sábado, 24 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 17)



NO SUNTUOSO e enorme quarto do hotel, Rick Deckard lia as folhas a carbono, datilografadas, sobre os andróides Roy e Irmgard Baty.

Nestes dois casos, incluíam instantâneos telescópicos, fotos indistintas em 3D, que ele mal conseguia enxergar. A mulher parecia atraente. Roy Baty, contudo, era algo diferente. Algo pior.
Farmacêutico em Marte, leu. Ou pelo menos o andróide usara essa cobertura.

Na realidade, provavelmente fora um trabalhador braçal, um peão, com aspirações de coisa melhores. Será que andróides sonham? Perguntou-se

Roy Baty (informavam os antecedentes) tem um ar agressivo, afirmativo, de falsa autoridade. Dado a especulações místicas, este andróide propôs ao grupo a tentativa de fuga coletiva, garantindo-a ideologicamente com pretensiosa ficção sobre a sacralidade da chamada "vida" andróide. Além disso, este andróide roubou, e experimentou, vários tipos de drogas geradoras de fusão da mente, alegando, quando surpreendido, que alimentava a esperança de promover em andróides uma experiência grupal semelhante à do mercerismo, a qual, alegou, continua proibida aos andróides.

Evidentemente é por isso que eles, ocasionalmente, matam seus empregadores e fogem aqui para a Terra. Uma vida melhor, sem servidão. Como Luba Luft, cantando Don Giovanni e Le Nozze, em vez de labutar na face estéril de um campo cheio de pedras. Num mundo colonial basicamente inabitável.

O relato tinha um aspecto patético. Um rude e frio andróide na esperança de passar por uma experiência que, devido a um deliberado defeito inerente à sua constituição, lhe estava vedada. Mas não conseguia interessar-se muito por Roy Baty. Captou, pelas notas de Dave, algo de repelente pairando em volta desse andróide. Baty tentara forçar a criar para si mesmo, a experiência de fusão... quando fracassara, planejara o assassinato de grande número de seres humanos...seguido da fuga para a Terra.
E neste instante, especialmente neste dia, ocorria a destruição gradativa dos oito andróides originais, até que só restavam três. E eles, os principais membros do grupo ilegal, estavam condenados, uma vez que, se não conseguisse pegá-los, alguma outra pessoa os pegaria. O tempo e a maré, pensou. O ciclo da vida. Terminando desta maneira o último pôr-do-sol. Antes do silêncio da morte.
Nisto percebeu a existência de um micro-universo, completo.

A porta do quarto foi aberta com um estrondo.
— Que vôo — disse sem fôlego Rachael Rosen entrando vestida com um longo casaco tipo escama de peixe, com sutiã e short combinando. Trazia consigo uma grande e enfeitada sacola de papel. Este é um bom quarto. — Consultou o relógio de pulso. — Menos de uma hora. Fiz a viagem num bom tempo. — Estendeu a sacola de papel. — Eu trouxe uma garrafa. Bourbon.
— O pior dos oito continua vivo — disse Rick. — O que organizou o grupo.

Estendeu-lhe a informação sobre Roy Baty.
Rachael pôs de lado a sacola de papel e recebeu a folha.
— Localizou este? Perguntou terminada a leitura.
— Tenho um endereço de apartamento. Lá nos subúrbios, onde provavelmente uns dois especiais deteriorados, debilóides ou cabeças de camarão, levam suas versões de vida.
Rachael esticou a mão:
— Vejamos os outros.
— Mulheres, ambos.
Entregou-lhes as folhas, uma referente a Irmgard Baty e a outra sobre uma andróide que a si mesma chamava de Pris Stratton.
Lançando um olhar à última folha, Rachael disse:
— Oh! — Sacudindo no chão as folhas, foi até a janela do quarto para olhar o centro de São Francisco. — Acho que você vai ser derrotado pela última. Talvez não. Talvez você não se importe. — Empalidecera e sua voz tremia.

De repente, ela se tornara excepcionalmente instável.
— Exatamente, sobre o que é que você está resmungando aí?
Apanhou as folhas, voltou a estudá-las, perguntando-se ao mesmo tempo que parte delas perturbara Rachael.

