sábado, 16 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 7)



A zona de aterragem estava exatamente como a deixara.

A minha cápsula chamuscada continuava ali aberta sobre a sua plataforma.
Enquanto escolhia um traje atmosférico, apercebi-me subitamente de que as clarabóias por onde contava observar Sartorius provavelmente seriam feitas de placas de vidro opaco, e perdi o interesse na minha saída à camada exterior.

Em lugar disso, desci a escada em espiral que conduzia aos depósitos do piso inferior.
A passagem estreita que havia no fundo continha o habitual amontoado de caixotes e cilindros. As paredes eram recobertas de metal e tinham uma reverberação azulada.
Um pouco mais adiante, os canos gelados do sistema de refrigeração apareciam sob uma abóbada, e segui-os até à extremidade do corredor, onde desapareciam sob uma carapaça com amplo colarinho de plástico. A porta do frigorífico tinha duas polegadas de espessura e era revestida por um composto isolante.

Quando a abri, fui atingido por um frio de gelo. Fiquei ali parado, a tremer, na entrada de uma caverna escavada num iceberg; das gigantescas serpentinas de tubos, como esculturas em relevo, pendiam inúmeras estalactites. Também aqui, soterrados sob uma camada de neve, havia caixotes e cilindros e prateleiras carregadas de caixas e sacos transparentes que continham uma substância amarela e oleosa. O teto em cúpula descia até ao lugar onde uma cortina de gelo escondia a parte de trás da caverna.
Parti o gelo e passei. Numa prateleira de alumínio estava estendida uma figura alongada, coberta com um lençol de lona.

Levantei um dos cantos da lona e reconheci as feições rígidas de Gibarian.
O lustroso cabelo negro estava colado sobre o crânio.
As curvas da garganta sobressaíam como ossos. Os olhos vítreos olhavam para o teto, com uma lágrima de gelo opaco pendendo no canto de cada pálpebra.
O frio era tão intenso que tive de cerrar fortemente os dentes para os impedir de bater. Toquei na face de Gibarian; era como tocar num bloco de madeira petrificada, eriçada de pêlos negros e hirsutos.
A curva dos lábios parecia exprimir uma paciência infinita e plena de desdém.
Quando ia deixar cair a lona, notei, por entre as dobras junto aos pés, cinco objetos redondos e reluzentes, como pérolas negras, arrumadas por ordem de tamanho.

Fiquei rígido de horror.

O que eu vira eram as cabeças dos cinco dedos de um pé descalço.
Sob a mortalha, comprimida contra o corpo de Gibarian, jazia a negra.

Lentamente, puxei a lona para trás. A sua cabeça, o cabelo encarapinhado enrolado em pequenos carrapitos, pousava no recôncavo de um braço maciço. As costas rebrilhavam, a pele muito esticada sobre a coluna vertebral. O gigantesco corpo não dava sinais de vida.

Olhei de novo para as solas dos pés nus; não tinham ficado achatados ou de qualquer modo deformados, apesar do peso que tinham de suportar. O andar não lhes calejara a pele, que era tão perfeita como a dos ombros.
Com um esforço muito superior ao que precisara para tocar no cadáver de Gibarian, forcei-me a tocar num dos pés descalços. Então, fiz uma segunda descoberta espantosa: este corpo, abandonado num congelador, este cadáver aparente, vivia e mexia-se.
A mulher puxara o pé para trás, tal como um cão a dormir quando se tenta agarrar-lhe na pata.

“Ela vai congelar”, pensei confusamente, mas a sua pele estava quente ao tato e até me pareceu sentir o bater regular do pulso.
Recuei e fugi.

Quando emergi da caverna branca, o calor parecia sufocante.
Subi a escada em espiral, de volta à zona de aterragem.
Sentei-me sobre um pára-quedas enrolado e pus a cabeça entre as mãos.

Estava apavorado. Os meus pensamentos corriam desenfreados.

