 17 de abril de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 3)




NUM PRÉDIO gigantesco, vazio, em ruínas, que outrora abrigara milhares de pessoas, um único aparelho de TV anunciava seus produtos à sala vazia.

Antes da Guerra Mundial Terminus, aquela ruína sem dono fora habitada e bem conservada. Ali era um dos subúrbios de São Francisco, a uma curta distância pelo monorail expresso: a península inteira tagarelara como uma árvore cheia de pássaros, transbordante de vida, opiniões e queixas, e, naquele momento, seus zelosos proprietários ou haviam morrido ou emigrado para um mundo-colônia. Principalmente, a primeira alternativa; a guerra fora dispendiosa, a despeito das previsões valentes do Pentágono e de sua autocomplacente nave científica, a Rand Corporation — que, na verdade, existira não muito longe dali. Como os donos de apartamento, a empresa fora embora, evidentemente para sempre.
Ninguém lhe sentia a falta.

Além disso, ninguém hoje se lembrava por que estourara a guerra ou quem, se é que alguém, a vencera.
A poeira que contaminara a maior parte do planeta não se originara em país algum, e ninguém, nem mesmo o inimigo do tempo da guerra, contara com ela.

Em primeiro lugar, estranhamente, morreram as corujas. Na ocasião, este fato pareceu quase engraçado, os gordos e fofos pássaros brancos caídos aqui e ali, em quintas e em ruas. Aparecendo não antes do anoitecer, como no tempo em que viviam, ninguém as notou. Pestes medievais haviam-se manifestado de maneira parecida, sob a forma de numerosos ratos mortos.

Esta peste, contudo, descera das alturas.

Depois das corujas, claro, seguiram-se outras aves, mas, por essa altura, o mistério já fora descoberto e bem compreendido. Antes da guerra, estivera em andamento um modesto programa de colonização, mas agora que o sol deixara de brilhar sobre a Terra, o esquema entrou numa fase inteiramente nova. Em conexão com o mesmo, uma arma de guerra, o Combatente Sintético, fora modificada. Capaz de funcionar em um mundo alienígena, o robô humanóide — estritamente falando, o andróide orgânico — transformara-se na besta de carga móvel do programa de colonização.

De acordo com uma lei promulgada pelas Nações Unidas, todos os emigrantes recebiam, automaticamente, a posse de um subtipo andróide de sua escolha e, por volta de 1990, a variedade desses subtipos desafiava todo e qualquer entendimento, assim como acontecera com os automóveis americanos na década de 60.

Este fora o incentivo final: o servo andróide como cenoura, e a precipitação radiativa como porrete.
As Nações Unidas haviam tornado fácil emigrar, e difícil, senão impossível, permanecer.

Potencialmente, continuar na Terra significava o indivíduo, de repente, ver-se classificado como biologicamente inaceitável, uma ameaça à hereditariedade cristalina da raça. Uma vez classificado como especial, o cidadão, mesmo que aceitasse a esterilização, desaparecia da história. Deixava, na verdade, de fazer parte da humanidade.

Ainda assim, aqui e ali, pessoas recusavam-se a emigrar. Isto, mesmo para os indivíduos envolvidos, constituía uma irracionalidade que confundia. Logicamente, todos os regulares já deviam ter emigrado. Talvez, deformada como estava, a Terra continuasse familiar, uma coisa à qual se apegar. Ou, possivelmente, o não-emigrante pensava que o toldo de poeira acabaria finalmente por se esgotar.

De qualquer modo, permaneceram milhares de indivíduos, a maioria aglomerada em áreas urbanas, onde podiam mutuamente se ver, se animar com a presença mútua. Estes pareciam ser os relativamente sensatos. Mas em duvidoso acréscimo a eles, permaneciam ocasionais entidades peculiares nos subúrbios virtualmente abandonados.

John Isidore, o alvo dos berros de seu aparelho de televisão, enquanto se barbeava no quarto, era um deles.

Andando ao léu, simplesmente chegara a este lugar nos primeiros dias depois da guerra. Naqueles tempos horrendos, ninguém soubera, realmente, o que andava fazendo. Populações inteiras, desenraizadas pela guerra, vaguearam de um lado para outro, grilaram em primeiro lugar uma região e depois outra.

