quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Planeta Duplo - Jack Vance


As montanhas Marcativas, entre Fantaeria e Djanad, ao se estenderem para oeste, formam Clarim — uma terra árida, improdutiva e pouco povoada, ainda que, em proporção aos seus recursos, não menos apinhada de gente que a própria Fantaeria.

A extremidade noroeste de Clarim, estendendo-se do cabo Junção até as colinas de Alvião, constituía o território Droad, cuja posse pertencia a Benruth, o Droad da Casa Droad e primeiro da parentela.

Em virtude das rígidas leis de transmissão em Fantaeria, Trewe, o filho mais velho, entraria por fim na posse total da terra. Para Jubal, o segundo filho, o futuro não oferecia perspectivas tão otimistas.

Não obstante, abençoado com um corpo forte e ânimo confiante, Jubal passou uma infância agradável, animada com os banquetes semanais nos quais Benruth obsequiava a família Droad e celebrava a doce fugacidade da existência. Com freqüência, os banquetes tornavam-se tempestuosos. Certa vez, o que poderia ter sido apenas uma brincadeira pesada foi levado longe demais. Benruth bebeu de um frasco de vinho e caiu no chão com cãibras. De imediato, o irmão Vaidro meteu-lhe à força azeite e açúcar goela abaixo, golpeando-lhe em seguida a barriga até ele vomitar, infortunadamente sobre um inestimável tapete djan  , que passou a ostentar depois disso uma nódoa amarela.

Vaidro molhou a língua com uma gota do vinho de Benruth, provou e cuspiu. Não fez comentário; não era preciso.

Benruth sentiu dores por várias semanas, e a palidez persistiu por um ano. Concordaram todos em que a ocorrência transcendera qualquer definição razoável de humor. Quem tinha perpetrado a irresponsável façanha?

As pessoas presentes formavam a família imediata de Benruth: sua mulher Voira; Trewe, em companhia da jovem esposa Zonne e das filhas Merliew e Theodel; e Jubal. Ainda presentes estavam Vaidro; Cadmus de Droad, filho ilegítimo de Benruth com uma moça fantária da parentela Cargus, que passara sua Permissão no cabo Junção; e quatro outros da família Droad, incluindo um certo Rax, bem conhecido por suas gafes e conduta imoderada. Rax negou ser responsável por uma brincadeira tão brutal, mas seus protestos foram ouvidos em silêncio. Rax voltaria à Casa Droad uma única vez, para participar de eventos ainda mais funestos.

Depois disso, os banquetes de Benruth foram tanto menos freqüentes quanto mais contidos. Ele começou a definhar, a perder o cabelo, e morreu três anos após o envenenamento. Cadmus de Droad apareceu no funeral acompanhado de um tal Zochrey Cargus, fantário de expressão finória da cidade de Wysrod, que se apresentou como genealogista e árbitro de heranças litigiosas. Antes mesmo que o cadáver de Benruth tivesse sido deposto sobre a pira, Cadmus se adiantou para proclamar-se Droad da Casa Droad por direito de primogenitura. Zochrey Cargus, subindo no estrado funerário para conseguir um ângulo mais vantajoso, endossou a pretensão e citou inúmeros precedentes. Trewe e Jubal ergueram-se, chocados e estupefatos, mas Vaidro, sem alvoroço, fez sinal a alguns parentes, e Cadmus e Zochrey Cargus foram agarrados e empurrados de lá, Cadmus gritando e praguejando por sobre o ombro. Como Rax Droad, ele voltaria à Casa Droad uma única vez.

