domingo, 4 de abril de 2010

Philip K. Dick: Confissões de um Artista de FC



Philip K. Dick criou para si um nicho entre os escritores de ficção científica. Ao contrário de muitos de seus colegas escritores do gênero, Dick escrevia mais sobre o espaço interior, do que sobre o espaço exterior.
Seus personagens vinham antes de suas máquinas.



Pergunta: Você ficou sem publicar de 1977 (A Scanner Darkly) até 1980 (VALIS).

PKD: VALIS é um estudo teológico da invasão de tecnologias futuras, por conta de uma inteligência sobrenatural que interfere na vida de um homem comum do nosso tempo. Basicamente lida com a invasão do futuro no presente, e as tentativas desse homem para lidar com isso.


P: VALIS marca sua primeira trilogia*.

PKD: Acho que escrevi pelo menos 100 contos que nunca foram reunidos em qualquer antologia. Mas não estou escrevendo tanto como costumava fazer. Eu nunca vou ser tão prolífico como eu era. O retorno financeiro para quem escreve contos não é interessante. Eu estou guardando minhas idéias para romances agora. Eu pessoalmente gosto mais de romances. Tenho a oportunidade para desenvolver e construir os personagens. Estou principalmente interessado nas pessoas.


P: Ao deixar de escrever contos, você parou também de escrever não-ficção. Trabalhos como "Confessions of a Crap Artist" (1959) são coisas do passado?

PKD: Eu realmente gostei deste. Mas perdi o interesse em escrever não-ficção. Seu tempo já passou. Eles são essencialmente fósseis. Quando eu estiver morto e deitado nos pomares de mármore, não vou impedir meus herdeiros de publicá-los. Mas não quero inundar o mercado agora com um monte de material antigo de não-ficção.


P: Uma coisa que você tem feito mais do que de costume é pesquisa. Sete anos de investigação foram feitas para "The Man in the High Castle" (O Homem do Castelo Alto). Tanto valeu a pena, que o livro lhe deu seu primeiro prêmio Hugo, de melhor romance de ficção científica de 1963. Quanto tempo você passa escrevendo?

PKD: Escrevo o tempo todo. A partir do momento em que eu me levanto, até o momento em que eu vou para a cama, exceto quando estou com meus amigos, ou assistindo televisão. Eu passo muito tempo com meus amigos.


P: Sua vida familiar não é mais o que era.

PKD: Estou divorciado agora. Vivo com dois gatos, Harvey e Mrs. Mabel M. Tubbs. Porém eu não gosto de viver sozinho. Tenho uma namorada na França, que conheci em uma convenção na Europa. Ela continua me ligando e tentando me convencer a mudar-me para lá. Se eu não estivesse tão envolvido com meu trabalho, eu iria. E há todas estas grandes negociações com Hollywood...


P: Que grandes negociações com Hollywood?

PKD: Eles querem fazer um filme de "Do Androids Dream of Electric Sheep". Ele vai ser dirigido por Ridley Scott, que dirigiu Alien. O último orçamento que soube, estava previsto para 20 milhões de dólares.

O assistente de produção de Alien está interessado em fazer um filme com "We Can Remember It For You Wholesale". Outra empresa cinematográfica supostamente está interessada nos direitos de "Second Variety", com um roteiro escrito por Dan O'Bannon, que, apenas por coincidência, escreveu o roteiro de Alien.

Quanto à data de lançamento desses filmes, só Deus sabe! A greve dos atores não teve um bom efeito sobre o progresso das negociações.

Eu pensei que receberia uma quantia exorbitante de dinheiro por eles. Estava tomando uma bebida com Ray Bradbury, contando a ele sobre tudo isso, e ele quase passou mal. Ele me disse que eu era um tolo, e que eu não ganharia tanto assim. Eu pensei que seria uma grande quantia de dinheiro. Fiquei arrasado!
Não fui convidado ainda para escrever roteiros. Eu faria isso se eles me pedissem. Eu gostaria de fazer algo do tipo.


P: Seus três trabalhos escolhidos para o cinema, tratam todos de robôs se fazendo passar por pessoas.

