domingo, 2 de maio de 2010

Reprogramando a realidade ( A Formiga Elétrica )




Publicado em 1969, o conto ‘A Formiga Elétrica’ (The Electric Ant)(1) de Philip K. Dick aborda a mesma temática de 'Do Androids Dream of Electric Sheep?' (Sonham os Andróides com Ovelhas Elétricas?) de 1968.

Além da questão sobre o que constitui um autêntico "humano", a história também explora o que Scott Bukatman chama de "ver através da cena"(2),  uma constante nos últimos trabalhos de Dick, como “Ubik”.

A cena como limitador para a realidade, torna-se uma visão controvertida da subjetividade no trabalho de Dick. Ao contrário da realidade sendo alterada, apresentada na ‘Alegoria da Caverna’, de Platão, não há um eventual terreno sólido ‘fora da cena’, para definir a si mesma. Em “A Formiga Elétrica”, a solução para esse problema não é apresentada, mas sim a natureza problemática do combate.

As imagens utilizadas no conto são uma complexa fusão da visão tecnológica de Dick, os elementos da Ficção Científica, o trabalho de mapeamento do cérebro do final dos anos 1950, e as metáforas usadas (um uso exclusivo da interação entre a luz e sombra) que lembram 'A Alegoria da Caverna' de Platão (3).
Na fusão desses elementos díspares, temos o indivíduo andróide lutando para emergir em sua própria subjetividade, através de uma recriação literal de sua realidade.

Como 'Do Androids Dream of Electric Sheep?', ‘A Formiga Elétrica’ oferece uma série de perguntas semelhantes sobre a natureza do ser humano.

Por vezes 'Do Androids Dream of Electric Sheep?' parece errático em sua escolha de personagens. Na verdade o foco muda radicalmente de Rachel e Deckard, para o andróide psicopata Roy Batty. Já “A Formiga Elétrica” não oferece essa ambigüidade.

O formato do conto não permite a criação de muitos personagens, e o foco é sustentado por Poole, em torno de sua história. Além disso Poole não é a primeira formiga elétrica que acidentalmente descobre sua verdadeira natureza.

Garson Poole, presidente da bem-sucedida Tri-Plan Electronics Corporation, acorda em um hospital, e descobre por acaso que ele é uma 'formiga elétrica' - gíria para um robô biológico.

O médico explica: "Nós recebemos uma formiga elétrica a cada semana, ou quase. Até trazida aqui por um acidente de foguete, como o seu, ou alguém que busca a internação voluntária... pessoas a quem, como você, nunca lhes foi dito, e que acreditavam-se humanas.".

Poole é apenas uma das muitas formigas elétrica que acidentalmente descobre sua verdadeira identidade.
As formigas elétricas são projetadas para funcionar como seres humanos, e são programadas para nunca saberem suas verdadeiras identidades. Poole é imediatamente posicionado como um exemplo de outros. Embora a história seja sua, é apresentado como um que luta para ir além como um indivíduo.

Embora possa ser incomum conceder o foco de um conto para um objeto inanimado, Poole, como os andróides em 'Do Androids Dream of Electric Sheep?', pode ter sido construído com um propósito, mas ao ganhar conhecimento do seu próprio eu, torna-se algo além de uma máscara, de uma ferramenta. Ele pode até mesmo mudar de lado, e tomar suas próprias decisões. (Barlow 87).

A partir do instante em que Poole fica sabendo de sua verdadeira natureza, no início do conto, não se trata somente da história da descoberta, ao contrário, é a luta para redefinir suas relações com os outros personagens e com a realidade.

Depois de descobrir a verdade, Poole rumina sobre esta nova informação: Ele se questiona se Danceman ou Sarah (seus amigos e colegas de trabalho)

“Teriam eles, ou um deles, o comprado? Projetado-o? Um títere, disse a si mesmo, isso é tudo que eu sou. Nunca realmente devo ter comandado a empresa, era uma ilusão implantada em mim quando eu fui feito... juntamente com a ilusão de que eu sou humano, e que estou vivo.”

As preocupações de Poole com quem o comprou e projetou-o, são preocupações de  alguém que não tem voz na vida. Ele foi projetado e construído para uma finalidade que não foi de sua escolha, mas agora que ele sabe a sua verdadeira natureza, ele reflete sobre o conceito da decisão.

