sábado, 28 de agosto de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 22)




RECOLOCOU O telefone no gancho e não mais despregou os olhos do ponto que se movera do lado de fora do carro.
A corcova no chão, entre as pedras. Um animal, disse a si mesmo.
Seu coração bateu devagar, sob a carga excessiva, o choque do reconhecimento.
Eu sei o que é, compreendeu. Nunca vi um deles antes, mas conheço pelos filmes que mostravam, no canal do governo. Eles estão extintos!, disse a si mesmo.

Rapidamente, tirou do bolso o amarfanhado e muito usado catálogo da Sidney's e virou as páginas com mãos trêmulas.
SAPO (Bufonidae), todas as variedades.

Extinto há anos. A criatura mais preciosa para Wilbur Mercer, juntamente com o jumento. Mas, sapos, acima de todas.
Preciso de uma caixa,
Girou sobre si mesmo com dificuldade, coisa alguma viu no assento traseiro do hovercar; saltou, correu até a mala, girou a fechadura, abriu-a.
Encontrou um recipiente de papelão, dentro dele uma bomba de combustível sobressalente para o carro. Despejou a bomba, encontrou um pouco de estopa grossa e dirigiu-se em passos lentos para o sapo. Sem tirar os olhos dele.

O sapo, notou, combinava inteiramente com a textura e tonalidade da poeira sempre presente. Evoluíra, talvez, enfrentando o novo clima, como enfrentara antes todos os climas. Se não se houvesse movido, jamais tê-lo-ia visto. Ainda assim, estivera sentado a não mais de metro e meio dele.
O que acontece quando a gente encontra — se encontra — um animal que se julga extinto?, perguntou a si mesmo, tentando lembrar-se.
Isso acontecia tão raramente. Havia alguma coisa sobre uma estrela de honra dada pelas Nações Unidas e uma soma em dinheiro. Uma recompensa que chegava a milhões de dólares.

E, dentre todas as possibilidades — encontrar a criatura mais sagrada para Mercer. Jesus, pensou, não pode ser.
Talvez isto se deva ao dano cerebral em mim: exposição à radiatividade.
Eu sou um especial, pensou. Alguma coisa me aconteceu. Como o debilóide Isidore e sua aranha. O que aconteceu a ele está me acontecendo. Será que foi Mercer quem providenciou isto?
Mas eu sou Mercer. Eu arranjei isto, eu descobri o sapo. Encontrei-o por que vejo através dos olhos de Mercer. Acocorou-se bem perto do sapo.

O animal empurrara para o lado a poeira, a fim de fazer um buraco parcial para si mesmo, afastara a poeira com a anca, de modo que só a parte superior de seu crânio chato e seus olhos projetavam-se acima do chão.
Entrementes, seu metabolismo reduziu-se quase à paralisação total, o animal entrou em transe. Nos olhos não havia fagulha, nem percepção de sua presença e, horrorizado, pensou: ele está morto, de sede, talvez. Mas se movera.
Pondo de lado a caixa de papelão, cuidadosamente começou a afastar a areia frouxa para longe do sapo. O bicho não pareceu objetar, mas, claro, ele não tinha consciência de sua existência.

Ao erguer o sapo, sentiu-lhe a frieza peculiar; em suas mãos, o corpo do animal parecia seco e enrugado — quase mole — e tão frio como se houvesse fixado residência em uma caverna sob a terra, a quilômetros do sol. Naquele momento, o sapo se mexeu; com suas fracas pernas traseiras, tentou livrar-se de sua empunhadura, querendo, instintivamente, afastar-se aos saltos.

Um bichão, pensou Rick. Adulto e sábio. Capaz, à sua maneira, de sobreviver mesmo àquilo a que não estamos realmente conseguindo sobreviver. Gostaria de saber onde ele encontra água para seus ovos.

Então, é isto o que Mercer vê, pensou, enquanto laboriosamente fechava a caixa, amarrando-a repetidas vezes. Vida que não podemos mais distinguir; vida cuidadosamente enterrada até a testa na carcaça de um mundo morto. Em cada brasa extinta do universo, Mercer provavelmente percebe vida que ninguém nota. Agora eu sei, pensou. E tendo uma vez visto através dos olhos de Mercer, provavelmente jamais pararei. E andróide nenhum, pensou, cortará as pernas deste animal. Como fizeram com a aranha do debilóide.

Com todo o cuidado, colocou a caixa amarrada no assento do carro e sentou-se ao volante.
É como ser criança outra vez, pensou.

Nesse momento, todo o peso o deixara, e a fadiga monumental, opressiva. Espere só até que Iran ouça isto.
Agarrou o aparelho e começou a discar. Depois, parou.
Vou fazer disto uma surpresa, concluiu.
Vai ser um vôo de apenas trinta ou quarenta minutos para voltar para lá.
Ansioso, ligou o motor e, logo depois, cortava o céu em direção a São Francisco, a mil e duzentos quilômetros ao sul.


