sábado, 10 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 15)





— PODEMOS CONVERSAR? — perguntou Roy indicando Isidore.
Pris, vibrando de felicidade, respondeu:
— Tudo bem, até certo ponto. — A Isidore, disse: — Desculpe-nos. — Levou os Batys até um canto da sala e conversou com eles em voz baixa. Voltaram em seguida para junto de J. R. Isidore, que se sentia embaraçado e deslocado.
— Este é o Sr. Isidore — apresentou-o Pris. — Está cuidando de mim. — As palavras saíram-lhe dos lábios envolvidas num sarcasmo quase malicioso.
Isidore piscou.
— Estão vendo? Ele me trouxe um pouco de comida natural.
— Comida! — ecoou Irmgard Baty e dirigiu-se em passos flexíveis até a cozinha a fim de verificar. — Pêssegos — disse, imediatamente pegando uma tigela e uma colher.

Sorrindo para Isidore, comeu, com pequeninas dentadas animais. Seu sorriso, diferente do de Pris, transmitia um calor simples e não possuía veladas conotações.
Indo atrás dela — sentia-se atraído por ela — disse Isidore:
— Vocês são de Marte.
— Somos, desistimos de lá. — Sua voz subia e descia, enquanto que, com a sagacidade de uma ave, seus olhos azuis faiscavam para ele. — Que prédio horrível este onde vocês moram. Ninguém mais mora aqui, não é? Não vimos nenhuma outra luz.
— Eu moro lá em cima — explicou Isidore.
— Oh, eu pensei que você e Pris, talvez, estivessem morando juntos. — Irmgard Baty não dava a impressão de desaprovar. Falava sério, obviamente, como uma mera declaração de fato.

Azedamente, mas ainda sorrindo, Roy Baty disse:
— Bem, eles pegaram Polokov.
O júbilo que aparecera na face de Pris ao ver os amigos desfez-se imediatamente.
— Quem mais?
— Pegaram Garland — continuou Roy Baty. — Pegaram também Anders e Gitchell e hoje, um pouco mais cedo, pegaram Luba. — Deu as notícias como se elas, perversamente, o agradassem, como se tivesse prazer em contá-las. Como se apreciasse o choque que via na face de Pris. — Eu não acreditava que eles pegariam Luba, Lembra-se que eu continuei a dizer isso durante...a viagem?
— Então, isso deixa... — disse Pris.
— Nós três — completou Irmgard com um tom de apreensiva urgência na voz.
— Esse é o motivo per que estamos aqui. — A voz de Roy Baty trovejou com um novo e inesperado calor humano; quanto pior a situação, mais parecia ele apreciá-la.
Isidore não conseguia entendê-lo absolutamente.
— Oh, Deus — exclamou Pris, abalada.
— Bem, eles tinham aquele investigador, aquele caçador de cabeças — disse agitada Irmgard — chamado Dave Holden. — Os lábios dela gotejaram veneno ao pronunciar o nome. — E Polokov quase o pegou.
— Quase o pegou — repetiu Roy, seu sorriso nesse momento de proporções imensas.
— De modo que ele está no hospital, esse tal Holden — continuou Irmgard. — E, evidentemente, deram a lista dele para outro caçador, e Polokov quase o pegou, também. Mas tudo terminou com ele aposentando Polokov. Depois, ele foi atrás de Luba. Sabemos disso porque ela conseguiu comunicar-se com Garland e ele mandou alguém capturar o caçador e levá-lo para o prédio da Mission Street. Entenda, Luba telefonou-nos depois que o agente de Garland capturou o caçador. Ela tinha certeza de que tudo acabaria bem, certeza de que Garland o mataria. — E acrescentou:
— Mas evidentemente alguma coisa saiu errada na Mission. Não sabemos o quê. Talvez nunca venhamos a saber.
— Esse caçador tem nossos nomes? — perguntou Pris.
— Oh, tem, sim, querida — respondeu Irmgard. — Mas ele não sabe onde nós estamos. Roy e eu não vamos voltar para nosso apartamento. Colocamos no carro tudo o que pudemos e resolvemos ocupar um destes apartamentos abandonados, neste velho prédio infestado de ratos.
— Isso é prudente? — perguntou Isidore, reunindo coragem. — T-t-todos ficarem em um único lugar?
— Bem, eles pegaram todos os outros — retrucou Irmgard em tom de voz tranqüilo.
Ela também, como o marido, parecia estranhamente resignada, a despeito de sua agitação superficial.

