sábado, 9 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 6)



SARTORIUS

Segui um corredor longo e vazio, depois bifurquei à direita.

Nunca vivera na Estação, mas durante o treino na Terra vivera seis semanas numa réplica exata; quando cheguei a uma pequena escada de alumínio, sabia onde ia dar.
A biblioteca estava às escuras e tive de tatear à procura do interruptor da luz.

Consultei primeiro o arquivo e risquei depois as coordenadas para o primeiro volume do Anal Solarístico e o seu suplemento. Acendeu-se uma luz encarnada.
Estudei o registro: os dois livros tinham sido retirados por Gibarian, bem como The Little Apocrypha.
Apaguei as luzes e voltei ao andar de baixo.

Apesar de ter ouvido os passos afastarem-se, estava com medo de entrar novamente no quarto de Gibarian.
Ela podia regressar.

Hesitei algum tempo do lado de fora da porta; por fim, segurei no puxador e obriguei-me a entrar. Não havia ninguém no quarto.
Comecei por passar uma busca minuciosa aos livros espalhados por baixo da janela, interrompendo-me apenas para fechar a porta do armário: não suportava a vista do espaço vazio entre os trajes de treino.
O suplemento não estava na primeira pilha de livros. Por isso, um a um, comecei a apanhar metodicamente o resto dos livros espalhados pelo quarto.
Quando cheguei ao último monte, entre a cama e o armário, encontrei o volume que procurava.

Tinha a esperança de encontrar uma pista qualquer, e, na verdade, alguém tinha enfiado um marcador de livros entre as páginas do índice.
Um nome que me era desconhecido tinha sido sublinhado a encarnado: André Berton. Os números das páginas que lhes correspondiam indicavam dois capítulos diferentes; dando uma vista de olhos pelo primeiro, fiquei sabendo que Berton fora piloto de reserva na nave de Shannahan.

A segunda referência aparecia uma centena de páginas mais adiante.

A princípio, ao que parecia, a expedição de Shannahan procedera com extrema cautela. Contudo, quando, passados dezesseis dias, o oceano de plasma não só não mostrara qualquer sinal de agressão, como parecia evitar qualquer contato direto com os homens ou as máquinas, recuando sempre que algo se aproximava da sua superfície, Shannahan e o seu assistente, Timoliz, puseram de lado algumas das precauções que travavam o progresso do trabalho. As barreiras de força que tinham sido usadas para demarcar e proteger as áreas de trabalho foram levadas de volta para a base e a expedição dividiu-se em grupos de dois ou três homens e alguns dos grupos faziam vôos de reconhecimento num raio de várias centenas de milhas.

À parte uma avaria inesperada no sistema de abastecimento de oxigênio — a atmosfera tinha um efeito estranhamente corrosivo sobre as válvulas, que tinham de ser substituídas quase diariamente —, quatro dias passaram sem problema.
Na manhã do quinto dia — 21 dias depois da chegada da expedição—, dois cientistas, Carucci e Fechner (o primeiro, um radio-biólogo, o segundo, um físico), partiram em missão a bordo de uma nave auxiliar. Seis horas mais tarde, os exploradores ainda não tinham voltado. Timoliz, que, na ausência de Shannahan, tinha o comando da base, soou o alarme e enviou todos os homens disponíveis em grupos de salvamento.

Devido a uma fatal combinação de circunstâncias, o contato de rádio a longo alcance tinha sido cortado nessa mesma manhã, uma hora depois da partida dos grupos de exploração — no sol vermelho tinha aparecido uma grande mancha, que dava origem a pesado bombardeamento de partículas carregadas de energia sobre a atmosfera superior. Só os transmissores de ondas ultracurtas continuavam a funcionar, e o contato ficara restringido a um raio de cerca de vinte milhas.
Para coroar o azar, mesmo antes do pôr do Sol surgiu denso nevoeiro e tiveram de suspender as buscas.

As equipas de salvamento regressaram à base quando foi avistada a nave auxiliar, a cerca de 24 milhas da nave de comando. O motor estava ligado e o aparelho, que à primeira vista parecia incólume, pairava sobre as ondas.

Apenas Carucci, semi-consciente, podia ser visto na cabina de pilotagem de coberta de vidro. A nave foi levada de volta para a base. Depois de tratado, Carucci depressa recuperou a consciência, mas não pôde dar qualquer informação sobre o desaparecimento de Fechner. Logo após terem decidido regressar à base, a válvula da sua aparelhagem de oxigênio tinha falhado e uma pequena quantidade de gás não filtrado penetrara no seu traje atmosférico.

