sábado, 2 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 5)



 OS VISITANTES

Enfiei as notas de Gibarian apressadamente no bolso e dirigi-me ao armário.
Os trajes de treino e as roupas tinham sido empurrados para um lado, como se alguém se tivesse escondido na parte de trás. No chão vi o canto de um envelope que aparecia por entre uma resma de papéis e apanhei-o.

Estava endereçado para mim.

Com a boca seca de apreensão, rasguei-o; tive de me forçar a desdobrar a nota que estava dentro. Na sua letra muito certa, pequena, mas perfeitamente legível, Gibarian tinha escrito duas linhas:

Suplemento Dr. Solar. Vol. I: Vot. Separata
Mensageiro ds aff. F.; Ravintzer: The Little Apocrypha

E era tudo; nem mais uma palavra.
Estas duas linhas conteriam qualquer informação vital? Quando as teria escrito?
Disse para comigo que a primeira coisa a fazer era consultar o arquivo da biblioteca.
Já conhecia o suplemento do primeiro volume dos Anais dos Estudos Solarísticos; ou antes, apesar de nunca os ter lido, sabia da sua existência — mas isso não era um documento de interesse puramente histórico?

Quanto a Ravintzer e The Little Apocrypha, nunca ouvira falar deles.
E agora? Estava atrasado para o meu encontro com Snow.
De costas para a porta, mais uma vez inspecionei cuidadosamente o quarto.
Só então reparei na cama erguida contra a parede e semi-escondida por um grande mapa de Solaris.

Algo pendia por trás do mapa; era um gravador de bolso, e notei que tinham sido usados nove décimos da fita. Tirei a máquina do estojo (que dependurei novamente onde o encontrara) e enfiei-a no bolso.
Antes de sair, pus-me atentamente à escuta, os olhos fechados.
Não se ouvia qualquer som no exterior.

Abri a porta e deparei com um abismo de escuridão — até que me lembrei de tirar os óculos escuros.
A cúpula estava fracamente iluminada pelos fulgentes filamentos do teto.
Entre as quatro portas dos aposentos de dormir e a estreita passagem que conduzia à cabina do rádio estendiam-se vários corredores, formando o desenho de uma estrela.

De súbito, surgindo na abertura que conduzia ao quarto de banho comum, apareceu uma silhueta alta, que mal se distinguia na penumbra do ambiente.
Parei petrificado.

Em direção a mim vinha silenciosamente uma mulher negra gigantesca, com um andar suave e ondulante. Apercebi o brilho branco dos seus olhos e ouvi o suave ruído dos seus pés descalços. Nada mais vestia além de uma saia amarela de palha entrançada; os seios enormes balouçavam livremente e os negros braços eram da grossura de coxas.
Quando passou por mim havia menos de um metro entre nós, mas não olhou para mim.
Seguiu o seu caminho, a saia de palha a ondular ritmicamente, mais parecendo uma daquelas estátuas esteatopígicas (escultura de formas femininas estilizadas) que há nos museus de antropologia.

Abriu a porta de Gibarian e, na soleira da porta, a sua silhueta ficou distintamente recortada de encontro à forte luz que havia no quarto.
Depois fechou a porta e eu fiquei sozinho.

Dominado pelo terror, olhei vagamente em volta do átrio grande e vazio.
Que tinha acontecido? Que tinha eu visto?

De repente, o meu espírito recomeçou a funcionar, quando me lembrei dos avisos de Snow. Quem seria esta monstruosa Afrodite?

Dei um passo, um único, em direção ao quarto de Gibarian, mas sabia muitíssimo bem que não entraria. Não sei por quanto tempo permaneci encostado à fresca parede de metal, nada mais ouvindo além do zumbido distante e monótono do ar condicionado. Por fim, acabei por me controlar e dirigi-me à cabina do rádio.
Quando peguei ao puxador da porta, ouvi uma voz áspera:
— Quem está aí?
— Sou eu, Kelvin.

Snow estava sentado junto a uma mesa que ficava entre uma pilha de caixotes de alumínio e o transmissor e comia concentrado de carne diretamente da lata.
Será que nunca saía daquele lugar?
Pasmado, fiquei a vê-lo mastigar, até que me apercebi de que também eu estava esfomeado. Dirigi-me a um armário, escolhi o prato menos poeirento que pude encontrar e sentei-me em frente a Snow.
Comemos em silêncio.

Snow levantou-se, desarrolhou uma garrafa-térmica e encheu duas canecas com uma sopa clara e quente. Depois pousou a garrafa no chão; não havia lugar na mesa.
— Viu Sartorius? — perguntou.
— Não. Onde está?
— Lá em cima.
Lá em cima queria dizer no laboratório. Acabamos a refeição sem trocar nem mais uma palavra, e Snow raspou cuidadosamente o fundo da sua lata. A porta do exterior estava colocada sobre a janela, e sobre a superfície laminada do transmissor fulgiam os reflexos das quatro lâmpadas do teto.
Snow tinha vestida uma camisola preta larga, esfiapada nos punhos.
A pele esticada sobre as maçãs do rosto estava marcada por minúsculos vasos sangüíneos.
– Que aconteceu? — perguntou.
– Nada, por quê?