Todos eles, pensou Isidore, são estranhos. Sentiu isso, mas sem poder determinar o motivo. Como se um desligamento peculiar e maligno lhes saturasse os processos mentais. Exceto, talvez, Pris. Ela, sem dúvida alguma, estava profundamente amedrontada. Pris parecia quase certa, quase natural. Mas...
— Por que você não vai morar com ele? — perguntou Roy a Pris, indicando Isidore. — Ele poderia lhe dar certo grau de proteção.
— Um debilóide? — perguntou Pris. — Eu não vou morar com um debilóide. — Suas narinas se dilataram de indignação.

Rapidamente, Irmgard contestou-a:
— Acho que você está sendo tola em ser esnobe numa ocasião como esta. Caçadores de cabeças movem-se com grande rapidez. Ele pode tentar liquidar tudo esta noite mesmo. Pode haver um bônus para ele se conseguir fazer o trabalho...
— Cristo, fechem a porta — disse Roy, dirigindo-se para ela. Bateu-a com força com um golpe e, em seguida, fechou-a a chave sem demora. — Acho que você deve ir para o apartamento de Isidore, Pris, e também acho que Irm e eu devemos ficar neste mesmo edifício. Desta maneira, podemos nos ajudar mutuamente. Tenho alguns componentes elétricos no meu carro, sucata que arranquei da nave. Vou instalar um aviso de dupla ação, Pris, de modo que você nos possa ouvir e nós possamos ouvi-la e também preparar um sistema de alarme que qualquer um de nós pode disparar. É óbvio que as identidades artificiais não deram certo, nem mesmo a de Garland. Claro, Garland pôs a própria cabeça no nó, trazendo o caçador de cabeças para a Mission Street. Isso foi vim erro. E Polokov, em vez de se manter tão longe quanto possível do caçador, resolveu abordá-lo. Nós não vamos fazer isso. Vamos ficar na moita. — Não parecia preocupado o mínimo. A situação parecia despertar-lhe uma energia quase maníaca. — Eu acho... — inalou barulhentamente, prendendo a atenção de todos ali na sala, inclusive Isidore. — Eu acho que há um motivo por que nós três ainda continuamos vivos. Acho que se ele tivesse a menor pista sobre o lugar onde estamos agora, já estaria aqui. A idéia toda por trás de caçada de cabeças é trabalhar rápido como o diabo. É nisso que está o lucro.
— E se ele esperar — concordou Irmgard — nós escapuliremos, como fizemos antes. Aposto que Roy tem razão. Aposto que ele tem nossos nomes, mas não nossa localização. Pobre Luba, na Casa da Ópera, bem à vista de todo mundo. Nenhuma dificuldade para encontrá-la.
— Bem — disse afetado Roy —, ela quis a situação dessa maneira. Acreditava que ficaria mais segura como uma figura conhecida do público.
— E você disse para ela fazer o contrário — lembrou Irmgard.
— Isso mesmo — anuiu Roy. — Disse a ela e disse a Polokov para não tentar passar por um agente do W.P.O. E disse também a Garland que um de seus próprios caçadores o pegaria, o que foi possível, concebível e exatamente o que de fato aconteceu. 
Balançou-se para a frente e para trás sobre seus grossos calcanhares, sua face transbordando de sabedoria.
— E-e-eu acho pelo que e-e-estou ouvindo que o Sr. Baty é o líder natural de vocês.
— Oh, sim, Roy é um líder — garantiu Irmgard.
— Ele organizou nossa... viagem. De Marte até aqui.
— Neste caso — opinou Isidore — é melhor vocês fazerem o que e-e-ele sugere. — Sua voz fraquejou, de esperança e tensão. — Eu acho que seria s-s-sensacional se você fosse morar comigo, Pris. Eu ficaria em casa uns dois dias, longe do trabalho... Eu tenho férias vencidas. Para ter certeza de que você ficaria bem. — E talvez Milt, que era muito inventivo, pudesse projetar uma arma que ele pudesse usar. Alguma coisa imaginativa, que matasse caçadores de cabeças... o que quer que eles fossem. Tinha na mente uma impressão indistinta, mal entrevista, de alguma coisa implacável que conduzia uma lista impressa e uma arma, que desempenhava automaticamente a função banal e burocrática de matar, uma coisa sem emoções, ou mesmo uma face, uma coisa que, se morta, era imediatamente substituída por outra parecida com ela, E assim por diante até que todas as pessoas que fossem reais e vivas tivessem sido eliminadas.

