sábado, 4 de setembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 1)



 A CHEGADA


Às 19 horas, hora da nave, dirigi-me para a base de lançamento.

Os homens que se encontravam junto à coluna de saída afastaram-se para me deixar passar e entrei para dentro da cápsula.

Dentro do estreito cockpit quase não havia espaço para uma pessoa se mexer.
Liguei a mangueira à válvula do meu traje espacial, que rapidamente se encheu de ar.

A partir de então fiquei incapaz de fazer o mínimo movimento. Enfiado no meu traje e capacete pneumáticos, ali fiquei de pé, ou antes, suspenso da fuselagem. Olhei para cima; pela capota transparente podia ver-se uma parede lisa e polida e, muito mais acima, a cabeça de Moddard inclinada sobre o topo da coluna.

Moddard desapareceu e, de súbito, fiquei mergulhado na escuridão: o pesado cone de protecção tinha sido colocado no seu lugar. Por oito vezes ouvi o zunido dos motores elétricos, que apertavam os parafusos, seguido pelo sibilar dos amortecedores. Quando os meus olhos se acostumaram à escuridão, pude distinguir o círculo luminoso do único mostrador que havia.

Nos meus fones de ouvido, uma voz ecoou:
– Pronto, Kelvin?
– Pronto, Moddard — respondi.
– Não te preocupes com nada. A Estação apanha-te em pleno voo. Boa viagem!
Houve um barulho rangente, e a cápsula oscilou. Involuntariamente, os meus músculos ficaram tensos, mas não houve qualquer outro ruído ou movimento.
– Quando é a largada? — Enquanto perguntava, notei lá fora um ruído, como uma chuva de areia fina.
– Já está a caminho, Kelvin. Boa sorte! — A voz de Moddard parecia tão próxima como antes.

Abriu-se uma ampla fenda à altura dos meus olhos e pude ver as estrelas. O Prometheus estava em órbita na região de Alpha, em Aquarius, e em vão tentei orientar-me; a vigia estava cheia de uma poeira cintilante.
Não conseguia reconhecer uma única constelação; nesta região da Galáxia o céu eram-me pouco familiar.

Esperei pelo momento em que passaria junto da primeira estrela distinta, mas fui incapaz de isolar qualquer uma. O brilho delas esmorecia; recuavam, amalgamando-se numa vaga luminosidade cor de púrpura, o que constituía a única indicação da distância que eu já tinha percorrido.

Com o corpo rígido, selado no meu envelope pneumático, cortava velozmente o espaço, embora tivesse a impressão de estar parado sobre o abismo, e a minha única distração era o calor, que constantemente aumentava.

De repente houve um rangido agudo, como uma lâmina de aço a deslizar sobre uma placa de vidro molhado. Cá estava: era a descida. Se não tivesse visto os números a correr velozmente pelo mostrador, não teria notado a alteração na direcção. Como há muito as estrelas tinham desaparecido, o meu olhar ficou mergulhado no pálido fulgor avermelhado do infinito.

Ouvia o meu coração bater ruidosamente.
Podia sentir no pescoço o ar fresco condicionado, mas a minha face parecia em fogo.
Lastimei não ter avistado o Prometheus, mas, quando os controlos automáticos tinham levantado a proteção da minha vigia, a nave já devia estar fora de vista.

A cápsula foi sacudida por um súbito tremor, depois outro. Todo o veículo começou a vibrar. Filtrada pelas camadas isoladoras e penetrando no meu casulo pneumático, a vibração chegou até mim e percorreu-me todo o corpo. A imagem do mostrador estremeceu e multiplicou-se e a sua fosforescência espalhou-se em todas as direções.

Não tive medo. Não tinha empreendido esta longa viagem para acabar por ultrapassar o alvo!

Chamei pelo microfone:
— Estação Solaris! Estação Solaris! Estação Solaris! Penso que estou a sair da rota de voo, corrijam-me a direção. Estação Solaris, aqui cápsula do Prometheus. Over.

Eu tinha perdido o momento precioso em que o planeta aparecera à vista pela primeira vez. Agora, espraiava-se perante os meus olhos — plano e imenso. Contudo, pela aparência da superfície, calculei estar ainda a grande distância acima dele, pois tinha ultrapassado aquela barreira imperceptível depois da qual passamos a medir a distância que nos separa de um corpo celeste em termos de altitude.

Estava a cair.
Tinha agora a sensação de cair, mesmo com os olhos fechados.
(Abri-os rapidamente de novo: não queria perder nada do que pudesse haver para ver.)

