quarta-feira, 30 de junho de 2010

Cei, o Gigante - Curt Siodmak



Jan Van Buren inclinou o rosto angelical para o velho na estreita cama da prisão espacial.

Seus olhos, de órbitas profundas, brilhantes e cruéis como um pedaço de cristal, observam com prazer sensual a agonia do homem drogado.

Através do vycorglass das paredes da sala, a Terra surgiu como um gigante, enchendo o espaço, salpicado de estrelas, desaparecendo com a rotação do satélite em seu eixo.

Van Buren endireitou o corpo cuidadosamente exercitado e, num gesto narcisista, sacudiu os compridos cabelos louros caídos obre os ombros.

- Ele está começando a lutar contra a droga - disse a Hans Hallstadt, escandindo cada sílaba com cuidado retórico. Vamos acabar com isso antes que ele acorde.

A sala era quase nua, exceto quanto a uma mesa presa ao assoalho, uma cadeira de balanço que pendia da parede, uma estante com alguns poucos livros amarrados uns aos outros para impedi-los de flutuar na reduzida gravidade do satélite.

- É o diabo ter de esvaziar um quarto! - observou Hallstadt. O rosto, manchado pelo câncer que um sol tropical lhe queimara na pele, contraiu-se num sorriso triste que inspirava compaixão.
Van Buren ergueu o velho e, com a ajuda de Hallstadt, colocou-o em uma padiola.

- Ele não sabe - disse, para consolar Hallstadt.

Entre os dois homens havia uma comunicação profunda que ultrapassava a amizade.
- Mas soube por algum tempo - replicou Hallstadt com uma piedade que não parecia inspirada pelo homem drogado mas por si mesmo. - Ele ainda teria alguns anos de vida.

Ergueram a padiola. Na reduzida gravidade parecia quase sem peso.
- Ele não sabe - repetiu Van Buren com orgulhosa impaciência. - E se o soubesse,não teria ideia de quando. Ora, que é isso? É como um derrame cerebral. Repentino. Inesperado. Você gostaria de saber quando vai morrer?
- Eles não me matariam desse modo! - murmurou Hallstadt.
Entraram em um corredor e passaram diante de portas fechadas.
- A Terra vai mandar um substituto. Pierre Bardou, um francês - disse Hallstadt, carregando a maca como um garçom suporta uma bandeja.
- Qual foi o seu crime? - perguntou Van Buren com agressivo sarcasmo. - Tentou matar o presidente da República?
- Não! Divulgou documentos secretos que implicavam militares franceses.
- Ah! Atacar os militares! É um crime pior que o assassínio! - Van Buren parou, pousando a maca no chão.
- Primeiro Deus - disse - depois os generais, ou vice-versa.
- A guerra é uma profissão excitante - afirmou Hallstadt. - Você deve saber! Gosta de ver pessoas morrendo.
Tinham chegado a um pequeno nicho na parede do corredor. Uma pesada porta em semicírculo, com grossos batentes de aço, como os dos submarinos, fecha a câmara de compressão que leva ao mundo exterior.

O velho, na maca, sentiu a morte próxima e lutou para recuperar a consciência.
Murmurou palavras desconexas. Hallstadt curvou-se para ele, mas Van Buren empurrou-o delicadamente.
- Não ouça Hans.
Tinha um olhar estranho, drogado.
- Essas palavras não têm nenhum sentido, mas ficariam em sua mente.
Puxou uma alavanca na parede. O ar uivou como um animal, por trás da porta.
Van Buren observou os painéis que indicavam a pressão do ar dentro da câmara. As atmosferas equilibraram-se, a porta girou lentamente nos gonzos e se abriu.

- Não precisa ficar aqui perto, Hans. Eu sei como você é fraco – disse Van Buren, a respiração acelerada, tocando o rosto do amigo com suavidade.
- Não me importo - replicou Hallstadt com um dar de ombros - Quantos já não matamos aqui! Isso já não me afeta.
Silenciosamente os dois homens viraram a maca na câmara de compressão e fecharam a pesada porta.
- Assisti o julgamento de Bardou pela televisão - disse Hallstadt observando Van Buren abaixar a alavanca. O ritmo cadenciado do compressor precipitou-se.

- Quase foi absolvido, mas houve um tiroteio diante do tribunal e algumas pessoas morreram. Foi por isso que o juiz o enviou para nós.
- Que mistério! - Van Buren apoiou as mãos abertas contra o vycorglass e olhou para baixo, para o homem na maca - A pressão se equilibrou - murmurou. - Abra a porta exterior. O ar da câmara fluiu de novo para os tambores de pressão. Uma parede na câmara de arejamento abriu-se e o espaço negro pontilhado de galáxias formou um aveludado pano de fundo. Nada há de misterioso - disse Hallstadt prosseguindo na conversação. Enrolou um cigarro, acendeu-o, deu uma tragada profunda. Depois passou-o ao amigo, absorvido na contemplação do homem na câmara de compressão. Este tomou o cigarro sem sequer voltar a cabeça. - O governo jamais desiste quando persegue uma presa - disse Hallstadt.
- Nunca! Bardou não teve a menor oportunidade!

O corpo na câmara de compressão jazia imóvel. Mas agora começava a tremer de leve, quase imperceptivelmente. As faces afundaram dando ao rosto o aspecto de uma caveira. Os olhos sumiram nas órbitas e a pele começou a encolher, expelindo tufos de pelos cor de cinza. Van Buren observava a transformação com concentração hipnótica.

- Jamais me cansarei deste espetáculo - confessou, sem pretender desculpar-se. - Ver pessoas morrendo deste modo leva-me a filosofar. Que somos nós? Noventa e cinco por cento de água e algumas gramas de ossos, cabelos, carne e unha? Como pode o homem ser a imagem de Deus? Deus é feito de água? - Riu baixinho.

Nos lábios do homem morto bolhas surgiam, cresciam, estouravam e se evaporavam como se o cadáver estivesse fervendo por dentro. Sua roupa, um macacão como os de Hallstadt e Van Buren, tornou-se muito larga para o corpo.
- Deixe-o só!
Hallstadt virou o rosto e puxou o amigo pelo braço.
- Muitas horas serão precisas para que ele fique completamente seco. Não é um espetáculo agradável, exatamente antes do jantar.
Tomando o cigarro dos lábios de Van Buren, aspirou-o profundamente.
Van Buren não podia desviar os olhos do corpo que encolhia.
- Eu gosto de olhar. Você pensa que Bardou se adaptará a nossa pequena comunidade?
- É possível. Ele parece inteligente - disse Hallstadt. E se isso não acontecer, bem, temos um quarto vazio, mas não por muito tempo. O pessoal lá de baixo fica feliz com a morte de quem quer que seja aqui de cima. Se pudessem, eles substituiriam toda a tripulação a cada mês.

Lançou um olhar ao corpo. Ele mudara de forma. As pernas erguiam-se vagarosamente como se puxadas por cordéis. A pele se transformara em pergaminho. Van Buren colou o rosto, com força, contra o vidro.
- Divirta-se, sádico, filho da ...
Bateu de leve nas costas de Van Buren.
- Que estranho processo de fazer funcionar o sexo! Alguém precisa morrer para que você chegue ao orgasmo!
Van Buren não lhe deu atenção. Hallstadt afastou-se com movimentos de cegonha,cada um de seus passos cobrindo uma extensão de cerca de três metros, na reduzida gravidade da prisão espacial.



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