Incrível, pensou, que a polícia não possa fazer coisa alguma com relação a isso, Não posso acreditar nisso. Estas pessoas devem ter feito alguma coisa. Talvez tenham emigrado de volta para a Terra ilegalmente. Fomos avisados — a TV nos avisa — para comunicar o pouso de qualquer nave fora dos campos aprovados. A polícia tinha que estar vigilante para casos como esses.
Mas, mesmo assim, ninguém mais era deliberadamente assassinada. Isto era contra o mercerismo.

— O debilóide — disse Pris — gosta de mim.
— Não o chame assim, Pris — disse Irmgard, Lançou um olhar de compaixão a Pris. — Pense no que ele poderia chamar você.
Pris nada disse. Sua expressão tornou-se enigmática.
— Vou começar a armar o aparelho de alarma — disse Roy. — Irmgard e eu vamos ficar neste apartamento. Pris, você vai com o Sr ... Isidore. — Dirigiu-se para a porta, andando com espantosa velocidade para um homem tão pesado.

Num instante, desapareceu pela porta, que voltou a fechar-se com um estrondo. Nesse momento, Isidore teve uma momentânea, estranha alucinação: viu por um momento uma estrutura de metal, uma plataforma de polias, circuitos, baterias, torretas e engrenagens — e, em seguida, a figura desleixada de Roy Baty desapareceu. Uma vontade de rir subiu dentro dele. Nervosamente, suprimiu-a. E sentiu-se confuso.
— Um homem de ação — disse Pris em voz distante. — É uma pena que ele seja tão desajeitado com as mãos, fazendo coisas mecânicas.
— Se nós formos salvos — retrucou Irmgard em tom de repreensão, severo, como se a repreendendo —, será por causa de Roy.
— Mas valerá a pena? — perguntou Pris, principalmente para si mesma. Encolheu os ombros e, em seguida, inclinou a cabeça na direção de Isidore. — Muito bem, J. R., vou-me mudar para seu apartamento e você pode me proteger,
— T-t-todos vocês — respondeu imediatamente Isidore.

Solene e em voz baixa, um pouco formal, Irmgard Baty lhe disse:
— Quero que saiba que apreciamos muito o que está fazendo, Sr. Isidore. O senhor é o primeiro amigo que penso que encontramos aqui na Terra. Isto tudo é uma grande bondade sua e, talvez, algum dia, possamos retribuir o que está fazendo por nós. — Deslizou para ele e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
— Você tem alguma ficção pré-colonial que eu possa ler? — perguntou-lhe Isidore.
— Perdão? — Interrogativamente, Irmgard olhou para Pris.
— Aquelas velhas revistas — explicou Pris. Juntara umas poucas coisas para levar consigo. Isidore tomou-lhe a trouxa das mãos, sentindo aquela alegria que vem apenas da satisfação de um objetivo atingido. — Não, J. R., nós não trouxemos nenhuma conosco, pelas razões que expliquei.
— E-e-eu vou à biblioteca amanhã — disse ele, saindo para o corredor. — E vou arranjar para v-v-você e para mim alguma coisa para lermos, de modo que você possa ter alguma coisa para fazer, além de esperar.

Levou Pris escada acima para seu apartamento, escuro, vazio, congestionado de coisas, morno. Levando as coisas dela para o quarto, imediatamente ligou o aquecedor, as luzes e o único canal de seu aparelho de TV.
— Eu gosto daqui — disse Pris, mas no mesmo tom desligado e remoto de antes.

Andou de um lado para o outro, as mãos enfiadas nos bolsos da saia, na sua face uma expressão amarga, quase de indignação em seu grau de desagrado. Em contraste com o que dissera pensar.
— O que é que há? — perguntou ele, colocando-lhe as coisas em cima do sofá.
— Nada. — Parou à janela panorâmica, puxou para os lados a cortina e olhou abatida para fora.
— Se você pensa que eles andam à sua procura... — começou ele.
— É um sonho — explicou ela — induzido pelas drogas que Roy me deu.
— P-p-perdão?
— Você realmente pensa que existem caçadores de cabeças?
— O Sr. Baty disse que eles mataram seus amigos.
— Mas Roy Baty é tão louco como eu — retrucou Pris. — Nossa viagem foi entre um hospital para doentes mentais na Costa Leste e aqui. Todos nós somos esquizofrênicos, com vidas emocionais defeituosas... o efeito de achatamento, é assim que chamam a isso. E nós temos alucinações coletivas.
— Eu não pensei que aquilo fosse verdade — disse ele, aliviado.
— Por que não pensou? — Girou para fitá-lo atentamente, num olhar tão sério que ele sentiu que enrubescia.
— P-p-porque coisas como essas não acontecem. O g-governo jamais executa pessoa alguma, por qualquer crime. E o mercerismo...
— Mas, compreenda — explicou Pris —, se o indivíduo não é humano, então toda a coisa se torna diferente.
— Isso não é verdade. Mesmo animais, mesmo enguias roedores, serpentes e aranhas, são sagrados.

