segunda-feira, 21 de junho de 2010

Um Estranho Numa Terra Estranha - Robert A. Heinlein



Era uma vez um marciano chamado Valentine Michael Smith.

A primeira expedição a Marte foi selecionada com base na teoria que considera que o maior perigo para o homem é o próprio homem.

Nessa época, oito anos terrenos após a fundação da primeira colônia humana na Lua, resolveu-se realizar uma viagem interplanetária feita por humanos em órbitas de queda livre: da Terra a Marte, duzentos e cinqüenta e oito dias para a viagem de ida, o mesmo para o regresso, mais quatrocentos e cinqüenta e cinco dias de espera em Marte, enquanto os planetas reocupavam lentamente as posições para a órbita de regresso.

Só reabastecendo-se numa estação espacial é que a nave Envoy poderia fazer a viagem. Depois de chegada a Marte poderia voltar — se não se esmagasse no solo, se encontrasse água para reabastecer os seus tanques de reação, se um sem-número de coisas não corresse mal.

Oito humanos, convivendo juntamente durante quase três anos terrestres, tinham de se dar muito melhor do que aquilo que é habitual nos humanos. Uma tripulação constituída apenas por homens foi vetada, por ser considerada pouco saudável e instável. Quatro casais casados foi considerado ótimo, se se conseguissem encontrar as especialidades requeridas em tal combinação.

A Universidade de Edimburgo, contratador principal, sub-contratou o Instituto de Estudos Sociais para selecionar a tripulação. Depois de pôr de lado numerosos voluntários, devido à sua idade, saúde, mentalidade, grau de instrução ou temperamento, o Instituto ficou com nove mil possíveis candidatos.

As especialidades requeridas eram: astro navegador, médico de clínica geral, cozinheiro, maquinista, comandante de nave, semântico, engenheiro químico, engenheiro eletrônico, físico, geólogo, bioquímico, biólogo, engenheiro atômico, fotógrafo, técnico de culturas hidropônicas, engenheiro de foguetes.

Havia centenas de possíveis combinações de oito voluntários possuindo estas especialidades; depois se transformaram em três combinações de casais — mas, em todos os três casos, os psicólogos que avaliavam os fatores de compatibilidade levaram as mãos à cabeça, horrorizados. O contratador principal sugeriu baixar o nível-padrão de compatibilidade; o Instituto ofereceu-se para devolver os seus parcos honorários.

Os computadores continuaram a rever os dados que se iam alterando devido a mortes, desistências, novos voluntários. O capitão Michael Brant, M. S., comodoro D. F. Reserve, piloto e veterano de trinta das viagens à Lua, levava uma certa vantagem no Instituto. Várias pessoas procuravam para ele nomes de mulheres solteiras que pudessem (juntamente com ele) completar uma tripulação, depois juntavam estes nomes ao dele e introduziam-nos nos computadores para determinar quando é que uma dessas combinações seria aceitável. Isto resultou no seu vôo para a Austrália para ir propor casamento à Dra. Winifred Cobum, uma solteirona nove anos mais velha do que ele.

Depois de se apagarem e acenderem muitas luzes e depois de muitos cartões emitidos pelas máquinas, encontrou-se uma tripulação:

Capitão Michael Brant, no comando: piloto, astro navegador, segundo-cozinheiro, segundo-fotógrafo, engenheiro de foguetes; Dra. Winifred Cobum, quarenta e um anos, semântica, enfermeira, oficial de armazém, historiadora; Sr. Francis X. Seeney, vinte e oito anos, oficial executivo, segundo-piloto, astro navegador, astrofísico, fotógrafo; Dra. Olga Kovalic Seeney, vinte e nove anos, cozinheira, bioquímica, técnica de culturas hidropônicas; Dr. Ward Smith, quarenta e cinco anos, físico e cirurgião, biólogo; Dra. Mary Jane Lyle Smith, vinte e seis anos, engenheira atômica e eletrônica e técnica de energia; Sr. Sergei Rimsky, trinta e cinco anos, engenheiro eletrônico, engenheiro químico, maquinista e operador dos instrumentos de bordo, criologista; Sra. Eleanora Alvarez Rimsky, trinta e dois anos, geóloga e selenóloga, técnica de culturas hidropônicas.

A tripulação possuía todas as especialidades requeridas, tendo algumas delas sido adquiridas através de um intenso treino durante as semanas que antecederam a partida.

Mas ainda mais importante que isso: eram mutuamente compatíveis.

O Envoy partiu. Durante as primeiras semanas os seus relatórios eram recolhidos por radiouvintes privados. À medida que os sinais se iam tornando mais fracos, eram retransmitidos pelos satélites terrestres.

A tripulação parecia saudável e bem disposta. As impigens eram a coisa mais grave que o Dr. Smith tinha de tratar: a tripulação estava habituada à queda livre e as drogas anti-náusea deixaram de ser necessárias a partir da primeira semana. Se o capitão Brant tinha problemas de disciplina, não os comunicava.

O Envoy atingiu uma órbita de estacionamento dentro da órbita de Fobos e passaram duas semanas em vigilância fotográfica.

Então o capitão Brant radio difundiu:

«Aterraremos amanhã a 1200 T. S. G. (Tempo sideral de Greenwich) ao sul do Lacus Soli.»

Não foi recebida mais nenhuma mensagem.



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