sábado, 19 de junho de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 12)





— Isso não vai fazer a menor diferença — disse Rick — Resch pedirá uma autópsia de meu corpo, o mesmo que seu laboratório fez de Polokov. E ele insistirá num...como é que o chama? Teste de Arco Reflexo Boneli do senhor e dele mesmo.

O tubo de laser continuou na mesma posição, e o Inspetor Garland disse:
— Este dia foi ruim; o tempo todo. Especialmente quando vi o guarda Crams chegar com o senhor. Tive uma intuição... Foi por isso que intervim.

Aos poucos, baixou o tubo de laser. Porém continuou com ele, na mão crispada, até que encolheu os ombros, voltou a colocá-lo na gaveta e fechou-a, guardando a chave.
— O que é que mostrarão os testes com nós três? — perguntou Rick.
— Aquele maldito idiota Resch! — exclamou Garland.
— Ele, realmente não sabe?
— Ele não sabe. Não desconfia. Não tem a menor idéia. De outra maneira, não poderia levar uma vida como caçador de cabeças a prêmio, uma ocupação humana, dificilmente uma para um andróide.

Fez um gesto na direção da pasta de Rick.
— Essas outras cópias a carbono, os outros suspeitos que você deve submeter a teste, conheço todos eles. — Interrompeu-se por um momento e continuou: — Todos nós chegamos aqui na mesma nave procedente de Marte. Mas não Resch. Ele ficou lá por mais uma semana, recebendo o sistema de memória sintética.
E caiu em silêncio. Ou melhor, a máquina caiu no silêncio.

— O que é que ele fará quando descobrir? — perguntou Rick.
— Não tenho a mínima idéia — respondeu em voz distante Garland. — De um ponto de vista abstrato, intelectual, deve ser interessante. Ele pode me matar, suicidar-se, e talvez matar você, também. E pode matar todas as pessoas que puder, humanas e andróides por igual. Sei que essas coisas acontecem, quando foi instalado um sistema de memória sintética. Quando o indivíduo pensa que é humano.
— Assim, quando vocês fazem isso, correm um risco?
— É um risco, de qualquer maneira, fugir e vir aqui para a Terra, onde não somos considerados nem mesmo animais. Onde o menor verme ou cupim é considerado mais desejável do que todos nós juntos.
Irritado, Garland mordeu o lábio inferior.
— Sua situação seria melhor se Phil Resch pudesse passar no Teste Boneli além de mim. Os resultados, dessa maneira, seriam previsíveis. Para Resch, eu seria simplesmente outro andróide a aposentar, logo que possível. Assim, você tampouco está numa boa situação, Deckard. Quase tão ruim, na verdade, como a minha. Sabe no que foi que tive um palpite errado? Eu não sabia a respeito de Polokov. Ele deve ter vindo para cá mais cedo. Obviamente, ele veio mais cedo. Em outro grupo, sem dúvida...Nenhum contato com o nosso. Eu me arrisquei no caso do laudo do laboratório, o que não devia ter feito. Crams, naturalmente, correu o mesmo risco.
— Polokov também quase acabou comigo — disse Rick.
— Sim, havia alguma coisa nele. Não acho que possa ter sido o mesmo tipo de unidade cerebral que a nossa. Ele deve ter sido "envenenado" ou alguém mexido nele — uma estrutura alterada, desconhecida mesmo para nós. E boa, também. Quase boa demais.
— Quando eu telefonei para meu apartamento — perguntou Rick —, por que não consegui falar com minha esposa?
— Todas as nossas linhas de videofone estão "grampeadas". Recirculam as chamadas para outros escritórios no prédio. Nós estamos operando aqui um empreendimento homeostático, Deckard. Somos um circuito fechado, isolado do resto de São Francisco. Sabemos a respeito deles, mas eles não sabem a nosso respeito. Às vezes, uma. pessoa isolada, como você, chega aqui por acaso ou, como no seu caso, e trazida aqui — para nossa proteção. — Gesticulou convulsivamente para a porta do escritório. — Lá vem de volta o operoso Phil Resch, trazendo seu testezinho bonitinho e portátil. Ele não é inteligente? Vai destruir a vida dele, a minha, e possivelmente a sua.
— Em tempos de crise — observou Rick — vocês andróides geralmente não se protegem uns aos outros.
— Acho que você tem razão — concordou secamente Garland. — Parece que carecemos de um talento específico que vocês humanos possuem. Acho que é chamado de empatia.
Abriu-se nesse momento a porta e Phil Resch apareceu, trazendo um aparelho do qual pendiam fios.
— Tudo pronto — disse, fechando a porta. Sentou-se e ligou o aparelho na tomada.