Para tentar reparar a válvula, Fechner fora obrigado a desapertar o seu cinto de segurança e a pôr-se de pé. E isso era a última coisa que Carucci conseguia recordar.
Segundo os peritos que procederam à reconstituição dos acontecimentos, Fechner deve ter aberto o teto da cabina porque lhe impedia os movimentos — uma ação perfeitamente legítima, uma vez que as cabinas desses veículos não eram estanques e a cúpula de vidro simplesmente proporcionava uma certa proteção contra as infiltrações e a turbulência.

Enquanto Fechner estava ocupado com o colega, a sua própria aparelhagem de oxigênio tivera provavelmente uma avaria, e, não tendo já plena consciência do que fazia, devia ter subido para a estrutura superior, de onde caíra para dentro do oceano.
E assim, Fechner tornara-se a primeira vitima do oceano.

Embora o traje atmosférico fosse flutuante, foi em vão que procuraram o seu corpo.
Era possível, claro, que estivesse ainda a flutuar em alguma parte na superfície, mas a expedição não estava equipada para uma busca intensiva desse deserto imenso e ondulante, encoberto por densas massas de nevoeiro.

Ao crepúsculo, todas as naves de busca tinham regressado à base, exceto uma; faltava apenas um grande helicóptero de abastecimento, pilotado por André Berton.

Mesmo quando iam soar o alarme, a nave apareceu. Era óbvio que Berton estava a sofrer um choque nervoso; depois de arrancar freneticamente o traje, pôs-se a correr em círculos como um louco. Teve de ser dominado, mas continuava a gritar e a soluçar.
Era um comportamento surpreendente, para não dizer pior, da parte de um homem que já voava há dezessete anos e estava muito habituado aos riscos da navegação cósmica. Os médicos presumiram que também ele estava sofrendo os efeitos dos gases infiltrados.

Apesar de ter em certa medida recuperado o juízo, Berton recusou abandonar a base ou até aproximar-se da janela que dava para o oceano. Dois dias mais tarde, pediu autorização para ditar um relatório do vôo, acentuando a importância do que ia revelar. Este relatório foi estudado pelo conselho da expedição, que concluiu que era uma criação mórbida de uma mente sob a influência de gases venenosos da atmosfera. Quanto às supostas revelações, foram, era evidente, consideradas como fazendo parte da história clínica de Berton, mais do que da história da expedição propriamente dita, e não estavam descritas.

E era tudo quanto ao suplemento. Parecia-me que o relatório de Berton devia, de qualquer modo, apresentar uma chave para o mistério.
Que estranho acontecimento poderia ter tido um efeito a tal ponto demolidor sobre um piloto espacial veterano?

Mais uma vez passei busca aos livros, mas The Little Apocrypha não apareceu.
Sentia-me cada vez mais exausto e saí do quarto, depois de ter decidido adiar a busca para o dia seguinte.

Quando passei junto ao fundo da escada, notei que os degraus de alumínio recebiam luz vinda de cima. Sartorius continuava a trabalhar.
Resolvi subir e ir vê-lo.

No piso superior estava mais calor, mas as tiras de papel continuavam a esvoaçar freneticamente nos ventiladores de ar. O corredor era largo, de teto baixo.
O laboratório principal era rodeado por espesso painel de vidro opaco, com armação de metal cromado. A porta estava tapada do lado de dentro com uma cortina escura e a luz vinha de umas janelas colocadas por cima da porta. Segurei o puxador, mas, como esperava, a porta não cedeu. O único som que vinha do laboratório era um silvo intermitente, como o de um bico de gás defeituoso.

Bati.
Nenhuma resposta.
Chamei: Sartorius! Dr. Sartorius! Sou o homem que chegou agora, Kelvin. Tenho de o ver, é muito importante. Por favor, deixe-me entrar!

Houve um roçar de papéis.
– Sou eu, Kelvin. Deve ter ouvido falar de mim. Cheguei do Prometheus há poucas horas.
Gritava com a boca colada no ângulo onde a porta tocava a moldura de metal.
– Dr. Sartorius, estou sozinho. Por favor, abra a porta!

Nem uma palavra.
Depois, o mesmo som de antes, seguido pelo ressoar de instrumentos de metal sobre um tabuleiro. Depois... quase nem queria acreditar nos meus ouvidos... ouviu-se uma sucessão de pequenos passos curtos, como o sapatear rápido de um par de minúsculos pés ou como dedos excepcionalmente ágeis a tamborilar o ritmo de passos sobre a tampa de uma lata vazia.

