quarta-feira, 16 de junho de 2010

Essas estrelas são nossas ! Poul Anderson



Aycharach sorriu.

Seu rosto também era humanóide, mas de modo ossudo, o nariz parecendo-se a uma espada; os ângulos da boca e maxilar eram exagerados, parecendo grandes "V".
Podia, quase, ter sido o rosto de algum santo bizantino, mas a pele tinha tonalidade puramente dourada, as sobrancelhas eram arcos de penas azuis finas, o crânio calvo tinha um topete de penas e orelhas pontuadas.

O peito largo, a cintura de vespa, pernas magricelas e compridas, encobertas pela capa. Os pés, com quatro dedos e garras e esporões nos tornozelos, apresentavam-se sem qualquer calçado.

Flandry tinha quase certeza de que a vida inteligente em Quereion evoluíra a partir dos pássaros, e que o planeta devia ser seco, dotado de atmosfera fria e rarefeita. Tinha indicações de que a civilização natural de Quereion era inacreditavelmente antiga, e motivos para crer que não fosse uma simples súdita de Merséia. Além disso, entretanto, seu conhecimento desaparecia por completo. Não sabia até mesmo onde ficava o sol de Quereion, na esfera Merseiana.

Aycharach ofereceu-lhe a mão de seis dedos. Flandry a apertou. Os dedos eram delicados, comparados aos seus. Por um momento de brutalidade, pensou em apertar bastante, esmagando os ossos frágeis. Aycharach tinha pouco mais estatura que ele, porém Flandry era homem bastante grande, o corpo bem mais largo e sólido.

— Um prazer voltar a encontrá-lo, Sir Dominic — disse Aycharach, e sua voz era baixa, uma verdadeira maravilha para ouvir-se. Flandry fitou-lhe os olhos cor de ferrugem, dotados de brilho metálico acolhedor, e soltou a mão.
—Não foi inesperado, com certeza — contrapôs.
— Para você, é o que quero dizer.
— Você viaja bastante — disse Aycharach. — Eu tinha a certeza de que alguns elementos de seu corpo estariam aqui esta noite, mas não podia estar certo de seu próprio paradeiro.
— Eu bem que queria saber do seu — ripostou Flandry em tom de lástima.
— Parabéns pelo modo como tratou o affaire Nyanza. Vamos sentir a falta de A'u em nossas fileiras. Ele tinha certo brilho aquoso.

Flandry conseguiu impedir a manifestação de surpresa.
— Eu pensei que esse aspecto da questão tinha sido encoberto — observou. — Mas essas criaturas parecem ter ouvidos bem grandes. Há quanto tempo você está no Sistema Solar?
— Algumas semanas — respondeu Aycharach.
— Mas como viagem de prazer — explicou, e inclinou a cabeça um pouco. — Ah, a orquestra começou a tocar uma valsa de Strauss. Ótimo. Embora Johann, está claro, não possa ser comparado a Richard, que sempre será o Strauss.
— É mesmo? — contrapôs Flandry, cujo interesse pela música antiga era pouco maior que seu interesse em suicidar-se. — Nunca me passou pela cabeça.
— Pois devia ter passado, meu amigo. Sem abrir exceção até mesmo para Xingu, Strauss é o compositor
mais mal compreendido na história galáctica que se conhece. Se eu fosse para a prisão perpétua, tendo apenas uma fita gravada, escolheria sua Morte e Transfiguração, e ficaria satisfeito.
— Pode deixar que eu providencio — ofereceu Flandry, no mesmo instante.

