sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fuga para parte alguma - Jeronymo Monteiro





— Devíamos dar parte, Osm.
— Ainda não. Nós mesmos vamos resolver o problema aqui. Você sabe como é que eles agem, Vic. Estão assustados demais. Se a gente der parte, chegam aqui e destroem tudo. Acho que não há necessidade.
— Ontem destruiram completamente as culturas do Setor 16.
— É o que eles sabem fazer. Temos ainda 34 setores intatos e devemos protegê-los contra a destruição inútil. Não convém perder a cabeça. Temos que exterminar sozinhos estas malditas formigas.
— Mas eles dizem que...
— Viu o que fizeram na zona B? Não ficou uma única planta viva e todos os pavilhões precisam ser reconstruídos.
— E parece que as formigas apareceram de novo...
— Miseráveis!

Vic e Osm penetraram no grande pavilhão e pouco depois tornaram a aparecer, agora acompanhados por mais seis homens. Todos traziam a tira-colo seus tubos projetores de raios Vonde — engenhos terríveis capazes de destruir e calcinar tudo aquilo que atingiam.

Tomaram a estrada que levava ao Setor 16, conduzindo rapidamente seus pequenos carros de campo. Em poucos minutos alcançaram o grande terreno, antes inteiramente cultivado, mas agora cenário de devastação total. Metodicamente, como mandavam as instruções, puseram-se a atacar, com os Raios Vonde, os grandes orifícios que as formigas tinham deixado abertos à flor da terra. Por esses orifícios haviam desaparecido, durante a noite, toneladas de folhas, caules e galhos que agora, no interior das câmaras dos formigueiros, estavam sendo submetidos ao tratamento que fazia surgir os fungos de que as formigas se alimentavam. Os projetores de Raios Vonde silvavam e o feixe calcinante penetrava os enormes orifícios.

Durante várias horas os oito homens se entregaram ao monótono trabalho, sentindo na carne o sacrifício. Sabiam que durante muito tempo aquele solo atormentado nada produziria.

Terminado o serviço, os homens voltaram à sede do Setor. Não falavam. Sentiam um estranho peso no peito.

Na sala da Administração reuniram-se aos outros homens para ouvir as instruções que estavam sendo transmitidas pelo televisor — instruções, notícias e conselhos. A luta contra as formigas se propagava por todo o globo terrestre, cada dia mais ampla e completa. Era muito urgente exterminar aqueles temíveis insetos que pareciam dispostos a destruir todas as culturas vegetais da terra. As brigadas volantes de ataque aos formigueiros subiam agora a dez mil e movimentavam-se rapidamente para qualquer ponto do globo, em seus aviões-foguetes, atendendo aos apelos onde quer que fossem formulados. Organizara-se um P.G. que centralizava o serviço, recebendo os pedidos e transmitindo as ordens.

Nesse dia os homens ficaram sabendo que haviam sido assinalados os primeiros ataques de formigas a zonas não agrícolas. Durante a noite anterior, uma colônia de pesca do litoral do Pacífico fora invadida e várias crianças, surpreendidas quando dormiam na praia, foram devoradas pelas formigas negras gigantes. Quando deram conta do ataque, já nada se pôde fazer. Alguns parentes que, levados pelo amor às crianças, tentaram socorrê-las, foram também atacados e seus cadáveres se amontoaram sobre os das crianças. A colônia fora abandonada mais tarde, depois de verem, horrorizados, que as formigas, aos milhões, haviam deixado apenas os ossos de suas vítimas, tendo carregado toda a carne, aos pedacinhos, para seus insondáveis formigueiros.

O Comitê Mundial recomendava insistentemente a todos que não se descuidassem, que comunicassem qualquer ocorrência de formigas, por menor que fosse — porque o perigo era muito maior do que se poderia supor à primeira vista.

As notícias referentes às atividades das formigas vinham de todos os pontos do globo e quase se atropelavam:

— Um setor da Usina de Energia Atômica da Europa acaba de submergir num imenso formigueiro! Há milhares de vítimas!
— Um quarteirão inteiro da cidade de Oslam ruiu, tragado por um formigueiro cuja cúpula se abateu. O Serviço de Socorros conseguiu salvar apenas 350 das 4.893 pessoas vitimadas pela catástrofe.
— Foram destruídas pelas formigas todas as plantações do Campo Experimental do Norte da América.
As notícias se sucediam por períodos, com intervalos irregulares de sossego. Nenhuma delas, porém, anunciava vitória dos homens sobre as formigas. Era sempre o contrário.
— Isto está ficando pior a cada momento — comentou Vic, interpretando o pensamento geral. — Se os sábios não descobrirem rapidamente um meio eficaz de destruir formigas, vai haver grande desgraça em todo o mundo. Vai haver fome.
— E essas que devoram gente? — perguntou, arregalando os olhos, um homenzinho baixo e magro. — Que coisa pavorosa! Como é que a gente vai se livrar delas? Não há jeito! A gente tem que vêr com os próprios olhos as formigas devorar nossos filhos — sem poder fazer nada!
— Precisamos é de coragem — continuou Vic. — Se desanimarmos, estará tudo perdido. Quanto mais graves forem os acontecimentos, mais coragem teremos que ter. É claro. Felizmente, por aqui só temos essas formigas herbívoras. As carnívoras não chegaram por estes lados. O perigo aqui é menor.
— Tomara que você não se engane, Vic...
— Que quer dizer, Osm?
— Nada...


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