No órgão condicionador Penfield, Iran Deckard estava sentada com o indicador da mão direita tocando o mostrador numerado. Mas não discou. Sentia-se inquieta e doente demais para fazer alguma coisa: um fardo que excluía o futuro e quaisquer possibilidades que ele poderia algum dia ter contido.
Se Rick estivesse aqui, pensou, ele me faria discar 3, e assim eu me descobriria querendo discar alguma coisa importante, fervilhante de alegria ou, se não isso, então possivelmente um 888, o desejo de assistir à televisão, qualquer que fosse o programa. O que será que estão mostrando? pensou.
Em seguida, pensou aonde teria ido Rick. Ele pode estar de volta e, por outro lado, pode não estar, disse a si mesma, e sentiu os ossos dentro do corpo se encolherem de velhice.
Uma batida à porta do apartamento.

Pondo de lado o manual Penfield, levantou-se de um salto, pensando: não preciso discar agora Já tenho o que quero...se for Rick.
Correu para a porta e abriu-a de par em par.
— Hei — disse ele.
Ali estava, um corte no rosto, as roupas amarrotadas e cinzentas, mesmo o cabelo saturado de poeira. As mãos, a face. .. a poeira colava-se a todas as partes de seu corpo; exceto aos olhos. Arredondados de espanto, seus olhos brilhavam como os de um menino.

Ele parece, pensou ela, como se tivesse estado brincando e chegou o momento de voltar para casa. Descansar, tomar um banho e contar tudo sobre os milagres do dia.
— Que bom ver você — disse ela.
— Eu tenho uma coisa para lhe mostrar. — Trazia e segurava com as duas mãos uma caixa de papelão. Quando entrou, não a depositou em lugar algum. Como se, pensou ela, a caixa contivesse algo frágil e valioso demais para soltar. Queria guardá-la eternamente em suas mãos.
— Vou-lhe preparar uma xícara de café.
No fogão, apertou o botão de café e, um momento depois, colocava uma imponente caneca ao lado dele na mesa da cozinha.

Segurando ainda a caixa, ele sentou-se e em seu rosto permanecia o olhar esbugalhado. Em todos os anos que o conhecia, jamais vira aquela expressão em seu rosto!
Algo acontecera desde que o vira pela última vez, desde que, na noite passada, ele saíra no carro. Agora, voltara e com ele essa caixa.
Na caixa, estava tudo o que lhe acontecera.

— Vou dormir — disse ele. — O dia inteiro. Telefonei e consegui falar com Harry Bryant. Ele me disse para tirar o dia de folga e descansar. Que é exatamente o que vou fazer.

Com todo o cuidado, pôs a caixa sobre a mesa e apanhou a caneca. Obediente, porque ela queria que fizesse isso, bebeu o café.
Sentada em frente a ele, ela perguntou:
— O que é que você tem aí nessa caixa, Rick?
— Um sapo.
— Posso vê-lo? — Ficou observando até que ele desamarrou a caixa e retirou a tampa. — Oh! — disse, vendo-o.
Por alguma razão, o bicho assustou-a. — Ele morde? — perguntou.
— Pegue-o. Ele não morde. Sapos não têm dentes.
Tirou o sapo da caixa e estendeu-o a ela. Suprimindo a aversão, ela pegou-o.
— Eu pensei que os sapos estivessem extintos — disse, virando-o, curiosa, sobre suas pernas. Pareciam quase inúteis. — Sapos podem saltar, como rãs? Quero dizer, este pode saltar subitamente de minhas mãos?
— As pernas de sapos são fracas — explicou Rick. — Esta é a principal diferença entre um sapo e uma rã, essa e a água. A rã permanece perto da água, mas um sapo pode viver num deserto. Encontrei este no deserto, perto da fronteira de Oregon. Onde tudo mais morreu.

Esticou a mão para tomá-lo de volta. Mas ela descobriu alguma coisa.
Ainda segurando-o de cabeça para baixo, mexeu no abdômen e, em seguida, com a unha, localizou o minúsculo painel de controle. Com um estalido, abriu-o.
— Oh! — A expressão do rosto dele desmoronou aos poucos. — Isso mesmo, agora estou compreendendo. Você tem razão.
Crista baixa, olhou mudamente para o falso animal. Tomou-o dela e mexeu-lhe nas pernas, como se confuso — não parecia entender inteiramente. Em seguida, com todo o cuidado, colocou-o na caixa.
— Eu gostaria de saber como foi que ele conseguiu chegar a uma parte tão desolada da Califórnia como aquela. Não há maneira de saber para quê.
— Talvez eu não devesse ter-lhe dito... que ele é elétrico. — Espichou a mão, tocou-lhe o braço. Sentia-se culpada, vendo o efeito que aquilo produzira nele, a mudança.
— Não — disse Rick —, estou satisfeito em saber. Ou melhor. .. — Ficou silencioso. — Eu preferiria saber.
— Quer usar o condicionador de estado de espírito? Sentir-se melhor? Você sempre tirou mais dele, mais do que eu, sempre.
— Eu vou ficar bem. 
Sacudiu a cabeça, como se tentasse clareá-la, ainda confuso. A aranha que Mercer deu ao debilóide, Isidore, provavelmente também era artificial. Mas isto não importa. As coisas elétricas também têm suas vidas. Insignificantes como essas vidas são.