Naquela época, a precipitação fora esporádica e altamente variável, com alguns Estados quase livres dela, enquanto outros eram saturados. Os deslocados moviam-se com o deslocamento da poeira. No início, a península sul de São Francisco estivera livre da poeira e grande número de pessoas reagira, fixando-se ali. Ao chegar a poeira, uns morreram e outros foram embora. J. R. Isidore permanecera.

O aparelho de TV berrava: . duplicatas dos dias dourados dos Estados do Sul antes da Guerra Civil! Seja como criado particular seja como incansável trabalhador braçal no campo, o robô humanóide fabricado sob medida — projetado especificamente PARA SUAS PRÓPRIAS NECESSIDADES, PARA VOCÊ E SOMENTE PARA VOCÊ — é-lhe entregue à sua chegada, inteiramente gratuito, totalmente equipado, da forma especificada por você antes de sua partida da Terra. Este companheiro leal, que não lhe causará problema algum, na maior e mais ousada aventura imaginada pelo homem na história moderna lhe dará..." E assim continuava, interminavelmente.

Será que estou atrasado para o trabalho, perguntou a si mesmo Isidore, enquanto continuava a raspar o rosto. Não possuía um despertador de trabalho. De modo geral, dependia dos sinais da TV para saber que horas eram. De qualquer modo, a TV alegava que aquele era o quinto (ou sexto?) aniversário da fundação da Nova América, a principal colônia americana em Marte. Seu aparelho de TV, parcialmente quebrado, pegava apenas o canal que fora nacionalizado durante a guerra e que assim continuava.

O governo, em Washington, dando prosseguimento ao programa de colonização, era o único patrocinador, ao qual Isidore era obrigado a ouvir.

"Vamos ouvir agora a palavra da Sra. Maggie Klugman", sugeriu o locutor a Isidore, que queria apenas saber a hora. "Imigrante recém-chegada a Marte, vamos ouvir a Sra. Klugman numa entrevista gravada ao vivo em Nova York. Sra. Klugman, de que modo a senhora compara sua vida na contaminada Terra com sua nova vida aqui, num mundo rico com todas as possibilidades imagináveis?"

Uma pausa e, em seguida, uma voz cansada, seca, de mulher de meia-idade, respondendo: "Acho que o que eu e minha família mais notamos aqui foi a dignidade".
"Dignidade, Sra. Klugman?", perguntou o locutor. "Isso mesmo", confirmou a Sra. Klugman, agora da nova York, em Marte. "É uma coisa difícil de explicar, ter um criado particular, no qual a gente pode confiar nestes tempos perturbados... Acho isto tranqüilizador."

"Lá na Terra, Sra. Klugman, nos velhos dias, a senhora também se preocupava com a possibilidade de ser classificada como especial?"

"Oh, meu marido e eu quase morríamos de preocupação. Claro, logo que emigramos, a preocupação desapareceu, felizmente para sempre."

Para si mesmo, pensou amargamente John Isidore: e para mim, também, sem eu ter que emigrar. Era um especial há mais de um ano, e não apenas no tocante aos genes deformados de que era portador. Pior ainda, não conseguira passar no teste de faculdades mentais mínimas, o que o tornava em linguajar popular, um debilóide. Sobre ele descia o desprezo de três planetas. Contudo, a despeito de tudo isto, sobrevivia. Tinha seu emprego, de dirigir uma camioneta e o caminhão de entregas de uma firma de consertos de falsos animais.

O Van Ness Hospital para Bichos de Estimação e seu sombrio e gótico dono, Hannibal Sloat, aceitaram-no como ser humano e isto ele apreciava.

Mors certa, vita incerta, declarava ocasionalmente Sloat.

Isidore, embora houvesse escutado essa expressão certo número de vezes, tinha apenas uma vaga idéia do que ela significava. Afinal de contas, se um debilóide conseguia entender latim, então ele deixava de ser debilóide. Sloat, quando isto lhe fora mencionado, reconhecera a verdade da observação. E havia debilóides infinitamente mais estúpidos do que Isidore, que não podiam desempenhar função alguma e que permaneciam em asilos estranhamente denominados de "Instituto de Ofícios Especiais da América", tendo, como sempre, a palavra "especial" se introduzido no título, de alguma maneira.

"... seu marido não sentia proteção", dizia o locutor da TV, "embora possuísse e usasse continuamente um caro, desajeitado protetor genital de chumbo, Sra. Klugman?"
"Meu marido...", começou a Sra. Klugman, mas, nesse momento, tendo acabado de barbear-se, Isidore entrou na sala e desligou a TV.