Aycharach deu uma risadinha, tomou-o pelo braço.
— Venha, vamos achar um lugar mais sossegado. Mas, eu rogo, não desperdice ocasião tão divertida por minha causa. Reconheço visitar a Terra clandestinamente, mas essa parte foi necessária para a satisfação de minha curiosidade pessoal. Eu não tinha a intenção de furtar os gabinetes Imperiais...
— Que, aliás, estão dotados de alarmes contra Aycharach.
— Detectores de telepatia? Sim, é o que seria de supor. Estou um pouco velho e duro nas juntas, e a gravidade de vocês é um pouco grande, para que eu me dedicasse a meus robozinhos. Também não tenho o tipo de aparência estonteante que é necessária, ao que me dizem todos os teleplays, para o trabalho de capa e espada. Não, eu só queria ver o planeta que criou uma raça como a sua. Andei por algumas florestas, examinei algumas pinturas, visitei algumas sepulturas escolhidas e voltei para cá. Estou a ponto de partir, por falar nisso. Você não precisa avisar a seu Imperium, para fazer pressão sobre os ymiritas, a fim de que me expulsem daqui; minha nave-correio parte dentro de vinte horas.
— Para onde? — perguntou Flandry.
— Para além, e outros lugares — disse Aycharach, sem se perturbar.

Flandry sentiu que os músculos do estômago endureciam.
— Syrax? — exclamou.

Fizeram uma parada na entrada do conservatório, onde a gravidade era nula. Uma grande esfera de água balançava-se como prata, no centro, com a mata de samambaias e mil flores entre púrpura e escarlate, formando uma caverna em torno, as estrelas e o grande Júpiter além. Mais tarde, sem dúvida, os humanos jovens e mais bêbados estariam tirando as roupas e jogando-se para nadar naquele globo cheio de serenidade. Por enquanto, só a música habitava ali. Aycharach passou. pelo umbral, a capa esvoaçava como asas negras, enquanto ele seguia pela abóbada-bolha. Flandry veio em seguida, em roupas que pareciam fogo e trombetas. Precisou de momentos, até ajustar-se à imponderabilidade. Aycharach, cujos ancestrais haviam recortado o céu de Quereion, não pareceu precisar de tal providência.

O não-humano parou no vôo, agarrando-se a uma fronde de samambaia. Olhava para um conjunto violeta de orquídeas, e sua comprida cabeça de gavião inclinou-se.
— Negro contra o globo de água e mercúrio — disse, parecendo pensar alto —, o universo negro e frio além dos dois. Aí está um belo arranjo, e com aquele toque de horror necessário à mais elevada manifestação artística.
— Negro? — e Flandry fitou, sobressaltado, as flores cor de violeta. Em seguida, cerrou os lábios, com força.

Aycharach, entretanto, já percebera a idéia do homem, e sorriu.
— Touché. Eu não devia ter deixado escapar que sou cego às cores na faixa de onda azul.
— Mas você vê mais no vermelho do que eu — predisse Flandry.
— Sim, reconheço, já que você mesmo acabaria inferindo, que meu sol natal é mais frio e vermelho do que o seu. Se acha que isso o ajudará a identificá-lo, entre os milhões de estrelas na esfera merseiana, aceite a informação, que lhe dou com os meus cumprimentos.
— O Enxame de Syrax é População Um médio — observou Flandry. — Não se presta muito bem a seus olhos.

Aycharach fitava a água. Peixes tropicais eram visíveis ali, dentro do globo, como muitos foguetes multicores.
— Não quer dizer que eu vou para Syrax — disse ele, com a voz monótona. — Não tenho, com certeza, qualquer desejo pessoal de ir. Há espaçonaves militares em demasia, oficiais em quantidade excessiva. Não gosto da mentalidade deles — afirmou, e fez uma mesura na imponderabilidade. — Com exceção aberta para você, é claro.
— É claro — concordou Flandry. — Ainda assim, se você pudesse fazer alguma coisa para acabar com o impasse por lá, a favor de Merséia...
— Você me lisonjeia — atalhou Aycharach. — Mas receio que ainda não tenha ultrapassado a visão romântica da política militar. O fato é que nenhum dos lados quer fazer o esforço total para controlar as estrelas de Syrax. Merséia poderia utilizá-las como base valiosa flanqueando Antares, e obter assim uma ponta de lança, dirigida a todo o setor de seu Império. A Terra quer o controle apenas para nos negar a posse do Enxame.