— Vamos abrir o uísque. — Levou a sacola para o banheiro, apanhou dois copos e voltou. Parecia ainda distraída e incerta — e preocupada. Rick sentiu-lhe a fuga rápida e os seus pensamentos ocultos: as transições mostravam-se em seu rosto carrancudo, tenso. — Será que você pode abrir isto? — perguntou ela. — Vale uma fortuna, como você sabe. Não é sintético. É de antes da guerra, feito com malte autêntico.
Pegando a garrafa, Rick abriu-a e encheu dois copos com a bebida.
— Diga-me qual é o problema — sugeriu.
— Ao telefone — começou Rachael — você me disse que se eu viesse aqui hoje à noite, você desistiria dos três andros restantes. "Vamos fazer uma coisa diferente", você disse. Mas aqui estamos nós.. .
— Diga-me o que foi que a perturbou — pediu ele.
Encarando-o, desafiadora, Rachael respondeu:
— Diga-me o que é que vamos fazer, em vez de nos alvoroçarmos e nos preocuparmos com esses três últimos andros Nexus-6.

Desabotoou o casaco e levou-o até um armário, onde o pendurou.
Isto deu a Rick a oportunidade de dar uma boa olhada no corpo dela.
As proporções de Rachael, notou mais uma vez, eram estranhas.
Com sua abundante massa de cabelos pretos, a cabeça parecia grande, e devido aos seios pequeninos o corpo assumia uma postura esgalgada, quase infantil.
Mas os grandes olhos, com os longos e finos cílios, só podiam ser de uma mulher adulta; neles terminava a semelhança com a adolescência.
Rachael descansava, bem de leve, sobre a parte dianteira dos pés, e seus braços, da forma como pendiam, curvavam-se nas articulações. A postura, refletiu, de um cauteloso caçador, talvez da raça Cro-Magnon. A raça do altos caçadores, refletiu. Nenhum excesso de carne, barriga chata, pequenas nádegas e peito amplo.

Rachael fora modelada de acordo com o tipo físico céltico, anacrônico e atraente. Abaixo dos curtos shorts, as pernas, esguias, tinham uma aparência neutra, não sexual, não muito bem acabadas, em curvas núbeis. A impressão total, contudo, era boa, Embora, definitivamente, de uma mocinha, não de uma mulher.
Exceto pelos olhos inquietos, ardilosos.
Provou o bourbon. O poder da bebida, sabor e cheiro fortes, havia-se tornado quase estranho para ele e teve dificuldade em engoli-la. Rachael, ao contrário, nenhuma dificuldade teve com a sua.

Sentando-se na cama, Rachael alisou distraída a colcha, numa expressão, nesse momento, de melancolia, Ele pôs o copo na mesinha de cabeceira e sentou-se ao lado dela. Sob o seu peso, a cama cedeu e Rachael mudou de posição.
— O que foi? — perguntou. Segurou-lhe a mão, que achou fria, ossuda, ligeiramente úmida — O que foi que a perturbou?
— A última droga de tipo Nexus-6 — disse ela, falando com um esforço — é do mesmo tipo que eu.

Olhou fixamente para a colcha, encontrou um fio e começou a rolá-lo entre os dedos e transformá-lo numa bolinha. — Não notou a descrição? É a minha. Ela pode usar de modo diferente o cabelo, vestir-se de outra maneira . pode ter mesmo comprado uma peruca. Mas, quando a vir, você vai entender o que estou querendo dizer. — Riu, irônica. — Foi uma boa coisa que a empresa tenha admitido que sou uma andro. De outro modo, você provavelmente teria ficado louco quando conhecesse Pris Stratton.
Ou pensasse que ela era eu.

— Por que isso a incomoda tanto assim?
— Bolas, eu vou estar junto quando você aposentá-la.
— Talvez não. Talvez eu não a encontre.
— Eu conheço a psicologia Nexus-6. Esse é o motivo porque estou aqui. É por isso que posso ajudá-lo. Eles estão escondidos, juntos, os últimos três. Em volta de um tipo mentalmente desequilibrado que se diz chamar Roy Baty. É quem dirigirá a defesa crucial, total, final deles. — Mordeu os lábios. — Jesus! — exclamou.
— Anime-se — disse ele. Pegou-lhe o pequeno queixo na palma da mão e levantou-lhe a cabeça, de modo que ela teve que olhá-lo. Como será beijar uma andróide, pensou.