Silêncio, que saltou das obras de madeira e das paredes e o sufocou com um terrível e total poder, como se gerado por uma imensa usina motriz.
Subia do chão, do carpete cocado que ia de parede a parede, soltava-se dos eletrodomésticos quebrados e semi-quebrados da cozinha, as máquinas mortas que nem uma única vez haviam funcionado desde que estava ali. Escorria do poste de iluminação inútil da sala de estar, misturando-se com a vazia e muda descida de si mesmo do teto manchado por moscas. Conseguia, na verdade, emergir de todos os objetos dentro de seu campo de visão, como se ele — o silêncio — quisesse suplantar todas as coisas tangíveis. Daí, assaltava não só seus ouvidos, mas também seus olhos. Ao lado do aparelho apagado de TV, experimentou-o como se fosse visível e. à sua própria maneira, vivo. Vivo! Antes, sentira com freqüência sua austera aproximação; quando chegava, estourava sem sutileza, evidentemente incapaz de esperar.
O silêncio do mundo não podia controlar mais sua cobiça. Não mais.
Não, quando virtualmente vencera.

Perguntou-se se as outras pessoas que haviam permanecido na Terra experimentavam assim o vazio. Ou seria isto peculiar à sua peculiar identidade biológica, uma anormalidade criada por seu inepto aparelhamento sensorial? Questão interessante, pensou. Mas com quem poderia ele comparar notas?

Vivia sozinho nesse prédio cego, em ruínas, de mil apartamentos desocupados que, como todos seus iguais na cidade, dia após dia, mergulhava em ruína entrópica cada vez maior. No fim, tudo no prédio se misturaria, seria anônimo e idêntico, um mero monte, parecendo um pudim e elevando-se até o teto de cada apartamento.

E depois disso, o edifício abandonado se acomodaria e mergulharia em indistinção, sepultado pela poeira eternamente presente. Mas, por essa altura, claro, ele mesmo estaria morto, outro fato interessante a prever, pensou, enquanto permanecia ali sozinho na sala de estar abandonada, apenas com o silêncio do mundo, um silêncio sem pulmões, que a tudo penetrava, irresistível.

Melhor, talvez, voltar a ligar a televisão. Os anúncios, porém, dirigidos aos regulares que restavam, amedrontavam-no. Informavam-no, de um número incontável de maneiras, que ele, um especial, não era desejado. Não tinha utilidade. Não podia, mesmo que quisesse, emigrar. Neste caso, por que escutar? perguntou-se, irritado. Diabos os levem, a eles e sua civilização. Espero que lá aconteça uma guerra — afinal de contas, teoricamente, isto podia acontecer — e que eles acabem como a Terra.
E que todos os que emigrarem se transformem em especiais,

Muito bem, pensou, vou trabalhar. Estendeu a mão para a maçaneta que abria a porta para o corredor apagado e encolheu-se todo ao ver a vacuidade do resto do edifício. A vacuidade estava à espera dele, ali fora, a força que sentira, muito ocupada, penetrando em seu apartamento específico. Deus, pensou, e voltou a fechar a porta. Não estava pronto para escalar aqueles degraus ressoantes até o telhado vazio, onde não possuía animal algum. O eco de si mesmo, subindo; o eco de coisa alguma. Tempo de agarrar os guidões, disse a si mesmo, e cruzou z sala de estar até a caixa preta de empatia.

Ao ligá-la, o leve e habitual cheiro de íons negativos subiu do suprimento de energia; inalou-o ávido, já se animando. Em seguida, o tubo de raios catódicos brilhou como uma imagem de TV, fraca, de imitação, uma colagem formada de cores aparentemente ao acaso, rastros, e configurações que, até que os guidões fossem agarrados, nada significava. Assim, tomando uma profunda respiração para se controlar, segurou os punhos gêmeos.

A imagem tornou-se nítida e viu imediatamente uma paisagem famosa, a velha, parda, estéril ladeira, com tufos de ervas secas que pareciam ossos, apontando, inclinadas, para um céu sombrio e sem um sol. Uma única figura, de forma mais ou menos humana, subia cansadamente a encosta, um homem velho usando um robe informe, de cor baça, uma proteção tão insuficiente como se houvesse sido arrancada do vazio hostil do céu.