Está alagado em suor. Limpei a testa. Era verdade; eu estava a pingar; deve ter sido a reação depois do meu encontro inesperado.
Snow lançou-me um olhar interrogador. Deveria contar-lhe? Se ao menos ele me tivesse feito as suas confidências... Que jogo incompreensível jogávamos, e quem era o inimigo de quem?

– Está calor. Imaginava que o ar condicionado trabalhasse melhor do que isto!
– Ajusta-se automaticamente de hora a hora. — olhou-me de perto. — Tem a certeza de que é apenas calor?
Não respondi. Atirou com os talheres e a lata vazia para a banca, voltou para a poltrona e continuou com o interrogatório.
– Quais são os seus planos?
– Isso depende de você — respondi com frieza. — Suponho que tem um programa de pesquisas. Um novo estímulo, raios X, coisas no gênero...
Franziu a sobrancelha.
– Raios X? Quem lhe andou a falar nisso?
– Não me lembro. Alguém disse qualquer coisa, no Prometheus, talvez. Por quê? Já começaram?
– Não sei os pormenores; era idéia de Gibarian. Ele e Sartorius trataram do assunto. Me pergunto como poderia ter ouvido falar disso.
Encolhi os ombros.
– É curioso que não saiba os pormenores. Devia conhecê-los, uma vez que é você quem...
Deixei a frase por acabar; Snow não disse nada.

O zunir do ar condicionado parara. A temperatura mantinha-se a um nível insuportável, mas persistia um zumbido agudo, como o som de um inseto moribundo.
Snow levantou-se da cadeira e inclinou-se sobre a banca do transmissor. Começou a apertar botões ao acaso e sem nenhum propósito. Continuou assim por um momento, depois disse:
– Há certas formalidades a cumprir com relação a...
– Sim? — insisti.
Voltou-se e deitou-me um olhar hostil. Sem querer, tinha-o aborrecido; mas, ignorando o papel por ele desempenhado, podia apenas espiar e ver o que acontecia. A sua maçã-de-Adão subia e descia dentro da gola da camisola:
– Você esteve no quarto de Gibarian — explodiu em tom acusador.
Fitei-o calmamente.
—Esteve lá, não esteve?
– Se você assim o diz...
– Tinha alguém por lá?
Então, ele tinha-a visto ou, pelo menos, sabia da sua existência!
– Não, ninguém. Quem poderia lá estar?
– Então, por que não me deixou entrar?
– Porque tinha medo. Lembrava-me dos seus avisos e, quando o puxador se moveu, automaticamente agarrei-me a ele. Por que não disse que era você? Teria deixado-o entrar.
– Julguei que era Sartorius — respondeu com voz trêmula.
– E se fosse?
Mais uma vez iludiu a minha pergunta com outra.
— O que pensa que aconteceu ? Hesitei.
— Você é quem devia saber. Onde está ele?
— Gibarian? No depósito de gelo. O levamos para lá esta manhã, quando o encontramos no armário.
– No armário? Estava morto?
– O coração ainda batia, mas já parara de respirar.
– Tentou ressuscitá-lo?
– Não.
– Por que não?
– Não tive ocasião — resmungou. — Quando o tirei de lá já estava morto.
Snow foi buscar uma folha de papel à secretária encaixada no canto da sala e estendeu-me.
— Escrevi um relatório post mortem. No fundo, estou contente que tenha visto o quarto. Causa da morte: injeção de pernostal, dose letal. Está tudo aí...
Percorri o papel com os olhos e murmurei:
— Suicídio? Por que razão?
— Perturbações nervosas, depressão, dê-lhe o nome que quiser. Sabe mais dessas coisas que eu.
Fitando-o nos olhos, disse:
—Só sei o que vi pessoalmente.
– Que está a tentar dizer? — perguntou calmamente.
– Injetou-se com pernostal e escondeu-se num armário, certo? Nesse caso, não é uma questão de perturbações nervosas ou de um ataque de depressão, mas de um problema muito sério de paranóia. — Falando de modo cada vez mais deliberado e continuando a fitá- lo bem nos olhos, acrescentei: — O que é certo é que ele pensava que via alguma coisa.
Snow recomeçou a remexer no transmissor.

Após curto silêncio, continuei:
– Esta aqui é a sua assinatura. E a de Sartorius?
– Como lhe disse, ele está no laboratório. Nunca aparece. Suponho que...
– O quê?
– Se fechou lá dentro.
– Fechou-se? Compreendo... quer dizer que ele se barricou lá dentro?
– Provavelmente.
– Snow, há alguém na Estação? Além de nós.

Deixara de brincar com os botões e voltou-se de lado para me fitar.
– Você viu!
– Você tinha-me posto de sobreaviso. Contra o quê? Contra quem? Uma alucinação?
– Que viu?
– Digamos... um ser humano?