Mesmo que sendo esta reflexão apenas um pensamento de poder tomar decisões, traz a importância de poder tomar decisões para ele. Ele provavelmente nunca havia pensado muito nisso antes, do porque o ser humano se dá ao direito de tomar suas próprias decisões. Uma vez que ele percebe que sua capacidade de tomar decisões no passado era uma ilusão, esta capacidade se torna muito importante para ele.

O imaginário do andróide como personagem que luta contra algo, não é nova na FC de Dick. É um tema presente na maioria dos seus escritos.
Nas poucas vezes que falou em público, este tema foi geralmente debatido.
Em um discurso de 1972 numa conferência no Canadá, Dick disse:

“O que é isso que chamamos especificamente de 'humano'? ... O que é isso...que chamamos de comportamento da máquina, ou por extensão, o comportamento de insetos, ou de comportamento reflexo?... A redução dos seres humanos a simples objetos utilizáveis... homens transformados em máquinas... trata-se do maior mal que se pode imaginar... 'Androidização' exige obediência. E acima de tudo, previsibilidade.” (187)

Para Dick a 'androidização' e a luta por uma vida como um ser humano autêntico, é o foco primário de sua ficção e de seu trabalho filosófico. Muitas vezes em seus escritos, vemos a inversão da dicotomia homem/andróide. O andróide assume qualidades humanas, enquanto o ser humano torna-se mais parecido com um andróide.

Em "Dick on the Human: From Wubs to Bounty Hunters to Bishops' Ryan Gillis ecoa Dick ao afirmar:
"O ser humano difere-se do andróide por sua empatia. . . sua alma, e na empatia, o ser humano busca a salvação, se expressa na vontade humana de desafiar a programação que reduziria-o a um autômato ideológico". (270).

Garson Poole, fisicamente uma formiga elétrica, possui os atributos mentais do ser humano. A luta para manter estas qualidades humanas é a marca da verdadeira humanidade em ‘A formiga elétrica’.

Em "Androids as a Device for reflection on personhood", Marilyn Gwaltney afirma que as principais qualidades em uma pessoa são a racionalidade e a autoconsciência. Como os humanos, o andróide deve possuir essas qualidades, se quiserem cumprir a sua função. Eles devem ser capazes de corrigir seus erros e criativamente se envolver com novas situações. É imperativo que atuem como seres autônomos. É o ato de escolher um objetivo, de muitos possíveis, que contribui para criar sua identidade.

Por exemplo, a personagem Rachel de “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, tem o maior senso de si mesma do romance. Ao contrário dos outros andróides que são vistos como algo com defeito, com falta de empatia, para Rachel foram dadas memórias, e ela foi tratada como uma pessoa, responsável por sua personalidade". (Gwaltney 35).

Poole também é tratado como uma pessoa e não tem conhecimento, até o acidente, de sua verdadeira natureza como uma formiga elétrica.

É o tratamento dispensado a ele, e as lembranças de suas experiências pré-acidente como um "humano", que o ajudam a conduzir a sua busca de um sentido verdadeiro de si mesmo e da realidade. O paradoxo é que a memória de Poole, de sua experiência não-autêntica da realidade, leva-o para uma autêntica experiência ‘fora da cena’.

O início do conto nos mostra indícios da pessoalidade de Poole e de sua imprevisibilidade.
As respostas de Poole para as notícias perturbadoras são completamente humanas, mas a o discurso do médico e das enfermeiras são planos e sem empatia, ou compaixão pelo sofrimento de Poole, na verdade ele sofre mesmo sendo uma máquina. As várias descrições de Poole durante esta conversa claramente denotam sua humanidade:

'Uma transpiração fria subiu para a superfície de sua pele'.
‘Poole disse ferozmente’.
'Poole disse acidamente'.
‘Poole disse, com raiva, furioso e impotente’.

Suas reações são certamente mais humanas; ele sente ódio, medo, frustração e raiva. Este não é o comportamento de uma personalidade andróide. Por outro lado, para o médico e a enfermeira, nunca lhes são dados nomes próprios, e o diálogo não é descrito. Tal evento é rotina para eles, e eles estão apenas agindo como quem viveu isso várias vezes antes. Suas apresentações na história são repetitivas, chatas, sem empatia.

