sábado, 18 de setembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 3)



OS SOLARISTAS

No corredor vazio, permaneci por um momento em frente à porta fechada.
Notei uma tira adesiva colada de modo descuidado num dos painéis.
Nela estava escrita a lápis a palavra “Homem”!

Ao ver aquela palavra ali escrita, tive um arrepio, e o meu desejo foi voltar para junto de Snow buscando por companhia, mas resisti.


Com os seus loucos avisos ainda a ressoar-me nos ouvidos, segui pela passagem estreita e tubular cheia do lamento do vento, e os meus ombros vergavam sob o peso do traje espacial. Andando na ponta dos pés, fugindo semiconscientemente de qualquer observador invisível, passei por duas portas à esquerda e mais duas à direita.

Li os nomes dos seus ocupantes:
Dr. Gibarian, Dr. Sartorius.

Na quarta não havia placa com nome.
Hesitei, mas por fim rodei suavemente o puxador e abri lentamente a porta.
À medida que o fiz, tive a premonição, que quase chegava a ser certeza, de que havia alguém lá dentro. Entrei. Não havia ninguém.
Quase tão grande como a cabine onde encontrara Snow, uma vasta janela panorâmica dava para o oceano, o qual, deste lado, era iluminado pelo Sol, luzia com um fulgor oleaginoso, como se as ondas segregassem um óleo avermelhado.

Todo o quarto, cujo aspecto sugeria uma cabina de navio, estava banhado por uma luminosidade carmesim. Num dos lados, coberta por prateleiras cheias de livros, via-se uma cama retrátil de encontro à parede. Do outro lado, por entre inúmeros armários, pendiam várias molduras de metal, que continham uma série de fotografias aéreas, coladas umas às outras com fita-cola, e prateleiras cheias de tubos de ensaio e garrafas para destilação tapadas com bolas de algodão. O espaço por baixo da janela era ocupado por duas fileiras de caixas esmaltadas em branco. Ergui algumas das tampas; as caixas estavam atulhadas com toda a espécie de instrumentos e tubos de plástico misturados. Os cantos do quarto eram ocupados por um frigorífico, um gravador e um decodificador. Por não haver espaço na grande mesa junto à janela, um microscópio estava pousado no chão.

Voltando-me, vi um armário alto junto à porta de entrada. Estava meio aberto, cheio de trajes atmosféricos, batas de laboratório, aventais isoladores, roupas internas, botas para exploração planetária, cilindros de alumínio e aparelhagem portátil de oxigênio.
De uma das maçanetas da cama vertical pendiam dois conjuntos desse equipamento, juntamente com as máscaras que os completavam.

Por todo o lado reinava o mesmo caos, uma desordem geral que alguém tentara apressadamente disfarçar.

Cheirei o ar. Podia aperceber um vago cheiro a reagentes químicos e traços de algo mais acre, cloro? Instintivamente olhei para o teto à procura dos gradeamentos sobre os ventiladores de ar: nas grades estavam presas fitas de papel, que esvoaçavam docemente; o ar circulava de modo normal.

Para arranjar um certo espaço relativamente livre em volta da cama, entre as prateleiras dos livros e o armário, retirei de duas cadeiras uma confusão de livros, instrumentos e ferramentas e amontoei tudo ao acaso no outro lado do quarto.

Peguei um cabide para pendurar o meu traje espacial, segurei a ponta do fecho éclair e larguei tudo de novo. Dominado pela estranha idéia de que estava a me separar de um escudo de proteção, não conseguia convencer-me a despi-lo. Mais uma vez inspecionei todo o quarto. Verifiquei que a porta estava bem fechada, mas que não tinha trinco, e depois de breve hesitação empurrei contra ela algumas das caixas mais pesadas.
Depois de construída esta barricada temporária, em três movimentos rápidos libertei-me da minha ruidosa armadura.
Um pequeno espelho preso à porta do armário refletia parte do quarto, e pelo canto do olho apercebi-me de algo que se movia.
Dei um salto, mas era apenas a minha própria imagem.

Por baixo do traje espacial, o meu macacão estava ensopado de suor. Despi-o e puxei uma porta deslizante, pondo assim à vista as luzentes paredes de azulejo de um pequeno quarto de banho. Na parte côncava da base do chuveiro estava uma caixa longa e chata; levei-a para o quarto. Ao pousá-la, a tampa saltou e pôs à vista vária divisórias, plenas de estranhos objetos: umas coisas desajeitadas feitas num metal escuro e que eram grotescas réplicas dos instrumentos que havia nas prateleiras. Nenhuma das ferramentas poderia ser usada; eram grosseiras, retorcidas, semifundidas, como se tivessem estado num forno. E o mais estranho de tudo é que até os punhos de porcelana, virtualmente incombustíveis, estavam retorcidos e deformados. Mesmo na sua temperatura máxima, nenhum forno de laboratório teria podido derretê-los; apenas talvez, uma bateria atômica.