Inclinando-se um pouco, beijou-lhe os lábios secos. Nenhuma reação se seguiu; Rachael permaneceu impassível. Como se não houvesse sido afetada. Ainda assim, ele sentiu uma coisa diferente. Ou, talvez, era mero desejo seu pensar assim.
— Eu gostaria — disse Rachael — de ter sabido disso antes de vir para cá. Eu nunca teria vindo. Acho que você está me pedindo demais. Sabe o que eu sinto? Em relação a essa andróide Pris?
— Empatia — respondeu ele.
— Alguma coisa assim. Identificação. Lá vou eu. Meu Deus, talvez seja isso o que vai acontecer. Na confusão, você me aposentará, não ela. E ela poderá voltar a Seattle e levar minha vida. Nunca me senti assim antes. Nós somos máquinas, estampadas como quem estampa rolhas de metal de garrafas. É uma ilusão que eu, eu pessoalmente, exista. Sou apenas representativa de um tipo.
Estremeceu.

Ele não pôde deixar de sentir-se alegre; Rachael se tornara tão piegamente sentimental e abatida...
— Formigas não se sentem assim — disse —, e elas são fisicamente idênticas.
— Formigas, Elas não sentem, ponto final.
— Gêmeos humanos univitelinos. Eles não...
— Mas eles se identificam entre si. Sei que eles têm um laço especial, empático. — Levantando-se, pegou a garrafa, um pouco trôpega, reencheu seu copo e bebeu-o de um gole. Durante algum tempo, vagueou pelo quarto, sobrancelhas sombriamente contraídas. Em seguida, como vindo para o lado dele por acaso, sentou-se na cama. Lançou para cima as pernas e estirou-se, encostando-se nos grandes travesseiros. E suspirou. — Esqueci-me dos três andros — disse, a voz demonstrando cansaço. — Estou tão esgotada da viagem, acho. E do que descobri hoje. Só quero dormir.
— Fechou os olhos. — Se eu morrer — murmurou — talvez eu nasça novamente quando a Rosen Association estampar sua próxima unidade de meu subtipo. — Abriu os olhos e fitou-o ferozmente. — Você sabe — perguntou — por que eles vieram realmente para cá? Por que Eldon e os outros Rosens, os humanos, queriam que eu viesse com você?
— A fim de observar — sugeriu ele. — Detalhar exatamente o que um Nexus-6 faz que o denuncia no Teste Voigt-Kampff.
— No teste ou de outra maneira. Tudo o que lhe dá uma característica diferente. E, em seguida, apresentar um relatório, de modo que a empresa possa fazer modificações em banho de zigotos de fatores de DNS. E depois teremos o Nexus-7. E quando ele for descoberto, modificaremos o modelo mais uma vez e, no fim, a empresa conseguirá um tipo que não poderá ser distinguido de um ser humano comum.
— Você conhece o Teste Boneli de Reflexo de Arco?
— Nós estamos trabalhando também nos gânglios espinais. Algum dia, o Teste Boneli desaparecerá na mortalha encanecida de ontem do esquecimento espiritual. Sorriu inocentemente, em contraste com suas palavras. A esta altura, ele não podia discernir-lhe o grau de seriedade. Um tópico de uma importância capaz de abalar o mundo e, no entanto, discutido com leviandade; um traço andróide, possivelmente, pensou. Nenhuma percepção emocional, nenhum senso de sentimento do significado real do que dissera. Só as definições rasas, formais, intelectuais, das palavras separadas.