A introdução de Poole, de uma maneira que compara diretamente seus pensamentos e sentimentos com os seres humanos, põe o andróide sob uma nova luz metafórica.

Casimiro considera que o andróide "torna-se uma metáfora da indefinição desta dicotomia...serve também para o espaço discursivo, onde ocorre a crise... uma crise na representação da vida ou o que significa ‘estar vivo’". (279).

Poole representa o problema crucial da definição do “estar vivo".

Algo que pode reagir de forma imprevisível e sentir, está vivo? Se alguém não mostrar empatia é considerado vivo? Estas questões nos levam a uma pergunta ainda mais importante. Como se deixa de ser um andróide?

A comparação inicial das qualidades humanas de Poole, e da falta de qualidades humanas do médico e das enfermeiras "opõe num relevo irônico, a incapacidade (humana) para o sentimento".(Hayles, 162).

A simpatia do leitor se alia a Poole, porque ele é o verdadeiro "ser humano" da história.

Tudo isso serve para concentrar a atenção em Poole e na sua luta para recriar o conceito de si mesmo. Sua rebelião quanto ao seu “status de inautêntico” é uma rebelião humana, apesar de fisicamente ele ser descrito como "pele natural cobrindo carne natural, verdadeira e cheia de sangue nas veias e capilares. Mas abaixo desta, fios e circuitos, componentes miniaturizados brilhando... olhando profundamente o pulso, viu engates surgirem, motores, válvulas, todas muito pequenas".

Uma estranha criatura... uma mistura de elementos mecânicos e biológicos. Seu corpo torna-se algo de que ele pode explorar na sua luta, na representação física do 'enxergar através da cena'.

Poole vê através da fachada, dos marcos físicos de sua humanidade, a verdadeira natureza de sua existência como uma formiga.

Apesar de sua evidente falta de vida biológica, Poole ainda sente a sensação de estar vivo.

“Sou uma aberração, ele concluiu. Um objeto inanimado que imita um animado. Mas... ele se sentia vivo. Ainda assim ele se sentia diferente agora. Sobre si mesmo. Assim como sobre tudo, especialmente Danceman e Sarah e todos na Tri-Plan." 

Poole ganha um sentido de si mesmo como pessoa por causa de sua experiência de ser tratado como uma pessoa, mas vai muito além disso. Embora ele seja uma simulação mecânica de uma pessoa, ele não é uma cópia de qualquer indivíduo.

Em seu ensaio "Simulacra and Science Fiction", Baudrillard propõe que "os modelos não deixam de constituir um domínio imaginário, com referência ao real, que são eles próprios, uma apreensão do real...nada distinguindo esta (simulação) do real em si".

Poole não é uma cópia de um modelo humano. Ele é uma simulação única e individual, assim, sua personalidade também é derivada de sua existência para além de qualquer outro ser humano.

Ele possui sua personalidade, mas na sua primeira tentativa de compreender sua estrutura física interna, ele solicita a ajuda do supercomputador da sua companhia, para ajudá-lo a decifrar o labirinto de circuitos em seu corpo. Ele descobre que não possui uma unidade de processamento central, nada que lhe diga como reagir a uma determinada situação. Ao vez disso, tem no interior um "construtor de suprimento de realidade".
Esta nova descoberta de Poole permite um caminho para que ele escape de sua existência como um objeto:

“...se eu a controlo, controlo a realidade. Ao menos o tanto quanto estou ciente. Minha realidade subjetiva... mas isso é tudo que existe. A realidade objetiva é uma construção sintética, lidando com uma universalização hipotética de uma multiplicidade de realidades subjetivas.”

Com isso, ele não se limita a ganhar o controle de si mesmo, mas o controle de tudo.

“E isso me levaria além de qualquer ser humano que já viveu e morreu...”

Esta segunda descoberta permite a possibilidade de reprogramar a realidade.
Seu status como uma formiga elétrica lhe dá uma capacidade nunca antes utilizada por qualquer ser humano. Poole ainda pensa em si mesmo como algo existente dentro dos limites daquilo que define como um ser humano. Já que sente que o novo poder o isola, o deixa distante, ele deve ser uma parte da humanidade para poder ser definido como fora dela. Isto implica uma conexão com outros, capturados em construções conjuntas de realidade.