Levantando a mão direita, Garland apontou para Resch. Imediatamente Resch e também Rick Deckard rolaram de suas cadeiras para o chão. No mesmo instante, Resch puxou um tubo de laser e, enquanto caía, atirou em Garland.

O feixe de laser, apontado com uma habilidade nascida de anos de experiência, dividiu em duas a cabeça do Inspetor Garland. Ele caiu para a frente e de sua mão rolou pela superfície da mesa seu tubo de laser miniaturizado. O cadáver oscilou na cadeira e, em seguida, como se fosse um saco de ovos, deslizou para um lado e esborrachou-se no chão.

— A coisa esqueceu — disse Resch — que este é meu trabalho. Posso quase prever o que um andróide vai fazer. Acho que você, também. — Guardou o tubo de laser, curvou-se e, curioso, examinou o corpo de seu ex-superior. — O que foi que a coisa disse quando saí?
— Que ele, a coisa, era um andróide. E que você — Rick interrompeu-se, os condutos de seu cérebro vibrando, calculando, selecionando. E alterou o que começara a dizer —• o identificaria — concluiu. — Dentro de mais alguns minutos.
— Mais alguma coisa?
— Que este prédio está infestado de andróides.
Introspectivamente, observou Resch:
— Isso vai tornar difícil nós dois sairmos daqui. Nominalmente, tenho autoridade para sair a qualquer momento que quero, claro. E levar comigo um prisioneiro. — Ficou à escuta. Nenhum som vinha de fora do escritório.
— Acho que não ouviram coisa alguma. Evidentemente, não há nenhum aparelho de escuta clandestina instalado aqui, gravando tudo... como devia haver.

Cautelosamente, cutucou o corpo do andróide com a ponta do sapato.
— É realmente notável a capacidade psiônica que a gente desenvolve neste trabalho. Eu sabia, antes de abrir a porta, que ele atiraria em mim. Para ser franco, estou surpreso por que ele não o matou enquanto estive lá em cima.
— Ele quase fez isso — explicou Rick. — Apontou para mim durante parte do tempo um grande modelo utilitário de laser. Estava pensando em me matar. Mas era você que o preocupava, não eu.
— O andróide foge — disse sem humor nenhum Resch — para onde o caçador de cabeças o persegue. Você compreende, não, que tem que voltar em acelerado à Casa da Ópera e pegar Luba Luft antes que alguém aqui tenha uma chance de avisá-la como isto terminou? Avisar à coisa, diria eu. Você pensa neles como "coisa"?
— Pensei, antigamente — respondeu Rick —, quando a consciência me incomodava a respeito de meu trabalho. Protegia-me, pensando neles dessa maneira, mas agora não acho que isso seja necessário. Muito bem, vou diretamente para a Casa da Ópera.

Supondo que você consiga me tirar daqui.
— Suponhamos que colocamos Garland sentado à mesa —disse Reach. Recolocou o cadáver do andróide na cadeira, espigado, arranjando os braços e pernas de modo que a postura parecesse natural, se ninguém olhasse de muito perto. Se ninguém entrasse no escritório. Apertando um botão no intercomunicador dá mesa, disse: — O Inspetor Garland pede que nenhuma ligação seja feita para aqui na próxima meia hora. Está ocupado em trabalho no qual não pode ser interrompido.
— Sim, Sr. Resch.

Soltando o botão do intercomunicador, Phil Resch voltou-se para Rick:
— Vou algemá-lo a mim durante o tempo em que permanecermos neste prédio. Logo que levantarmos vôo, naturalmente o soltarei. — Tirou do bolso um par de algemas, fechou uma das argolas no pulso de Rick e a outra no seu. — Vamos. Vamos acabar com isso. — Endireitou os ombros, respirou profundamente e abriu a porta do escritório.

Encontraram policiais uniformizados por toda parte, no desempenho de suas tarefas rotineiras diárias. Nenhum deles levantou a vista ou lhes prestou a menor atenção quando Phil Resch puxou Rick pelo corredor na direção do elevador.

