sábado, 29 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 9)



DEPOIS DE ESTACIONAR o veloz e "envenenado" hovercar do departamento no telhado do Palácio da Justiça de São Francisco, na Lombard Street, o caçador de cabeças a prêmio Rick Deckard, pasta na mão, desceu para o escritório de Harry Bryant.

— Você voltou cedo pra burro — disse o superior, recostando-se na cadeira e tomando uma pitada de rapé Específico N.° 1.
— Consegui o que o senhor me mandou buscar. — Rick sentou-se, de frente para a secretária. Pôs de lado a pasta. Estou cansado, reconheceu. A coisa começava a pegá-lo, agora que voltara. Perguntou-se se recuperaria o suficiente para o trabalho que o aguardava. — Como está Dave? — perguntou. — Suficientemente bem para que eu fale com ele? Eu gostaria, antes de pegar o primeiro dos andros.
— Em primeiro lugar — disse Bryant — você vai tentar pegar Polokov. O cara que atingiu Dave com um laser. É melhor tirá-lo logo da jogada, uma vez que ele sabe que está em sua lista.
— Antes de eu falar com Dave?

Bryant pegou uma cópia de papel de seda, uma indistinta terceira ou quarta cópia a carbono.
— Polokov arranjou um emprego na prefeitura como gari, lixeiro.
— Não são só especiais que fazem esse tipo de trabalho?
— Polokov está passando por especial, debilóide. Muito deteriorado, ou é isso que ele pretende ser. Foi isso o que enganou Dave. Aparentemente, Polokov parece-se e age de modo tão igual a um debilóide que Dave se esqueceu. Tem certeza agora a respeito da Escala Voigt-Kampff? Está absolutamente certo, à vista do que aconteceu em Seattle, que...
— Estou — disse, seco, Rick. Não deu maiores explicações.
— Aceito sua palavra nisso — concordou Bryant. — Mas não pode haver nem mesmo um único deslize.
— Jamais pode haver, em caçada de andros. Isto não é diferente.
— O Nexus-6 é diferente.
— Eu já descobri o meu primeiro — disse Rick. — E Dave descobriu dois. Três, se contar Polokov. Muito bem, vou aposentar Polokov hoje, e depois, talvez à noite ou amanhã, converso com Dave. — Estendeu a mão para a cópia apagada, a última notícia sobre o andróide Polokov.
— Mais uma coisa — lembrou Bryant. — Um policial soviético, do W.P.O., está a caminho daqui.

Enquanto você estava em Seattle, recebi um telefonema dele. Ele está a bordo de um foguete da Aeroflot que descerá no campo público daqui dentro de uma hora. O nome dele é Sandor Kadalyi.
— O que é que ele quer? — Raramente tiras do W.P.O. apareciam em São Francisco, se é que alguma vez apareceram.
— O W.P.O. está tão interessado nos novos tipos Nexus-6 que quer que um de seus homens trabalhe com você. Será um observador...e, também, se puder, lhe dará ajuda. Cabe a você decidir quando e se ele será de valor. Mas já dei permissão para ele trabalhar com você.
— E o prêmio? — perguntou Rick.
— Você não terá que dividi-lo — respondeu Bryant, com um fraco sorriso.
— Eu simplesmente não consideraria essa combinação como financeiramente justa. — Ele não tinha absolutamente nenhuma intenção de dividir o prêmio com um gorila do "W.P.O. Estudou a informação sobre Polokov. Continha uma descrição do homem, ou melhor, do andro, e fornecia seu atual endereço e local de trabalho: Departamento de Limpeza Urbana da Área da Baía, com escritórios em Geary.
— Quer adiar a aposentadoria de Polokov até que o tira soviético chegue para ajudá-lo? — perguntou Bryant.

Rick eriçou-se todo.
— Eu sempre trabalhei sozinho. Claro, a decisão é sua... eu farei o que quiser. Mas eu preferia pegar Polokov agora mesmo, sem esperar que Kadalyi chegasse à cidade.
— Então vá em frente, sozinho — resolveu Bryant. — E quanto ao segundo, que será uma Srta. Luba Luft — você também tem aí a folha sobre ela — você poderá convocar Kadalyi.

Tendo enfiado as cópias a carbono na pasta, Rick deixou o gabinete do superior e subiu mais uma vez para o telhado, onde estava estacionado seu hovercar. Agora, vamos visitar o Sr. Polokov, disse a si mesmo. E deu uma palmadinha em seu tubo de laser.