Poole ainda quer operar nos "limites humanos", porque não pode pensar-se em qualquer outra forma. Sem fisicamente alterar a fita, ele não pode escapar às noções programadas para ele, no entanto a programação na fita, alteradas ou não, continuam a ser a única linguagem que ele pode usar para definir uma nova realidade para si mesmo.

O imaginário da tecnologia do "construtor de suprimento de realidade" é central para a história, e merece algum estudo em profundidade. A descrição física de seu mecanismo é importante para entender como Poole recria a sua realidade. Ele é descrito como:

“Diminuto...não maior que dois carretéis de linha, com um leitor-scanner montado entre os tambores.”

“Sob o sistema de lentes, a fita plástica assumiu um novo formato: uma faixa larga com centenas de milhares de buracos. Como desconfiei, Poole pensou. Não se tratavam de registros gravados sobre uma camada de óxido de ferro, mas fendas na verdade. Sob a lente a tira de fita avançava visivelmente. Muito lentamente, mas a uma velocidade uniforme, se movendo na direção do leitor-scanner.
A forma como eu imagino, pensou, é que os furos funcionam para o leitor como... Ele funciona como um piano mecânico, sólido é não, o furo é sim.”

Este artefato é indicativo da tecnologia da época.O dispositivo mais importante em uma máquina complexa como a formiga elétrica é, pelos padrões de hoje, quase cômico.Essa representação traz um resquício da Idade de Ouro da Ficção Científica.

Judith Merril a descreve como "a extensão pura do futuro dominado por máquinas...Na época, era algo realmente emocionante. Talvez isso nos desse somente mais hardware... mas era o hardware do amanhã".

Muitas histórias de FC no passado estavam cheias de máquinas complexas, robôs e naves espaciais, por exemplo, que se utilizavam da velha tecnologia de válvulas, díodos e caixas de fusíveis. A maior parte das descrições parecem firmemente enraizadas no final da I Guerra Mundial, da explosão da tecnologia chegando às nossas casas.

Paradoxalmente, a simplicidade deste dispositivo binário e analógico, é a maneira mais segura para trabalhar com a metáfora da luz e das trevas na história.

Mas o tropos tecnológico da FC da época não era apenas a única inspiração para este dispositivo. Em seu artigo "The Swiss Connection", Anthony Wolk observa que durante a escrita de ‘We Can Build You’ (publicado em série, de 1969 a 1970), Philip Dick cita a influência de James Olds. Olds (psicólogo americano co-descobridor do centro do prazer no cérebro e um dos pais da neuropsiquiatria moderna), autor do livro 'The Growth an Structure of Motives' (1956), propunha uma analogia de como o cérebro registra as memórias. A gravação no cérebro se daria por uma cadeia de contactos pré-formados de neurônios, sendo cada um, especificamente voltado para um momento do tempo". (Wolk 122).

O 'construtor de suprimento de realidade' de Dick é uma inversão desta imagem. Ao invés de uma cadeia em branco, que registra eventos, é uma cadeia pré-perfurada que cria eventos. Ela existe como uma construção dentro de uma construção.

Poole, a formiga elétrica, é controlado por este dispositivo analógico. Não possui livre-arbítrio, enquanto o dispositivo continuar a alimentá-lo de realidade. Esta constatação leva à conclusão de que ele pode alterar sua realidade subjetiva - levando-o além dos outros seres humanos, porque tem a tecnologia fisicamente disponível para isso. O estado físico de uma formiga elétrica, fornece a única maneira de um indivíduo poder realizar uma manobra tão radical e ousada.

Poole torna-se o centro da verdadeira crise dentro da história.
Carne e o sangue humano não tem como, fisicamente, manipular sua realidade, ele nunca poderia brincar com a cadeia de neurônios em sua cabeça, da mesma forma que brinca com o dispositivo em seu peito. No entanto este dispositivo analógico que cria a realidade de Poole, é também o centro deste jogo metafórico entre a luz e a escuridão.

A metáfora é mencionada na abertura de "A Formiga Elétrica", quando ao acordar no hospital e ver o sol pela janela e depois quando se volta para experimentar o dispositivo dentro de seu peito.

