sexta-feira, 18 de junho de 2010

Um cântico para Leibowitz - Walter M. Miller, Jr.




O Irmão Francis passou vários meses do seu tempo livre desenhando cópias dos mais antigos impressos da Memorabilia antes de ousar tocar na planta de Leibowitz. De toda maneira, para serem conservados, os velhos desenhos tinham de ser recopiados de dois em dois séculos. Não só os originais desbotavam, como também as cópias ficavam ilegíveis depois de algum tempo, devido à qualidade das tintas que eram empregadas. Não tinha a menor noção do motivo por que os antigos tinham usado linhas e letras brancas sobre fundo escuro, de preferência ao contrário.

Quando ele reesboçava um desenho em carvão, mudando,portanto, o fundo, a figura parecia muito mais real do que o branco sobre o preto, mas os antigos eram imensamente mais sábios do que ele; se tinham posto tinta onde o papel naturalmente seria branco e deixado listras brancas onde,num desenho normal, devia haver um traço de tinta, é que tinham suas razões.

Francis recopiava os documentos de modo que ficassem tanto quanto possível iguais aos originais — apesar de ser enfadonho espalhar toda aquela tinta azul em volta de pequeninas letras brancas e gastar tinta demais, o que fazia gemer o Irmão Horner.

Copiou uma planta arquitetônica, depois o desenho de uma peça de máquina em que a geometria era aparente, mas cuja finalidade era vaga. Recopiou uns números abstratos intitulados "STATOR WNDG MOD 73-A 3-HP 6-P 1800-RPM 5-HP CL-A GAIOLA DE ESQUILO" que eram completamente incompreensíveis e não pareciam de todo capazes de conter um esquilo. Os antigos eram muitas vezes sutis; talvez precisassem de uma série especial de espelhos para ver o esquilo. De qualquer forma, recopiou tudo com o máximo cuidado.

Somente depois que o abade, numa de suas visitas ocasionais à sala dos copistas, o viu ao menos três vezes trabalhando numa outra planta (duas vezes Arkos se detivera para olhar rapidamente o que ele fazia), teve a necessária coragem para procurar a de Leibowitz nos arquivos da Memorabilia, quase um ano depois de haver começado seu labor das horas livres.

O documento original já tinha sido submetido a algum trabalho de restauração. Não fosse o fato de trazer o nome do Beato, era desapontadoramente igual a quase todos os que tinha copiado.

A planta de Leibowitz, outra abstração, não se parecia com nada e nada recordava à razão. Estudou-a até ver aquela espantosa complexidade com os olhos fechados, mas nem assim ficou sabendo nada mais.

Parecia não ser senão uma rede de linhas ligando entre si uma quantidade de sinais sem sentido para Francis. As linhas eram quase todas horizontais ou verticais e cruzavam-se em pontos marcados com um sinal ou um ponto; sempre formavam um ângulo reto para chegar a outro determinado sinal; havia finalmente ainda outros que só apareciam no final das linhas.

Tudo era tão incompreensível que, depois de se olhar fixamente durante algum tempo, ficava-se apatetado. Não obstante, pôs-se a copiar cada detalhe, até mesmo a mancha marrom que havia no centro e que pensou que bem poderia ser o sangue do Beato Mártir, mas que o Irmão Jeris sugeriu ser apenas a mancha deixada por um caroço de maçã apodrecido. O Irmão Jeris, que fora admitido como aprendiz juntamente com o Irmão Francis, pareceu gostar de caçoar com este a respeito do trabalho de sua escolha.

— Por favor — disse, olhando por cima do ombro de Francis —, o que significa " Sistema de Controle Eletrônico para a Unidade 6-B", ilustre irmão?
— É claramente o título do documento — respondeu Francis um pouco irritado.
— Claramente. Mas que significa?
— É o nome do diagrama que está diante de seus olhos, Irmão Simplório. Que significa "Jeris"?
— Muito pouco, estou certo — disse o Irmão Jeris,com ar modesto. — Perdoe a minha pouca inteligência, por favor. Você definiu bem o nome apontando para a criatura que o traz, e que é realmente seu significado. Mas a criatura- diagrama em si mesma representa qualquer coisa, não é mesmo? Que representa ela?
— O Sistema de Controle Eletrônico para a Unidade 6-B, é óbvio.

Jeris riu. — Claríssimo! Eloqüente! Se a criatura é o nome, então o nome é a criatura. "Os iguais podem ser substituídos por iguais", ou "A ordem dos fatores não altera o produto". Podemos passar ao próximo axioma? Se é verdade que "As quantidades iguais a uma mesma quantidade podem substituir umas às outras", então não haverá alguma "mesma quantidade" que tanto o nome quanto o diagrama representem? Ou será um sistema incompreensível?

Francis corou. — Imagino — disse devagar, depois de dominar sua irritação — que o diagrama represente antes um conceito abstrato que algo concreto. Talvez os antigos tivessem um método sistemático para exprimir o pensamento puro. Não se pode reconhecer nesta planta a figura de qualquer objeto.