Em sua primeira tentativa para pegar o andróide Polokov, Rick visitou a sede da Companhia de Limpeza Urbana da Área da Baía.
— Estou à procura de um de seus empregados — disse à severa e grisalha mulher que operava a mesa telefônica. O edifício impressionava-o: grande e moderno, possuía um bom número de empregados puramente burocráticos, de alta classe. Os grossos carpetes, as caras escrivaninhas de madeira autêntica, lembraram-lhe que a coleta e remoção de lixo tornara-se, desde a guerra, uma das mais importantes indústrias da Terra.

O planeta inteiro começava a transformar-se em sucata e mantê-lo habitável para a população restante exigia que o lixo fosse ocasionalmente tirado do caminho... ou, como Buster Amigão gostava de dizer, a Terra morreria sob uma camada — não de poeira radiativa — mas de entulho.
— O Sr. Ackers — informou a telefonista. — Ele é o gerente de pessoal. — Apontou para uma escrivaninha imponente, mas imitação, de carvalho, atrás da qual sentava-se um pequenino e afetado indivíduo de óculos, em meio a uma pletora de documentos.

Rick apresentou-lhe seu cartão de identidade da polícia.
— Onde se encontra, neste exato momento, um empregado de vocês chamado Polokov? No trabalho ou em casa?

Após uma relutante consulta aos registros, o Sr. Ackers respondeu:
— Polokov deve estar no trabalho. Achatando hovercars em nossa fábrica de Daly City e lançando-os na baía. Contudo... — O gerente de pessoal consultou outro documento, apanhou o videofone e fez uma chamada interna para alguém no edifício. — Ele não está, então — disse, encerrando a chamada. Pondo o aparelho no gancho, disse a Rick: — Polokov não apareceu hoje para trabalhar. Nenhuma explicação.

O que foi que ele fez, Senhor Investigador?
— Se ele aparecer — recomendou Rick —, não lhe diga que estive aqui à sua procura. Compreendeu?
— Sim, compreendi — respondeu mal-humorado Ackers, como se seu profundo treinamento em assuntos policiais houvesse sido ridicularizado.

No hovercar "envenenado" do departamento, Rick voou em seguida para o prédio de apartamentos de Polokov, situado no Tenderloin. Nós nunca vamos pegá-lo, disse a si mesmo. Eles — Bryant e Holden — esperaram demais. Em vez de ter-me mandado a Seattle, Bryant devia ter-me mandado pegar Polokov — ainda melhor, na noite passada, logo que Dave foi ferido.

Que lugar nojento, pensou, enquanto cruzava o terraço na direção do elevador. Chiqueiros abandonados de animais, cobertos por meses de poeira. Numa gaiola, um animal falso que não mais funcionava, uma galinha.

Pelo elevador, desceu até o andar de Polokov e encontrou o corredor às escuras, como se fosse uma caverna subterrânea. Utilizando sua lanterna policial de feixe selado, iluminou o corredor e, mais uma vez, lançou um olhar à cópia a carbono. O Teste Voigt-Kampff já fora administrado a Polokov. Podia ignorar essa parte e passar diretamente à tarefa de destruir o andróide.

É melhor pegá-lo daqui mesmo, decidiu. Pondo no chão o estojo de armas, abriu-o e tirou um transmissor de ondas não-direcional Penfield. Apertou o botão de catalepsia, protegido contra a emanação de estado de espírito graças a uma irradiação de contra-onda que lhe chegava pelo cabeçote de metal do transmissor, e que era dirigida somente para ele.

Eles estão agora, todos eles, duros como pedra, disse a si mesmo. Todos, seres humanos e andróides, nas vizinhanças. Nenhum risco para mim. Tudo o que eu tenho a fazer é entrar e abatê-lo com o laser. Suponho, naturalmente, que ele esteja no apartamento, o que não é provável.

Utilizando uma chave de infinito, que analisava e abria todas as formas de fechaduras conhecidas, entrou no apartamento de Polokov, feixe de laser na mão.

Nenhum sinal de Polokov. Apenas móveis semi-arruinados, um lugar de entulho e decadência. Na verdade, nenhum artigo pessoal: o que o recebia consistia de restos não reclamados que Polokov herdara quando ocupara o apartamento e que ao deixar abandonava ao futuro morador, se algum surgisse.

Eu sabia, disse Rick a si mesmo. Bem, lá se vão os primeiros mil dólares de prêmio.
Provavelmente, escafedeu-se o caminho todo até o Círculo Antártico.
Fora de minha jurisdição; outro caçador de cabeças a prêmio, de outro departamento de polícia, aposentará Polokov e reclamará o dinheiro.
Agora, é ir atrás dos andros que, acho, não foram avisados, como Polokov foi. De Luba Luft.