O espaço não perfurado é um não, ou a falta de estímulo no ambiente de Poole.
A perfuração é um sim, que a luz atravessa, e algo é adicionado à realidade de Poole.
Os opostos definem-se mutuamente, e a inversão de qualquer um deles (da luz a escuridão) muda drasticamente a realidade de Poole.

A interpretação de Heidegger da metáfora de luz e sombra em Platão, ‘A Alegoria da Caverna’(4), é uma forma instrutiva para entender a metáfora da luz e da escuridão, representada no "construtor de suprimento de realidade."

Como Poole, os prisioneiros da caverna vêem apenas as sombras projetadas em frente deles e que os afasta da realidade. A realidade de Poole é construída a partir de uma inversão desta - a luz deixar passar os furos na fita e definem a sua realidade. Como mencionado antes, Poole chega a conclusão de que a realidade é uma experiência subjetiva, como na caverna, a realidade das sombras é uma verdade subjetiva.

A luz em "Alegoria da Caverna" e em "A Formiga Elétrica" funciona da mesma maneira, é o veículo para (desvelar) a informação.

O dispositivo analógico em Poole utiliza a luz para transmitir informações.
A fita apenas bloqueia a luz (informação) de ser recebida pelo leitor-scanner.
Se a luz permite que as coisas sejam vistas, em seguida, a escuridão é "apenas um caso limite do brilho... um brilho que não deixa nada passar, que tira a visibilidade das coisas, que não consegue tornar visíveis." (Heidegger 42).

As seções não-perfuradas da fita, não deixam passar a informação através dela. Ao bloquear alguns dos buracos da fita, Poole temporariamente "apaga" elementos de sua realidade. Ao contrário da alegoria, Poole não tem ninguém para tirá-lo da realidade "inautêntica" da caverna e mostrar-lhe uma versão verdadeira da realidade. Isso ele deve fazer por si mesmo.

A primeira e a segunda tentativa experimentais de Poole com o 'construtor', são de ‘apagamento’. Usando lentes de ampliação, seleciona uma seção de buracos perfurados e os apaga com um esmalte opaco. Ele então se defronta com Danceman e sua verdadeira natureza, e durante a conversa experimenta os efeitos de suas manipulações quando " Através do vidro do lado do grande bar, a silhueta dos prédios de New York City cintilou e desapareceu”.

Poole experimenta a ausência do horizonte, mas Danceman não.

Sua segunda experiência é inserir uma tira opaca no carretel, criando vinte minutos
de ’espaço morto’, onde o leitor-scanner não receberá informação alguma.
O efeito não é o que Poole tinha imaginado.

Ele se senta e olha o apartamento desaparecer e se encontra mentalmente em um vazio. Quando recobra a consciência de sua identidade física, dois técnicos estão trabalhando nele. Eles explicam que a inserção da tira extra, bloqueou a entrada do leitor-scanner e o dispositivo desligou-se sozinho.

Durante os dois experimentos com apagamento, ninguém mais é afetado pela nova relação com a realidade de Poole. Ele experimenta os objetos desaparecendo da existência, mas as pessoas que o rodeiam não relatam visões semelhantes.

As próximas duas experiências são as de iluminação; Poole literalmente permite que mais luz passe para o leitor-scanner. Os efeitos dessas experiências estão além do que mesmo Poole imaginara.

Sua primeira tentativa é a de perfurar novos furos aleatórios na fita para ver o que acontecerá. Sarah está no apartamento durante estas tentativas e durante o primeiro, ela vê o que Poole vê, um bando de patos e um mendigo, aparecem brevemente e depois desaparecem. A conversa que se segue sugere o final da história:

"Eles não eram reais" disse Sarah. "Eram? Então como eu..."
"Você não é real" Poole disse para Sarah. "Você é um fator de estímulo na minha fita de realidade. Uma perfuração que pode ser coberta... Será que você também têm uma existência em outra fita de realidade, ou em uma realidade objetiva?"
Ele não sabia, não podia dizer. Talvez Sarah não soubesse também. Talvez ela tenha existido em mil fitas de realidade, talvez em cada fita já fabricada.
"Se eu cortar a fita" disse ele "você vai estar em toda parte e em lugar nenhum. Como tudo no universo. Pelo menos o tanto quanto eu estou ciente disso."

O paradoxo final da realidade do 'contrutor' é desnudado.
De certa forma, não tem efeito sobre ninguém, exceto Poole, no entanto, quando ele tenta adicionar a entrada de luz, então afeta os outros.