Pris, ainda olhando-o fixamente, disse:
— Assim não pode ser, pode? Como você disse, mesmo animais são protegidos pela lei. Toda a vida. Todo ser orgânico que se contorce, estrebucha, cava, voa, anda em bandos, põe ovos ou... — Interrompeu-se porque nesse momento Roy Baty entrou abruptamente, abrindo com violência a porta do apartamento. Trazia a reboque uma extensão de fio.

— Os insetos — disse ele, sem demonstrar o menor embaraço por tê-los ouvido sem que eles soubessem — são especialmente sacrossantos. — Tirando um quadro da parede da sala de estar, ligou um pequeno aparelho eletrônico ao prego, deu um passo para trás, examinou o trabalho e voltou a recolocar o quadro no lugar. — Agora, o alarma. —
Puxou o fio que se arrastava e que terminava num aparelho complexo. Sorrindo seu estranho sorriso, mostrou o aparelho a Pris e Isidore. — O alarma. Estes fios correm por baixo do tapete. São antenas. Captam a presença de uma ... — hesitou — entidade mentacional — disse obscuramente — que não é uma de nós quatro.

— Bem, toca, e depois o quê? — perguntou Pris. — Ele vai entrar aqui com uma arma. Não podemos cair sobre ele e matá-lo a dentadas.
— Este aparelho — continuou Roy — tem uma unidade Penfield. Logo que o alarme soa, ela emite um estado de espírito de pânico para o. .. intruso. A menos que ele aja com grande rapidez, o que pode fazer. Um pânico enorme. Aumentei a freqüência até o máximo. Nenhum ser humano pode permanecer nas vizinhanças por mais de alguns segundos. Tal é a natureza do pânico: leva a movimentos circulares aleatórios, fuga sem finalidade e espasmos musculares e neurais. — E concluiu: — O que nos dará oportunidade de pegá-lo. Possivelmente. Tudo dependendo da competência dele.
— O alarme não nos afetará? — quis saber Isidore.
— Bem, e daí? — disse Roy, voltando a seu trabalho de instalação. — De modo que ambos saem correndo daqui no maior pânico. Isto nos dará tempo para reagir. E eles não matarão Isidore. Não figura na lista deles. Este o motivo porque ele é útil como proteção.
— Você não podia arranjar coisa melhor, Roy? — perguntou brusca Pris.
— Não — respondeu ele —, não posso.
— A-a-amanhã eu posso conseguir uma arma — disse Isidore entrando na conversa.
— Você tem certeza de que a presença de Isidore aqui não vai disparar o alarme? — perguntou Pris. — Afinal de contas, ele é...você sabe.
— Compensei as emanações cefálicas dele — explicou Roy. — A soma delas não provocará coisa alguma. Será necessária a presença de mais um ser humano. Uma pessoa. — Fechando a cara, olhou para Isidore, dando-se conta do que dissera,
— Vocês são andróides — disse Isidore. Mas não se importou Isto não fazia diferença alguma para ele. — Agora estou compreendendo por que eles querem matar vocês — continuou. — Na realidade, vocês não são vivos.
— Tudo nesse instante fazia sentido para ele. O caçador de cabeças, a morte dos amigos deles, a viagem para a Terra, todas essas precauções.
— Quando usei a palavra "humano" — disse Roy Baty a Pris —, usei a palavra errada.
— Tudo bem, Sr. Baty — tranqüilizou-o Isidore. — Mas o que é que isso me importa? Quero dizer, eu sou um especial. Eles tampouco me tratam muito bem, como, por exemplo, eu não posso emigrar. — Descobriu que começara a gritar. — Vocês não podem vir para cá. Eu não posso. .. — Acalmou-se.
Após uma pausa, Roy Baty observou laconicamente:
— Você não gostaria de Marte. Não está perdendo coisa alguma.
— Eu estava me perguntando quanto tempo demoraria antes de você compreender — disse Pris a Isidore. — Nós somos diferentes, não?
— Foi isso provavelmente o que fez com que Garland e Polokov cometessem erros — disse Roy Baty. — Estavam tão danadamente certos de que conseguiriam passar por humanos, Luba, também.
— Vocês são intelectuais — disse Isidore. Sentia-se excitado novamente, por ter compreendido. Emoção e orgulho. — Vocês pensam abstratamente, e eu não. .. — Fez um gesto, as palavras enredando-se umas nas outras. Como sempre. — Eu gostaria de ter um intelecto, como vocês têm. Neste caso, eu passaria no teste, não seria um debilóide, Acho que vocês são muito superiores. Eu poderia aprender um bocado com vocês.