De volta ao telhado, fez pelo telefone do hovercar um relatório a Bryant:
— Nenhuma sorte com Polokov. Provavelmente, foi embora logo depois de ter atingido Dave com o laser. — Olhou para o relógio de pulso. — Quer que eu vá receber o tal Kadalyi no campo? Isto economizará tempo e estou ansioso para ir atrás da Srta. Luft. — Já tinha à sua frente a folha de informações e fazia um exame minucioso.
— Boa idéia — disse Bryan —, exceto que o Sr. Kadalyi já está aqui. A nave da Aeroflot — como sempre, diz ele — chegou antes da hora. Espere um momento. — Uma conferência invisível. — Ele vai voar para onde você está agora — disse Bryant, reaparecendo na tela. — Enquanto isso, estude os dados sobre a Srta. Luft,
— Cantora de ópera. Supostamente, natural da Ale» manha. No momento, com a Companhia de Ópera de São Francisco. — Inclinou a cabeça, numa atitude pensativa, sua mente na folha de informações. — Deve ter uma boa voz, para fazer relações com tal rapidez. Muito bem, espero aqui por Kadalyi. — Deu a localização a Bryant e desligou.

Vou fingir que sou um aficionado de ópera, resolveu, continuando a ler. Gostaria, especialmente, de vê-la como Donna Anna, no Don Giovanni. Na minha coleção pessoal, tenho fitas de velhas estrelas, como Elisabeth Schwarzkopf, Lotte Lehmann, e Lisa Delia Casa. Isto nos dará algo para discutir enquanto preparo meu equipamento Voigt-Kampff.

Tocou o telefone do carro. Apanhou o aparelho.
— Sr. Deckard — disse a telefonista da polícia —, um telefonema para o senhor, de Seattle. O Sr. Bryant mandou fazer a ligação. Da Rosen Association.
— Muito bem — disse Rick, e esperou. O que é que eles querem?, perguntou-se. Tanto quanto podia compreender, já descobrira que os Rosens eram más notícias. E, sem dúvida, continuariam sendo, o que quer que tencionassem fazer.

O rosto de Rachael Rosen apareceu na minúscula tela.
— Alô, Investigador Deckard. — O tom dela parecia tranqüilizador e isto lhe chamou a atenção. — Está ocupado neste momento ou posso conversar com o senhor?
— Continue — disse ele.
— Nós, da empresa, estivemos discutindo sua situação no tocante aos tipos Nexus-6 que escaparam, e conhecendo-os como os conhecemos, achamos que o senhor teria mais sorte se um de nós trabalhasse com o senhor.
— Fazendo o quê?
— Bem, acompanhando-o. Quando o senhor sair para pegá-los.
— Por quê? O que mais quer dizer?
— Os Nexus-6 ficariam em guarda se fossem abordados por um humano. Mas se outro Nexus-6 fizesse o contato...
— Especificamente, você quer dizer, você?
— Isso mesmo — confirmou ela, rosto sério.
— Eu já tenho ajuda demais.
— Mas eu, realmente, penso que o senhor precisa de mim.
— Duvido. Mas vou pensar no caso e depois lhe telefono. — Em algum tempo, em futuro distante, não especificado, pensou. Ou, o que era mais provável, nunca. Isto é tudo o que eu preciso: Rachael Rosen me seguindo pela poeira, a cada passo.
— O senhor não está falando sério — retrucou Rachael. — Nunca vai me telefonar. Não compreende como é agil um Nexus-6 ilegal, fugitivo, como ele será impossível para o senhor. Achamos que lhe devemos isto porque o senhor sabe, pelo que fizemos.
— Aceito isto como se fosse um anúncio — respondeu ele, e fez um movimento para desligar violentamente.
— Sem mim — disse Rachael — um deles o pegará antes que o senhor possa pegá-lo.
— Adeus — disse ele, e desligou, Que mundo é este, pensou, em que um andróide telefona para um caçador de cabeças a prêmio e lhe oferece ajuda? Chamou de volta a telefonista da polícia. — Não retransmita para mim. qualquer outro telefonema de Seattle — ordenou.
— Sim, Sr. Deckard. O Sr. Kadalyi já chegou aí?
— Continuo esperando. E era melhor ele andar depressa, porque não vou ficar aqui muito tempo. — E desligou.

