sexta-feira, 30 de julho de 2010

Fenda no Tempo - Gerald C, Izaguirre



A noite descia triste, chuvosa e escura, com nuvens negras que pressagiavam a continuação, ainda por algumas horas, de muita chuva. A água, rebrilhando no piso plástico da estrada que era iluminada pelo feixe de luz, à passagem do veículo, logo voltava ao seu negrume e à sua quietude.

O homem sentado à direção do veículo pensava qual seria a melhor forma de iniciar a inverossímil história que naquela noite deveria contar, já que não poderia ocultar por mais tempo toda aquela sucessão de fatos.

Precisava de alguém que o ouvisse, Que fosse suficientemente seu amigo e que nele acreditasse de forma a compartilhar daqueles estranhos acontecimentos, como também orientá-lo em alguns pontos que ainda permaneciam nebulosos em toda aquela trama.

Enfim, em poucos minutos estaria estacionando seu veículo, na moradia do Dr. Meilli, seu amigo de muitos anos, a quem relataria toda sua história.
Assim pensando, Cidhar Dim sentia-se um pouco mais calmo e confiante e por isso quando foi recebido por Meilli, sua fisionomia apresentava-se calma e sorridente.
O Dr. Meilli, encaminhando Cidhar para dentro do seu escritório, ia dizendo:
— Já estava imaginando que você cancelaria sua vinda, em virtude da chuva torrencial que neste momento desaba nesta região.
A resposta de Cidhar foi incisiva:
— Por nada deste mundo deixaria de vir hoje conversar com você, pois, tenho um relato muito importante a ser feito e que jamais poderia constar de qualquer relatório oficial da minha vida profissional.
— Se o assunto é tão sério assim pedirei que não nos interrompam, sob qualquer pretexto.

Nesse momento, o visio-comunicador emitiu o seu tic-tac característico durante alguns segundos e logo depois apareceu no vídeo do aparelho, o código de quem estava chamando. Imediatamente, pela lateral saiu uma tira de papel que foi cortada automaticamente. O Dr. Meilli, com um olhar significativo a Cidhar recolheu a ficha para ler seu conteúdo. Depois de um momento, disse a Cidhar:
— Tenho que atender, pois, trata-se do Prof. Luogui, do observatório astronômico Lunar; deve ser muito importante a sua comunicação, pois, para chegar até o meu visio-comunicador ele teve que usar um canal de satélite e um canal de uma estação terrena de recepção. Vou responder:

Manipulando dos botões do visio-comunicador, Meilli fez com que aparecesse no vídeo a fisionomia do prof. Luogui que foi logo dizendo:
— Suponho que você está sozinho no seu escritório, pois, o que tenho a dizer é altamente confidencial.
O Dr. Meilli não hesitou em dizer:
— Estou acompanhado de um alfa especial cujo nome é Cidhar Dim, do Instituto Eclético e agente do governo; se você desejar, ele deixará este escritório, enquanto estamos em comunicação.
— Conheço o nome desse agente, porém não o conheço pessoalmente; ele poderá ouvir nossa comunicação, desde que venha para frente do vídeo, pois, assim poderei identificá-lo em outra oportunidade.

Com um movimento de cabeça, Meilli convidou Cidhar a sentar-se ao seu lado, de forma a também ele aparecer no vídeo.
O prof. Luogui fixou longamente a fisionomia de Cidhar, como que procurando uma completa fixação mental da sua fisionomia e depois continuou dizendo:
— O que vou dizer é completamente confidencial e extraoficial, pois não consta — pelo menos por enquanto — em nenhum relatório oficial.

“Há quatro noites terrestres — aqui estamos completando a décima noite lunar — que estou a postos junto ao nosso computador para escuta extra-solar. Este é um trabalho de rotina e até cansativo, pois, o tempo passa e o terminal do computador permanece inativo através de meses e meses sem apresentar sequer uma novidade.
“Entretanto, há quatro noites e sempre à mesma hora ele sai da sua inatividade e vai imprimindo no papel uma série de letras que no final não compõem uma palavra sequer. A sensação que tenho é que um psicopata avariou nosso computador, fazendo uma estúpida brincadeira. O mais estranho é que quando pedi dados sobre a origem da mensagem e seu significado, o computador gravou no terminal que ainda não poderia fornecê-los por serem ainda muito imprecisos.”

