terça-feira, 15 de junho de 2010

As Casas de Armas - A.E.Van Vogt




— Vai querer uma arma?

McAllister virou-se. Seu movimento foi a reação automática a um som. E porque tudo ainda lhe parecia um sonho, a visão da cidade dissolveu-se quase instantaneamente; a sua mente focalizou-se na moça que vinha lentamente do fundo da loja. Por alguns instantes, não conseguiu pensar claramente. A convicção de que deveria dizer alguma coisa misturava-se com a primeira impressão causada pela aparência da moça.

O corpo era esguio e bem feito e ela sorria agradavelmente. Os olhos eram castanhos e o cabelo ondulado também. Seu vestido e as sandálias simples pareciam tão normais à primeira vista, que ele não lhes deu maior atenção.

Conseguiu dizer:
— O que eu não posso compreender é por que o policial que tentou me seguir não conseguiu entrar. E onde está ele agora?

Para surpresa sua, o sorriso da moça tomou um ar de desculpa:
— Sabemos que as pessoas acham ridículo nós ainda insistirmos neste feudo antigo.
Sua voz tornou-se mais firme.
— Sabemos até o quanto é inteligente a propaganda que sublinha a tolice da nossa posição. Enquanto isso, nunca permitimos a entrada de um dos homens dela aqui, Continuamos a levar nossos princípios muito a sério.

Fez uma pausa, como se esperasse compreensão de sua parte. Mas McAllister percebeu pela, expressão do rosto dela que sua aparência devia ser tão estupefata quanto os seus pensamentos. Os homens dela! A moça tinha pronunciado aquelas palavras como se se referisse

Fez-se um vazio na mente de McAllister, semelhante ao vazio que estava sentindo na boca do estômago, a sensação de uma profundidade insondável, a primeira convicção estonteante de que não estava tudo como deveria ser. A moça passou a falar com um tom mais duro:
— O senhor quer dizer que não sabe nada disto, que não sabe que durante gerações, nesta época de energias devastadoras, existiu a liga dos Fabricantes de Armas, como única proteção contra a escravidão? O direito de comprar armas — parou, observando-o, depois continuou: — Pensando bem, há algo de muito peculiar no senhor. Essas roupas estranhas, o senhor não é um granjeiro das planícies agrícolas do Norte?
 

Ele sacudiu u cabeça silenciosamente e, a cada minuto que passava, ficava mais irritado com suas reações. A moça continuou mais vivamente:
— E pensando bem, é espantoso que o policial tivesse tentado abrir a porta sem que tenha havido alarma.
Sua mão moveu-se. Metal brilhou dentro dela, como alumínio na intensa luz do sol. Não havia mais um tom de desculpa na sua voz, quando disse:
— Fique exatamente onde está, senhor, até que eu chame meu pai. No nosso negócio, com as 7iossas responsabilidades, não podemos nos arriscar. Existe algo de muito errado nisto tudo.
 

Curiosamente, nesse momento, a mente de McAllister começou a funcionar com clareza. Seus pensamentos chegavam paralelos aos dela. Como havia penetrado naquele mundo fantástico? Existia realmente algo de errado naquilo tudo.
 

Era a arma que prendia sua atenção. Tratava-se de um objeto pequeno, com o formato de uma pistola. Mas uma pistola em miniatura, cuja culatra ligeiramente bulbosa estava ornada com três cubos alinhados em semicírculo. Ele começou a se sentir abalado, olhando a arma, porque aquele pequeno instrumento perigoso brilhando na sua mão morena era tão real quanto ela mesma. 

— Pelo amor de Deus — murmurou. — Que diabo de arma é esta? Abaixe essa coisa e vamos tentar esclarecer a situação.
 

Ela parecia não estar ouvindo. McAllister percebeu que ela estava fixando um ponto na parede, um pouco à sua esquerda. Seguindo seu olhar, chegou a ver acenderem-se sete pequenas luzes. Luzes estranhas. Ficou fascinado pelo jogo de luz e sombra, o aumento e diminuição da luz de um globo minúsculo para o outro, um movimento ondulado de variação de intensidade infinitesimal, um efeito incrivelmente delicado de reação a um barômetro super sensível. As luzes estabilizaram-se; voltou a olhar a moça. 

Para surpresa sua, estava guardando a arma. Ela devia ter notado sua expressão.
— Está bem — disse calmamente. — Os automáticos o estão vigiando. Se estivermos enganados a seu respeito, pediremos desculpas. Enquanto isso, se ainda está interessado em comprar uma arma, terei muito prazer em demonstrá-la.
 

Então os automáticos o estavam vigiando, pensou McAllister. Esta informação não lhe trouxe nenhum alívio. 

De qualquer maneira, aqueles automáticos não estariam do seu lado. O fato de a moça guardar a arma, apesar do seu tom de suspeita, dizia muito da eficiência dos novos cães de guarda.
— Sim, por favor, gostaria de ver. — Acrescentou: — Não duvido de que seu pai esteja aqui perto, fazendo uma espécie de estudo da minha pessoa.
 

A jovem não fez menção de mostrar armas. Em vez disso, olhava-o perplexa.
— Talvez o senhor não esteja percebendo — disse lentamente — mas já abalou toda a nossa instituição. As luzes dos automáticos deveriam ter-se acendido no momento em que meu pai pressionou os botões, como fez quando eu o chamei. E isto não aconteceu! Não é natural e no entanto — franziu as sobrancelhas — se o senhor é um deles, como conseguiu passar por aquela porta? É possível que os cientistas dela tenham descoberto seres humanos que não afetem as energias sensitivas? E que o senhor é apenas um de muitos, enviado para ver se é possível entrar ou não? Mas isto também não faz sentido. Se tivessem a menor esperança de sucesso não jogariam fora a possibilidade de uma surpresa esmagadora. Neste caso, o senhor seria a cunha que permitiria um ataque em grande escala. Ela é implacável, brilhante e tem um poder absoluto sobre pobres ingênuos como o senhor, que só pensam em adorar o esplendor de sua Corte Imperial.
 

Havia uma cadeira no canto. McAllister queria sentar-se. Sua mente estava mais calma.
— Olhe — começou — não sei de que está falando. Nem sei como entrei nesta loja. Concordo que tudo isto pede uma explicação, diferente da que eu possa dar.
 

Sua voz foi diminuindo. Estava sentando-se, mas em vez de se deixar cair na cadeira, levantou-se, lentamente, como uma pessoa muito idosa. 

Seus olhos fixaram-se num letreiro luminoso, situado em cima do mostruário de armas, atrás dela. Sua voz estava rouca:
— Isto é... um calendário?
 

Ela acompanhou seu olhar intrigada:
— Sim, é 3 de junho. Vejo errado?
— Não é isso, é... — teve que fazer um esforço — são os números em cima, é... que ano é este?
 

A moça parecia surpresa. Ia dizer alguma coisa, mas parou. Finalmente disse:
— Não tem nada errado, é o ano 4784 da Casa Imperial de Isher.




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