No momento em que reiniciava a leitura da informação sobre Luba Luft, um táxi hovercar desceu e parou no telhado a alguns metros de distância. Dele desceu, sorrindo, mão estendida, e aproximou-se do carro de Rick, um homem de rosto vermelho, aparência de querubim, evidentemente na metade da casa dos cinqüenta, usando um pesado e impressionante sobretudo estilo russo.

— Sr. Deckard? — perguntou o homem, sotaque eslavo. — O caçador de cabeças a prêmio do Departamento de Polícia de São Francisco? — O táxi vazio alçou vôo. O russo ficou a observá-lo, com ar distraído. — Eu sou Sandor Kadalyi — disse, abrindo a porta do carro e imprensando-se ao lado de Rick.
Apertando a mão de Kadalyi, notou Rick que o representante do W.P.O. trazia um tipo estranho de tubo de laser, uma subforma que ele nunca vira antes.
— Oh, isto? — perguntou Kadalyi. — Interessante, não? — Deu um puxão na cartucheira. — Consegui este em Marte.
— Eu pensava que conhecia todas as armas portáteis até agora fabricadas — observou Rick. — Mesmo as manufaturadas nas colônias e para emprego nelas.
— Nós mesmos fabricamos isto — disse Kadalyi, sorrindo, radiante como um Papai Noel eslavo, o rosto vermelho cheio de orgulho. — Gosta dele? O que é diferente nele, o funcionamento, é ... hei, segure-o. — Passou a arma a Rick, que a examinou com conhecimento, graças a anos de experiência.
— Como é que ele difere, funcionalmente? — perguntou. Não percebia a diferença.
— Aperte o gatilho.

Apontando para cima pela janela do carro, Rick apertou o gatilho. Coisa alguma aconteceu, nenhum feixe emergiu. Confuso, devolveu-o a Kadalyi.
— O circuito de disparo — disse alegre Kadalyi — não faz parte da peça. Continua comigo. Está vendo? — Abriu a mão, mostrando uma pequenina unidade. — E posso também dirigi-lo, dentro de certos limites. Não importa para onde seja apontado.
— Você não é Kadalyi, você é Polokov — disse Rick.
— Você não quer dizer o contrário? Você está um pouco confuso.
— Quero dizer que você é Polokov, o andróide. Você não é da Polícia Soviética. — Rick, com o pé, premiu o botão de emergência no piso do carro.
— Por que meu tubo de laser não dispara? — exclamou Kadalyi-Polokov, ligando e desligando a aparelhagem miniaturizada de disparo e apontando a arma que tinha na mão.
— Por causa de uma onda senoidal — respondeu Rick. — Ela corta as emanações de laser e transforma o feixe em luz comum.
— Neste caso, vou ter que quebrar seu pescoço de lápis.

O andróide deixou cair a arma e, com um rosnado, estendeu ambas as mãos para o pescoço de Rick.
No momento em que as mãos do andróide mergulhavam em sua garganta, Rick disparou do coldre de ombro sua pistola regulamentar do velho estilo, e a bala magnum calibre 38 pegou a andróide na cabeça e arrebentou-lhe a caixa cerebral.

A unidade Nexus-6 que a operava desfez-se em pedaços, numa pancada de vento furiosa, alucinada, que repercutiu por todo o carro. Pedaços da unidade, da mesma forma que a própria poeira radiativa, rodopiaram na direção de Rick.

Os restos aposentados do andróide saltaram para trás, colidiram com a porta do carro, rebotaram e caíram pesadamente sobre ele. Quando deu por si, estava lutando para empurrar para longe os restos do andróide ainda em contorções.

Abalado, conseguiu finalmente pegar o telefone e chamar o Palácio da Justiça.
— Posso fazer meu relatório? — perguntou. — Diga a Harry Bryant que eu peguei Polokov.
— "Você pegou Polokov." Ele vai entender isso?
— Vai — disse Rick, e desligou, Cristo, aquilo fora por pouco, pensou. Devo ter reagido em excesso ao aviso de Rachael Rosen; fiz o contrário e isto quase acabou comigo. Mas peguei Polokov, disse a si mesmo.

As glândulas supra-renais, aos poucos, deixaram de bombear suas várias secreções para sua corrente sangüínea, o ritmo cardíaco voltou ao normal e a respiração tornou-se menos ofegante. Mas tremia ainda.

De qualquer modo, acabei de ganhar mil dólares, informou a si mesmo. Assim, valeu a pena. E minhas reações são mais rápidas do que as de Dave Holden. Claro, contudo, a experiência de Dave evidentemente me preparou para isto. Isto eu tenho que admitir. Dave não teve um aviso como este.

