sábado, 4 de setembro de 2010

Solaris




“Nas profundezas do Universo há um espelho para nossas almas”.

Como você reagiria se fosse confrontado com um planeta líquido que pensa - ou talvez não – e que conhece seus pensamentos mais secretos, seus desejos mais sombrios e suas mais íntimas lembranças, mas não a sua dor?

Solaris, publicado em 1961, é o livro mais famoso do escritor polonês Stanislaw Lem. É considerado um clássico, um livro que pode ser encontrado em todos os compêndios básicos de Ficção Científica, uma das mais sofisticadas obras de ficção ‘filosófica’ científica.

Alguns críticos consideram Solaris como "Metascience Fiction" - uma crítica profunda e uma exploração do potencial da ficção científica. Outros, na tentativa de situá-lo no panteão literário, o comparam com textos sátiros de Swift, uma parábola existencialista no estilo de Kafka, um conto irônico de cavaleiros a la Cervantes ou uma meditação kantiana sobre a natureza da mente humana.

Stanislaw Lem, é verdade, nunca foi idolatrado pela comunidade de ficção científica. Philip K. Dick o acusou de ser um agente comunista. Os membros da Science Fiction Writers Association o baniram.
E não é para se admirar.

Lem denunciou a FC popular como sendo algo trivial, produzida por (e para) débeis mentais. A ficção científica, uma vez ele escreveu, "é uma prostituta”.

A luta de Lem para reformar o gênero avançaria pelos anos 60 e 70 quando ele escreveria uma série de artigos criticando o que ele considerava a pobreza intelectual de ficção científica, devido à ignorância técnica, à imperícia literária e ingenuidade sociológica dos seus autores. Ele encheu dezenas de páginas de revistas acadêmicas como a Science Fiction Studies com argumentos densos, como a FC não estava conseguindo cumprir o seu potencial.

Mas as relações tensas com seus pares não mancharam a carreira de Lem.
A despeito de escrever em polonês, ele possui livros traduzidos para 40 idiomas. Seu sucesso só não se deu de todo por um motivo óbvio - seus livros mais importantes nunca foram publicados em inglês.
(Solaris só chegou ao público americano através de uma tradução de uma edição francesa do original polonês.)

No entanto, o principal motivo de Lem nunca se estabelecer no cenário mundial de FC é que seu humor sempre foi bastante cruel, seu amor pela ciência vinha antes de tudo e sua visão por vezes demasiadamente cerebral não se encaixava em um nicho dedicado à publicação de aventuras e fantasia.

Argumento

Solaris é um planeta que orbita dois sóis, um vermelho e um azul, e sua superfície é coberta por um oceano único, que tem sido objeto de debate por um século.

O psicólogo e físico Kris Kelvin chega à estação de pesquisas na órbita do planeta Solaris para substituir um de seus três ocupantes e averiguar em que circunstâncias se deu sua morte. Kelvin descobre que os furtivos membros sobreviventes, todos eles cientistas reputados, se encontram à beira da loucura e que convivem com outras estranhas criaturas, fantasmas de carne e osso.

Neste ambiente claustrofóbico e obsessivo, os três personagens humanos duelam contra um quarto personagem, o próprio planeta, um organismo senciente de poder inimaginável e profundamente indiferente da humanidade.

Durante anos, os cientistas da Terra vêm tentado desvendar o mistério que cerca Solaris, tentando compreender suas estruturas fascinantes, seu ‘comportamento’, além de procurarem estabelecer um contato bidirecional com a suposta ‘mente’ do planeta.   

Mas o planeta continua a ser incompreensível e continua a criar surpresas.
A estação de pesquisa, suspensa sobre as grossas nuvens, torna-se assim o cenário para um doloroso estudo mútuo.

A Opinião do Autor

“É um pouco difícil falar sobre este livro. Acho que consegui expressar o que eu pretendia. Parece bastante satisfatório aos meus olhos. Só posso acrescentar que se tornou algo suculento para os revisores. Li opiniões tão profundas, que eu mal as entendia...“

Adaptações Cinematográficas

Solaris teve duas adaptações para a tela grande. A primeira, de 1972, foi dirigida pelo brilhante cineasta russo Andrei Tarkovski, com roteiro de Friedrich Gorenstein e Donatas Banionis como Kris Kelvin.
Apesar de ter ganho o prêmio do Júri Especial do Festival de Cannes, Lem declarou não ter gostado do resultado e muito menos da sua relação com o diretor:

“Éramos como um par de cavalos atrelados - cada um puxando a carroça na direção oposta”.