Após um intervalo, Roy Baty disse:
— Vou acabar de instalar o alarma. — E voltou a trabalhar.
— Ele não compreende ainda — disse Pris numa voz seca, quebradiça — como nós saímos de Marte. O que fazíamos lá.
— O que não podíamos evitar de fazer — grunhiu Roy Baty.
Irmgard estava na porta aberta que dava para o corredor e eles a notaram no momento em que falou:

— Não acho que tenhamos que nos preocupar com o Sr. Isidore — disse, séria. Dirigiu-se em passos rápidos para ele e olhou-o no rosto. — Como ele disse, tampouco o tratam muito bem. E ele não está interessado no que fazíamos em Marte. Conhece-nos, gosta de nós, e uma aceitação emocional como esta... é tudo para ele. É difícil para nós entendermos isto, mas é verdade. — A Isidore disse, mais uma vez bem perto dele e observando-o com atenção:
— Você poderia ganhar um bocado de dinheiro nos denunciando, compreende isso? — Virando-se, anunciou: — Está vendo, ele compreende, mas ainda assim não vai fazer coisa alguma.
— Você é um grande homem, Isidore — disse Pris.
— Um crédito para sua raça.
— Se ele fosse um andróide — disse convicto Roy —, nos denunciaria amanhã às dez. Iria para o trabalho e isso seria o fim. Estou arrasado de admiração. — Seu tom de voz não podia ser decifrado. Isidore, pelo menos, não podia compreendê-lo. — E nós imaginamos que este aqui seria um mundo sem amigos, um planeta de faces hostis, todos contra nós. — Soltou uma gargalhada alta.
— Eu não estou absolutamente preocupada — declarou Irmgard.
— Você devia estar morrendo de medo — observou Roy.
— Vamos votar — sugeriu Pris. — Como fazíamos na nave quando estávamos em desacordo.
— Bem — disse Irmgard —, não vou dizer mais coisa alguma. Mas se recusarmos esta oportunidade, não acredito que possamos encontrar outro ser humano que nos aceite e nos ajude. O Sr. Isidore é ... — Procurou a palavra.
— Especial — acabou Pris a frase para ela.

Solene, cerimoniosamente, fizeram a votação.
— Nós ficamos aqui — disse firme Irmgard. —Neste apartamento, neste edifício.
— Eu voto que matemos o Sr. Isidore e nos escondamos em algum outro lugar — disse Roy Baty. Ele e a esposa — e John Isidore — voltaram-se rigidamente para Pris.
Em voz baixa, ela resolveu:
— Eu voto para que façamos aqui nossa defesa. — E acrescentou em voz mais alta: — Acho que o valor de J. R. para nós supera o perigo que ele encerra, o de saber. Obviamente, não podemos viver entre humanos sem sermos descobertos. Foi isso o que matou Polokov, Garland, Luba e Anders. Foi isso o que matou todos eles.
— Talvez eles tenham feito justamente o que estamos fazendo — observou Roy Baty. — Depositaram fé, confiaram em um dado ser humano, que pensaram que era diferente. Como você disse, especial.
— Nós não sabemos se foi isso — objetou Irmgard.
— Isso é apenas uma conjectura. Acho que eles, que eles...
— Fez um gesto vago. — Andaram por aí. Cantaram em um palco, como Luba. Nós confiamos ...eu vou-lhe dizer no que foi que nós confiamos e que nos pôs nesta encrenca toda, Roy: em nossa droga de inteligência superior! — Olhou zangada para o marido, seus pequenos e altos seios subindo e descendo rápidos. — Nós somos tão sábios...Roy, você está agindo assim, nesse momento. Droga, você está agindo assim agora!
— Eu acho que Irm tem razão — apoiou-a Pris.
— Assim, confiamos nossas vida a um tipo subpadrão, bichado... — começou Roy, mas desistiu. — Estou cansado — disse simplesmente. — Foi uma longa viagem, Isidore. Mas não ficaremos muito tempo aqui. Infelizmente.
— Tomara que eu possa tornar agradável a estada de vocês aqui na Terra — disse feliz Isidore.

Tinha certeza de que poderia. Parecia-lhe a coisa mais fácil do mundo, a culminação de toda sua vida, e da nova autoridade que manifestara naquele dia no videofone, no trabalho.



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