— Você parece como se tivesse andado centenas de quilômetros.
— Foi um dia longo — concordou ele, abaixando a cabeça.
— Deite-se na cama e durma!
Ele fitou-a e, em seguida, como se perplexo:
— Acabou, não? — Confiante, pareceu esperar que ela lhe dissesse, como se ela soubesse. Como se ouvir a si mesmo dizer isso nada significasse. Tinha uma atitude dúbia em relação às suas próprias palavras; elas não se tornavam reais até que ela concordasse.
— Acabou — disse ela.
— Deus, que missão gigantesca — disse Rick. — Logo que comecei, não houve mais para mim maneira de parar. Ela continuou a me levar, até que finalmente peguei os Batys e então, de repente, não tive mais coisa alguma para fazer. E aquilo. .. — Hesitou, evidentemente atônito com o que começara a dizer. — Aquela parte foi pior. Depois que terminei o serviço. Não podia parar porque nada mais haveria, depois que eu parasse. Você teve razão esta manhã quando disse que eu nada mais sou senão um policial grosseiro, com mãos grosseiras.
— Eu não acho mais isso — retrucou ela. — Estou simplesmente feliz demais em tê-lo de volta em casa, que é o seu lugar. — Beijou-o e isto pareceu agradá-lo. O seu rosto se animou, quase tanto quanto antes — antes dela ter-lhe mostrado que o sapo era elétrico.
— Você acha que eu agi mal? — perguntou ele. — Pelo que fiz hoje?
— Não.
— Mercer disse que era errado, mas que devia fazê-lo, de qualquer maneira. Uma coisa realmente esquisita. Às vezes, é melhor fazer uma coisa má do que certa.
— É a maldição que caiu sobre nós — disse Iran. — Aquela de que fala Mercer.
— A poeira? — perguntou ele.
— Os assassinos que encontraram Mercer no seu décimo sexto ano, quando lhe disseram que ele não podia inverter o tempo e trazer de volta as coisas à vida. De modo que, agora; tudo o que ele pode fazer é continuar com a vida, indo aonde ela vai, para a morte. E os assassinos atiram pedras. São eles que fazem isso. Ainda perseguindo-o. E a todos nós, na verdade. Foi um deles que cortou seu rosto, aí onde está sangrando?
— Foi — disse ele fracamente.
— Você vai para a cama agora? Se eu sintonizar o órgão para um ambiente 670?
— O que é que isso produz? — perguntou ele.
— Uma longa e merecida paz — respondeu Iran.

Ele levantou-se dolorosamente, o rosto sonolento e confuso, como se um sem-número de batalhas houvessem sido travadas nele, durante muitos anos. Em seguida, devagar, tomou o caminho do quarto de dormir.
— Muito bem — concordou. — Uma longa e merecida paz.
Estirou-se na cama, a poeira despregando-se de suas roupas e cabelos nos lençóis brancos. Não havia necessidade de ligar o órgão, compreendeu Iran, apertando o botão que tornava opacas as janelas do quarto. Desaparecera a luz cinzenta do dia.
Na cama, após um momento, Rick adormeceu.

Ela permaneceu ali durante algum tempo, olhando-o para ter certeza de que ele não acordaria, não se sentaria, de medo, como às vezes fazia durante a noite. Em seguida, voltou à cozinha e se sentou mais uma vez à mesa.
Junto a ela o sapo elétrico batia e arranhava em sua caixa. Perguntou-se o que seria que ele "comia" e quanto custariam consertos seus. Moscas artificiais, decidiu.
Abrindo o catálogo telefônico, procurou nas páginas amarelas sob acessórios para animais elétricos„ Discou, e quando o vendedor respondeu, disse:
— Eu gostaria de encomendar meio quilo de moscas artificiais que sejam capazes de voar e zumbir, por favor.
— É para uma tartaruga elétrica, madame?
— Um sapo — disse ela.
— Neste caso sugiro nosso sortimento misto de insetos artificiais rastejadores e voadores de todos os tipos, incluindo...
— As moscas serão suficientes — disse Iran. — Quando poderá entregá-las? Eu não quero deixar o apartamento. Meu marido está dormindo e quero ter certeza de que tudo vai correr bem com ele.
— Para um sapo — disse o empregado — eu sugeriria também uma poça perpetuamente renovável, a menos que ele seja um sapo chifrudo, caso em que há um kit contendo areia, seixos multicoloridos, e pedaços de restos orgânicos. E se vai colocá-lo regularmente através de seu ciclo de alimentação, sugiro que deixe nosso departamento de serviços fazer um ajustamento periódico de língua. Num sapo, isto é vital.
— Ótimo — concordou Iran. — Quero que ele funcione perfeitamente. Meu marido gosta muito dele.
Deu o endereço e desligou.
E sentindo-se melhor, preparou finalmente para si mesma uma xícara de café forte e quente.



FIM.



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