PKD: Aparentemente tenho a patente disso (ri). Filmes como Westworld utilizam-se de idéias que eu já havia pensado há muito tempo. Agora eu finalmente estou lucrando com isso.


P: Gosta de cinema?

PKD: Sou louco por cinema. Dois de meus filmes favoritos são "The man who fell to Earth" (O Homem que Caiu na Terra), estrelado por David Bowie e "Three Women" (Três Mulheres) de Robert Altman.

Tenho TV por assinatura para poder ver filmes todo dia. Eu escolho na maioria das vezes pelos diretores. Eu gosto muito de Altman e De Palma. Também escolho pelos atores. Gostei de "The Rocky Horror Picture Show" e "The Phantom of the Paradise" também.


P: Isso nos leva aos seus gostos musicais. Você é um fã de música clássica.

PKD: Atualmente estou começando a entrar no punk rock. Eu gostava de rock na década de sessenta, coisas como Country Joe and the Fish, The Grateful Dead, os Stones e Jefferson Airplane. Agora gosto do Germs, Circle Jerks, Plug e Suicide. Além do punk, gosto do trabalho experimental de Karl Heinz Stockhousen, de música eletrônica.


P: Quais são seus autores favoritos hoje?

PKD: Thomas Disch e Norman Spinrad são ambos muito bons. E eu acho que John Varley é um autor excelente. E Roger Zelazny é mais um dos meus favoritos. Ele e eu somos bons amigos. Eu realmente gosto do que Roger escreve.


P: Zelazny e você escreveram um livro juntos em 1976, chamado "Deus Irae". Outra colaboração foi 'The Ganymede Takeover', feita com o escritor e cartunista de FC, Ray Nelson. Nelson aliás foi quem inventou o gorro-hélice, que hoje é usado para simbolizar o fã de ficção científica. O que pensa dos milhões de fãs de ficção científica conhecidos coletivamente como "fandom"? Você não participa mais de convenções de ficção científica nos dias de hoje.

PKD: Eu frequento mais convenções. Mas não é porque eu não goste deles. Acho que eles são muito ardorosos. Minha saúde é que não é muito boa, e eles são muito exigentes, fisicamente falando. Eu não posso mais fazer palestras também. Eu tive que desistir de fazer discursos. Mas eu gosto de dar entrevistas.


P: Fale sobre VALIS.

PKD: É autobiográfico. É sobre um cara que tem um colapso nervoso quando sua namorada vai embora. Ele afunda cada vez mais até que ele recorre a uma tentativa de suicídio. Então ele é invadido por forças sobrenaturais, que ele identifica como sendo do futuro. Mas as forças são indescritíveis. Quando o livro termina, ele ainda precisa de uma resposta. É uma mistura de realidade e ficção.


Uma coisa que os seres avançados dizem ao protagonista de VALIS, é que um novo salvador está prestes a nascer.


P: Qual a sua religião?

PKD: Posso ser classificado como um anarquista religioso. Sou totalmente contra a religião organizada. Acredito que, ou você tem uma relação direta com o divino, ou você não tem. Não tem nada a ver com fé ou credos dogmáticos. A iniciativa vem do lado divino. Não há nada que você possa fazer. Tudo que você pode fazer é viver uma vida honesta, ser brutalmente honesto com você mesmo, e esperar que se torne um objeto de interesse para os seres divinos. Usar uma fórmula para evocá-los é tecnicamente "mágica". Acho que você poderia me chamar de um neo-platónico com conotações gnósticas.

Há algum gnosticismo em VALIS também. O segundo livro da série vai tratar com o Judaísmo, e o terceiro será um estudo da cibernética e da mecânica quântica.


P: Você parece bastante envolvido em seu trabalho atual, sobre a trilogia.

PKD: Estou quase no ponto de não conseguir me recompor o suficiente para sair e fazer compras. Estou vivendo no inferno. Algum dia destes vou atravessar uma parede. Vou desmaterializar meu próprio universo.


P: Se VALIS é autobiográfico, isso significa que você tem estado em contato com seres sobrenaturais?