Tirei um contador Geiger do bolso do meu traje espacial, mas quando o segurei sobre aquele entulho permaneceu imóvel.

Nesse momento só tinha vestida a roupa interior. Arranquei-a, atirei-a para o outro lado do quarto e precipitei-me para o chuveiro. O choque da água fez-me bem. Rodando sob os jatos escaldantes e finos como agulhas, esfreguei-me com vigor, salpicando as paredes, arrancando da pele a densa espuma de mórbidas apreensões que de mim se tinha apoderado desde a minha chegada.

Procurei no armário e encontrei um traje de treino que podia também ser usado sob um traje atmosférico. Quando enfiava nos bolsos os meus poucos pertences, senti uma coisa dura entre as páginas da minha agenda: era uma chave, a chave do meu apartamento lá na Terra. De modo distraído, a fiz girar nos dedos. Por fim, pousei-a sobre a mesa.

De repente, ocorreu-me que talvez viesse a precisar de uma arma. Um canivete, apesar de muito completo, dificilmente seria o bastante para as minhas necessidades, mas nada mais tinha, e não me ia agora pôr à procura de uma pistola de raios gama ou outra coisa no gênero.

Sentei-me num banco tubular no meio do espaço livre, feliz por estar só, e verificando com satisfação que tinha mais de meia hora para mim.
(Por natureza, sempre fui muito escrupuloso a respeitar os meus compromissos, fossem eles importantes ou triviais.)

Os ponteiros do relógio, cujo mostrador estava dividido em vinte e quatro horas, marcavam as sete horas. O Sol estava a pôr-se. 07.00 horas aqui, eram 20.00 horas a bordo do Prometheus. Sobre os monitores de Moddard, Solaris nada mais seria que uma indistinta nuvem de poeira, perdida entre as estrelas.
Mas que importava agora o Prometheus?
Fechei os olhos.

Não ouvia qualquer som além do gemido dos tubos de ventilação e um vago pingar de água no banheiro.
Se tinha compreendido corretamente, Gibarian morrera há pouco tempo. Que teriam feito com o seu corpo? Teriam enterrado-o? Não, neste planeta isso teria sido impossível.

Fiquei muito tempo cismado com esse problema, pensando no destino do cadáver; depois, apercebendo-me do caráter absurdo dos meus pensamentos, comecei a andar de um lado para o outro. O meu pé esbarrou numa bolsa de lona, meio enterrada sob uma pilha de livros; curvei-me e apanhei-a. Continha um pequeno frasco de vidro colorido, tão leve que parecia ter sido feito de papel. Ergui-o virado para a janela, à luminosidade purpúrea do crepúsculo sombrio, onde agora pairava um nevoeiro cor de fuligem.
Que estava eu a fazer, que me deixava distrair por coisas irrelevantes, pela primeira bugiganga que me tinha vindo à mão?

Tive um sobressalto: as luzes tinham-se acendido, ativadas por um interruptor fotoelétrico; o Sol desaparecera. Que iria acontecer em seguida?

Estava tão tenso que a sensação de um espaço vazio atrás de mim se me tornou insuportável. Numa tentativa para me controlar, levei uma cadeira para junto da estante de livros e escolhi um que já conhecia: o segundo volume de uma antiga monografia da autoria de Hughes e Eugel, História Solaris. Pousei o volume grosso e solidamente encadernado sobre os joelhos e comecei a folheá-lo.

A descoberta de Solaris datava de cerca de cem anos antes de eu ter nascido.
O planeta girava em órbita em volta de dois sóis: um sol vermelho e outro azul.
Durante quarenta e cinco anos depois dessa descoberta, nenhuma nave espacial tinha visitado Solaris. Nessa época, a teoria Gamow-Shapley — de que a vida é impossível em planetas que são satélites de dois corpos solares — era firmemente aceita.
No decurso das suas translações em volta de dois sóis, a órbita está constantemente a ser alterada pelas variações de atração gravitacional.