Permaneceu em silêncio.
Voltando-se de costas como que para esconder o rosto de mim, tamborilou com as pontas dos dedos sobre a placa de metal.
Olhei suas mãos; já não havia qualquer traço de sangue entre os dedos.
Senti uma tontura momentânea.
Numa voz pouco mais forte que um murmúrio, como se estivesse a contar um segredo e estivesse com medo de ser ouvido, disse-lhe:
– Não é uma miragem, pois não? É uma pessoa real, alguém em quem se pode tocar, alguém que se pode... fazer sangrar. E, o que é mais, alguém que você só hoje viu.
– Como sabe?
Não se movera; a face continuava obstinadamente voltada para a parede, e eu dirigia-me às suas costas.
– Foi antes de eu ter chegado, justo antes de eu ter chegado, não foi?
Todo o seu corpo se contraiu, e pude ver a sua expressão de pânico.
– E você? — perguntou em voz estrangulada. — Quem é você?

Pensei que me ia atacar. Não era nada da reação esperada. A situação estava tornando-se grotesca. Era óbvio que ele não acreditava que eu fosse quem afirmava ser. Mas, que poderia isso significar? O homem cada vez tinha mais medo de mim. Estaria em delírio? Poderia ter sido afetado por gases não filtrados, vindos da atmosfera do planeta?
Tudo parecia possível. Mas, por outro lado, eu também tinha visto aquela... criatura, então, e eu?
– Quem é ela? — perguntei.
Estas palavras sossegaram-no. Por um momento olhou-me inquiridor, como se ainda duvidasse de mim; depois, deixou-se cair na cadeira e pôs a cabeça entre as mãos.

Mesmo antes de ele abrir a boca, eu sabia já que ainda se não resolvera a dar-me uma resposta direta.
– Estou exausto — disse debilmente.
– Quem é ela? — insisti.
– Se não sabe...
– Continue, sei o quê?
– Nada.
– Ouça, Snow! Estamos isolados, completamente desligados de tudo. Vamos pôr as cartas na mesa. As coisas, como estão já são suficientemente confusas. Tem de dizer-me o que sabe!
– E você? — retorquiu, pleno de suspeita.
– Certo, eu conto-lhe e depois você conta-me. Não tenha medo, não vou pensar que está louco.
– Louco! Meu Deus! — Tentou sorrir. — Mas você não compreendeu absolutamente nada! Nunca, nem por um momento, ele pensou estar louco. Se assim fosse, não teria feito o que fez. Estaria ainda vivo.
– Por outras palavras, o seu relatório, essa história de perturbações nervosas, é falso.
– Claro.
– Por que não escrever a verdade?
– Por quê? — repetiu.
Seguiu-se um longo silêncio. Era verdade que eu continuava completamente às escuras. Tinha tido a impressão de que vencera as suas dúvidas e que íamos reunir os nossos recursos para resolver o enigma. Então, por que se recusava a falar?
– Onde estão os robôs?
– Nos armazens. Os trancamos; só os robôs da recepção estão operacionais.
– Porquê?
Mais uma vez recusou responder.
– Não quer falar a esse respeito?
– Não posso.

Parecia constantemente no ponto de se abrir comigo, mas sempre se dominava no último instante. Talvez tivesse mais sorte com Sartorius.
Então lembrei-me da carta e, quando pensei nela, compreendi como era importante.
– Tenciona continuar com as experiências?
Deu um encolher de ombros desdenhoso.
– Para que serviria?
– Oh, nesse caso, que sugere que façamos?

Ficou calado. À distância ouvia-se um ligeiro ruído de pés descalços a andar sobre o assoalho. O eco abafado desses passos arrastados ressoava de modo fantasmagórico por entre o equipamento niquelado e laminado e as altas colunas, cheias de tubos de vidro, que protegiam as complicadas instalações eletrônicas.
Incapaz de continuar a controlar-me, levantei.
Enquanto ouvia os passos que se aproximavam, observava Snow.
Por trás das pálpebras caídas, os olhos não mostravam medo.
Não teria, então, medo dela?

– De onde vem ela? — perguntei.
– Não sei.
O som dos passos esmoreceu e desapareceu.
– Não acredita em mim? — disse. — Juro-lhe que não sei.

No silêncio que se seguiu, abri um armário, afastei os desajeitados trajes atmosféricos e, como esperava, penduradas no fundo, encontrei as pistolas de gás usadas para manobras no espaço. Tirei uma, verifiquei-lhe a carga e passei a correia sobre o ombro.
Não era exatamente uma arma, mas era melhor que nada.
Enquanto eu ajustava a correia, Snow mostrou os dentes amarelos, divertido.
– Boa caça! — disse.
Dirigi-me à porta.
– Obrigado.
Levantou-se com esforço da cadeira.
– Kelvin!
Olhei para ele. Já não sorria. Nunca vi tal expressão de cansaço na face de alguém.
Balbuciou.
– Kelvin, não é isso... Realmente, não... não posso...

Esperei. Os seus lábios moveram-se, mas não proferiram qualquer som.
Rodei sobre os calcanhares e saí.


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