Como nenhum dos governos deseja, no momento, romper a paz nominal que reina agora, manobram por lá, o poderio naval, espionagem, alguns tirinhos, batalhas em disparada... a parada da tomada completa não vale ainda uma guerra completa.
— Mas se você pudesse desfazer esse equilíbrio, pessoalmente, para que nossa rapaziada perdesse em Syrax — disse Flandry —, nós não contra-atacaríamos sua esfera imperial. Você sabe disso. Seria provocar o contra-contra-ataque para nós. Deus, a própria Terra poderia ser bombardeada! Estamos em conforto demasiado para nos arriscar a um desfecho assim.
Ele se fez calar. Para que pôr à mostra a sua própria amargura e, com isso, arriscar-se a ser preso na Terra, por sedição?

— Se possuíssemos Syrax — observou Aycharach —, com a probabilidade de 71 por cento isso apressa-. ria o colapso da hegemonia Terrena em cem anos. Foi o veredicto de nossos computadores militares... embora eu próprio ache que a fé depositada por nosso Alto Comando nesses computadores seja ingênua e bastante comovente. Mesmo assim, a data predita para a queda da Terra ainda estaria a 150 anos, a contar de agora. Por isso, fico a imaginar por qual motivo seu governo se importa.

Flandry deu de ombros.
— Alguns de nós são um pouco sentimentais no que diz respeito a nosso planeta — respondeu, com tristeza. — Além disso, naturalmente, não somos nós mesmos que estamos por lá, levando tiros.
— Mais uma vez a mentalidade humana — observou Aycharach. — Os seus instintos são de tal natureza que vocês nunca aceitam morrer. Você, pessoalmente, por baixo de tudo, não acha que a morte é uma coisa um pouco vulgar, em desacordo com um cavalheiro?
— Talvez. A que você chamaria a morte?
— Chamaria de complementação.

A conversa passou a coisas impessoais. Flandry jamais conhecera alguém com quem pudesse conversar dessa maneira. Aycharach era sábio, erudito, e infinitamente bondoso, quando o desejava; e sabia empregar seu espírito cortante, retalhando o rosto pomposo do Império. Falar com ele, aflorando de vez em quando as questões imortais, era quase como um confessionário, pois ele não era humano, e não julgava os feitos humanos, mas ainda assim parecia compreender os desejos em que tais feitos se arraigavam.

Flandry finalmente apresentou desculpas relutantes para afastar-se. Pois é, dizia a si próprio, trabalha é trabalho. Como a Dama Diana ignorava estudadamente sua presença, atraiu uma coisinha fofa e de cabelos ruivos para a sala ao lado, disse-lhe que estaria de volta em dez minutos, e saiu por um corredor traseiro.

Talvez algum merseiano que o visse desaparecer não contasse com sua volta, por uma ou duas horas; talvez não reconhecesse a pequena, quando ela se cansasse de esperar e voltasse ao salão de baile. Os seres humanos pareciam-se muito, uns aos outros, aos olhos destreinados dos não-humanos, e havia pelo menos mil convidados, a essa altura.

Era uma camuflagem das mais fracas para sua retirada, mas a melhor que ele podia encontrar.
Flandry entrou novamente no iate e despertou Chives.
— Para casa — ordenou. — Aceleração máxima. Ou impulso secundário, se você acha que agüenta com ele, dentro do Sistema, nessa geringonça dourada.
— Sim, senhor. Agüento.

Em velocidade superior à da luz, ele estaria na Terra em questão de minutos, em vez de horas. Excelente!

Talvez fosse possível conseguir a complementação para Aycharach.

Mais de metade de si mesmo, entretanto, contava que tal tentativa fracassasse.



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