Gritei: – Dr. Sartorius, vai abrir a porta, sim ou não?
Nenhuma resposta. Nada além daquele tamborilar e, simultaneamente, o som de um homem a andar em bicos de pés. Mas, se o sujeito estava a mover-se, não podia ao mesmo tempo tamborilar uma imitação de passos infantis.
Incapaz já de controlar a minha crescente fúria, rebentei:
– Dr. Sartorius, não fiz uma viagem de dezesseis meses apenas para vir para aqui brincar aos joguinhos! Vou contar até dez. Se me não deixar entrar, derrubo a porta!
Para falar verdade, duvidava que fosse fácil forçar aquela porta, e a descarga de uma pistola de gás não é muito poderosa. Contudo, estava decidido a levar a minha ameaça avante, mesmo que significasse ter de recorrer a explosivos, que provavelmente encontraria no depósito de munições.
Agora já não podia recuar; não podia continuar a jogar um jogo maluco, com todas as cartas contra mim.
Ouviu-se o som de uma lata — ou seriam apenas objetos a serem afastados?
A cortina foi puxada para trás e no vidro projetou-se uma sombra alongada.
Uma voz rouca e aguda falou:
– Se eu abrir a porta, tem de me dar a sua palavra de que não entra.
– Nesse caso, para quê abri-la?
– Eu saio.
– Muito bem, prometo.

A silhueta desapareceu e a cortina foi cuidadosamente reposta no lugar.
Do interior do laboratório vinham ruídos estranhos. Ouvi um som de raspar — uma mesa a ser arrastada pelo assoalho? Por fim o trinco estalou e o painel de vidro abriu-se apenas o suficiente para permitir que Sartorius deslizasse para o corredor.
Ficou em pé encostado à porta, muito alto e magro, só ossos debaixo da camisola branca. Tinha um lenço preto amarrado à volta do pescoço e no braço trazia uma bata de laboratório, cheia de queimaduras produzidas por produtos químicos.
A cabeça, singularmente estreita, estava inclinada para um lado.
Não lhe podia ver os olhos: usava óculos escuros abaulados, que lhe tapavam metade da face. O queixo era comprido; tinha lábios azulados e enormes orelhas tingidas de azul.
E a barba estava por fazer.
Dos pulsos pendiam pelos cordões luvas encarnadas anti-radiações.

Por um momento, olhamos um para o outro com indisfarçada aversão.
O cabelo hirsuto (era óbvio que ele próprio o cortara) era da cor do chumbo, a barba, grisalha. Tal como Snow, tinha a testa bronzeada, mas apenas a metade de baixo; por cima estava pálida. Devia ter usado uma espécie qualquer de boné quando estivera exposto ao sol.

– Bom, sou todo ouvidos — disse.
Tive a impressão que em nada lhe interessava o que eu tinha para lhe dizer. Ali em pé, tenso, comprimido contra o painel da porta, a sua atenção estava essencialmente dirigida para o que se estava a passar atrás de si.
Desconcertado, nem sabia por onde começar.
– O meu nome é Kelvin — disse. — Deve ter ouvido falar de mim. Sou, ou antes, fui colega de Gibarian.
A face magra, inteiramente composta por planos verticais, exatamente como eu sempre imaginara a de D. Quixote, não mostrava qualquer expressão. Esta máscara vazia em nada me ajudava a encontrar as palavras necessárias.
– Ouvi dizer que Gibarian estava morto... — comecei de súbito.
– Sim. Continue, estou a ouvir. — A voz traía a sua impaciência.
– Foi suicídio? Quem encontrou o cadáver, você ou Snow?
– Por que pergunta a mim? O Dr. Snow não lhe contou o que aconteceu?
– Queria ouvir a sua versão.
– O senhor estudou psicologia, não estudou, Dr. Kelvin?
– Sim. E depois?
– Considera-se um servo da ciência?
– Sim, claro. Que tem isso a ver com...
– O senhor não é oficial da justiça. A esta hora devia estar a trabalhar, mas, em vez de fazer o trabalho para que o mandaram, o senhor não só ameaça forçar a porta do meu laboratório, como também me interroga como se eu fosse um suspeito criminal.
A sua testa estava alagada em suor.
Controlei-me com esforço. Estava decidido a penetrar-lhe os pensamentos.
Rangi os dentes e disse:
– O senhor é suspeito, Dr. Sartorius. E o que é mais, sabe-o muito bem!
– Kelvin, ou você retira as suas palavras e pede desculpa, ou apresentarei queixa contra você.
– Por que deveria pedir desculpas? O senhor é que se barricou neste laboratório em vez de ir ao meu encontro, em vez de me contar a verdade a respeito do que se está a passar aqui. Ficou completamente louco? Você o que é, um cientista ou um covarde?