Trewe tornou-se o Droad da Casa Droad e Jubal foi seriamente forçado a refletir sobre o futuro. As opções não eram animadoras. Rejeitou de imediato a idéia de mourejar nas fábricas fantárias, mesmo que, como homem diligente e meticuloso, fosse capaz de impor-se no trabalho. Como clarímio, Jubal não poderia progredir nem na Patrulha Aérea nem na Milícia. A Marinha Espacial e o Serviço Salutar   estavam reservados aos descendentes das altas famílias fantárias e, por conseguinte, completamente fechados para ele. Os ofícios especializados não só exigiam anos de disciplina preparatória, como operavam distorções psicológicas sobre seus profissionais. Podia ficar na Casa Droad no posto de meirinho, pescador ou auxiliar de serviços gerais, uma vida não desprezível, mas inteiramente em desacordo com seu amor-próprio. Ele poderia singrar o Longo Oceano num palucho nacional   ou empreender o passo definitivo e irrevogável da emigração  . Cada possibilidade conduzia a becos igualmente sem saída. Impaciente e deprimido, Jubal saiu do país em Permissão.

Da Casa Droad, tomou a estrada que enovelava Goldwater Glen, através das colinas de Alvião, de través pelas Cinco Quedas e até o distrito de Isedel, descendo depois o vale do rio Grafa até Tissano, na costa. Aí ele ajudou a reparar a armação que sustentava uma passagem de pedestres, distribuindo estacas de cinqüenta pés por sobre as rentemarés  até a ilha da Roca Negra. Continuou o caminho leste ao longo da praia Larga, joeirando areia, queimando gravetos e sargaços secos; depois, voltando-se para o interior, percorreu o distrito Kroy, aparando sebes e limpando os prados da erva hariah. Em Zaim, para evitar a cidade de Wysrod, desviou-se para o sul, depois abriu caminho por Drune Tree e Famet.

Em Chilian, cortou árvores de especiarias caídas e trocou as toras com um mercador de madeiras de lei. Seguindo viagem para Athander, trabalhou um mês nas florestas, livrando as árvores dos saprófitos e da pestilência de micróbios e pragas rastejadoras. Passou outro mês consertando caminhos na Baixada Roxa, depois, tomando o rumo sul para as terras altas de Silviolo, chegou à Alta Estrada. Fez aí uma pausa para olhar longamente em ambas as direções. Para o leste, estendiam-se os vinhedos de Dorvolo e novos meses de perambulação. Para o oeste, o caminho galgava as Altas Marcativas, e, correndo paralelamente à fronteira Djanad, reconduzia a Clarim.

Melancolicamente, como se já estivesse entrando no outono da vida, Jubal voltou-se para o oeste.

A trilha levou-o para uma terra de brancos penhascos dolomitas, lagos claros refletindo o céu violeta, florestas de tirso, kil e diakapre. Jubal viajava lentamente, emendando o caminho, podando plantações de cardos, queimando meadas de feixes mortos de galharia. À noite, com medo de desgarrados  e rebentos venenosos, dormia nas estalagens da montanha , onde freqüentemente era o único hóspede.

Abriu caminho através da orla meridional dos distritos Kerkaddo e Lucan, e dirigiu-se para o distrito de Swaye. Agora, somente Isedel o separava de Clarim, e ele vagava cada vez mais pensativo. Chegando à aldeia de Ivo, foi para a Pousada do Fruto Selvagem. O estalajadeiro trabalhava no vestíbulo: um homem comprido, como se tivesse saído de um espelho cômico, impressão realçada pelo topete, que ele usava encerrado num cilindro bordado.

Jubal disse do que precisava; o hospedeiro indicou um corredor.
— A Câmara Ave Canora está pronta para ser ocupada. Jantamos ao segundo gongo; a taverna está à sua disposição até meio serão.

Ele examinou o cabelo cor de poeira de Jubal e logo esfriou:
— Você parece clarímio, e está tudo muito bem, desde que contenha o caráter brigão e não desafie ninguém para provas de coragem ou capacidade.
— O senhor tem uma curiosa opinião sobre os clarímios — disse Jubal.
— Pelo contrário! — afirmou o estalajadeiro. — Se você é corajoso, não está certo o que eu falei?
— Não pretendo lançar desafios — disse Jubal. — Não me interesso por política. Bebo com moderação.
Estou cansado e pretendo me retirar logo após o jantar.