O que estava acontecendo? Se estava pendendo a razão, quanto mais depressa perdesse a consciência, melhor. A idéia de uma súbita extinção despertou em mim uma esperança inexprimível e pouco realista.

Era inútil procurar Snow ou Sartorius: ninguém poderia compreender inteiramente o que eu acabara de viver, o que vira, o que tocara com as minhas próprias mãos.
Havia uma única explicação possível, uma única conclusão: loucura.
Sim, era isso mesmo, eu enlouquecera mal aqui chegara.
O meu cérebro fora atacado por emanações do oceano, e as alucinações sucediam-se, uma após outra. Em vez de me cansar a tentar resolver estes enigmas ilusórios, o melhor que tinha a fazer era pedir auxílio médico, mandar um radiograma para o Prometheus ou qualquer outra nave, lançar um S.O.S.
Então, deu-se em mim uma curiosa mudança: perante a idéia de que enlouquecera, acalmei.
E contudo... ouvira as palavras de Snow com absoluta clareza.
Se, claro, era certo que Snow existia e que eu tivesse falado com ele.
As alucinações podiam ter começado muito antes.
Talvez estivesse ainda a bordo do Prometheus; talvez tivesse sido atacado por uma doença mental súbita e estivesse agora a confrontar as criações do meu próprio espírito doente.

Partindo do principio de que estava doente, tinha todas as razões para acreditar que iria melhorar, e isso deu-me alguma esperança, irreconciliável com a crença na realidade dos confusos pesadelos que acabara de viver.

Se ao menos conseguisse lembrar-me de qualquer experiência lógica — uma experiência-chave — que me revelasse se tinha realmente enlouquecido e era a presa indefesa das criações da minha imaginação, ou se, apesar de toda a sua inverosimilhança, eu vivera acontecimento reais.
Enquanto revolvia tudo isto na mente, olhava para o carrinho que conduzia à base de lançamento. Era uma viga de aço, pintada de verde-claro, que corria um metro acima do chão. Aqui e ali a pintura estava esfolada, gasta pela fricção das carretas dos foguetes. Toquei no aço, sentindo-o aquecer sob a mão, e bati no metal com os nós dos dedos.
A loucura poderia atingir um tal grau de realidade? Sim, respondi a mim próprio.
Afinal de contas, era a minha própria especialidade, sabia bem do que estava a falar.
Mas, seria possível criar uma experiência controlada?
A princípio disse para comigo que não, pois o meu cérebro doente (se estava realmente doente) criaria as ilusões que eu lhe exigisse. Mesmo a sonhar, quando estamos de perfeita saúde, falamos com estranhos, fazemos-lhes perguntas e ouvimos as suas respostas. E mais ainda, embora os nossos interlocutores sejam na realidade criações da nossa própria atividade psíquica, desenvolvidos por um processo pseudo- -independente, até nos falarem, nunca sabemos quais as palavras que irão sair da sua boca. E, contudo, essas palavras foram formuladas por uma parte separada da nossa própria mente; deveríamos ter delas consciência no preciso momento em que as inventamos para as por na boca de seres imaginários.

Consequentemente, fosse qual fosse a forma do teste que me propunha, e fosse qual fosse o método que empregasse para o pôr em execução, sempre haveria a possibilidade de eu estar a comportar-me exatamente como num sonho.

Se nem Snow nem Sartorius tinham existência real, seria inútil fazer-lhes perguntas.
Pensei em tomar qualquer droga forte, peyot, por exemplo, ou qualquer outro preparado que criasse alucinações vivas. Se lhe seguissem visões, seria uma prova de que eu realmente vivera os acontecimentos recentes e de que estes faziam parte integrante da realidade material que me rodeava.

Porém, não, pensei, não constituiria a prova de que necessitava, pois eu conhecia os efeitos da droga (que eu próprio iria escolher para mim) e a minha imaginação poderia sugerir-me a dupla ilusão de ter tomado a droga e de lhe sentir os efeitos.
Estava a andar em círculos; parecia não haver saída.
Era impossível pensar, a não ser com o próprio cérebro; ninguém podia sair para fora de si mesmo com o fim de verificar o funcionamento da sua atividade íntima.