E mais, Rachael começara a implicar com ele. Imperceptivelmente, passara de lamentar seu próprio estado para azucriná-lo sobre o dele.
— Diabos a levem — disse.
Rachael riu.
— Estou bêbada. Não posso ir com você. Se sair daqui — fez um gesto de despedida —, eu fico, durmo e depois você pode me contar o que foi que aconteceu.
— Exceto — disse ele — que não vai haver um depois, porque Roy Baty vai me pegar.
— Mas, de qualquer modo, não posso ajudá-lo mais porque estou bêbada. Afinal de contas, você conhece a verdade, a dura, irregular, escorregadia superfície da verdade. Eu sou apenas uma observadora e não intervirei para salvá-lo. Não me importo se Roy Baty pega-o ou não, Eu me importo se me pegam. — Esbugalhou os olhos. — Cristo, estou empática comigo mesma. E, se eu for àquele prédio arruinado nos subúrbios... — Estendeu a mão e brincou com o botão da camisa dele. Em lentos e fáceis movimentos dos dedos começou a abri-la. — Não ouso ir porque andróides não têm lealdade um para com o outro e sei que aquela maldita Pris Stratton me destruirá e ocupará meu lugar. Entendeu? Tire o paletó.

— Para quê?
— Para podermos nos deitar — disse Rachael.
— Eu comprei uma cabra núbia preta — disse ele. — Tenho que aposentar mais três andros. Tenho que acabar meu trabalho e voltar para, junto de minha esposa, em casa. 
Levantou-se, deu a volta à cama e foi até a garrafa de uísque.
Com todo cuidado, serviu-se de um segundo drinque; suas mãos, observou, tremiam apenas de leve. Provavelmente, de fadiga. Nós dois, compreendeu, estamos cansados. Cansados demais para caçar três andros, com o pior dos oito dando as cartas.
Ali naquele lugar, de repente, reconheceu que adquirira um medo total, incontestável, do principal andróide. Tudo dependerá de Baty — dependera desde o começo. Até então, enfrentara e aposentara, um depois do outro, manifestações mais fracas de Baty. Chegara agora a vez do próprio Baty. Pensando nisso, o medo agravou-se, envolveu-o por completo, agora que o deixara aproximar-se de sua mente consciente.
— Agora, eu não posso ir sem você — disse a Rachael.
— Não posso nem mesmo sair daqui. Polokov veio atrás de mim; Garland virtualmente procurou-me.
— Você acha que Roy Baty virá pegá-lo? — Pondo de lado o copo vazio, ela inclinou-se para a frente, estendeu as mãos para trás e soltou o sutiã. Ágil, tirou-o do corpo, levantou-se, cambaleando, e riu alegre porque estava cambaleando. — Na minha bolsa — disse — tenho um mecanismo que nossa fábrica automática em Marte constrói como dispositivo de emer... — Fez uma careta. — Um aparelho de emergência de segurança, que têm sempre à mão quando submetem um andro recém-acabado a controles de inspeção de rotina. Apanhe-o. Parece uma ostra. Procure que você acha.

Ele já começara a mexer na bolsa. Como uma mulher humana, Rachael tinha na bolsa todos os tipos concebíveis de objetos surrupiados e escondidos. Continuou a busca interminável.

Enquanto isso, Rachael tirara as botas com um pontapé e descera o fecho do short. Equilibrando-se sobre um pé, pegou a peça retirada com o dedão e atirou-a para o outro lado do quarto. Caiu de novo na cama, rolou para apanhar o copo, acidentalmente derrubou-o no chão carpetado.

— Droga — disse ela e, trôpega, levantou-se outra vez.
Ali de calcinha, ficou a olhá-lo mexendo em sua bolsa.
Em seguida, com gestos deliberados e toda atenção, puxou para trás as cobertas, deitou-se e cobriu-se.
— É isto? — perguntou ele, mostrando uma esfera metálica, da qual se projetava um botão.
— Esse aparelho faz com que o andróide entre em estado de catalepsia — disse Rachael, olhos fechados. — Durante alguns segundos. Suspende-lhe a respiração, a de vocês também, mas humanos podem agir sem respirar...perspirar durante alguns minutos, mas o nervo pneumogástrico de um andro...
— Eu sei. — Espigou-se. O sistema nervoso autônomo do andróide não é tão flexível como o nosso para iniciar e interromper uma função. Mas, como você disse, isto não funcionará por mais de cinco ou seis segundos.
— É o suficiente — murmurou ela — para salvar sua vida. Assim, compreenda... — Ergueu-se, sentou-se na cama. — Se Roy Baty aparecer por aqui, você deve estar com isso na mão e apertar o botão dessa coisa. E enquanto ele estiver duro, sem suprimento de ar para o sangue e suas células cerebrais se deterioram, você pode matá-lo com seu laser,
— Você tem um tubo de laser — disse ele. — Em sua bolsa.
— Uma imitação. Andróides — bocejou, olhos fechados — não têm permissão para conduzir lasers.