Poole começa a adicionar ao espetáculo, começa a produzir as novas imagens que não foram originalmente destinadas a aparecer. Neste ponto, se torna consciente de quão absolutamente estranha toda a realidade é para ele, e quer passar para a experiência final.

Para dar conta disso, a interpretação de Heidegger de luz e escuridão entra em jogo. Se a luz é o veículo de informação, esta nova informação afeta todas as informações em torno dele.

Sarah e Danceman existem como informação de luz para Poole, então acrescentando novas informações (permitindo mais luz) os afetaria. Bloqueando a luz apaga as informações do leitor-scanner e esta ausência não pode afetar Sarah ou Danceman, que são feitos de informação de luz. A idéia implícita é que a adição de informação é transformadora, e a supressão do conhecimento não é. Todos os personagens existem dentro do construtor de realidade de Poole ou de sua "caverna". Adicionando uma sombra não irá alterar a sua visão da realidade. No entanto, adicionando uma nova fonte de luz, a experiência da caverna vai se transformar.

Eric Rabkin vê essas adições e invasões na realidade dos personagens como típicas de Dick e sua exploração filosófica da realidade quando afirma: "Dick tornou impossível para nós encontrar uma realidade em seu estado fundamental. Quando a realidade se torna replicável, nenhuma permanece confiável, cada uma perde pelo menos parte de seu valor. A invasão de uma realidade, por outra é uma invasão ontológica... invasão ontológica causa ‘mors ontologica’".

Se para Poole recriar sua própria realidade, é então uma ‘mors ontológica’, ou a morte da mente, o resultado final é que ele e que os outros personagens terão também que enfrentá-la.

O experimento final de Poole é cortar a fita completamente, permitindo que toda luz entre no leitor-scanner. Ele assim vai experimentar todas as informações de percepção possíveis simultaneamente, no entanto, Poole é advertido pelos homens da manutenção que fazendo isso vai causar uma sobrecarga no dispositivo e destruí-lo. Para ele, o risco é aceitável:

“O que eu quero, ele deu-se conta, é a final e a absoluta realidade, mesmo que por um microssegundo. Depois disso, não importa, porque tudo será conhecido, nada será deixado para entender ou ver.”

Está disposto a arriscar a sua destruição para ter este momento.
E como já foi mostrado anteriormente na história, ele está arriscando a realidade de todos. O ato de deixar toda a luz adentrar o leitor-scanner irá certamente afetar todos os personagens e suas realidades.

Mas qual seria a força motriz para Poole, para buscar esse conhecimento abrangente, e entrar em um estado que irá destruí-lo?

Para entender este desejo final, um exame de Poole como uma mercadoria tentando lidar à sua maneira com a subjetividade é essencial.

Ao longo da história Poole é lembrado do custo dos reparos ao seu corpo.
O hospital cobra por seus serviços, mesmo que não tratem de 'formigas elétricas’ por lá.
O homem da manutenção cobra quarenta sapos para substituir sua mão.(5)
Depois que ele interrompe o 'construtor', os homens lhe cobram noventa e cinco sapos pelo reparo. Mesmo contemplando o suicídio, ele percebe que não pode fazê-lo.

“Acho que vou me matar, disse para si mesmo. Mas provavelmente sou programado para não fazer isso, seria um enorme prejuízo que meu dono teria que absorver. E que ele não iria querer.”

Poole é sempre apresentado como uma mercadoria, e mais, caro na sua criação e caro na manutenção. Seu desejo de conhecimento absoluto é o desejo de escapar de sua existência como uma mercadoria.

De fato ele está tentando uma des-reificação, por meio de abarcar toda a realidade para dentro de si.

Em seu artigo "Death of Subject", Scott Durham cita Peter Fitting, em um esforço para identificar este momento como uma "experiência angustiante de uma realidade ilusória em desintegração".

Como então Poole irá realizar seu objetivo final de subjetividade?

Assim como em ‘Simulacra’ onde Kongrosian, através de seu poder telepático, literalmente começa a tomar o mundo para dentro de si(6), Poole também o faz quando percebe que a adição de entradas de luz muda a realidade para todos ao seu redor

Sua posição como um objeto comercial é um "espaço altamente comercializável em que as fronteiras entre o indivíduo e o artefato tecnológico autônomo, se tornam cada vez mais permeáveis". (Hayles 162).