Não sei que outros insultos lhe gritei. Nem pestanejou. Gotas de suor escorriam pelos poros dilatados da sua face.

De repente, apercebi-me de que não ouvira nem uma palavra do que eu estava a dizer. Com ambas as mãos atrás das costas, segurava a porta fechada com toda a força que tinha; ouvia-se um ricochetear, como se alguém lá dentro estivesse a disparar sobre o painel com uma metralhadora.
Com uma voz estranha e aguda, gemeu:
– Vá embora! Por amor de Deus, me deixe em paz! Vá lá para baixo, mais tarde irei encontrá-lo. Farei tudo o que quiser, mas, por favor, agora vá embora!
A sua voz traía um cansaço que instintivamente estendi os braços para o ajudar a segurar a porta. Perante este movimento, lançou um grito de horror, como se lhe tivesse apontado uma faca. Enquanto eu recuava, ele gritava na sua voz de falsete:
– Vá embora! Vá embora! Já estou indo, já estou indo, já estou indo! Não! Não!
Abriu a porta e atirou-se lá para dentro.
Pareceu-me ver um reluzente disco amarelo relampejar sobre o seu peito.
Do laboratório vinha agora um clamor abafado; apareceu uma sombra gigantesca quando a cortina foi momentaneamente afastada; depois caiu novamente no lugar e nada mais consegui ver.  Que estaria acontecendo dentro da sala? Ouvi passos que corriam, como numa perseguição louca, seguidos por aterrador estrondo de vidros partidos e o som do riso de uma criança.

Minhas pernas tremiam e eu olhava apavorado para a porta.

A confusão acalmara e fora substituída por um desconfortável silêncio.
Sentei-me no peitoril de uma janela, demasiado atordoado para poder mexer-me; minha cabeça parecia estourar.

De onde me encontrava podia ver apenas parte do corredor que rodeava o laboratório. Estava no cume da Estação, logo por baixo do casco da superestrutura; as paredes eram côncavas e inclinadas, com janelas oblongas, à distância de alguns metros umas das outras. O dia azul estava a acabar, e, quando os escudos chiaram ao subirem, uma luz ofuscante brilhou pelo espesso vidro.

Cada encaixe de metal, cada trinco e dobradiça, luzia intensamente, e o grande painel de vidro da porta do laboratório rebrilhava com pálidos lampejos luminosos.
Na luz espectral, as minhas mãos pareciam cinzentas.

Reparei que empunhava a pistola de gás; não notara que a tinha retirado do coldre e coloquei-a lá novamente. Que utilidade poderia ter tido — ou até uma pistola de raios gama, se a tivesse uma?
Dificilmente poderia ter tomado o laboratório pela força.
Pus-me de pé.

O disco do Sol, que lembrava uma explosão de hidrogênio, mergulhava no oceano, e, quando descia a escada, fui atravessado por um jato de raios horizontais que quase era tangível.

No meio da descida parei para pensar, depois voltei a subir os degraus e segui o corredor em volta do laboratório. Encontrei uma segunda porta de vidro, exatamente como a primeira; nem tentei abri-la, pois já sabia que estava trancada.
Andava à procura de uma abertura ou de qualquer espécie de orifício.

A idéia de espiar Sartorius viera-me muito naturalmente, sem o mínimo sentimento de vergonha. Estava decidido a acabar com as conjecturas e descobrir a verdade, mesmo se, como pensava, a verdade desse provas de ser incompreensível.
Ocorreu-me que o laboratório devia ser iluminado por cima, através de janelas dando sobre a cúpula. Devia portanto ser possível espiar Sartorius a partir do exterior.

Mas primeiro teria de me equipar com traje atmosférico e aparelhagem de oxigênio.
Quando cheguei ao andar de baixo, encontrei a porta da cabina de rádio aberta para trás. Snow, mergulhado na sua poltrona, dormia.
Ao som dos meus passos, abriu os olhos em sobressalto.
– Olá, Kelvin! — grasnou. — Então, descobriu alguma coisa?
– Sim... ele não está só.
Snow sorriu com amargura.
– Ah, sim? Bom, isso já é alguma coisa. Está com visitas?
– Não entendo por que não quer me contar o que está a acontecer — retorqui impulsivamente. — Uma vez que tenho de permanecer aqui, mais cedo ou mais tarde acabarei por descobrir a verdade. Para quê tanto mistério?
– Quando você próprio tiver recebido algum visitante, logo compreenderá.
Tive a sensação que a minha presença o aborrecia e que não tinha qualquer desejo de prolongar a conversa.

Voltei-me para sair.
– Para onde vai?
Não respondi.


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