O homem, Wilbur Mercer, continuava a subir laboriosamente, enquanto, segurando-se ao guidão, John Isidore, aos poucos, experimentava o desaparecimento da sala de estar onde se achava; os móveis arruinados e as paredes se esfumaram, e deixou absolutamente de vê-los. Descobriu-se, em vez disso, mais uma vez entrando na paisagem da colina desolada, do céu desolado. Simultaneamente, não viu mais a subida do velho. Seus próprios pés, nesse momento, arrastavam-se, procuravam apoio, entre as pedras soltas conhecidas; sentia a mesma velha, dolorosa, irregular aspereza sob os pés e, novamente, o cheiro da névoa acre do céu — não o céu da Terra, mas de algum lugar alienígena, distante, mas, ainda assim, graças à caixa de empatia, bem presente.

Fizera a travessia da maneira habitual e desnorteante, e a fusão física — acompanhada de identificação mental e espiritual — com Wilbur Mercer viera a acontecer. Como fazia com todas as pessoas que, neste momento, seguravam os punhos gêmeos, aqui na Terra ou em um dos planetas-colônias. Experimentou-os, os outros, incorporou a tagarelice de seus pensamentos, ouviu em seu próprio cérebro o ruído de suas muitas existências individuais. Eles — e ele — importavam-se com uma única coisa, apenas, e esta fusão de suas mentalidades orientava-lhes a atenção na colina, na subida, na necessidade de ascender. Passo após passo ela continuava, tão lenta que era quase imperceptível. Mas estava ali. Mais alto, pensou, enquanto pedras corriam barulhentas sob seus pés. Hoje, chegamos mais alto do que ontem e, amanhã — ele, a figura composta de Wilbur Mercer, ergueu os olhos para examinar a ladeira à frente.

Impossível distinguir o fim. Longe demais. Mas o fim chegaria.

Uma pedra, lançada contra ele, atingiu-lhe o braço. Sentiu a dor. Virou-se parcialmente e outra pedra passou por ele, errando, bateu na terra, e o som sobressaltou-o. Quem?, perguntou-se, procurando ver se identificava seu atormentador. Os velhos antagonistas, manifestando-se na periferia de sua visão.
Aquilo, ou eles, haviam-no seguido o caminho todo, morro acima, e continuaria até o topo.

Lembrou-se do topo, do inesperado nivelamento da colina, quando termina a subida e começa a outra parte. Quantas vezes fizera aquilo? As várias vezes se tornaram indistintas; futuro e passado se tornaram indistintos um do outro, o que já experimentara e o que finalmente experimentaria, fundiram-se, de modo que nada restou, senão o momento, a parada ali e o descanso, durante o qual esfregou o corte deixado em seu braço pela pedra. Deus, pensou cansadamente, de que maneira é isto justo? Por que estou sozinho aqui em cima, sendo atormentado por alguma coisa que nem mesmo consigo ver? Em seguida, no seu íntimo, a tagarelice mútua de todo mundo na fusão quebrou a ilusão de solidão.

Você também sentiu isso, pensou ele. Sim, responderam as vozes. Fomos atingidos, no braço esquerdo; dói como o diabo. Muito bem, disse ele, é melhor começarmos a nos mover outra vez. Voltou a andar e todos os outros o acompanharam no mesmo instante.

Certa vez, lembrou-se, aquilo fora diferente. Muito tempo antes, antes da chegada da maldição, numa parte mais antiga e mais feliz de sua vida. Eles, seus pais adotivos, Frank e Cora Mercer, haviam-no encontrado flutuando numa balsa de avião, inflada, ao largo da costa da Nova Inglaterra... ou fora no México, perto do porto de Tampico? Não se lembrava nesse momento das circunstâncias. A infância fora boa; amara toda a vida, especialmente os animais, conseguira mesmo, na verdade, reviver animais mortos da forma como haviam sido antes. Vivera com coelhos e insetos, onde quer que houvesse sido, na Terra ou num mundo-colônia, agora esquecera disso, também. Mas lembrava-se dos matadores porque o haviam capturado como um anormal, mais especial do que os demais especiais. E, devido àquilo, tudo mudara.

A lei local proibia a faculdade de reversão do tempo, graças à qual os mortos voltavam à vida haviam-lhe dito isso com toda a clareza possível durante seu décimo sexto ano.

