domingo, 3 de outubro de 2010

Brasil, terra do mal



[ Antes de falar sobre a imagem do Brasil na literatura francesa do século XIX, é bom lembrarmos que se trata duma época onde a literatura francesa ainda é, senão um modelo universal, pelo menos um ponto de referência imprescindível para os letrados da Europa e das Américas.

Parece-nos esta uma razão para tratar de um assunto que reflete a mentalidade da época, no que toca à relação do então centro da ‘civilização’ com a periferia. Esta periferia era considerada exótica – a própria palavra “exotismo” sendo redescoberta no início do século XIX, para tornar-se um dos topói literários do romantismo, parnasianismo e simbolismo francês.

Como todas as palavras usadas maciçamente antes de serem bem definidas, o exotismo não é de análise fácil, o que os estudiosos contemporâneos – como Bernard Mouralis (1975), Denise Brahimi (1988), Andrzej Stoff (1991), já sabem perfeitamente.

A dificuldade que o exotismo traz é sobretudo a seguinte: no uso praticado no século XIX reúnem-se nesta palavra a estética e a ideologia que hoje em dia costuma-se separar. Vamos voltar brevemente a este problema. Por enquanto vamo-nos ocupar uns instantes do momento histórico em que o Brasil, quase fechado ao mundo durante mais de 150 anos, volta a alimentar de maneira privilegiada o imaginário exótico francês.

A imagem do Brasil que existe na França nos finais do século XVIII faz pensar um palimpsesto. Vale lembrar que o protótipo do “bom selvagem” de Rousseau havia sido o índio brasileiro: tal como ele aparece nos relatos de Léry et Thévet e conseqüentemente de Montaigne ou Ronsard, mais tarde nos de padres franceses que tentam evangelizar (mas também colonizar) a ilha do Maranhão no início do século XVII e deixam uma imagem paradisíaca da terra e dos seus habitantes. Esta imagem do paraíso terrestre muda durante o grande século XVII e durante o século XVIII torna-se o contrário: o Brasil seria uma terra maldita, por várias razões (cf. Crouzet 1998), entre as quais as mais importantes são o extermínio dos índios e a realidade da escravidão dos negros que os viajantes descobrem. Notese que esta realidade no século XVIII é também a das colônias francesas e inglesas, mas é só para lembrar, não para julgar. A verdade é que o colonizador português do Brasil como o espanhol do México, Peru, La Plata são vistos pelos viajantes franceses do século XVIII como vaidosos, arrogantes, cruéis, falsos, corruptos e sobretudo, ociosos e indolentes...]



Brasil, terra do mal: o imaginário de horror na literatura de viagens e ficção francesa do séc.19 [ Download ]
Jerzy Brzozowski - Universidade da Cracóvia - Polônia