De súbito, surgiu-me uma idéia, tão simples como eficaz.
Levantei-me de um pulo e corri até à cabina de rádio.
A sala estava deserta. Olhei para o relógio elétrico que havia na parede. Quase quatro horas, a quarta hora da noite artificial da Estação.
Lá fora brilhava o sol vermelho.
Liguei rapidamente o transmissor de longo alcance e, enquanto as válvulas aqueciam, revi na mente as principais fases da experiência.

Não conseguia recordar o sinal de chamada para a estação automática do satélite, mas encontrei-a num cartão suspenso por cima do painel principal do aparelho, emiti-o em morse e recebi o sinal de resposta oito segundos mais tarde. O satélite, ou antes, o seu cérebro eletrônico, identificava-se por meio de um pulsar rítmico.
Dei instruções ao satélite para me dar os valores dos meridianos galácticos que ia atravessando com intervalos de 22 segundos enquanto girava em órbita em redor de Solaris e exigi a resposta especificada até cinco casas decimais.
Depois sentei-me e esperei pela resposta.

Dez minutos mais tarde, esta chegou. Arranquei a tira de papel acabada de imprimir e escondi-a numa gaveta, tendo o cuidado de não olhar para ela.
Dirigi-me à estante e tirei os grandes mapas galácticos, as tábuas de logaritmos, um calendário com o percurso diário do satélite e vários outros livros.
Depois sentei-me para descobrir pessoalmente a resposta à pergunta que fizera.
Durante uma hora, ou mais, integrei as equações.
Há muito tempo que me não dedicava a cálculos tão elaborados. O último grande esforço que fizera nesse campo devia ter sido no meu exame prático de astronomia.
Trabalhei o problema com a ajuda do computador gigante da Estação.

O meu raciocínio era o seguinte: fazendo os meus cálculos a partir dos mapas galácticos, obteria um valor aproximado para comparar com os resultados fornecidos pelo satélite. Aproximado, porque o percurso do satélite estava sujeito a complexas variações devidas aos efeitos das forças gravitacionais de Solaris e dos seus dois sóis, assim como às variações locais de gravidade provocadas pelo oceano.
Quando tivesse as duas séries de valores, uma fornecida pelo satélite e a outra calculada teoricamente com base nos mapas galácticos, faria os ajustamentos necessários, e os dois grupos teriam de coincidir até à quarta casa decimal, pois só na quinta poderiam surgir discrepâncias motivadas pela imprevisível influência do oceano.

Se os valores obtidos do satélite fossem simplesmente o produto do meu cérebro perturbado, nunca poderiam coincidir com a segunda série. O meu cérebro podia estar avariado, mas era absolutamente incapaz de competir com o computador gigante da Estação e chegar aos cálculos que exigiam o trabalho de vários meses. Portanto, se os valores correspondessem, seguia-se que o computador da Estação existia realmente, que eu realmente me servira dele e que não estava em estado de delírio.
Minhas mãos tremiam enquanto tirava a fita do telégrafo da gaveta e a colocava junto à larga folha de papel saída do computador.

Como previra, as duas séries de valores correspondiam até à quarta casa decimal.
Arrumei todos os papéis na gaveta. O computador existia, independentemente de mim; isso significava que a Estação e os seus habitantes existiam realmente também.
Quando ia a fechar a gaveta, notei que estava repleta de folhas de papel cobertas de somas apressadamente escrevinhadas. Um simples olhar contou-me que alguém tentara já uma experiência semelhante à minha, mas perguntara ao satélite, não informações a respeito dos meridianos galácticos, mas sim as medidas do albedo de Solaris, a intervalos de quarenta segundos.

Eu não estava louco.
O último raio de esperança desapareceu.

Desliguei o transmissor, bebi o resto da sopa que havia na garrafa-térmica e fui para a cama.


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