quinta-feira, 29 de julho de 2010

As Exterminadoras - Edmundo Cooper



Estava uma linda manhã de Estio - perfeita para o Dia da Exterminação.

Rura tinha o carro flutuador a média elevação, para uma duração média de viagem, elementos que se adequavam quase exatamente aos escarpados vales de Cumberland. Cento e cinquenta quilômetros à hora, um metro acima do solo. Àquela velocidade não era provável ter quaisquer surpresas pelo caminho. Tinha muito tempo para chegar às Terras Altas da Escócia e fazer derramar sangue antes do anoitecer.
De qualquer modo, o detector de caça que girava preguiçosamente sobre a sua cabeça podia apontar a existência de alvos convenientes muito antes de chegarem às Terras Altas.

Alguns dos rebeldes aventuravam-se já a avançar para sul.
Rura estava cansada. Assim estavam, provavelmente, as suas companheiras, Moryn e Olane. A tradicional orgia da véspera da exterminação tinha este ano batido todos os recordes. Sem dúvida entraria para a história da Universidade como uma das maiores do século XXV. Rura lembrava-se ainda de ter feito amor com três moças.
Depois disso, as coisas tornavam-se confusas. Sabiam as deusas quantas moças a tinham então amado.
Agora, o carro flutuador sibilava ao longo da encosta de Windermere. A luz do Sol inclinava-se sobre os baldios, transformando montes, rochedos e charnecas em texturas de infinita beleza. Num dia destes... Num dia destes, pensou Rura, como era fastidioso ter de ir caçar homens e borrar-se no seu revoltante sangue. Mas a tradição era a tradição. O Dia da Formatura na Universidade das Exterminadoras tinha sempre incluído este derrame de sangue simbólico. Era uma afirmação de fé e marcava o fim de dois anos de intensiva aprendizagem e treino.

«Mais duas semanas», pensou Rura, «e terei vinte anos. Terei direito à plena Condição de Mulher. Passarei a usar a caveira de ouro e os ossos cruzados, símbolos de uma exterminadora qualificada. As mulheres desejar-me-ão. E eu poderei escolher.»

Rura sentiu o peso da culpa. Devia estar feliz. Mas sentia-se culpada. Culpada por que não estava feliz? Então por que não estava feliz? Não sabia. Tentou lembrar-se das moças que abraçara e com quem fizera amor. Tentou lembrar o largo olhar de surpresa estampado nos olhos delas. Tentou lembrar-se de lábios, seios, toque, intimidade, dádiva e aceitação. Mas só conseguia trazer à mente o vazio. Talvez tivesse
andado a trabalhar de mais.
- Dirige para a água! - disse Moryn. - Querida, dirige para a água. Vamos fazer um vale de espuma sob a luz do Sol. Deixemos atrás de nós uma pista para assinalar o Dia da Exterminação!
Rura sorriu e fez rodar o carro de utilização terrestre para o lago. Tinha sido um lago calmo, assim como um lençol de vidro. Mas agora o jato de ar do carro flutuador retalhava-o, erguendo e abandonando atrás de si pulverizadas paredes de água, através das quais o Sol construía efémeros arco-íris.

Olane olhou para trás, para a esteira que morria.
- Escrevemos na água, escrevemos no ar - disse ela de modo estranho. - Mas nenhuma de nós escreverá na rocha!
Olane era uma das moças que Rura tinha beijado e abraçado e levado ao êxtase na véspera da exterminação , Rura lançou-lhe um olhar rápido, viu a tristeza nos seus olhos e, no mesmo instante, sentiu-se deprimida.
- Olane querida, não podemos viver para sempre!
- Às vezes - disse Olane - acho que não podemos viver, muito simplesmente.
Moryn sentiu a melancolia no ar e quis combatê-la com uma instantânea excitação.
- Tenho aqui comigo uma garrafa de brande! - disse ela. Bebamos a um bom derrame de sangue!
Rura estava surpreendida.
- O álcool é estritamente proibido no Dia da Exterminação. Podemos ser expulsas.
- Quem poderá vir a saber? Haverá sangue nos nossos rostos e a garrafa de brande estará bem no fundo de qualquer lago escocês. Bebamos e alegremo-nos porque hoje... nós matamos.
Rura verteu o seu brande logo que se afastou de Windermere e se elevou sobre as montanhas. Ao todo, havia cinco carros flutuadores e quinze novatas na caçada. Mas não havia nenhum outro carro à vista agora. Apenas o detector de caça, circulando e flutuando como uma ave de rapina que realmente era. A tenente Kayt estava à frente do detector. Corriam rumores de que ela podia farejar um homem a cinco quilômetros
de distância.
Olane estava a embebedar-se de brande.

- Queridas, não me julguem pateta, mas eu estou com medo do sangue. Não sei porquê. Estou só com medo.
Moryn beijou-a.
- Doçura, não há de que ter medo. Falo a sério. Não há nada que recear. Aqueles porcos não têm senão espadas, facas e lanças. Talvez bestas, se estiverem com sorte. Nós temos granadas, temos gás e temos pistolas laser. Assim, o que é que nos pode magoar?
- Talvez nós próprias. Talvez sejamos nós a magoar-nos.
- Não sejas tonta. Odeias os homens?
- Claro que odeio os homens!
- Então não há problema. Kayt vai dar-nos um belo alvo. Pintamo-nos com o sangue deles e vamos para casa. E é o fim do Dia da Exterminação. O fim de dois duros anos.
- Dois anos! - suspirou Olane. - Eu nunca quis realmente ser uma exterminadora.
Mas a minha mãe tinha ambições para mim. Foi isto que ela sempre desejou.
Moryn ergueu o sobrolho .

