quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Homem Duplo - Eando Binder



O caixão de alumínio, brilhando na clara luz do sol, subiu até o apogeu de 33,261 milhas acima da terra.

Então mergulhou, numa velocidade crescente, até o perigeu de 486 milhas, chicoteando ao redor da terra para mais uma vez fazer a ascensão. a seu ponto mais alto.

A cada 10 horas e 16 minutos, a silenciosa nave espacial completava seu eterno ciclo, não variando nem por um fio.

Dentro, num leito, jazia uma figura vestida num traje espacial, rígida numa morte congelada, seus olhos sem vida não vendo a grandiosa rotação de estrelas cada uma em sua órbita circular.

O sopro da vida há muito tinha deixado Dr. Wayne Durk, astronauta.

Sua mão direita enluvada ainda agarrava a alavanca do controle manual - a alavanca que ele tinha freneticamente acionado muitas vezes sem resposta dos retrofoguetes. E com o sistema automático já atingido por um meteorito, esta tinha sido a sua última esperança de voltar a terra.

O meteorito. Ele veio colidindo com a nave espacial cilíndrica, uma espécie rara do tamanho de uma bola de "baseball" partindo fios vitais e rompendo cadeias de comutadores e retransmissores. O ar tinha saído rapidamente do respiradouro e somente o traje espacial hermeticamente fechado manteve Durk vivo - para uma morte mais lenta.

O sistema de alimentação de oxigênio da nave tinha parado também e ele teve que cortar seu cordão umbilical rapidamente. Depois disto, sua vida fora medida pelo oxigênio que restava em seu traje - quinze minutos no máximo. Não havia nenhum tubo de oxigênio de emergência para ser usado. Não era este tipo de traje.  Seu rádio também tinha sido destruído. Nenhuma chance de avisar o Controle para um possível salvamento. Além disso, a poderosa pancada do meteorito tinha afastado sua nave da órbita prevista.

Os confusos homens do radar lá embaixo tinham visto o ponto luminoso desaparecer de suas telas. Procurá-lo tornou-se irremediável quando a nave fez uma nova e casual curva através do espaço numa órbita completamente desconhecida e excêntrica. Quanto a isso, o veículo tripulado se juntara à multidão de restos espaciais que giravam ao redor da terra em várias alturas, totalizando milhares de peças, pequenas ou grandes. Mas foi uma destas peças do lixo inútil que agora, após o longo silêncio do espaço, completou o milagre contrário. Um satélite morto e incendiado, que data dos primeiros dias dos lançamentos espaciais na década de 1960, veio atingir o veículo tripulado por um corpo congelado.

A colisão foi silenciosa no vácuo sem ar. Mas peças de metal despedaçado voaram de ambos. Foi uma pancada vertical que enviou o satélite girando para cima num ricochete e a nave tripulada para baixo.

Então, nesta série de acontecimentos caprichosos, outro milagre casual tomou lugar.
Dentro, no meio dos labirintos dos sistemas eletrônicos da nave, alguns circuitos foram ativados pelo impacto do choque. Atrasadamente, as fitas computadorizadas comandaram o sistema de poder motriz e os retro-foguetes funcionaram silenciosamente. Os tanques de propelentes hipergólicos, não afetados pelo longo estágio dormente no espaço, estavam ainda intactos e obedientemente supriram os impulsores insaciáveis.

O homem congelado a bordo não se preocupou com a libertação prematura de sua órbita eterna entre estrelas não cintilantes. O sistema completamente automatizado prosseguiu em sua programação contínua, colocando o escudo de calor na frente, esperando pelo atrito com o ar para anular drasticamente a velocidade de 17.000 milhas por hora. Na marca das 500 milhas por hora, os foguetes de freio nas bordas do escudo de calor explodem para amortecer a queda final. Todos os sistemas funcionaram. Nada tinha sido atingido pelo meteoro exceto a superfície dos controles automático e manual, por isso apenas a colisão no meio do espaço pôde engatar os mecanismos na operação.
Os destroços da nave espacial fixaram-se suavemente numa geleira.

E por isso, o astronauta Wayne Durk aterrizou depois de tudo...

Um homem morto.

Não, não completamente um homem morto.


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