O paradoxo aparece novamente; a existência de Poole como um produto reificado (transformado em uma coisa) torna-se o locus de seu poder para mudar a realidade.

No momento anterior à sua destruição, Poole experimenta tudo: Ele vê maçãs e paralelepípedos e zebras. Sente calor, a textura de seda do tecido, sente o mar lambendo-o e um vento forte... ele se afoga.

”Eu estou vivendo, eu vivi, eu nunca vou viver, disse para si mesmo...”.

Esta é apenas uma breve citação a partir da descrição das experiências de Poole, mas é verdadeiramente uma noção Dickeana dessa experiência. Ao mesmo tempo recriando sua realidade e destruindo a si mesmo, a formiga elétrica percebe que está viva, viveu, e, paradoxalmente, nunca viveu.

Essas experiências acontecem todas de uma vez só em Poole. Se apenas por um breve momento, reprogramou a sua vida, ele utilizou de ferramentas físicas do cenário construído para manipular sua experiência.

A experiência de Poole termina abruptamente, com a fumaça escapando de sua boca. Como uma formiga elétrica, ele é destruído.

Neste ponto a história muda e os últimos parágrafos seguintes são as reações de Sarah.
Ela telefona para Danceman para dizer-lhe que Poole não existe mais.
Danceman responde: "Então nós estamos finalmente livres dele."

A observação serve como uma referência críptica do poder que Poole realmente possuía sobre eles, quer como presidente da Tri-Plan Corporation, ou como um manipulador da realidade.Danceman percebe que, em algum nível, a criatura tornou-se criador, e esse pensamento o perturba. Mas ele é breve, pois Sarah de repente percebe que pode ver através de suas mãos, o chão está desaparecendo, e o corpo sem vida de Poole está tornando-se vago.

Nas últimas linhas da história, o leitor fica com a imagem de Sarah:

“O vento da madrugada soprou sobre ela. Ela não sentiu, ela tinha começado agora a deixar de sentir.
E o vento soprou.”

Tendo concluído a sua viagem e alcançado a forma de sua própria subjetividade, Poole desfaz objetos dos outros; sujeitos a seu desejo de liberdade absoluta.

Esta liberdade só poderia vir com o custo da estrutura que contém Poole.
A ferramenta que ele usou para libertar-se, paradoxalmente, foi concebida para mantê-lo escravo em uma realidade prescrita.

No momento em que ele descobre que sua verdadeira natureza, muda tudo para ele.
Ele começa a tomar decisões, decisões que vão ao encontro da empresa que o projetou. Ele tentou danificar uma peça de um equipamento valioso e conseguiu. Vandalismo é um dos crimes mais hediondos que um indivíduo pode cometer contra uma empresa.

Em "A Formiga Elétrica", o indivíduo é propriedade da corporação.
Poole só queria escapar através do vandalismo auto-infligido em seu próprio corpo.
Sua auto-destruição é preferível à continuação.

Poole não se move para fora das realidades possíveis para ele. Ele fez de si mesmo um objeto inútil, mas ainda assim, não pode afastar-se completamente de seu espaço.