- Tens uma mãe de útero? - perguntou.
- Não sejas tão felina! - censurou Olane desabridamente. Sabes bem que eu nasci por reprodução assexuada: um bebê entre quatro. Mas não faz qualquer diferença.
Continuo a pensar em Siriol como minha mãe. .
- Ela é apenas tua superior no processo de reprodução!
- Irra! Ela é minha mãe!
- Meninas! Meninas! - Rura tentava serenar os ânimos. - Vão discutir precisamente hoje, entre todos os dias?
Moryn serviu-se de mais brande.
- Desculpa, querida. Se queres que Siriol seja a tua mãe, ela será a tua mãe.
Olane estava arrependida e envergonhada.
- A culpa foi minha. Não devia ser tão susceptível. Vou sentir--me melhor logo que termine esta miserável sangria...
- Vou chamar a Kayt - disse Rura. - Quero saber o que está acontecendo.
Rura rodou o botão do receptor e falou com o detectar de caça.
Nos assentos traseiros do carro flutuador, Moryn e Olane descansavam, bebiam brande, observavam as montanhas e as charnecas de Cumberland cruzando-se como relâmpagos.. Olhando em frente na direção da Escócia, elas estavam impacientes por chegar aos Planaltos do Sul - os começos da região rebelde. Terra de porcos.
- A Kayt diz que os outros quatro carros estão cerca de dez quilômetros à nossa frente - transmitiu Rura às outras.
- Raios! Vão fazer sangue antes de nós! - Moryn olhou para o mapa. - Rura, vamos tomar um atalho. Pede permissão a Kayt para sobrevoarmos Solway Firth. Se formos por rota marítima podemos ganhar cinquenta quilômetros.
Rura conferiu os dados com o detector.
- Permissão concedida. Mas Kayt diz que tem de ficar com os outros quatro carros.
Se houver alguns alvos antes do encontro geral nos Planaltos do Sul, os outros terão direito sobre eles.
- Pff! Ora, nós encontraremos os nossos próprios alvos. Podes ir a direito através de Solway e pôr-nos meia hora à frente das outras. Já estaremos sangradas quando o resto da equipe lá chegar. E além disso o mar vai estar uma maravilha esta manhã.

Bebam mais um pouco de brande.
- Não, muito obrigada! - Rura foi peremptória. - Eu tenho de pilotar esta coisa. Se o sangue nas nossas faces viesse a ser o nosso próprio, seríamos o motivo de riso de toda a Londres.
Rura rodou o carro numa curva apertada, erguendo-o acima dos milhares de metros de altura de Skiddaw. Estava uma manhã bem clara. Quinze quilômetros à frente quedava-se o mar, cegando de tão inundado pela luz do Sol - belo...

Com Skiddaw para trás de si, Rura carregou no acelerador. O carro flutuador saltou para a frente a cento e oitenta quilômetros por hora. Duzentos. Duzentos e vinte. Velocidade máxima, alta elevação média. Era maravilhoso correr assim numa coluna de ar até ao mar.
Estava um dia de ouro! Que pena ter que o desperdiçar com a morte, ainda que apenas com a morte de um homem.
- A Deusa seja louvada! - berrou Moryn bebendo mais brande. - A Deusa seja louvada!
Nós somos o escol, as invencíveis, as imortais. Neste dia, hoje, homens vão morrer às nossas mãos. Eu sei! Recordaremos para sempre este dia.
O mar não era aqui tão calmo e liso como em Windermere. Mas era um mar agradável, com a mais leve das ondulações. O carro flutuador mergulhou um pouco, mas ninguém se sentiu nauseado. O mar era ouro e o azul hipnotizava.
Olane começou a chorar quando despontou à sua frente a costa da Escócia.
- Não quero matar ninguém! - soluçou ela. - O dia está lindo de mais para matar!
- Não vais matar ninguém! - disse Moryn. - Só vais matar homens. Um homem.
Um homem não é nada. Um homem é um animal. Queres que um animal se deite em cima de ti? Queres que ele te force a abrir as pernas, te morda os seios, te encha o ventre com a semente da destruição?
- Não! Não! Não!
- Então ouve-me, garota! Vamos encontrar o nosso animal. Vamos caçá-lo e matá-lo!
Vamos sentir o seu sangue sobre as nossas faces. E depois, regressaremos a Londres como conquistadoras, como verdadeiras mulheres. Seremos livres de espírito e de coração. Já teremos destruído o grande conto-do-vigário, a degradação de milhões de anos!
- Eu não quero matar!
- Descansa e acalma-te! Rura e eu faremos a matança!
Rura disse então:
- Sigo este rio ou volto na direção este para o encontro com as outras?
Moryn olhou para o mapa.
- São só trinta ou quarenta quilômetros fora do nosso caminho. Segue o rio. Os homens precisam de água fresca e - por esta vez nós precisamos de homens


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