terça-feira, 22 de junho de 2010

Os Guardiões do Tempo - Poul Anderson



PRECISA-SE DE HOMENS - 21-40, pref. solteiro, exp. milit. ou téc, bom físico, para trabalho bem pago com viagens ao exterior. Engineering Studies Co., 305 E. 45, 9-12 & 2-6.


- O trabalho é, bem, o senhor entende, um tanto incomum - disse o senhor Gordon. - E confidencial. Acredito que o senhor possa guardar um segredo, não?
- Normalmente, sim - disse Manse Everard. - Depende do que consiste o segredo, claro.

O senhor Gordon sorriu. Foi um sorriso curioso, uma curva fechada dos seus lábios, que em nada se parecia com o que Everard já havia visto antes. Ele falava tranqüilo o americano coloquial do povo e trajava um terno simples, mas havia algo estranho nele, algo que era mais do que tez escura, as faces imberbes e a incongruência dos olhos mongóis sobre um fino nariz caucasiano. Era difícil de definir.

- Nós não somos espiões, se é o que o senhor está pensando - disse ele.
Everard sorriu malicioso.
- Perdão. Por favor, não pense que fiquei tão histérico quanto o resto do país. Em todo caso, nunca tive acesso a informações confidenciais. Mas seu anúncio classificado mencionava operações além-mar e pelo jeito das coisas... eu gostaria de conservar o meu passaporte, o senhor compreende.
Ele era um homem corpulento, com ombros atarracados e um rosto ligeiramente esgotado sob cabelos castanhos, cortados curtos. Seus documentos estavam diante dele: baixa do Exército, e registro de trabalho em diversos lugares como engenheiro mecânico. O senhor Gordon parecera mal ter passado os olhos por eles.

O escritório era comum, uma escrivaninha e um par de cadeiras, um arquivo e uma porta dando para os fundos. Uma janela abria-se para o barulhento tráfego de Nova York, seis andares abaixo.
- Espírito independente - disse o homem atrás da escrivaninha. - Gosto disso. Alguns entram aqui bajulando, como se tivessem que sentir-se agradecidos por um pontapé no traseiro. Naturalmente que, com sua experiência, você ainda não está desesperado. Você ainda pode trabalhar, até mesmo em... ah, acredito que o termo corrente é reajustamento de rodízio.
- Eu estava interessado - disse Everard. - Já andei trabalhando no estrangeiro, como o senhor pode ver, e gostaria de viajar de novo. Mas, francamente, eu ainda não tenho a menor idéia do que a sua equipe de trabalho faz.
- Fazemos muitas coisas - disse o senhor Gordon. - Deixe-me ver... você já esteve em combate. França e Alemanha. - Everard pestanejou; seus documentos incluíam anotações sobre medalhas, mas ele seria capaz de jurar que o homem não havia tido tempo para lê-las. - Hum... você se importaria em apertar esses botões nos braços de sua cadeira? Obrigado. E agora, como você reage aos perigos físicos?
Everard eriçou-se.
- Olha aqui...

Os olhos do Sr. Gordon desviaram-se para um instrumento em sua escrivaninha: era apenas uma caixa com uma agulha indicativa e um par de mostradores.
- Não tem importância. Qual a sua opinião sobre o internacionalismo?
- Olha, agora...
- Comunismo? Fascismo? Mulheres? Suas ambições pessoais...? Isso é tudo. Você não precisa responder.
- Mas que diabo é isto? - vociferou Everard.
- Um pouco de teste psicológico. Esqueça! Não tenho interesse em suas opiniões, exceto quando elas refletem uma orientação emocional básica. - O Sr. Gordon recostou-se no espaldar da cadeira, formando uma ponte com os dedos. - Muito prometedor, até aqui. Bem, agora vamos ao esquema da coisa. Estamos realizando um trabalho, como eu já lhe disse, altamente confidencial. Nós... ah... estamos planejando uma surpresa para nossos competidores - ele deu uma gargalhada. - Vá em frente e apresente-me ao FBI, se assim o desejar. Nós já fomos investigados e temos um atestado de saúde bem limpo. Você descobrirá que nós realizamos de fato operações financeiras e de engenharia pelo mundo inteiro. Mas há um outro aspecto do trabalho e este é o único para o qual estamos precisando de homens. Pagarei a você cem dólares para ir ao quarto dos fundos e realizar uma série de testes. Isso vai demorar cerca de três horas. Se você não passar, será o fim de tudo. Caso você passe, nós o contrataremos, diremos os fatos e começaremos o seu treinamento. Está pronto para o combate?