Continuara a fazer isso secretamente por mais um ano, nos bosques que ainda restavam, mas fora denunciado por uma velha que nunca vira e de quem nunca ouvira falar. Sem consentimento de seus pais, eles — os matadores — haviam bombardeado o nódulo excepcional que se formara em seu cérebro, atacando-o com cobalto radiativo, e isto o mergulhara num mundo diferente, de cuja existência jamais suspeitara. Fora um poço de cadáveres e ossos mortos e lutara durante anos para sair de lá. O jumento e, especialmente, o sapo, as criaturas que para ele eram as mais importantes, haviam desaparecido, tornados extintos, restando apenas fragmentos que apodreciam, uma cabeça sem olhos aqui, parte de mão ali.
Finalmente, uma ave que viera ali para morrer lhe dissera onde estava. Mergulhara na tumba do mundo. Não poderia sair até que os ossos espalhados à sua volta se transformassem de novo em criaturas vivas; ligara-se ao metabolismo de outras vidas e, até que elas se levantassem, ele tampouco podia despertar.

Não sabia naquele momento quanto tempo durara aquela parte do ciclo. De modo geral, coisa alguma acontecera, de modo que fora imensurável. Mas, finalmente, os ossos recuperaram carne; as cavidades oculares se encheram e novos olhos haviam visto, enquanto, ao mesmo tempo, bicos e bocas restauradas cacarejavam, ladravam e miavam. Possivelmente, ele fizera isso; talvez o nódulo extra-sensorial em seu cérebro houvesse finalmente renascido. Ou talvez não tivesse realizado isso; com toda probabilidade, podia ter sido um processo natural.

De qualquer modo, não afundara mais; começara a subir, juntamente com os demais.
Há muito tempo, perdera-os de vista. Evidentemente, subia sozinho. Mas eles estavam ali. Ainda o acompanhavam; sentia-os, estranhamente, dentro de si.

Isidore permaneceu onde estava, segurando os dois punhos, sentindo-se como se abarcasse todos os demais seres vivos. Em seguida, relutante, desligou-se. Aquilo tinha que terminar, como sempre, e de algum modo seu braço doía e sangrava no lugar onde a pedra o atingira.

Soltando os punhos, examinou o braço e, em passos trôpegos, foi até o banheiro do apartamento para lavar o corte. Não era o primeiro ferimento que recebia quando em fusão com Mercer e, com toda probabilidade, não seria o último. Pessoas, especialmente idosas, haviam morrido, especialmente depois, no alto da colina, quando começava, a sério, o tormento. Será que conseguirei passar por aquilo novamente? Pensou, enquanto enxugava o ferimento. Havia possibilidade de uma parada cardíaca. Seria bem melhor, refletiu, se eu morasse numa cidade, onde os prédios têm um médico de serviço com aquelas máquinas ressuscitadoras elétricas. Aqui, sozinho neste lugar, é arriscado demais.

Mas tinha certeza de que correria o risco. Sempre o correra antes.
Como a maioria das pessoas, mesmo idosas e fisicamente frágeis.

Usando um lenço de papel secou o braço ferido.
E ouviu, abafado e distante, o som de um aparelho de TV.

É alguém neste prédio, pensou, alucinado, incapaz de acreditar.
Não é a minha TV, ela está desligada e estou sentindo a ressonância no chão. É embaixo, em outro nível, inteiramente.

Não estou mais sozinho aqui. Outro morador mudou-se para cá, ocupou um dos apartamentos abandonados e está tão perto que posso ouvi-lo. Tem que ser no nível dois ou três, certamente não mais baixo. Vamos ver, pensou rapidamente. O que é que se faz quando chega um novo morador? Passa-se por lá e toma-se alguma coisa emprestada, é isso o que se faz? Não conseguia lembrar-se, isto jamais lhe acontecera antes, ali ou em qualquer outro lugar; pessoas se mudavam, pessoas emigravam, mas ninguém jamais vinha. É melhor levar-lhe alguma coisa, resolveu. Como um copo de água ou, melhor ainda, de leite; sim, é isso mesmo, leite, farinha de trigo ou, talvez, um ovo — ou, especificamente, seu sucedâneo.

Olhando no refrigerador — o compressor pifara muito tempo antes — encontrou um duvidoso cubo de margarina. Levando-o, nervoso, o coração batendo com dificuldade, desceu para o nível inferior. Tenho que me manter calmo, pensou. Não deixar que ele perceba que eu sou um debilóide. Se descobrir que eu sou, não vai falar comigo. Por alguma razão, é sempre assim que acontece. Por que será?

Desceu apressado o corredor.





O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 3) [ Download ]