Esperei um momento em silêncio antes de mais uma vez tentar entrar em contacto. Nenhuma resposta. Pelos auscultadores chegaram-me sucessivas eclosões de estática sobre um pano de fundo formado por um murmúrio profundo e de tom baixo, que me parecia a própria voz do planeta.

Um véu de neblina encobria o céu cor de laranja, velando a vigia. Instintivamente acocorei-me o máximo que o traje insuflável permitia, mas, quase imediatamente, apercebi-me de que estava a atravessar uma nuvem. Depois, como que sugada para cima, a massa de nuvem elevou-se; eu deslizava, em parte na luz, em parte na sombra, e a cápsula ia girando sobre o seu próprio eixo vertical. Por fim, apareceu pela vigia a bola gigantesca do Sol, surgindo à esquerda e desaparecendo à direita.

Através do murmúrio e dos estalidos, chegou a mim uma voz distante.
— Aqui a Estação Solaris! Aqui a Estação Solaris! A cápsula vai aterrar às zero horas. Repito, a cápsula vai aterrar às zero horas. Atenção à contagem regressiva. Duzentos e cinqüenta, duzentos e quarenta e nove, duzentos e quarenta e oito...

As palavras eram pontuadas por uns sons agudos e penetrantes; era um equipamento automático que entoava as frases de recepção. Isto era de surpreender, para não dizer pior.

Regra geral, os homens que viviam em estações espaciais estavam ansiosos por cumprimentar qualquer recém-chegado, especialmente se vinha direto da Terra.
Não tive muito tempo para pensar no caso porque a órbita do Sol, que até aí me rodeara, mudòu inesperadamente de posição e o disco incandescente aparecia ora à direita, ora à esquerda, parecendo estar a dançar no horizonte do planeta.

A cápsula balouçava como um pêndulo gigante, enquanto o planeta, a superfície ondulada formando sulcos de um azul-púrpura e negros, se erguia à minha frente como uma muralha. Quando a cabeça começou a girar, apercebi-me de uma pequena mancha de pintas verdes e brancas; era o marcador de posição da Estação. Do cone da cápsula algo se destacou com estrépito; com um solavanco violento, o colarinho do grande pára-quedas soltou os aros, e o ruído que se seguiu recordou-me a Terra de modo irresistível: pela primeira vez depois de tantos meses, o lamento do vento.

Depois disso, tudo se passou rapidamente.

Até ali, eu sabia que devia estar a cair; agora podia verificá-lo pessoalmente.
O tabuleiro de xadrez verde e branco aumentou velozmente de tamanho e pude ver que estava pintado sobre um corpo prateado alongado, com a forma de uma baleia, os flancos eriçados com antenas de radar. Este colosso metálico, que era perfurado por várias séries de aberturas sombrias, não estava pousado sobre o próprio planeta, mas permanecia suspenso acima dele; lançando sobre a superfície cor de tinta que lhe ficava por baixo uma sombra elipsoidal de uma negrura ainda mais profunda.

Conseguia distinguir as ondulações cor de ardósia do oceano, o qual se movia num movimento tênue. De súbito, emolduradas por ofuscante fulgor carmesim, as nuvens elevaram-se a grande altura; o pálido céu tornou-se cinzento, distante e sem relevo; apagou-se tudo; eu estava a cair em parafuso.

Um solavanco violento, e a cápsula endireitou-se.

Mais uma vez podia ver o oceano pela vigia, as ondas como cristas de resplandecente mercúrio. Os aros do pára-quedas, as cordas rebentadas, agitavam-se furiosamente sobre as ondas, empurrados pelo vento. A cápsula desceu suavemente, oscilando com um ritmo lento peculiar que lhe era imposto pelo campo magnético artificial; tive apenas tempo para ver de relance a plataforma de aterragem e os reflexos parabólicos de dois radiotelescópios no topo das torres de aço perfurado.
Com o ressoar do aço a bater contra o aço, a cápsula parou.
Abriu-se uma escotilha e, com um suspiro dissonante, a concha metálica onde eu estivera aprisionado chegou ao fim da sua viagem.

Ouvi a voz metálica do centro de controle:
— Estação Solaris. Zero e zero. A cápsula aterrou. Out.

Sentindo uma vaga pressão sobre o peito e uma desagradável sensação de peso na boca do estômago, agarrei as alavancas de controle com ambas as mãos e desliguei o motor. Acendeu-se um indicador verde:
«chegada».

A cápsula abriu-se e o almofadado pneumático empurrou-me suavemente pelo lado de trás, de modo que, para me não desequilibrar, tive de dar um passo em frente. Com um abafado suspiro de resignação, o traje espacial expeliu o ar.

Eu estava livre.



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