PKD: Essa é minha impressão. É meio difícil falar sobre isso em uma conversa informal.


P: O que está acontecendo com você Phil?

PKD: Ah, eu tenho sido contatado por seres sobrenaturais que são super-avançados. Falaram-me sobre esse salvador que... ( risos) Uma vez, logo após minha esposa ter um bebê, minha pressão arterial estava perto do limite. Era uma condição letal e eu estava perto da morte. O bebê estava perto de morrer também. Mas nós não sabíamos disso. O poder sobrenatural informou-me da minha condição e a de meu filho. Ele me disse para correr para o hospital, e que lá fariam uma cirurgia e assim foi.


P: VALIS é o nome que você deu a essa força sobrenatural. Vast Active Living Intelligence System (Vasto Sistema de Inteligência Viva e Ativa). 

PKD: Ainda falo com ela ocasionalmente. A minha primeira experiência foi na escola, durante um exame final de Física. Haviam oito perguntas baseadas em um princípio que eu não entendia. O ser sobrenatural tomou conta do meu cérebro e explicou-me de uma maneira que eu poderia entender. Eu tirei um "A", e as minhas notas me ajudaram a entrar para a faculdade. Isso foi nos anos 40. Fiquei espantado.


P: Um dos assuntos favoritos de VALIS é a reencarnação.

PKD: Penso muito que VALIS possa ter sido uma vez humano. Valis descreveu-se como meu espírito tutelar. Depois de olhar o termo no dicionário, descobri que significa "protetor sobrenatural", com um significado secundário de "tutor". O espírito só descreveu sua função, sem dar seu nome real. Ele só me diz coisas quando estou completamente esgotado na tentativa de encontrar as respostas por mim mesmo.


P: Já que o espírito é declaradamente tão envolvido com a reencarnação, daria qualquer indício a respeito de suas vidas passadas?

PKD: Você quer que eu seja sincero, ou você quer que eu seja modesto?


P: Seja franco.

PKD: Eu vivi no século I DC, na Síria. Em segredo eu era um cristão chamado Thomas. Fui brutalmente morto pelos romanos. Estrangulado.


Isso tem aparecido nos meus sonhos, a minha vida inteira. Tudo vem de forma muito clara, em Roma. Ela voltou tão intensa uma vez, que eu pensei que estava em Roma. Eu disse a minha esposa que devíamos ter cuidado com os romanos.

A personalidade de Thomas era tão avassaladora que me assumiu por cerca de um mês. Ele era bem diferente de mim. Era durão e perspicaz, e mais enérgico e inventivo do que eu sou.


P O que está esperando por você em sua próxima vida?

PKD: Espero não ser nada. Estou cansado. Estive lutando contra o Império Romano em diferentes formas, por 2.000 anos. Hoje é o governo dos EUA. Vou deixá-los em paz, se eles me deixarem em paz.


P: Durante os anos sessenta, você esteve fortemente envolvido em atividades anti-Vietnã. Devido a isso sua casa foi invadida, seus pertences e documentos foram destruídos por uma bomba colocada dentro de sua casa, e os oficiais do Condado de Marin advertiram-no para partir ou levaria um tiro pelas costas.

PKD: O que quer que eles pensassem que eu estava fazendo, era muito pior do que eu realmente estava fazendo.


P: Durante os anos 60, você também esteve supostamente envolvido com drogas. Seu livro ‘Through A Scanner Darkly’, fala de sua desilusão sobre as drogas, depois de vários amigos seus que morreram e tiveram danos cerebrais por causa do abuso de drogas. A sua opinião atual do uso de drogas é bastante negativa.

PKD: Acho uma coisa muito arriscada. Você essencialmente está jogando e apostando que vai conseguir ao final, sair com algo que é mais positivo do que negativo. É muito arriscado.


Escrito a partir da entrevista concedida a George Cain e Dana Longo - Clarion Denver, 23 de outubro de 1980.


*(nota do tradutor) Após Valis, se seguiram The Divine Invasion e The Transmigration of Timothy Archer.