quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Terror Rithiano - Damon Knight

Um monstro estava à solta, escondido num ponto qualquer da cidade. Thorne Spangler, apoiado no encosto macio da limousine, deixou que sua mente se concentrasse no assunto, com a satisfação de uma criança comendo um pedaço de doce.

Imaginou o monstro a caminhar numa rua iluminada, ou sentado em algum quarto de hotel barato, com os tentáculos enrolados debaixo do invólucro que o fazia parecer um homem - ou uma mulher - esperando. Em sua volta, a vida da cidade continuava despreocupada: - Jeff! Você já ouviu? Estão parando todos os carros.

Deve ser por causa de um espião... Minha irmã quis tomar um avião para sair de Tucson, mas não permitiram que embarcasse... Meu primo que trabalha no espaçoporto me disse que nada pode entrar ou sair, só espaçonaves militares. Deve ser um caso importante.

O monstro, alerta, ouvia tudo e percebia que a rede estava se apertando em sua volta.

Spangler achou que a tensão estava aumentando: pairava no ar, nas ruas estranhamente vazias. Era ate possível ouvi-la: o silencio começava a sobrepujar o costumeiro zunido de colméia - um silencio em passo de espera, que convidava a parar e a segurar o fôlego.

Spangler observou Pembun, sentado tranqüilo ao seu lado. Será que ele esta percebendo? - pensou. Afirma-lo seria impossível: ninguém conseguia adivinhar os pensamentos de um colonial. Achou que provavelmente desejava estar em seu próprio planeta atrasado, longe de todas estas confusões do Universo.

Para Spangler, o acontecimento representava o ponto alto de sua vida. O monstro - que era um Rithiano - era apenas o catalisador, como uma pedra lançada a superfície tranqüila da água. O fato mais importante era que naquele momento e pelo tempo necessário a operação, todo o imenso mecanismo do Império Terrestre revolvia em volta de uma minúscula esfera: o Departamento de Segurança Terrestre, Distrito Norte-Americano, Setor Sudoeste. Durante este breve período um único homem, Spangler, era mais importante que qualquer outro dentro da Administração do Império.

O carro desacelerou e parou.
Dois homens fardados, com as calcas cinza - perola da patrulha urbana, estavam barrando o caminho com as armas automáticas apontadas.

Atrás deles, o vulto achatado de uma Unidade de tiro tomava a metade do leito da rua.
Outros dois patrulheiros se aproximaram, abriram as quatro portas e arredaram ate uma posição de fogo cruzado.

- Todo mundo para fora - falou o patrulheiro com os galões de sargento. - Revista de segurança. Depressa!
Quando Spangler passou em sua frente, o sargento colocou a mão no peito: - Boa-noite, Comissário.
- Sargento - respondeu Spangler com voz tranqüila, sem se dar ao trabalho de olhar diretamente para o militar.

Ao mesmo tempo, levou Pembun e o motorista para o fim da fila.
Enquanto a fila avançava, Spangler se virou e viu que Pembun esticava o pescoço pela curiosidade.
- Aquilo e um fluoroscópio estereóptico - explicou Spangler com ar de superioridade.
- Os Rithianos não podem se submeter a um teste deste tipo, mesmo que seu disfarce humano seja perfeito.

Temos uma dessas estações no cruzamento de cada décima avenida e cada quinta rua transversal. Se o Rithiano passar por um fluoroscopio será logo reconhecido. Se ele não passar, vamos encontrá-lo durante as revistas domiciliares. Não poderá escapar.

Spangler se colocou entre a tela e os dois projetores bulbosos e observou na tela a imagem tridimensional de seu próprio esqueleto. A mancha quadrada no pulso esquerdo e a outra mancha menor correspondiam ao seu comunicador e seu relógio de polegar. As outras manchas de formas diversas, mais embaixo, eram objetos metálicos no bolso de seu cinto - projetores de chaves, calculador, memocubos e coisas assim.

O técnico que se encontrava acima dos projetores, falou: - Vire-se. Certo. O próximo.

Spangler esperou por Pembun, parado ao lado do carro. O rosto largo do homem baixinho, com seu nariz achatado, mostrava surpresa, um certo interesse e mais alguma coisa que Spangler não chegou a definir.

- Como foi que o senhor conseguiu juntar tantos fluoroscópios portáteis em tão pouco tempo? - perguntou com seu sotaque caipira.
- Não e milagre, Sr.Pembun, somente o resultado de cuidadosos preparativos.
Estes fluoroscopios foram armazenados em 2018 e guardados até agora, em vista de uma emergência como a atual.
- Quinhentos anos! - exclamou Pembun, admirado. - Puxa! E esta e a primeira vez que vocês tiveram que usá-los?
- A primeira vez - confirmou Spangler e acenou para que Pembun subisse na limousine. Depois de entrar também, continuou:
- Bastou uma meia hora para estabelecer uma rede completa. Os planos pormenorizados de toda a operação também estavam guardados como os fluoroscopios. Só precisei mandar busca-los no arquivo.

O carro passou pelo posto de bloco.
- Que coisa! - voltou a murmurar Pembun. - Tenho a impressão de ser uma espécie de nariz sobressalente. - Na semi-escuridao seus olhos brilharam.
- Como foi que disse? - perguntou Spangler.
- Quero dizer - explicou Pembun - que acho que o senhor esta realmente precisando de mim.

Spangler pensou que aquele sotaque grosseiro acabaria por irritá-lo. Afinal, aquele homem recebera uma educação terrestre; por que não falava de maneira civilizada?
- Acredito que suas opiniões poderão trazer um beneficio incalculável, senhor Pembun - disse em tom diplomático... - Afinal, não temos ninguém aqui que já... teve algum contato amistoso com os Rithianos.
- Pois e, eu quase esqueci - concordou Pembun. - Estamos tão acostumados com os Rithi que a gente quase não se lembra que a Terra nunca travou relações comerciais com aquele povo. - Pronunciou "Rithi" de maneira esquisita, com um som fricativo entre o z e o s, e a ultima vogal acentuada. Spangler imaginou que esta forma era mais fácil que "Rithiano", o termo usado em Inglês Padronizado

Provavelmente Pembun falava o idioma Rithiano com a mesma facilidade que o inglês.

Spangler tentou imaginar como ele próprio viveria no mundo de Pembun, no meio de uma rale que descendia de meia dúzia de grupos diferentes, abaixo do padrão, emigrados da Terra ha. seis séculos.

Haitianos, Africanos ocidentais francofones, Jamaicanos, Porto-riquenhos Gente de pouca instrução, de olhar embrutecido, mulherengos, preguiçosos, beberrões e briguentos, que falava um idioma inacreditável, resultado da corrupção de inglês, francês e castelhano vernacular.
Eram mesmo coloniais - não de nome, mas de fato.


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