domingo, 26 de setembro de 2010

A relação racionalismo vs sobrenatural nas obras de Sir Arthur Conan Doyle




Introdução

O século XIX assistiu ao sucesso de um dos mais conhecidos escritores da sua época que ficou conhecido, essencialmente, pela invenção de uma das mais conhecidas personagens de ficção: Sherlock Holmes.

Ainda hoje, volvidos tantos anos após a sua morte, o nome Conan Doyle continua a provocar reacções de rara passividade, dividindo opiniões entre críticos, estudiosos e leitores.

O ano de 1887 viria a ser o ponto de partida para uma vida dedicada à escrita e a obra A Study in Scarlet publicada no Beeton’s Christmas Annual seria o primeiro conto de muitos cuja personagem principal era Sherlock Holmes.

Tomando em consideração o impacto que as obras de Conan Doyle tiveram na sociedade vitoriana, bem como as posições assumidas ao longo da sua vida, é sempre questionável como é que um homem que criou uma personagem racional, presa a métodos científicos e com ela alcançou a glória e a fama, consegue, em primeiro lugar escrever obras onde o sobrenatural está latente, numa época em que o gótico persistia e, em segundo lugar, abandonar todas as convicções que deixava transparecer nas suas obras e dedicar-se ao espiritualismo.

Conan Doyle tornou-se, sem dúvida, uma identidade difícil de conciliar com Sherlock Holmes.

Desde o supraracionalismo de Holmes até à afirmação da sua fé no Espiritualismo percorreu-se um grande caminho. Que tipo de homem concebe aquela personagem para, a seguir se dedicar a uma causa totalmente contraditória? Os críticos têm procurado, em vão, encontrar, nas suas obras, uma resposta satisfatória “… even though some of his work took an autobiographical direction since his earliest days.” (Lellenberg 9)

Com efeito, os seus trabalhos autobiográficos não responderam às questões que críticos e estudiosos consideravam mais intrigantes acerca dele. A causa de grande perplexidade reside no facto de Sherlock Holmes ter sido criado por alguém que pouco se assemelhava a esta personagem: “…Watsonian in appearance, none too dedicated as a physician, a commercial writer, a British patriot, a spokesman for some unfashionable causes, and finally a Spiritualist missionary.” (Idem 10)

Segundo Lellenberg, as informações que a autobiografia não conseguiu fornecer, as biografias tentaram fazê-lo. Desde a sua morte em 1930, treze biografias de Conan Doyle foram publicadas em Inglaterra e nos Estados Unidos – bastante impressionante para um escritor pouco reconhecido pela academia: “He has had little standing in the academic sight of things, regarded there as merely a popular writer of escapist mysteries, adventures, and outdated historical fiction.” (Ibidem 11)

Contudo, Conan Doyle e a sua obra continuam a ser estudados, particularmente Sherlock Holmes. As reedições das suas histórias sucedem-se uma após outra, traduzidas para inúmeras línguas, e Conan Doyle continua, incontestavelmente, a ser o criador de uma das mais poderosas figuras da ficção.

Na nossa opinião, a questão deve ser colocada da seguinte forma: “Did this British author with a scientific education have a simple or complex psyche?” (Ibidem 10) Como argumenta Lellenberg, poderia um homem cientificamente educado abraçar o Espiritualismo, sem reservas, ou ser ludibriado como no caso das fotografias das fadas de Cottingly. Além disso, quem teria servido de modelo para Sherlock Holmes: “… Joseph Bell, his super observant professor of medicine, as Conan Doyle claimed? Or Conan Doyle himself, as son Adrian would later argue?” (Ibidem 10)

Numa tentativa de entender e explicitar o lugar da lógica e da racionalidade em obras consideradas góticas, iremos analisar as suas narrativas The Hound of the Baskervilles e The Sussex Vampire.
Nesse sentido, considerámos relevante estabelecer algumas analogias com Dracula de Bram Stoker.

Deste modo, procuraremos analisar a interacção entre as narrativas de Conan Doyle com a época em que foram produzidas, demonstrando a intemporalidade de certos símbolos nelas presentes, tendo sempre por base o contraste entre racionalidade e o sobrenatural, nomeadamente, os elementos do gótico.

A presente dissertação dividir-se-á, neste contexto, em três capítulos:

no primeiro capítulo abordaremos aspectos biográficos de Conan Doyle, considerando o seu trabalho literário, as influências e a sua recepção crítica, tentando encontrar as razões para a sua ligação ao ocultismo e ao espiritualismo. Para este efeito, convocar-se-ão, entre outros documentos, três biografias de Doyle produzidas respectivamente por Charles Higham, Hesketh Pearson e John Dickson Carr, que irão concorrer para uma complementação de informação relevante para o tema do estudo.