Mais uma vez, levantando o telefone, fez uma ligação para casa, para Iran. Enquanto esperava, conseguiu acender um cigarro, o tremor começava a passar.

O rosto da esposa, lerda com as seis horas de depressão auto-acusatória que ela profetizara, manifestou-se na videotela.
— Oh, alô, Rick.
— O que foi que aconteceu com 594 que disquei para você, antes de sair? O reconhecimento satisfeito de...
— Eu redisquei. Logo que você saiu. O que é que você quer? — Sua voz caiu para um tom monótono, cansado, de desalento. — Estou tão cansada que simplesmente não tenho mais esperança, de coisa alguma. De nosso casamento e de você ser morto por um desses andros. É isso o que você quer me dizer, Rick? Que um andro pegou-o? — No fundo, Buster Amigão trovejava e zurrava, apagando-lhe as palavras; viu-lhe a boca mover-se, mas escutou apenas a TV.
— Escute aqui — interrompeu ele —, você está me ouvindo? Estou na pista de alguma coisa importante. Um novo tipo de andróide com o qual ninguém pode, aparentemente, salvo eu. Já aposentei um deles e, para começar, isto é maravilhoso. Sabe o que é que nós vamos ter antes de eu terminar?
Iran olhou-o cegamente.
— Oh — disse ela, inclinando a cabeça.
— Eu não disse ainda! — Podia dizer-lhe, nesse momento. Nesta altura, a depressão da esposa se tornara tão imensa que ela nem mesmo mais o escutava. Para todos os fins, ele falava num vácuo. — Até a noite — disse amargamente e bateu com força o telefone. Diabos a levem, disse a si mesmo. Qual é a vantagem disso, de eu arriscar minha vida? Ela nem se importa se possuímos uma avestruz ou não! Coisa alguma penetra. Que pena que não me livrei dela há dois anos, quando estivemos pensando em nos separar. Mas ainda posso fazer isso, lembrou a si mesmo.

Macambúzio, inclinou-se. reuniu no chão do carro seus papéis amarfanhados, incluindo a informação sobre Luba Luft. Nenhum apoio, disse a si mesmo.

A maioria dos andróides que conheço tem mais vitalidade e desejo de viver do que minha mulher.
Ela nada tem para me dar.

Isto o fez pensar outra vez em Rachael Rosen. O aviso dela sobre a mentalidade dos Nexus-6, compreendeu, revelara-se correto. Supondo que ela não queira parte alguma do dinheiro do prêmio, talvez eu possa usá-la.

O entrevero com Kadalyi-Polokov mudara profundamente suas idéias.

Ligando em força máxima o motor do hovercar, subiu como uma bala para o céu, dirigindo-se para a velha Casa da Ópera, onde, de acordo com as notas de Dave Holden, encontraria Luba Luft naquela hora do dia.
Nesse momento, pensou nela, também, em dúvida.

Algumas mulheres andróides pareciam-lhe bem bonitas; sentira-se fisicamente atraído por várias delas e isto era uma sensação estranha, sabendo, intelectualmente, que eram máquinas que não reagiam emocionalmente, afinal de contas.

Por exemplo, Rachael Rosen. Não, decidiu, magra demais. Nenhum desenvolvimento real, especialmente no busto. Um corpo como de uma criança, chato e manso. Podia arranjar coisa melhor.
Que idade aquela folha de informações dava a Luba Luft? Enquanto manobrava o carro, puxou mais uma vez as notas amassadas e descobriu a sua "idade". Vinte e oito, dizia o papel.
A julgar pela aparência, o que, no caso dos andros, era o único padrão útil.

É uma boa coisa eu conhecer algo sobre ópera, refletiu Dick. Isto é outra vantagem que tenho sobre Dave. Sou mais culturalmente orientado.

Vou tentar pegar mais um andro antes de pedir ajuda a Rachael, decidiu. Se a Srta. Luft revelar-se excepcionalmente difícil — embora sentisse a intuição de que não seria. Polokov fora o perigoso; os demais, inconscientes de que alguém andava caçando-os ativamente, cairiam um depois do outro, liquidados como patinhos em fileira.

Descendo para o grande e bem decorado telhado da Casa da Ópera, cantarolou em voz alta um pot-pourri de árias, com palavras pseudo-italianas que inventou na hora. Mesmo sem o órgão condicionador de estados de espírito Penfield ali para ajudá-lo, sua animação se transformou em otimismo, e numa esfomeada e jubilosa prelibação.



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