Após uma pausa, continuou o Prof. Luogui:
— Você, Meilli, é o psicólogo do nosso departamento lunar e por isso lhe faço o meu apelo. Poderíamos ter um doente entre nós?
Enquanto o prof. Luogui fazia a sua explanação sobre os estranhos acontecimentos do observatório lunar, o Dr. Meilli procurava as fichas de saúde e dados psicoanalíticos das pessoas que tinham acesso ao computador ligado ao receptor sideral. Após alguns momentos, conseguia responder com segurança:
— As possibilidades de alguém introduzir no computador, dados extravagantes, é muitíssimo remota. Francamente não vejo condições — pelo menos nas fichas que tenho aqui presentes — de nenhum desses funcionários tomar uma iniciativa desse tipo. Creio, prof. Luogui, que os fatos devem ser encarados por outra ótica.
— Você está insinuando — respondeu Luogui — que o computador está realmente recebendo essas mensagens desconexas?
— Estou insinuando que as mentes dos seus funcionários não poderiam estar tão extraviadas ao ponto de avariar tão seriamente e conscientemente o seu computador. Você deverá procurar outras causas se não quer acreditar na realidade das mensagens.
Cidhar Dim, não podendo mais conter a sua impulsividade, interferiu no diálogo, dizendo:
— Suponha por um momento prof. Luogui — que o computador dentro de algumas horas possa fornecer dados que poderão ser preciosos para a solução ou decifração da mensagem recebida. Não seria de bom alvitre esperar essas informações?
— Bem, desde que o Dr. Meilli não vê possibilidade de avaria do computador, acho que só me resta esperar essas informações. Vou desligar.
— Espere — disse o Dr. Meilli — desejava pedir a você que mantenha contato comigo sobre o assunto e se a minha presença na Lua for necessária, pode chamar--me que irei imediatamente.
— Certo e desligo, disse o prof. Luogui.

Os dois amigos ficaram por um longo tempo, completamente absortos em seus próprios pensamentos. As afirmações do prof. Luogui eram muito estranhas e poderiam ter reais conotações com uma mensagem sideral enviada de algum longínquo planeta habitado por seres inteligentes. Por fim Cidhar quebrou o demorado silêncio:
— Porque não pensar que o Prof. Luogui tem em mãos uma mensagem inteligente, enviada de um planeta de outro sistema solar?
O Dr. Meilli respondeu:
— Você sempre foi daquele tipo verossímil, nunca admitindo teorias amalucadas; porque, de repente você admite uma possibilidade como essa?
— Por que o que eu tenho a contar a você, foge completamente à realidade e entretanto eu vivi tudo o que sucedeu...
— Desde alguns dias adquiri a certeza de que alguma coisa você tinha a dizer-me. É com relação à sua operação e à inexplicável inconsciência que durante horas o manteve em completa imobilidade corporal e mental?
— Sim, Meilli, exatamente sobre essas horas que me mantive inconsciente, que desejo falar ou melhor contar o que sucedeu...

Cidhar Dim continuou, narrando todos os acontecimentos que se sucederam durante o seu período de inconsciência. Dizer da estupefação do Dr. Meilli, seria pouco. Jamais poderia ele pensar que Cidhar passara todas aquelas horas com sua mente completamente ausente do seu corpo, vivendo uma assombrosa aventura, fora da Terra, usando apenas sua energia mental.

— Enfim, Meilli — continuou Cidhar — com todos esses acontecimentos, ficou provado que pode existir um espaço sem tempo e que a recíproca deverá ser verdadeira. Você imagina que se nós pudermos provar que podemos sobreviver no Tempo sem termos o Espaço circundante ou em outras palavras vivermos no Tempo e fora do Espaço, o campo que se abre para pesquisarmos o Passado e o Futuro, será inesgotável...
Meille interrompeu Cidhar perguntando:
— Você já fez alguma experiência com o intuito de novamente separar sua mente do seu corpo?
— Desde que sai do hospital, venho procurando diariamente entrar novamente em inconsciência e provocar essa separação, porém todos os meus esforços têm sido inúteis. Pensava contar com sua ajuda para tentar novas experiências. Talvez com sua ciência médica aliada ao meu esforço, consigamos obter um resultado satisfatório. Não sei como, mas acho que você pode ajudar.

Meilli ficou pensativo por um longo minuto. Sabia que não poderia recusar a Cidhar a ajuda que pedia, mesmo porque a pesquisa científica era sua própria razão de viver. Obviamente faria experiências com Cidhar, mas levaria algum tempo para equacionar o problema, estudando a melhor forma de enfrentá-lo.
— Bem, em princípio, não poderia recusar ajudá-lo, porque acredito na sua história e também porque o simples pensamento de pesquisar sobre o assunto me entusiasma. Ademais, ajudá-lo a repetir essa descorporização, e conseguí-la, será a única forma de provar a veracidade da sua história, para os descrentes.
— Quando começamos? perguntou Cidhar, com certa ansiedade no tom de voz.
Meilli, após alguns momentos de reflexão, respondeu:
— Nestes sábado e domingo, iremos para as montanhas, ao meu pavilhão de caça onde ficaremos completamente isolados e poderemos fazer algumas primeiras experiências; aliás, tenho lá, aparelhos eletrônicos de apoio à ciência médica que poderão ser úteis em certas circunstâncias. Você quer fazer alguma sugestão especial sobre o assunto?
— Não tenho muita certeza, respondeu Cidhar, mas, se tivéssemos algum tipo de anestésico semelhante ao que me foi ministrado na ocasião da operação, creio que poderia ser de alguma ajuda.
— Entendo, replicou Meilli, entrarei em contato com o seu médico anestesista e pedirei a ele a informação que desejamos. Você espera que com esse anestésico possa chegar a um tal ponto de inconsciência que lhe permita fazer sua mente flutuar fora da matéria?
— Talvez esse seja o caminho inicial, porém não o ideal, pois, essa qualidade, a meu ver, não deverá depender de agentes externos e sim, sua dependência necessariamente estará ligada ao meu estado de conciência e à minha vontade.