No segundo capítulo da dissertação procederemos a uma contextualização sociocultural e literária da época observando o papel das artes na sociedade vitoriana, estabelecendo uma conexão com a literatura, e prestando maior atenção à narrativa gótica e ao estudo do sobrenatural no finde-siècle. Tendo em atenção que é neste período que assumem particular relevo as histórias de detectives iremos enquadrar Sherlock Holmes nesse âmbito. Para tal, abordar-se-ão, entre outras, as perspectivas de Martin Priestman, Peter Brooks, John Hodgson, Stephen Knight e Catherine Belsey, enquanto investigadores da importância de Sherlock Holmes na vida e obra de Conan Doyle.

Com efeito, Sherlock Holmes, o primeiro detective não oficial entrou nas páginas da literatura inglesa há mais de cem anos e rapidamente se tornou conhecido em todo o mundo. De facto, a partir de um algo obscuro começo numa revista em 1887, depressa se tornou uma das personagens literárias mais características assim permanecendo até hoje. Os vocábulos “Sherlockian”, “Holmesian” e “Watsonian” fazem, agora, parte do nosso discurso, enquanto a imagem do brilhante detective e do seu leal companheiro, se tornaram arquétipos e clichés da nossa cultura. Como muitas histórias e episódios contados pelos seus biógrafos, havia muito de Sherlock Holmes em Arthur Conan Doyle. Também como o seu famoso protagonista, Doyle possuía uma enorme sensibilidade para os detalhes, uma imaginação activa, uma experiência social e intelectual muito grande e uma inclinação para o dramático. Estas características serão essenciais para a desconstrução das suas obras.

No último capítulo do presente estudo procederemos à análise da obra The Hound of the Baskervilles tentando encontrar os elementos que a caracterizam como gótica. Faremos, ainda, uma abordagem a outras obras de Conan Doyle que devido às suas características, são consideradas histórias de horror.

Procederemos, também, à análise sucinta de Dracula – uma vez que não é este o intuito do trabalho – revelando pontos de contacto e/ou afastamento com a short-story “The Sussex Vampire”, de Arthur Conan Doyle.

No caso deste autor, o cepticismo de Sherlock Holmes não lhe permite, sequer, que a trama da história se centre num vampiro. Em Dracula, o vampiro existe e toda a acção se move à sua volta.

Por volta de 1970, os estudos sobre Dracula eram pouco mais de meia dúzia de artigos e uma biografia de Stoker realizada por Harry Ludlam em 1962. Só mais tarde Dracula começou a ser estudado nas universidades. Segundo Clive Leatherdale, com Dracula, the novel and the legend (2001), há quem considere a obra de Bram Stoker o segundo livro mais vendido no mundo a seguir à Bíblia: “Dracula has been translated into numerous languages, and the image of “the count” is familiar the world over. He is part of the landscape of a universal culture: the black cape, the dripping fangs, the scream of terror…”(Leatherdale 9)
Ainda na opinião de Leatherdale “… Dracula is almost the Gothic novel par excellence and has given rise to arguably the most potent literary myth of recent decades”. (Idem 10)

Quer para analisar “The Sussex Vampire”, quer para analisar Dracula, teremos de explorar a noção de vampiro e o seu papel no folclore e na literatura Europeia. O que este estudo visa, afinal, é encontrar uma explicação para a existência das histórias de Sherlock Holmes, demonstrar a sua intemporalidade e tentar compreender as razões que levaram o seu autor a querer abandonar este tipo de produções para se dedicar a uma causa, nem sempre bem aceite pela sociedade e mal compreendida pelos seus leitores como foi a sua orientação espiritualista.



Índice
Agradecimentos
Nota prévia
Introdução

Capítulo 1 – Vida e obra de Arthur Conan Doyle
1.1. Biografia e influências literárias nas obras de Conan Doyle
1.2. A ligação ao espiritualismo e a recepção crítica à obra de Conan Doyle
Notas

Capítulo 2 – Contextualização sociocultural e literária
2.1. A sociedade vitoriana e as artes 
2.2. O sobrenatural, o gótico e os elementos da novela gótica
2.3. As histórias de detectives, as short-stories e Sherlock Holmes
Notas

Capítulo 3 – O vampirismo e o sobrenatural nas histórias de Sherlock Holmes: análise das obras The Hound of the Baskervilles (1901) e “The Adventure of the Sussex Vampire” (1924) – breve leitura comparada com Dracula (1897) de Bram Stoker
3.1. Elementos míticos em The Hound of the Baskervilles
3.2. O vampiro na literatura 
3.3. Breve leitura comparada de “The Adventure of the Sussex Vampire” e Dracula de Bram Stoker
Notas

Conclusão
Notas
Bibliografia 
Anexos



A relação racionalismo vs sobrenatural nas obras de Sir Arthur Conan Doyle [ Download ]
Ana Cristina Antunes Serigado de Oliveira Diogo - Mestrado em Estudos Ingleses - Lisboa/2007


Nota: 'Frances Griffiths with the fairies', por Elsie Wright (Julho/1916) faz parte das famosas fotos das 'Fadas de Cottingley', que na época provocaram uma enorme discussão sobre a suposta evidência real da existência de fadas em nosso mundo. Conan Doyle, um estudioso do misticismo e espíritualista, não apenas acreditou em sua veracidade, mas também escreveu um livro intitulado 'The coming of the fairies' (1922).