Everard hesitou. Tinha a sensação de estar sendo precipitado. Havia mais coisas naquele empreendimento do que um escritório e um desconhecido gentil. Entretanto...
Decisão.
- Assinarei o contrato depois que o senhor me tiver dito que negócio é esse.
- Como quiser - o Sr. Gordon encolheu os ombros com desdém. - Faça como você quiser. Os testes irão dizer se você passa ou não, você sabe. Nós usamos algumas técnicas muito avançadas.

Isto, pelo menos, era inteiramente verdadeiro. Everard conhecia um pouco sobre a psicologia moderna: encefalográficos, testes de associação, o perfil de Minnesota. Ele não reconheceu nenhuma das máquinas cobertas que zumbiam e piscavam em volta dele. As perguntas que o assistente - um homem de tez branca, completamente calvo, de idade indeterminada, com um sotaque carregado e sem nenhuma expressão facial - despejou em cima dele, pareciam irrelevantes para qualquer coisa. E que era aquele capacete metálico que ele presumia que usaria na cabeça? Aonde iriam os fios que dele saíam?

Ele lançou olhares furtivos para os medidores das faces, mas as letras e algarismos não se assemelhavam a nada que ele já houvesse visto antes. Não era inglês, francês, russo, grego, chinês, qualquer coisa que pertencesse a 1954 DC. Talvez ele já estivesse começando a compreender a verdade, mas mesmo neste caso...

Um estranho autoconhecimento florescia nele à medida que os testes seguiam. Manson Emmert Everard, 30 anos, ex-tenente do corpo de engenheiros do Exército dos EUA; experiência em projeto e produção na América, Suécia, Arábia; ainda solteiro, apesar de pensamentos de inveja crescente com relação aos amigos casados; nenhuma namorada atual, nenhum laço estreito de nenhum tipo; um pouco bibliófilo; um jogador de pôquer incorrigível; predileção por veleiros, cavalos e rifles; um aficionado de acampamentos e pescarias em épocas de férias. Ele já sabia disso tudo, naturalmente, mas apenas como fragmentos isolados da realidade.

Era bem peculiar aquela percepção súbita de si mesmo como um organismo integrado, a compreensão de que cada característica era uma única faceta inevitável de um modelo global.

Ele saiu exausto e ensopado de suor. O Sr. Gordon ofereceu-lhe um cigarro e lançou os olhos rapidamente sobre uma série de folhas em código que o assistente lhe deu. Vez por outra, ele resmungava uma frase:
- ... zete-20 cortical... avaliação indistinta aqui... reação psíquica à antitoxina... debilidade na coordenação central... - ele deixara escapar um sotaque, uma certa cadência e um tratamento de vogais, que em nada se assemelhavam com o que Everard já havia ouvido em sua longa experiência dos caminhos pelos quais o idioma inglês pode ser mutilado.

Passou-se meia hora antes que ele tornasse a levantar os olhos. Everard tornara-se inquieto, uma leve raiva mesclava-se ao tratamento descortês, mas o interesse manteve-o sentado calmamente. O Sr. Gordon deixou os dentes incrivelmente brancos reluzirem em um largo e satisfeito sorriso.

- Ah! Até que enfim. Você sabe que já fui obrigado a rejeitar vinte e quatro candidatos? Mas você servirá. Definitivamente, você serve.
- Servir para quê? - Everard inclinou-se para frente, consciente de que seu pulso se acelerava.
- Para a patrulha. Você será uma espécie de policial.
- É? Onde?
- Por toda parte. E a qualquer hora. Fique firme, isto será um choque. Você sabe, a nossa companhia, embora seja legalmente instituída, é apenas uma fachada e fonte de recursos. Nosso verdadeiro negócio é o patrulhamento do tempo.


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