Devido a essas flutuações na gravidade, a órbita é umas vezes achatada, outras, distendida, e os elementos de vida, se aparecem, são inevitavelmente destruídos, quer por um calor intenso, quer por uma extrema queda de temperatura. Estas alterações acontecem em intervalos calculados em milhões de anos — o que significa intervalos muito curtos, segundo as leis da astronomia e da biologia (a evolução leva centenas de milhares de anos, se não um bilhão).
De acordo com os primeiros cálculos feitos, daí a 500 000 anos Solaris seria atraído meia unidade astronômica para mais perto do seu Sol encarnado, e um milhão de anos mais tarde seria absorvido por essa estrela incandescente.

Algumas décadas mais tarde, porém, as observações feitas pareciam sugerir que a órbita do planeta não estava de modo algum sujeita às variações esperadas: continuava estável, tão estável como as órbitas dos planetas do nosso próprio sistema solar.
As observações e os cálculos foram refeitos com grande precisão, mas limitaram-se a confirmar as conclusões originais: a órbita de Solaris era instável.

Um caso modesto entre as centenas de planetas descobertos anualmente — aos quais as estatísticas oficiais dedicavam apenas algumas linhas para definir as características das suas órbitas —, Solaris acabou por atrair uma atenção especial e atingir grande importância.

Quatro anos depois desta promoção, a expedição Ottenskjõld, ao sobrevoar o planeta com a Laakon e duas naves auxiliares, procedeu a estudos sobre Solaris.
Como esta expedição tinha o carácter de um reconhecimento preliminar, se não improvisado, os cientistas não estavam equipados para aterrar.
Ottenskjõld colocou vários satélites automáticos de observação em órbitas equatoriais e polares, cuja principal função era medir a atração gravitacional.

Para além disso, fez-se um estudo da superfície do planeta, que é coberto por um oceano e salpicado por incontáveis ilhas planas e pouco elevadas, cujas áreas, todas somadas, têm um total inferior à área da Europa, embora o diâmetro de Solaris seja superior em um quinto ao da Terra. Estas extensões de território árido e rochoso estão distribuídas de modo irregular e concentram-se essencialmente no hemisfério sul.

A composição da atmosfera —isenta de oxigênio— foi ao mesmo tempo analisada e fizeram-se medições precisas sobre a densidade do planeta, a partir das quais se determinou o seu albedo (relação entre a quantidade de luz refletida por um corpo não luminoso e a quantidade de luz incidente) e outras características astronômicas.
Como era de prever, não foi descoberto qualquer sinal de vida, quer nas ilhas, quer no oceano.

Durante os dez anos que se seguiram, Solaris tornou-se o centro de atração de todos os observatórios que se dedicavam ao estudo desta região do espaço, pois nesse entretanto o planeta mostrava a espantosa faculdade de manter uma órbita, que, sem sombra de dúvida, deveria ter sido instável. O problema quase degenerou em escândalo: uma vez que os resultados das observações tinham que, forçosamente, estarem errados.
Fizeram-se tentativas (para bem da ciência) para denunciar e desacreditar vários cientistas ou, pelo menos, os computadores que tinham utilizado.
A falta de fundos atrasou por mais três anos a partida de uma expedição adequada a Solaris. Por fim, Shannahan reuniu uma equipe e conseguiu do Instituto três naves de tonelagem C, as maiores naves espaciais da época. Um ano e meio antes da chegada da expedição que partira da região de África, em Aquarius, uma segunda frota, agindo em nome do Instituto, colocara um satélite automático —Luna 247— em órbita em redor de Solaris. Este satélite, depois de três reconstruções sucessivas em intervalos de aproximadamente dez anos, ainda hoje está a funcionar. Os dados por ele fornecidos confirmaram, sem possibilidade de dúvida, as descobertas da expedição de Ottenskjõld no que dizia respeito ao carácter ativo dos movimentos do oceano.

Uma das naves de Shannahan permaneceu em órbita, enquanto as outras duas, depois de algumas tentativas preliminares, aterraram no hemisfério sul, numa área rochosa com cerca de seiscentas milhas quadradas.
O trabalho da expedição durou dezoito meses e foi levado a cabo sob condições favoráveis, à parte um acidente infeliz provocado pelo mau funcionamento de um dos aparelhos.

Entretanto, os cientistas tinham-se dividido em dois campos opostos; o pomo da discórdia era o oceano. Com base nas análises, fora aceite a afirmação de que o oceano era uma formação orgânica (nessa época ainda ninguém ousara dizer que tinha vida).
Mas, enquanto os biólogos a consideravam uma formação primitiva — uma espécie de entidade gigantesca, uma célula fluida, única e monstruosa (a que chamaram “pre-biológica”, que envolvia o globo com uma camada coloidal, que em certos pontos tinha várias milhas de espessura, os astrônomos e os físicos afirmavam que devia ser uma estrutura orgânica, extraordinariamente desenvolvida.