Reprogramando a realidade [A Formiga Elétrica] – Gabriel Cutrufello


Notas

1. Philip K. Dick, “The Electric Ant,” 1969, Robots, Androids, and Mechanical Oddities: The Science Fiction of Philip K. Dick ed. Patricia S. Warrick and Martin H. Greenberg (Carbondale: Southern Illinois U.P., 1984) 213-28.
2. Scott Bukatman, Terminal Identity: The Virtual Subject in Post-Modern Science
Fiction (Durham: Duke University Press, 1993) 48.
3. Sobre a “Alegoria da Caverna”. Dick estudou filosofia na Universidade da Califórnia em Berkeley, embora, tenha abandonado após seu primeiro semestre. Patricia Warrick, nos capítulos 9 e 10 do seu livro “Mind in Motion: The Fiction of Philip K. Dick”, explica: "...uma ampla gama de literatura rendeu material para ele: a Bíblia, as obras de Ésquilo, Platão, Virgílio (sic)... que ele escondeu sob alusões difíceis de se identificar, na maioria dos seus trabalhos de ficção científica".
Katharine Hayles também refere-se ao Dick filosófico, quando discutindo seu uso do "Andróide esquizóide" no Capítulo 7 de seu livro “How We Became Posthuman”. Veja também Emmanuel Carrere, “I Am Alive” e “You Are Dead: A Journey into the Mind of Philip K. Dick”,  para um olhar interessante e poético da intersecção da FC de Dick e os delírios de sua visão filosófica sobre a existência.
4. Não é minha intenção, através da introdução de Heidegger, entrar no debate sobre se devemos ou não comparar o trabalho de Dick aos trabalhos de filósofos metafísicos. Warrick mostra que Dick baseia algumas de suas idéias em escritores filosóficos, e a leitura de Heidegger para "A Alegoria da Caverna" é um olhar perspicaz para a mecânica do conto. Estou interessado apenas no estudo de Heidegger da interação entre a luz e a escuridão na alegoria, e como seus mecanismos são em muito similares aos do ‘construtor de suprimento de realidades’ de Poole. Para mais informações sobre o relacionamento entre Dick e a filosofia existencialista, ver “The Swiss Connection: Psychological Systems in the Novels of Philip K.Dick.” de Anthony Wolk.
5. Dick freqüentemente emprega formas biológicas como moeda em seu trabalho. Ela se deve a sua visão idiossincrática do futuro do dinheiro. Em "A formiga elétrica”, “quarenta sapos" é equivalente ao salário de uma semana.
6. Philip K. Dick, ‘The Simulacra’ de 1964 (New York: Vintage, 1992). No confronto final com Nicole, Kongrosian está em situação deplorável. Sua transformação é a mesma de Poole; ambos tem a necessidade de tomar conhecimento de toda a realidade, mas às custas de suas vidas.
"Algo terrível está acontecendo comigo...Eu já não posso manter a mim e o ambiente separados; você compreende como é que me sinto?"
"Estou virando do avesso!" Kongrosian lamentou. "Muito em breve se isso continuar, vou envolver todo o universo e tudo nele, e a única coisa que vai ficar fora de mim serão meus órgãos internos – e em seguida, muito provavelmente, eu vou morrer".


Trabalhos Citados

Barlow, Aaron. “Philip K. Dick’s Androids: Victimized Victimizers.” Retrofitting Blade Runner: Issues in Ridley Scott’s Blade Runner and Philip K. Dick’s Do Androids
Dream of Electric Sheep? Ed. Judith B. Kerman. Bowling Green: Bowling Green State University Popular Press, 1991. 76-89.
Baudrillard, Jean. “Simulacra and Science Fiction.” Trans. Arthur B. Evans. Science Fiction Studies 55 (1991): 309-13.
Bukatman, Scott. Terminal Identity: The Virtual Subject in Post-Modern Science Fiction.Durham: Duke University Press, 1993.
Carrère, Emmanuel. I Am Alive and You Are Dead: A Journey into the Mind of Philip K. Dick. 1993. Trans. Timothy Bent. New York: Metropolitan Books, 2004.
Casimir, Viviane. “Data and Deckard: Cyborg as Problematic Signifier.” Extrapolation 38 (1997): 278-91.
Debord, Guy. The Society of the Spectacle. 1967. New York: Zone Books, 2004.
Dick, Philip Kindred. “The Android and the Human.” 1972. The Shifting Realities of Philip K. Dick: Selected Literary and Philosophical Writings. Ed. Lawrence Sutin. New York: Vintage, 1995.
---. Do Androids Dream of Electric Sheep? 1968. New York: Del Rey, 1996.
---. “The Electric Ant.” 1969. Robots, Androids, and Mechanical Oddities: The Science
Fiction of Philip K. Dick. Ed. Patricia S. Warrick and Martin H. Greenberg.
Carbondale: Southern Illinois U.P., 1984. 213-28.
---. The Simulacra. 1964. New York: Vintage, 1992.
Durham, Scott. “P.K. Dick: From the Death of the Subject to a Theology of Late Capitalism.” 1988. On Philip K. Dick: 40 Articles from Science-Fiction Studies. Ed. R.D. Mullen, Istvan Csicsery-Ronay, Arthur B. Evans, and Veronica Hollinger. Greencastle: SF-TH Inc., 1992. 188-98.
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