— O que estou temendo — disse Resch enquanto esperavam pelo elevador — é que aquela coisa, Garland, tivesse um componente de aviso de morte incluído em seu mecanismo. Mas — encolheu os ombros — já teria dado sinal a esta altura. De outro modo, não valeria grande coisa.

Chegou o elevador. Vários homens e mulheres de indefinível aparência policial desceram, e se afastaram batendo calcanhares pelo corredor, cada um para seu destino. Tampouco prestaram a menor atenção a Rick ou a Phil Resch.

— Você acha que seu departamento me aceitará? — perguntou Resch, ao se fecharem as portas do elevador sobre ambos. Ele apertou o botão de telhado e subiram silenciosamente. — Afinal de contas, a partir de agora estou desempregado. Para dizer o mínimo.
Reservado, Rick respondeu:
— Eu... eu não sei por que não. Exceto que já temos dois caçadores de cabeças. — Vou ter que dizer a ele, pensou. É antiético e cruel fazer isto. Sr. Resch, o senhor é um andróide, disse a si mesmo. Tirou-me deste lugar, e esta é sua recompensa. O senhor é tudo aquilo que nós dois abominamos. A essência daquilo que estamos compromissados a destruir.
— Eu não posso me conformar — disse Phil Resch. — Isto não parece possível. Há três anos estou trabalhando sob a direção de andróides. Por que não desconfiei... quero dizer, o suficiente para fazer alguma coisa?
— Talvez não tenha sido tanto tempo assim. Talvez só recentemente eles tenham se infiltrado neste edifício.
— Eles têm estado aqui o tempo todo. Garland foi meu superior desde o início, durante meus três anos.
— Segundo o que aquela coisa disse — especulou Rick —, todo o grupo veio junto de Marte. E isso não foi há tanto tempo como três anos. Foi apenas há meses.
— Então, naquela ocasião, existia um Garland autêntico — disse Phil Resch. — E, em algum momento, ele foi substituído. — Seu rosto magro de esqualo contorceu-se num esforço para compreender. — Oh... talvez tenham instalado em mim um falso sistema de memória. Talvez eu apenas me lembre de Garland durante esse tempo todo. Mas...— O rosto, um espelho, nesse momento, de sofrimento crescente, continuou a se contorcer e mover-se espasmodicamente — Só andróides se dão bem com falsos sistemas de memória. Verificou-se que são ineficientes em seres humanos.

O elevador parou, as portas se abriram e, à frente de ambos, o pátio de estacionamento da polícia, deserto exceto pelos veículos vazios.
— Este é o meu carro — disse Phil Resch, abrindo um hovercar parado próximo e chamando Rick com um gesto para que entrasse rapidamente. Pôs-se ao volante, deu partida ao motor.

Um momento depois, subiam aos ares e viravam para o norte, de volta à Casa da Ópera. Preocupado, Phil Resch dirigia por reflexos. Sua cadeia de pensamentos, cada vez mais sombria, continuava a tomar-lhe toda a atenção. — Escute aqui, Deckard — disse de repente —, depois que aposentarmos Luba Luft...eu quero que você... — Sua voz, rouca e atormentada, fraquejou.
— Você sabe. Submeta-me ao Teste Boneli ou à escala de empatia que usa. Para descobrir quem sou.
— Podemos nos preocupar com isso depois — sugeriu evasivo Rick.
— Você não quer que eu faça o teste, quer? — Phil lançou-lhe um olhar de aguda compreensão. — Acho que sabe qual será o resultado. Garland deve ter-lhe dito alguma coisa. Fatos que eu desconheço.
— Vai ser difícil, mesmo para nós dois, pegarmos Luba Luft. De qualquer modo, ela é mais do que eu posso dar conta. Vamos manter a atenção focalizada nisso — sugeriu Rick.
— Não são apenas as falsas estruturas de memória — disse Phil Resch. — Eu possuo um animal. Não um falso, mas autêntico. Um esquilo. Eu amo aquele esquilo, Deckard. Todas as drogas de manhãs eu o alimento e mudo os jornais, você sabe, limpo a gaiola, e à noite, quando acabo o trabalho, deixo-o solto no apartamento e ele corre por toda parte. Ele tem uma roda como gaiola. Você já viu um esquilo correndo dentro de uma roda? Ele corre, corre, a roda gira, mas o esquilo continua no mesmo lugar. Mas parece que Buffy gosta disso.
— Acho que os esquilos não são lá muito inteligentes — opinou Rick.
Continuaram a voar em silêncio.


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