Durante um longo período ficaram ambos em completo silêncio, cada um raciocinando sobre a possibilidade de Cidhar poder contar em qualquer momento, com a prerrogativa de sua energia mental separar-se do seu corpo. Nenhum dos dois amigos sabia ainda como e para que empregar essa qualidade, pois, no momento estavam sendo levados pela curiosidade científica. O Dr. Meilli esperava que a psicologia pudesse alcançar uma nova fase criando uma nova Classe Alfa à qual seria ministrada a nova qualidade da mente desencorporada, desenvolvendo novos caminhos para a Civilização.

Cidhar Dim, engolfado em seus pensamentos, tentava imaginar uma viagem espacial com muitíssimos anos de duração, na qual seria usado o sistema de vida suspensa, após a libertação da energia mental, de cada uma das pessoas da tripulação; a matéria teria sua vida física suspensa, porém a mente, sendo pura energia continuaria vivendo, pensando, trabalhando e observando todo o tempo da viagem. Seria o guardião da sua própria vida, pois, teria sob sua própria responsabilidade, a vida do seu corpo. Durante uma viagem, fora do seu sistema solar, uma nave com sua estranha tripulação, poderia fazer todo o tipo de observação e trabalho desde que contasse com um equipamento adequado para ser comandado pela energia mental e não normalmente manipulado pelo homem. Sim, seria um grande passo para a exploração das estrelas mais próximas, ou seja, a libertação do homem, do seu sistema solar...

Repentinamente, o Dr. Meilli interrompendo a divagação de ambos, disse:
— Se você puder chegar ao ponto ideal de poder desprender-se do seu corpo, mentalmente, a humanidade dará novo passo para novas conquistas em todos os setores da atividade humana.
— Sim, temos que conseguir esse ponto ideal, Meilli, pois, não posso imaginar que para o resto da minha vida não entrarei mais em contato com Luzia, aquele ser maravilhoso do mundo do Poliedro.
— Realmente o relato que você fez daquele mundo, é impressionante e inverossímil. O simples fato da sua mente estar separada do seu corpo, cientificamente já é impossível, apesar de que teoricamente podemos admitir, se envolvermos um pouco de parapsicologia no assunto. Por outro lado creio que manter contato com os habitantes do mundo do Poliedro — e a única forma seria a separação do binômio mente-matéria — seria uma forma de enriquecer nossos conceitos filosóficos com injeção de pensamentos completamente alienígenas. Na verdade, as ciências humanas seriam engrandecidas a ponto, talvez, de modificar as conceituações do bem e do mal, legados por nossos antepassados do século XX, e até o momento não conseguimos transformações radicais das suas afirmações.
— Você realmente, disse Cidhar, é um verdadeiro soldado da nossa ciência mental, pois, já está pensando na possibilidade de mudar as regras do jogo psíquico aos quais a humanidade até hoje está atrelada...
Meilli com o olhar vago e a flutuar no espaço, disse:
— Se nós pudéssemos ensinar à humanidade que o bem não deve ser ligado, comparado ou equacionado com o mal, evidentemente estaríamos mudando as regras do jogo e faríamos deste planeta o tão sonhado lar paradisíaco.
— De qualquer forma se nós pelo menos conseguirmos comigo, a minha separação de mente-matéria, já teremos dado um grande passo a favor da ciência. Mas, voltando ao nosso fim de semana, vamos combinar a forma de chegar até lá.
— Naturalmente você virá também no meu aero-carro e para tanto, descerei no seu teto, às 18 horas. Não se preocupe com bagagem, pois, como você sabe, tenho suprimento para todas as nossas necessidades, naquele meu refúgio.
— Então, estamos combinados, disse Cidhar Dim, às 18 horas de sexta-feira, estarei pronto à sua espera. Até lá, não creio que nos possamos ver novamente, em pessoa, porém se qualquer novidade surgir nos veremos via visio-comunicador. Boa noite Meilli.

O Dr. Meili acompanhou Cidhar até o seu veículo que após alguns segundos desapareceu na noite brumosa e fria.


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