— Sim, sim, é claro que nada se pode reconhecer — concordou o Irmão Jeris, rindo.
— Por outro lado, talvez exprima um objeto, mas apenas de maneira estilizada e formal. . . de modo que é preciso um treinamento especial ou...
— Olhos especiais?
— Na minha opinião, trata-se de uma alta abstração de valor presumivelmente transcendente que exprime um pensamento do Beato Leibowitz.
— Bravo! E em que estaria ele pensando?
— Mas. . . no "Desenho do Circuito" — disse Francis,lendo o que estava escrito embaixo, à direita.
— Hum-m-m, a que disciplina pertence essa arte, irmão? Qual o seu género, espécie, propriedade e diferença? Ou é apenas um "acidente"?

Jeris estava ficando pretensioso no seu sarcasmo, pensou Francis. Era melhor responder com brandura.
— Bem,observe esta coluna de algarismos e o título: "Números das partes eletrônicas". Houve uma vez uma ciência ou arte chamada eletrônica, que podia ser ao mesmo tempo arte e ciência.
— Ah, sim! Assim temos o "gênero" e a "espécie". E quanto à "diferença"? Qual era o objeto da eletrônica?
— Isso também está escrito — disse Francis, que pesquisara de alto a baixo a Memorabilia na esperança de encontrar pistas que elucidassem o que havia na planta, mas sem muito resultado. — O objeto da eletrônica era o elétron — explicou ele.
— Assim está escrito, realmente. Estou impressionado. Conheço tão pouco essas coisas. E, por favor, o que é elétron?
— Há uma fonte fragmentária que alude a ele como sendo o "interior negativo do nada".
— O quê? Como foi que negaram o nada? Não ficou sendo alguma coisa?
— Talvez a negação se aplique ao interior.
— Ah! Então teríamos um "nada não-initerior", hein? Você já descobriu como se faz isso?
— Ainda não — confessou Francis.
— Então continue a estudar, irmão! Como deviam ser inteligentes esses antigos! Sabiam como fazer o nada ficar não-interior". Persevere, que acabará por aprender. Teríamos então o "elétron" no meio de nós, não é verdade? Que faríamos com ele? Talvez o puséssemos no altar da capela.
— Está bem — suspirou Francis —, não sei. Mas creio firmemente que o elétron existiu, apesar de não saber como era construído e para que servia.
— Você me comove! — riu-se o iconoclasta, e voltou a seu trabalho.

As brincadeiras esporádicas do Irmão Jeris entristeciam Francis, mas não diminuíam sua dedicação ao trabalho.

A reprodução perfeita de todos os sinais, pontos e manchas era impossível, mas a exatidão do fac-símile já era suficiente para enganar os olhos a uma distância de dois passos e, por conseguinte, o bastante para fins de exibição, podendo o original ser selado e guardado. Tendo completado a cópia, o Irmão Francis sentiu-se desapontado. O desenho era cru demais. Nada nele sugeria, à primeira vista, que fosse talvez uma santa relíquia. O estilo era claro e despretensioso — bem de acordo, aliás, com o próprio Beato, e no entanto...

Uma cópia da relíquia não era suficiente. Os santos eram pessoas humildes que não glorificavam a si próprias, mas a Deus; cabia a outros retratar-lhes a glória interior por meio de sinais exteriores e visíveis. A simples cópia não era bastante: desprovida de imaginação, não celebrava de modo visível as santas qualidades do Beato.

Glorificemus, pensou Francis, enquanto trabalhava nos perenes. Estava, naquele momento, copiando páginas dos Salmos para posterior encadernação. Voltou a olhar para o texto e a reparar no significado das palavras — pois, após algumas horas de trabalho, já nada mais lia e apenas deixava que a mão traçasse as letras que lhe caíam sob os olhos. Viu que estivera copiando a oração em que Davi pede perdão a Deus, o quarto salmo penitencial. "Miserere mei, Deus. . . porque conheço a minha iniquidade e o meu pecado está sempre diante de mim." A oração era humilde, mas a página que tinha diante dos olhos não estava escrita em estilo condizente com o texto. O M do Miserere era pintado a ouro. Um arabesco floreado de filamentos dourados e violeta entrelaçados enchia as margens e formava como que ninhos em volta das esplêndidas maiúsculas no início de cada versículo. A oração era humilde, mas a página era magnífica.

O Irmão Francis estava copiando apenas o texto num pergaminho novo, deixando espaços para as maiúsculas iluminadas e margens tão largas quanto as linhas escritas. Outros artífices encheriam de festas de cor a sua simples cópia e construiriam as maiúsculas. Ele estava aprendendo a fazer iluminuras, mas ainda não era bastante proficiente para que lhe confiassem a tarefa de pintar a ouro nos perenes.

Glorificemus. Pensava outra vez na planta.



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