Segundo eles, o oceano provavelmente excedia em complexidade as estruturas orgânicas terrestres, uma vez que era capaz de exercer influência ativa sobre o percurso orbital do planeta. Era bem certo que não se achara nenhum outro fator que pudesse explicar o comportamento de Solaris; e mais, os físicos planetários tinham estabelecido uma relação entre certos fenômenos do oceano plásmico e as medições locais da atração gravitacional, as quais variam de acordo com as “transformações da matéria” do oceano.

Em conseqüência disso, foram os físicos, e não os biólogos, quem apresentaram a hipótese paradoxal de um “mecanismo plásmico”, querendo com isto referir-se a uma estrutura provavelmente sem vida tal como nós a conhecemos, mas capaz de realizar atividades funcionais em escala astronômica, devemos sublinhar.

Foi por causa desta disputa, cujo eco breve chegou aos ouvidos das mais eminentes autoridades, que a doutrina Gamow-Shapley, aceita sem discussão durante oitenta anos, foi pela primeira vez abalada. Houveram alguns que continuaram a apoiar as alegações Gamow-Shapley, que afirmavam que o oceano nada tinha que se pudesse relacionar com a idéia de vida, que não era nem “parabiológico”, nem “pré-biológico”, mas apenas uma formação geológica, extremamente rara é certo, com uma capacidade única para estabilizar a órbita de Solaris, apesar das variações nas forças de atração.
Recorreram à lei de Le Chatelier para reforçar este argumento.

Em desafio a esta atitude conservadora, foram apresentadas novas hipóteses — das quais a de Civitto-Vitta era das mais elaboradas —, que proclamavam que o oceano era um produto de um desenvolvimento dialético: na base da sua primeira forma pré-oceânica estava uma solução de elementos químicos de reação lenta, e, pela força das circunstâncias (a ameaça à sua existência devida às alterações de órbita), atingira num único salto a fase de “oceano homeostático”, sem passar por todas as fases da evolução terrestre, saltando as fases unicelular e multicelular, a fase vegetal e animal, o desenvolvimento de um sistema nervoso e cerebral. Por outras palavras, diferentemente do que acontecera com os organismos terrestres, não necessitara de centenas de milhões de anos para se adaptar ao seu meio ambiente — culminando nos primeiros representantes de uma espécie dotada de razão—, antes o dominara imediatamente.
Este ponto de vista era original. Contudo, o modo pela qual essa camada coloidal conseguia estabilizar a órbita do planeta continuava por descobrir.
Há quase um século que existiam engenhos capazes de criar campos magnéticos e gravitacionais artificiais; chamavam-se gravitadores.
Mas ninguém conseguia ter a mínima idéia de como essa espécie de cola sem forma conseguia produzir um efeito que os gravitadores realizavam recorrendo a complicadas reações nucleares e temperaturas incrivelmente elevadas.

Os jornais da época, despertando a curiosidade dos leigos e a ira dos cientistas, estavam cheios com os mais improváveis arabescos sobre o tema do “Mistério Solaris”, chegando um repórter a sugerir que o oceano era nada menos que um parente distante das nossas enguias elétricas.

Exatamente quando se conseguira um certo sucesso na explicação do problema, verificou-se, como muitas vezes veio a acontecer no tempo dos estudos solarísticos, que a explicação apenas substituía um enigma por outro enigma, talvez ainda mais desconcertante.

Subsequentes observações mostraram por fim que o oceano não reagia de acordo com os mesmos princípios que os nossos gravitadores (o que, em qualquer caso, teria sido impossível), mas que conseguia controlar a periodicidade orbital de um modo direto.
Um dos resultados, entre outros, foi a descoberta de discrepâncias nas medições de tempo ao longo de um único meridiano em Solaris.
Assim, o oceano não só tinha, em certo sentido, “consciência” da Teoria de Einstein-Boévia, como também era capaz de explorar as implicações dessa mesma teoria (e o mesmo não poderíamos dizer a respeito de nós próprios).

Com a publicação desta hipótese, o mundo científico foi abalado por uma das mais violentas controvérsias do século. Teorias respeitadas e universalmente aceitas soçobraram; a literatura especializada foi inundada de tratados afrontosos e heréticos; “oceano inteligente” ou “colóide com capacidade para controlar a gravidade” — o debate tomou proporções escaldantes.

Tudo isto aconteceu vários anos antes de eu nascer.


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