Ele aproximou-se da cama.
Contorcendo-se, Rachael conseguiu finalmente rolar para cima do estômago, o rosto enterrado no lençol branco.
— Este é o tipo limpo, nobre, virgem de cama — declarou ela. — Apenas moça:; limpas, nobres, que... — Pensou um pouco. — Andróides não podem conceber filhos — disse em seguida. — Isto é mau?
Ele acabou de despi-la e lhe expôs o ventre pálido e frio.
— É um mal? — repetiu Rachael. — Não sei, realmente. Não tenho como saber. Como é que é ter um filho? Por falar nisto, como é nascer? Nós não nascemos, não crescemos; em vez de morrer de doença ou velhice, gastamo-nos, como as formigas. Formigas, novamente, é isso o que somos. Não você. Quero dizer eu. Máquinas quitinosas capazes de reflexos, que não estão realmente vivas. — Torceu a cabeça para um lado e disse em voz alta: — Eu não estou viva! Você não vai para a cama com uma mulher. Não fique desapontado, certo? Já fez amor antes com uma andróide?
— Não — confessou ele, tirando a gravata e a camisa.
— Sei — disseram-me que é convincente, se o humano não pensa muito na coisa. Mas se pensar demais, se refletir no que está fazendo...então você não pode continuar. Por  razões psicológicas.

Curvando-se, ele beijou-lhe o ombro nu.
— Obrigada, Rick — disse ela, lânguida —, lembre-se, porém, não pense nisto, simplesmente faça. Não pare e se meta a filosofar, porque, do ponto de vista filosófico, é desolador, para nós dois.
— Mas depois — disse ele — eu ainda tenciono ir pegar Roy Baty. Ainda vou precisar de sua presença comigo. Sei que o tubo de laser que você tem na bolsa é...
— Você pensa que vou aposentar para você um de seus andróides?
— Eu penso que, a despeito de tudo o que disse, você me ajudará no que puder. De outro modo, você não estaria deitada aí nessa cama.
— Eu amo você — disse Rachael. — Se eu entrasse num quarto e encontrasse um sofá forrado com seu couro, eu marcaria pontos bem altos no Teste Voigt-Kampff.

Hoje à noite, em algum momento, pensou enquanto desligava a luz da cabeceira, vou aposentar uma Nexus-6 que se parece exatamente com esta pequena nua.
Meu bom Deus, pensou, acabei onde Pris Resch disse que eu acabaria.
Faça amor com ela primeiro, lembrou-se. Depois, mate-a.
— Eu não posso fazer isto — disse ele e afastou-se da cama.
— Eu gostaria que pudesse — respondeu Rachael trêmula.
— Não por causa de você, mas por causa de Pris Stratton, do que vou ter que fazer com ela.
— Nós não somos a mesma. Eu não me importo com Pris Stratton. Escute aqui. — Mexeu-se na cama, levantando-se. Na escuridão, ele ainda assim conseguia distinguir a forma elegante, quase destituída de seios. — Faça amor comigo e eu aposentarei Stratton. Certo? Porque não posso suportar chegar assim tão perto e...
— Obrigado — disse ele. A gratidão, sem dúvida devido ao uísque, subiu em seu corpo, apertando-lhe a garganta.

Dois, pensou. Agora só tenho dois para aposentar, simplesmente os Batys.
Faria Rachael realmente isso? Evidentemente. Andróides pensavam e funcionavam assim. Ainda assim, em toda sua vida jamais encontrara coisa parecida.
— Droga, venha para a cama — disse Rachael.
Ele foi.



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