A segunda adaptação, de 2002, foi produzida por James Cameron, dirigida por Steven Soderbergh, e estrelada por George Clooney.

Ao ouvir que Soderbergh prometia fazer do seu Solaris, um ‘cruzamento entre 2001 e O Último Tango em Paris’, Lem disse:

“Eu tive dúvidas sobre se eu deveria vender os direitos para os americanos, mas a certa altura, eu disse a mim mesmo, estou velho, tenho que abster-me de sempre dizer não. E agora é passado, não tem retorno, e não há nada que eu possa fazer sobre isso. Se os americanos transformaram meu livro em algo bizarro, não foi uma surpresa para mim. Eu só queria criar uma visão de um encontro humano com algo que certamente existe, de uma forma poderosa, talvez, que não pode ser reduzido a conceitos humanos, idéias ou imagens.
É por isso que o livro foi intitulado Solaris, e não Amor no Espaço.”  

O primeiro não foi além dos cinemas de ‘arte’. Já o Solaris de Hollywood conseguiu boas bilheterias, mas sem ganhar os aplausos ou a unanimidade da crítica.

A grande dificuldade em se adaptar a ficção científica de Lem se dá por conta que a obra de Lem se concentra na humanidade em geral, enquanto os filmes - ao menos os mais populares - são sobre seus personagens.

Conclusão

Por quase cinqüenta anos Lem escreveu sobre as mais fantásticas invenções, suas histórias envolvem acidentes, limitações, avarias, imperfeições, interpretações equivocadas, erros de percepção, cegueira dogmática e ambigüidade, como seu final para Solaris, desconfortável e não menos inesquecível.

Em Solaris, Lem examina os fundamentos de nossa existência e nosso lugar no universo, questionando a necessidade científica de invocar uma "compreensão antropomórfica do universo que nos cerca" e o projeto de colonização do universo através de um conhecimento científico global, o "Mito da Missão da Humanidade", enquanto a escuridão da mente ainda não foi devidamente analisada.

Ao fim, ele nos leva a considerar o quanto o desejo científico de contato alienígena é o anseio deslocado, em termos religiosos ou poéticos, de um encontro redentor com algo que transcende os limites do homem.

Em um trecho do livro, um dos cientistas, embriagado e cheio de dor e sinceridade, afirma que a humanidade não está realmente ansiosa pelo contato com civilizações alienígenas, mas à procura de espelhos onde encontrar sua própria imagem.








"Não queremos conquistar o espaço, queremos simplesmente estender os limites da Terra até as fronteiras do espaço. 

Para nós, este ou aquele planeta é tão árido como o Saara, outro é tão gelado como o Pólo Norte, outro ainda tão luxuriante como a bacia Amazônica. 

Somos humanitários e cavalheirescos; não queremos escravizar outras raças, queremos apenas transmitir-lhes os nossos valores e, em troca, apoderarmo-nos da sua herança. 

Consideramo-nos os Cavaleiros do Sagrado Contato. 
Isto é outra mentira. 

Nós procuramos apenas o Homem. 
Não temos necessidade de outros mundos. 

Um único mundo, o nosso, basta-nos; mas não o podemos aceitar por aquilo que é. Andamos à procura de uma imagem ideal para o nosso próprio mundo: andamos à procura de um planeta com uma civilização superior à nossa, mas que se tenha desenvolvido a partir da base de um protótipo do nosso primitivo passado. 

Ao mesmo tempo, há dentro de nós algo que não gostamos de encarar de frente, do qual tentamos proteger-nos, mas que sempre permanece, pois não abandonamos a Terra num estado de inocência primária.
 
Chegamos aqui como somos na realidade, e quando se volta a página, e essa realidade nos é revelada, aquela parte da nossa realidade que preferíamos deixar no silêncio, então já não gostamos mais dela."