O estalajadeiro balançou a cabeça em sinal de aprovação.
— Muitos o considerariam uma companhia sem graça, mas eu não! Além disso, o fiscal saiu agora mesmo; encontrou uma barata na cozinha e estou farto de arengas.

Pegou um caneco de cerveja, que colocou diante de Jubal, depois tirou outro para si.
— Para relaxar nossos nervos.

Inclinando a cabeça para trás, despejou a cerveja dentro da boca. Jubal contemplou-o, fascinado. As faces cavadas permaneceram cavadas; a garganta ossuda não tremeu nem vibrou. A cerveja desapareceu como se derramada por um poço abaixo. O estalajadeiro largou o caneco e fez uma melancólica inspeção em Jubal.
— Você está viajando em Permissão, então?
— Estou perto de chegar ao fim.
— Eu sairia outra vez amanhã, se minhas pernas agüentassem. Ai de mim, que não se pode ser jovem para sempre! Que novidades soube pelo caminho?
— Nada de importante. Em Lurlock, eles se queixavam da demora das chuvas de verão.
— Imagine você os caprichos da natureza! Semana passada, apanhamos um aguaceiro que destruiu todos os nossos bueiros. O que mais?
— Um desgarrado, em Faneel, matou duas mulheres com uma machadinha. Fugiu para Djanad, nem meia hora antes de minha passagem.
— Djanad está perto demais para nos sentirmos seguros.

O hospedeiro ergueu o braço e apontou um dedo comprido:
— São apenas sete milhas até a divisa! Cada dia, ouço um novo rumor. Djanad não é uma terra tranqüila, como gostaríamos de acreditar! Já pensou que eles são vinte para cada um dos nossos? Se todos fossem "solitários" em conjunto, seríamos carne-seca em poucas horas. E não é falta de sensibilidade o que os faz desistir... Não se deixe enganar pela cortesia deles.
— Mas eles seguem os outros — disse Jubal. — Nunca tomam a dianteira.
— Olhe lá longe! — disse o estalajadeiro, apontando através do batente da janela para a massa monstruosa de Skay. — Há os líderes! Eles descem em espaçonaves, aterrissam praticamente em nossas fronteiras. Eu considero isso uma clara provocação.
— Espaçonaves? — perguntou Jubal. — O senhor as viu?
— Meu djan me traz notícias.
— O djan lhe dirá o que muito bem entender.
— Até certo ponto. Eles são confusos, concordo, e levianos também, mas não são dados a fantasias inventivas.
— Não podemos controlar os saidaneses. Se resolveram visitar Djanad, como impedi-los?
— Os servos devem ter tirado suas conclusões — disse o estalajadeiro — e eles não vieram me avisar de nada. Quer mais cerveja? Ou já está pronto para o jantar?

Jubal jantou, e depois, por falta de melhor entretenimento, foi para a cama.

A manhã estava luminosa, brilhante. Partindo da estalagem, Jubal atingiu uma terra de reluzentes penhascos brancos e ar fresco com aroma de tirso umedecido e garoa. Duas milhas a oeste de Ivo, na encosta meridional do monte da Alface Brava, a trilha chegou ao fim, varrida por um deslizamento de pedra.
Jubal inspecionou o estrago, depois voltou para Ivo. Lá, recrutou três djans, tomou ferramentas emprestadas ao feitor e, voltando ao monte, pôs-se a trabalhar.

Não se tinha encarregado de tarefa banal. Um muro de sustentação, de pedras irregulares encaixadas umas nas outras, do comprimento de setenta pés com cinco a dez pés de altura, fora arrastado trezentos pés ladeira abaixo e se reduzira a uma pilha de pedras pontiagudas.

Jubal pôs os djans trabalhando num novo alicerce, depois cortou quatro tirsos retos, com os quais construiu um guindaste grosseiro, pendendo sobre o barranco. Depois que o alicerce foi cavado, os quatro homens levaram pedras para o declive e começaram um novo muro.



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