domingo, 2 de maio de 2010

A Formiga Elétrica - Philip K. Dick




Às 4:15 PM TST, Garson Poole acordou em sua cama de hospital.

Sabia que estava deitado na cama de um hospital, em uma enfermaria de três leitos e percebeu, além disso, duas coisas: que ele já não tinha a mão direita, e que não sentia nenhuma dor.

Eles me deram um analgésico forte, disse para si mesmo, enquanto olhava a parede distante, com a janela exibindo a cidade de Nova York. Redes em que os veículos e pedestres disparavam, e rodas que brilhavam ao sol da tarde, o brilho da luz poente  agradou-o. Não é tão tarde, ele pensou. Nem para mim.

Um fone estava na mesa ao lado de sua cama, ele hesitou, depois pegou-o e ligou para uma linha externa. Um momento depois, ele olhava para Louis Danceman, responsável pelas atividades Tri-Plan, na sua ausência.

“Graças a Deus você está vivo!" disse Danceman, o rosto grande e carnudo como a superfície marcada da lua, encheu-se de alívio. "Estive ligando para todos e..."
“Eu só perdi a mão direita" disse Poole.
"Mas você vai ficar bem. Quero dizer, eles podem enxertar outra."
"Há quanto tempo estou aqui?" Poole perguntou. Onde estavam os enfermeiros e os médicos, se perguntou, porque não estavam ali, reclamando por ele fazer uma chamada?
"Quatro dias" disse Danceman. "Tudo aqui na fábrica vai energeticamente bem. Na verdade nós recebemos pedidos de compra de três sistemas distintos, todos aqui na Terra. Dois em Ohio e um em Wyoming. Ordens de compra sólidas, com um terço de antecedência e os habituais três anos de crédito para arrendamento opcional."
"Venha me tirar daqui", disse Poole.
"Não posso, até que a mão nova..."
"Posso colocá-la mais tarde."

Ele queria desesperadamente voltar ao ambiente familiar; a memória do foguete mercantil grotescamente aparecendo na tela do piloto, se fechasse os olhos, veria novamente sua nave danificada, um prejuízo enorme. As sensações cinéticas...ele estremeceu, lembrando-se. Acho que estou com sorte, disse para si mesmo.

"Sarah Benton está com você?" Danceman perguntou.
“Não”. Naturalmente, sua secretária pessoal, mesmo que apenas por considerações de trabalho, deveria estar por perto paparicando-o com seu jeito infantil e chato.
Todas as mulheres gordas gostam de agir como a mãe de outras pessoas, pensou.
E são perigosas, se caírem sobre você, podem matá-lo.
"Talvez seja isso que me aconteceu", disse ele em voz alta. "Talvez Sarah tenha caído sobre meu foguete".
"Não, não, uma haste da aleta de direção se separou durante o tráfego pesado na hora do rush e você..."
"Eu me lembro".

Virou-se em sua cama quando a porta da enfermaria abriu e um médico vestido de branco, e duas enfermeiras de azul apareceram, vindo em direção a sua cama.

"Falo com você depois" disse Poole e desligou o fone. Respirou profundamente.
"Não deveria telefonar tão cedo" disse o médico que olhou seu boletim. "Sr. Garson Poole, proprietário da Tri-Plan Electronics. Criador de dardos que seguem suas presas por um raio de mil milhas, respondendo a padrões de ondas encefálicas. Você é um homem bem-sucedido, Sr. Poole. Mas, Sr. Poole, você não é um homem. Você é uma formiga elétrica".
"Cristo", disse Poole atordoado.
"Então não poderemos tratá-lo aqui, agora que nós descobrimos. Soubemos assim que nós examinamos a sua mão direita ferida; vimos os componentes eletrônicos e em seguida fizemos um raio-x do seu torso, e claro que eles confirmaram nossa hipótese."
"O que" disse Poole "é uma" formiga elétrica"?
 Mas ele sabia, ele conhecia a expressão.
Uma enfermeira disse: "Um robô orgânico."
"Eu sei" disse Poole.
Uma transpiração fria subiu para a superfície de sua pele e por todo seu corpo.
"Você não sabia" disse o médico.
“Não”. Poole sacudiu a cabeça.
O médico disse: "Nós recebemos uma formiga elétrica a cada semana, ou quase. Até trazida aqui por um acidente de foguete, como o seu, ou alguém que busca a internação voluntária... pessoas a quem, como você, nunca lhes foi dito, e que acreditavam-se humanas. Quanto à sua mão... ". Ele fez uma pausa.
"Esqueça a minha mão" disse Poole selvagemente.
"Tenha calma".
O médico inclinou-se sobre ele, olhou profundamente para o rosto de Poole.
"Temos um veículo de transporte para levá-lo a um serviço de assistência, no caso, de reparos ou substituição de peças, e sua mão poderá ser feita por um gasto razoável, quer para si mesmo, tratando-se de auto-propriedade, ou para seus proprietários, se existirem. De qualquer forma você estará logo de volta em sua mesa na Tri-Plan, funcionando como antes."
"Exceto" disse Poole "que agora eu sei."

Questionou se Danceman ou Sarah, ou qualquer um dos outros no escritório sabia. Teriam eles, ou um deles, o comprado? Projetado-o?

Um títere, disse a si mesmo, isso é tudo que eu sou. Nunca realmente devo ter comandado a empresa, era uma ilusão implantada em mim quando fui feito... juntamente com a ilusão de que eu sou humano, e que estou vivo.

"Antes de sair para a instalação de reparos" disse o doutor "você poderia gentilmente pagar a conta na recepção?"
Poole disse acidamente: "Como pode haver uma conta a pagar se vocês não tratam formigas aqui?"
"Para os nossos serviços" disse a enfermeira. "Até onde sabemos."
"Mandem-me a conta" disse Poole com raiva e fúria impotente. "Mandem a conta para minha empresa."

Com grande esforço conseguiu sentar-se, sua cabeça não parava, pisou hesitante no chão. "Ficarei feliz em sair daqui", disse ele enquanto se ajeitava. "E muito obrigado pela sua atenção humana".

"Obrigado também, Sr. Poole” disse o médico. "Ou melhor, eu deveria dizer apenas Poole".

 (...)


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A Formiga Elétrica - Roteiro de David Mack e desenho de Pascal Alixe - N.1 [ Download ]